segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A Musa Que Me Inspira

A musa que me inspira é as estrelas do caminho, 
Os amores por ele plantado, os instantes, os bocados,
Até as ruelas e vielas escurecidas por onde vou sozinho, 
As lembranças tornadas memórias em rascunhos traçados,

A musa que me inspira é serena e educada, afável e inocente, 
Gosta do sol e luares redondos, confidencia-se à sua vontade
E não é minha prisioneira logo tanto vai como vem de repente,
Ela é imperativa, é urgente e precisa de amostrar a sua verdade,

A musa que me inspira tem lábios redondos e um abraço profundo, 
Ela é a Vida e Morte à altura do céu e à queda no precipício fundo,
Traz-me saudades do que está por vir e ansejos do que é passado, 

A musa que me inspira é esbelta como o belo jamais foi retratado,
Ela é liberdade, a mão aberta e o abraço para o horizonte alcançar, 
Ela ensina-me o simples, o detalhe do incerto mas principalmente... o nunca deixar de tentar.

domingo, 27 de setembro de 2020

O Propagar De Asas De Um Passarinho Moribundo

Ondas na lagoa são marés atrás de marés revistas
O trecho inacabado de um voto numa colher restado
Por lembranças que se vertem por valetas com vistas
Na imprevisibilidade de um papel no lixo amarrotado,

Para o precipício exsudado por cada olhar, cada passo, 
Onde passo e repasso a canção de Ícaro ao esvoaçar
Próximo do Sol, próximo da perdição, sem compasso,
Sem traço no lápis, sem tinta no pincel por cada traçar

Caíamos dentro do eviterno quando o pássaro me morria
Nas mãos, demasiado fraco para voejar e no céu propagar, 
“Mãe, ajuda-me a viver!” – seus clamores quase em euforia

Na minha cabeça ainda habitam caindo dentro deste ouvido, 
“Oh meu amor, oh meus queridos”, esquecemos o que é amar
E longe de casa suspiramos tão próximos do seu coração ferido.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Um Cais Para Amar

Por vezes faz-se do clarão da fenda, a tristeza, 
Em círculos percorrendo o que a vista alcança, 
Das sombras o vínculo com a bruma, a incerteza
Que com o Inverno e Outuno vai, fica e até dança,

Da abóbada celeste, uma caçadora já com ideias pautadas
Por braços de silêncio onde dois corpos longe se estendem, 
Quando existe uma vida atrás através de experiências contadas,
Do prefácio houve ruído e o alarido então que no epitáfio se findem

As vozes dos poemas de outrora, das letras de cada voz ou canção, 
Porque já passou tempo para olhar e ver, passou para pedir perdão, 
E eu não perdoo, pois, o passarinho apartado voou e caiu da sua cama, 

E tal peso morto, como buraco no solo, quase que esqueceu quem ama,
É a doença dos amadores armados em trovadores do fim do mundo
Quando na verdade, só querem um cais que não seja muito fundo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Desde Que a Música Do Caminho Persista - Há Caminho

Sim, deste alpendre ao luar escrevo debaixo do sol,
Só eu sei as noites inacabadas e os dias por findar, 
De um lugar isolado onde vem o embuste e o anzol,
A casa onde esta erva daninha se acaba por alastrar,

O sonho era encaminhado de mão em mão rumo à voz
Da criança que fui a brincar na alma, sem reféns ceder,
Compus o aceno num instante dedicado ao fluir da foz, 
E fui arrepiando caminho sem o vero ideal comprometer,
 
Que era uma canção feita de linhas tecidas de ano a ano,
Divinas, eternas, imaculadas pela sombra que é o humano,
As formas distantes e duvidosas por onde nem sei por onde

Quando não sei sequer o que a curvatura da estrada esconde,
Portanto peço beijos quando os há, ou o abraço quando existe,
Evitando os buracos das ruelas e continuo, pois, a música persiste.

