quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Entre as Margens da Pertença

Dedos de outros apontam de velhas janelas,
As sombras caem diante dos nossos próprios pés,
Sim, há portos dos quais devemos içar as velas,
Pois naufrágios acontecem ao nadar a rés,

De todas as coisas que não sei, és a mais bela,
Este frio na garganta, este pulsar no coração,
O erguer para o horizonte da mais alta estrela,
Pois o Verão sempre vem após a eterna monção,

Porque este é o dia que nunca regressará,
Má sorte, vida e morte, coisas da escola,
Este é o tempo daquele que versejará

Entre as margens da pertença, sou inteiro,
Retendo a sentença, guardando-a em sacola,
E ir indo e revindo neste perene passo forasteiro.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Um Bocadinho para o Inteiro

Vamos ao ritmo de um suspiro, o suficiente somente
Para continuar a respirar, o suficiente para caminhar,
Pois o que nos carcome por dentro é, infelizmente,
Uma Vida por metade, um não conseguir esvoaçar,

Apertem-me o nó na garganta, estas formas são estranhas,
Sou Rei de dezembro, a passagem de um quase vivo confuso,
São os cinco dias que nos refazem os órgãos das entranhas,
Continuamos pálidos e recolhidos venha o céu aqui recluso,

Pois revivo a fagulha de uma alma no horizonte cravada,
Sitiados pela vileza do Tempo, e a sua voz cantarolando,
Onde nos perdemos sempre, afinal essa é a final estocada,

Pois falta-nos sempre um bocadinho para o Inteiro,
Tal criança com sua bola de algodão brincando,
Vamos então indo, sem mapa, trilho ou roteiro.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

A Queda do Último Romântico

As promessas quebradas no pulsar de um coração,
Margens separadas e a queda do último romântico,
Canto-vos, de voz bifurcada, o canto da não definição,
É mãe afogando sua prole na profundidade do Atlântico,

Pois exigimos do Amor a eternidade de um sentimento,
Não aquele mero instante, tão brevemente tido no dissabor,
O rascunho do perpétuo em vestidos brancos, o lamento,
É que num romance como aquele tinha encontrado o amor!

Para além da sombra do silêncio, sonhando então acordados,
Por isso me deixo ir, desapego-me à pedra que me afunda,
É que num romance como aquele tinha encontrado o amor!

E que tal? É tão, tão difícil nos darmos como enfim encontrados,
Pois procuramos lugar, lar, casa, mesmo na respiração vagabunda,
É que num romance como aquele tinha por fim encontrado o amor!