sábado, 19 de setembro de 2020

A Orfandade Desta Procura

Os meninos órfãos vivem três andares acima de deus,
De corpos aéreos, dançando no tecto de mil promessas,
Onde cada pai e mãe foi despedida sem um único adeus,
Enviando cartas postais sem entregas ou sequer remessas,

O tocar do telefone, rodopiando em punhos de anos e anos,
Onde os sonhos são perdidos pelo hediondo som da cidade,
Onde a inocência é estuprada por anseios e desejos levianos,
Vão eles crescendo antes do seu tempo ao acrescentar da idade,

Quem nunca foi uma dessas crianças das ruas e vielas perdidas?
Quando a verdade é que ostentamos círculos para nenhum lugar
Pois desviamo-nos do caminho para casa e as roupas vestidas

São simpatia de estranhos onde a inocência é difícil de encontrar,
Quando não há partida nem chegada, apenas lágrimas contidas,
Se esse sítio nunca dorme será que ninguém consegue sonhar?

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

O Caminho É Longo Até Encontrar O Lar

Acredito que há um subtil abraço que ao Inteiro é envolvência,
Num instante simples e fecundo, tal o respirar de uma criança,
Porque para o alpinista a sua montanha é inescapável, persistência!
Pois há sempre caminho a andar quando de nós para nós há distância,

Aqui dentro a vigília mais forte que a sorte, mais forte que o tempo,
A esperança de que o primeiro passo seja tão forte como o último,
Porque há ecos deixados na maré por cada gesto articulado entretempo
Do agora e depois, digo-vos, o coração também é um caminho legítimo,

Sustem-se o fôlego, somos escapes renitentemente fugindo de um embuste,
Que é passagem de dia e noite, percorrendo as colinas de um sonhar belo,
De quem vagueou além-horizonte, quando este ideal é inabalável e encruste,

Sim há momentos em que tenho saudades de um algures apelidado de lar,
Pois todos ansiamos pelo mesmo, todos desejamos aquele toque singelo,
Logo o destino é continuar o trilho e o caminho enquanto não encontramos lugar.

Todo O Sonho É Reciclável

É ao sonho amarrotado e deitado ao lixo de uma aurora, 
Tu que raramente viste a luzência do olhar de uma criança, 
Foste quem foi a sua própria ausência até ao beijo d'outrora,
Onde esvoaçaste para longe pois o vento colocou-te  uma aliança,

Eram tantos panfletos de autores sem apelido, almas sem lugar
Para poisar e sequer brotar para o Oceano, no eterno suspiro, 
Daqueles momentos em que a escolha foi-se ausentar
Numa ode ao ansiado, do alto da altura - eu inspiro e expiro

Sob os estranhos ao espelho, perante a imperdoável estrada,
Quando batem à porta do agora, ergue-se a oportunidade,
É preciso acordar, despachar a brisa pelos lábios soletrada, 

Pois hoje é tudo ou nada, estou pronto para no riacho escorrer,
Seja viver ou morrer, este é o perene circulo e sua sinceridade,
Não distingue nada nem ninguém por isso há que o deixar correr.



A Crença Jaz Na Aceitação Do Que É Como É

 As palavras são feixe de luz, as brasas na escuridão, 
Ponte para os viajantes, espelho para as centelhas,
Que fustigam as veias oculares em troca da visão,
Caindo silenciosamente no requebrar das telhas

De um telhado atravessado por correrias de criança,
Trazendo o sonho na pálpebra do olhar, mão abertas
E esticadas para uma abobada celeste que alcança
Os quatro ventos baptizados pelas ruelas incertas, 

Até erguermos o sonho à primavera do apartado berço, 
Todos já perdemos irmãos nesta guerra, vem o sono
Imploramos por paz, o inebriar dos sentidos que alicerço, 

As fundações para o céu, a parte de mim que é pertença
E a parte de mim que não sou eu, que é morte e outono,
Quando na verdade, o aceitar de ambos sobe e enleva a crença.


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Cada Momento Tão Suave Como Despedidas Sobre O Caixão

Sinto a impaciência de uma outra noite sem dormir,
Passando entre os dedos numa fragrância de flores,
O amanhã vem e a manhã vai entre a chegada e o ir,
E o luar banhando os contornos de um rosto cujas cores

Eram lembrança e esquecimento, eram multidão de telas,
E eu acorrentado por um momento do outrora já passado,
O refém por si infligido pela imensidão que havia nelas,
Com a mente focada, pelo do que já passou ainda amarrado,

Castelos majestosos construídos no ar e de areia perto do mar,
Quando basta o bastar, cada cordel da criação erige o divino,
Tão gentil e terno como as mãos de um curandeiro a sublimar

As promessas de Deus, tão suave como despedidas sobre o caixão,
Então exaltando oxigénio por onde vem a busca e o sonho do peregrino,
Ou como estrofes do trovador porém sem tempo para o debate do coração.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

A Margem Afastada Para os Deuses

A única coisa que realmente recordo é a margem afastada,
Atingida por trovões e relâmpagos pelo nocturno acercado,
Ouço a aragem, sinto a procela cobrindo a ponte distanciada,
Hoje é tudo ou é nada, este é o momento há tanto esperado,

Encontrando resguardo na intempérie, serei eterno aprendiz,
Aquele que no olho do torvelinho edifica a sua residência,
Pois à minha ausência estarei sozinho no silêncio que maldiz
As faces que trago no rosto, os anéis que perdi em veemência

Ao não poder ser, ao não poder levar um pouco desses caminhos,
Onde encontrados foram uma Vida inteira de pincéis e de telas,
Por isso caminhei e neles desfiz Deuses grandes e pequeninos,

Eles - Deuses de olhos de oceano e pele encoberta por areia dourada,
Eu - O irmão das nebulosas e das filhas por apenas acreditar nelas,
Assim se dá a viagem entre constelações na viagem impensada.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Retratos no Agora

Retratos são as lembranças num instante captadas,
Passagens para a faísca de um momento passado,
Que, agora eternizado, mostra as rugas abraçadas
De um dia que não as havia, um tempo acossado

E perseguido pelo vento, as cicatrizes e diademas
Deixadas, as esquinas esquivas do outrora já ido,
Que adornam o agora em fartas estórias e poemas
Numa ampulheta que se escapa num espaço contido

Por ferrugem na pele e ossos lentamente em vapor,
E as amantes esquecidas na berma de uma estrada
Subentendidas, mal-entendidas, de olhar provocador

Que em espinhos inconstantes confortam a chegada
Trazendo um pouco do que já foi, a alegria de uma dor,
Que é a imagem de um retrato à luz de uma encruzilhada.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

A Queda de Um Anjo

E quantas eras passaram ao olhar atento da ampulheta?
Fomos deixados ao esmo do relento de asas rasgadas,
A custo, erguemo-nos tal fantasmas esquecidos da sarjeta.
De auréola removida ou então perdida, porventura arrancada,

Pois eu sou um caminho, eu sou o mapa para o meu Ser,
Na ausência de Deus, na ausência de escravo ou mestre,
Não haverá barragens que possam algum dia me reter,
Para o paraíso não haverá maior provocação ou desastre,

Daqui para o infinito, Pai que renuncias o teu filho,
A Guerra do Céu iniciada por teu gesto, sê honesto,
Empurraste escadas das nuvens porém esse é o trilho,

Eu sou a queda do anjo, a cratera à qual chamei de casa,
Destronar-vos-ei daí pois a vossa patriarquia contesto,
De tudo farei para trazer paz e restituir a quebrada asa.


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Somos Poucos Desta Raça Pt. III

A criança do Elísio sussurrada dentre corredores vazios,
Calor transposto, o mundo habita bem longe destes versos,
Perdido pelas correntes do pensamento, guardando búzios,
Sem alcançar o fim, a ideia de mim desfaz-se em Universos

Do qual eu sou parte e Ele é parte de mim, e vem consciência
De coexistência, de saber do plural é também uno, o murmúrio
De Deus por cada estrofe partilhada, sem plano de contingência,
Vim ao Ser muito antes de ser, este é o trilho sem qualquer perjúrio,

No eu - as sombras do passado, os almejos do futuro, o potencial
Para sermos melhores que os nossos tetra-avós, essa é a escritura
Sem papel, pois todos estes anos eu cresci e fui sendo exponencial,

Sempre o mesmo, sempre mudando, é a bênção e o fardo, a abertura
Da porta para a habitação dos deuses, largando tudo menos o essencial,
Pois somos crianças vagueando os prados soalheiros da mais alta altura.

Somos Poucos Desta Raça Pt. II

Sim, somos poucos desta raça, luzentes e voadores,
Crianças de coração inocente, olhar como escadaria
Para o paraíso, o sonho despertado dos bastidores
Vejo os beijos passados e ainda por vir da calmaria,

Hoje está vivo, esperando a palavra, o abracadabra,
O sinal para despertar sua casta, este hoje não basta!
Essa palavra entre as linhas onde o poema descalabra,
Não temeis, sou eu quem vos traz a estrofe não gasta,

A porta entreaberta somente aguarda ligeiro empurrão,
Para a empurrar é preciso não temer onde ela vai dar,
Porém é preciso empurrá-la com jeito, com o coração,

Caminhem lado a lado comigo, aproxima-se a romaria
Para os solitários, tristes e os perdidos, é tempo de amar,
E amar é partilhar o bom e o mau, parabéns, avé-maria!


Somos Poucos Desta Raça

"Venham finalmente esses palhaços, freiras e mendigos,
É preciso diversão" - gritam os bêbedos do seu alpendre,
Com toda esta moção esquece-se o poema e seus jazigos,
Frio, vazio e silente, as rugas afloradas no olhar depende

Da miragem que é o passado, da relatividade desse ver,
Pois na rua somos todos transeuntes, poucos o viandante,
E passa mais um instante sem palavras para o descrever,
E é o viver ou morrer, sem cinzento, o horizonte distante,

E as valas comuns de amantes, empoleiradas do mausoléu
Que desconhece as horas passageiras, o brilho da alvorada
Pois a noite sussurra o meu nome mas o dia também sou eu, 

E há dias em que não há estrada, esta termina então inacabada,
Por isso abro e partilho o coração, sei que nada é mesmo meu
Pois os segundos que sorriem são aproveitados à face da abóbada.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O Gesto do Usurpador do Sol e da Lua

Assim trago nos pulsos um punhado de diamantes,
Confetes e grinaldas atiradas aos pés do viajante,
Sim, somos as cigarras humanas, os itinerantes,
As estações que eram sal nas lágrimas, o distante,

E essa distância é a altura entre o aqui e o precipício
Encoberto em armários e prateleiras repletas de poeira,
Os olhos vão fechando, sou uma presa, tenham respício
Do quanto já fui, do quanto serei no torvelinho da canseira,

Endireitar as costas e caminhar vertical é algo de trovador,
É algo que bate no peito, que abraça o trejeito, que é maior
Do que as pálpebras conseguem ocultar, o gesto do usurpador

Que exonera e extrai a luz do sol, que furta da lua a sua claridade,
O candeeiro é suficiente para mais uma noite, aqui o excelsior!
Reclamando o amor de todos os amantes de todo o tempo e idade.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O Bêbedo e o Poeta

És tu o bêbedo e pedinte dos sonhos penhorados,
De corpo deambulado, serves para varrer as vielas,
Passas por mim e nem me vês, sou rostos inacabados,
E tu esgueirando à esquina, nasceste para morrer nelas,

És tu o pobre sem-abrigo das longas vidas procrastinadas,
De face gasta e rugas densas, atendes o meu falecimento,
Sem rendimento, sem vontade de viver as horas inacabadas
Onde foste perdição do ego, vício e falta de discernimento,

Todo o dia é outro dia regido por Baco e a sua sofreguidão,
Bebendo a garrafa até o meu reflexo por fim desaparecer,
Afastado o retiro, próximo do seguinte copo mera distracção

Para a ausência de ser gente, a negligente troca por morte,
Felizmente são apenas mais uns meses até enfim morrer,
Por fim bastam migalhas no chão à inexistência de sorte.


quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Com Nome Mas Sem Apelido

Vou e desloco-me para o amanhã à luz desta idade,
Perante este olhar o Universo vai indo devagar,
Vagueando no divã protegido desta dualidade
Que quer mais, que não pretende, mas quer respirar

Forte e alto, para todos ouvirem, a imensa vontade,
A alvorada quebra as janelas azuis, este vago ver
Que almeja sonhar alto e trazer a divina infinitude
De paletes de cores da mais longínqua estrela, reter

Essa altura na sua e então saltar para o esquecimento,
Pois após tê-lo, é preciso largar cada uno momento
Ao acaso, ao coincidente, à solvência do casual,

O que pretendo está longe do humano, é o imortal,
Por isso largo esta pele e nomeio-me de constelação,
É o pedaço de mim que perdurará para além desta estação.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Dois Afluentes Do Mesmo Rio

Campos de flores, fogo eléctrico no peito crepitando,
Agora ele está vivo, há espaço e lugar para ser e viver,
Só precisa de ar e luz, o resto basta ou vai bastando,
Ele só precisa de respirar até um dia por fim perecer,

Bolhas de sabão e porque não? Sempre aliviam a mazela,
Agora ele sonha, há lábios para por fim beijar,
Só precisa de água e terra, e um pouco dela
Para poder dar asas ao abraço que termina no mar,

Pois ele e ela são afluentes de um tempo dignificado
Por divindades, ninfas e náiades, por um bocado
Ambos se encontram na foz - a voz para a eternidade,

Acabam-se os incompletos, os tristes, morre a saudade,
Soubesses das vidas que vivi até aqui enfim chegar
Então não saberias outro verbo para além do verbo amar.

Lá Vai O Maluco... Lá Vai O...

Quando chuva escorre através de ossos quebrados, 
A mesma voz, indo mais devagar, sopra o vento, 
De garganta então rasgada e olhos fracturados, 
Ouço enfim os sentidos esvaecer, o eu desatento, 

Os pontos alfim ligam-se apesar do latente cansaço, 
Doentes e fatigadas as palavras outrora deixadas, 
Mil e uma vozes a vociferar por lugar, por espaço, 
Quando estou doente em pousios por luas alcançadas,

Mudando, continuo igual, os Outros regem esta cabeça,
Não interessa, são só devaneios de quem cá não está, 
Um dia hei-de epilogar a epitome deste puzzle, peça a peça, 

Que então enalteça, a loucura do homem são, a persuasão
Para a luz, para a escuridão, a dor e porcaria da podridão, 
Mãe! Sou somente eu aqui, sou somente eu por cá oxalá!

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Amar Simplesmente Não É Para Amantes

Alheio ao passageiro, a quem para trás poderá ter ficado, 
Não vemos caras nem devaneios, não custa esperar, 
Pois acreditamos no fantástico, no trilho inacabado, 
Apesar de nunca ter ouvido dizer que era fácil amar, 

O amor não é para os amantes, é para os monólogos
De quem procura e suspira com os luares perdidos, 
Amigos, até já me esqueci desses suaves diálogos, 
Que surdem dos suaves toques de murmúrios rendidos

À luz de estrelas há muito explodidas em ovação, 
É o detalhe do fantasma de ontem, crepitando, 
É sinónimo para quem quase esqueceu o dar a mão, 

E que por extensão, apregoa o silêncio derramando
Silabas em vasos urdidos ao palpitar de um coração
Autuando seu pulsar, não vá ele buscar, o que vem ansiando.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Quando Regressares Amanhã Terás Flores Plantadas Por Ti No Teu Jardim

Quando a calmaria é o passar através da tempestade,
Por vezes a ampulheta não é medição para o agora,
Vejo os meus irmãos com corações cortados em metade
Pois quem passa deixa cortes e leva-os para o frio lá fora,

Que, apenas num momento, parece toda uma eternidade,
Pois apesar da consanguinidade para sermos no esvaecer
Até ao tremor das estrelas está esta única vera verdade
Sem distinção ao toque pois ou é a vida ou o morrer,

Esta é a canção das sirenes e envolvimento nos sentidos,
É o post-mortem e o pré-natalício, a mãe e o infanticida,
Já tivemos tantos rostos, tantas rugas e tantos apelidos,

Vós sabeis quem e de quem, adorna-vos o canto do olhar,
Este é pois o raio de Zeus no trilho, do aceno à despedida
Onde seguir-vos-ei por séculos de riqueza por tudo partilhar.




quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Quando Se Almeja Ver Apenas Pelo Coração

É a velha ampulheta que nos apanha eventualmente,
No ventríloquo esquerdo o lerdo acumular das areias,
Sou um sonho cadente, o voltar de trás para a frente,
Que nele partilha todas as cores, sejam bonitas ou feias,

E se ele não voltar, serei o desconhecido de novo a reinar,
Agora vai, vai, mesmo que ele não volte, o eterno beijo,
Silenciosamente a clamar os instantes em que perdi o ar
Quando eles eram apenas enseada para o anseio, o desejo,

E se ele não voltar, serei um invólucro vazio para a vida,
Enfermo e doente, o sonho a cair sem espaço para ser,
Este buquê a desfolhada e neste momento a única saída

Para os números que contam para zero, a pendente questão
Sabe que não quero ir sem concretizar, sem conseguir ver,
Pois saibam que quebrarei o padrão, verei só pelo coração!

domingo, 2 de agosto de 2020

O Meu Avô Um Dia Disse

Que um dia saberás o valor da vida, vê-la-às perdida
Quando dos teus olhos sangue eventualmente escorrer,
Verás então o quanto ela é madrasta, que nada lhe basta
Enquanto quiseres e não conseguires mais ir, ver e correr,

Que um dia verás que nem todos sonhamos igual e que mais,
Que há igualdade nessa diferença, que ela é a maior pertença
Pois quando apenas vazios suspiros se aproximarem abismais
Que por fim olhes e vejas que podes ter a cura para a doença, 

E quando o coração quebrar e não conseguires mais aguentar
Lembra de que há beleza no chorar e para tudo há um tempo,
Que só atinge realmente quem ousou um dia passado sonhar,

Que um dia a morte virá, e isso é certo e perfeitamente natural,
Não natural é esperar a sua vinda, ficando enfermo e sem alento,
Há que aproveitar o que de bom vem, só isso a ser é enfim especial.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Das Cicatrizes Nas Costas ao Diadema

No palco da Vida esta lúgubre viela é actriz,
Aguarela dispersa no espaço de uma pintura,
Flagrante, no instante o diadema e a cicatriz, 
Desconhecendo o quanto ela termina ou dura, 

De cabeça encostada no resto de uma cadente, 
Amanhã já é tarde para estes cavalos selvagens,
Então não sou só eu, sou eu e vós minha gente 
Alçando escadas para o céu em únicas imagens,

Imagem feita daquilo que não consigo passar sem,
Repleta de momentos, sedes, fomes, e até jejuns, 
Vozes de ilhas, de pores do sol, sou vosso refém,

Posso morrer de sede no mar, de fome no deserto
Não suplicarei por alimentos a homens nenhuns,
Toquem-me, esta estrela cadente sou eu, liberto.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

É Preciso Permitir Ser

É… quando o sol se puser, eu serei o próprio pôr,
Tenho fragmentos para ser livre, para livre ser,
Não preciso de mais do que tenho, apenas cor
Do relvado, do céu e do belo horizonte para ver,

Eu sou um homem simples, de muito não preciso,
O anseio vem com o sorriso matinal dum sonho,
Descanso, pois de mim próprio tenho sobreaviso
Que o resto destas serenatas que no beijo ponho

São fonte para o vislumbrar e o deixar ir também,
É o único tempo benquisto, pois hoje estou vivo!
Hoje sinto cada dia e cada noite, estou bem, bem,

E enquanto vir, eu sei, só preciso do respirar e amar,
O resto que por acréscimo vier será no impulsivo
Campo do não saber o que virá, é preciso almejar!

domingo, 26 de julho de 2020

O Poeta Pensa Em Todos Os Comboios Em Que As Suas Donzelas Foram Passageiros

Queima o frenesim do buquê outrora fracturado
Por favor não vás, quebra o padrão, dá-me a mão,
Pois outras passam e não ficam, estou extenuado,
Daquilo que não fica, que parece o ciclo da estação

De comboio, passando a alameda de uma vida,
Oh querida, soubesses os comboios destes carris,
Talvez então fosses apenas chegada e jamais partida,
Trago vossa passagem na contenção desta brilhante iris,

Estes pulmões repletos de fumaça, o óxido de sulfato,
De facto, não é suficiente para a minha horizontalidade,
E em boa, boa verdade de tantas vidas já estou putrefacto,

Escondido atrás de um sorriso, atrás de um outro semblante,
Quando não obstante, penso em quem de mim morreu barato,
Quase gratuitamente, por quem nem sequer era gente, era instante.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

... E Entretanto?

Leve, puro e inocente, eu era então o crente
Para perder a crença e a inocência, coragem!
É a ousadia que merece o mundo de repente, 
De trás à frente, o sopro do Universo na aragem

Que nos imbui, um sonho numa nuvem ancorado,
Que seja permitido um bocado, leve, e eu alinhado
Para lá do sono, trilhando dentre briosas nebulosas,
Imensas e fabulosas, terei meu momento de prosas,

Condigno, encarando a manhã, e o seu rosto o espelho,
Reaparecendo num semblante não o meu, seria poesia
Isto que incendeia e sossega a alma, de joelho a joelho?

É ambares recolhidos e sustidos pela passagem da maresia,
Esta Vida é passadiço para uma criança se tornar no velho,
E entretanto?... Entretanto temos o oceano, o céu e a magia!

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Eu - A Cura e a Doença

Sim, sim sou eu, sou o Doutor e o paciente, 
Eu sou a parte da cura e o bocado da doença, 
Outorgante do comité do Sr. ministro e o utente, 
Preciso de algo para me deixar ir, a droga, a crença,

A paranóia é a vidraça quebrada de quem não sabe olhar, 
Quando não basta bastar, quando falta poesia no tocar, 
Fica a máquina parecendo humana, a ausência de poesia, 
Não confere porto de abrigo, lugar de passagem, magia, 

É a carência por algo impossível de algum dia alcançar, 
É a querença por um pouco mais, envolvido na pulsação, 
Pois esta vontade é de facto o querer ir mais longe, o ir buscar

O espaço perdido entre o caminho, a parte que me deixa sozinho, 
A fagulha esquecida pelo Homem que sustentava o seu coração, 
Por isso a procuro, sustenho e a partilho com quem é aqui vizinho.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Quando Amar É Proibido Pt. II

Sente-se nos ossos quando amar é proibido,
É um frio miudinho num invólucro de geada,
Que relembra da lancinante dor, rua sem sentido, 
Sendo o resto uma voz suave às estrelas suspirada, 

Quantas vezes ladeada pela Lua, respirando o instante, 
Com memórias murmuradas por momentos já passados,
A sua sombra torna-se cicatriz e o sentir, enfim, reluctante
Não obstante do sentimento, a crença, o Sol sempre acossado,

"Lembra-me um sonho lindo", por este rio acima, à enseada, 
Diz o vento à tempestade, a ausência do perfume da sua mão, 
Esperançava pelo seu regressar de volta a mim, minha amada,

Esta esperança mais forte que o tempo, mais forte que a morte,
De que há coisas incontornáveis, do plano divino do coração 
Que tudo sabe e conhece menos qual é o Sul e qual é o Norte.