segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O Que Já Passou Pertence ao Tempo

De bolsos preenchidos com bocados de promessas,
Esperamos, na procura, por encontrar o nosso lugar,
Partindo e indo mesmo quando este passo resfolgar,
Pois, no tabuleiro do maior, somos ainda as suas peças,

É o suficiente para se maravilhar, para tolher a turva maré,
Quando não o é, pois envelhecemos aos cinzentos bocados,
A esta preciosa Vida, deixo para trás as pegadas que fiz a pé,
Fechando os olhos e acreditando no caminho de mil estados,

Porque as lágrimas caem e oceanos erguem-se: é o normal,
E este cansaço faz parte da condição difícil de em si se definir,
É a síndrome do fantasma dos cinco dias, face ao tido como mortal,

Pois sim, falo do final, do momento em que nos passa a Vida
Entre os olhos, bardo, infindo no finito, no que há de vir,
O que já passou pertence ao Sr. Tempo, disso não há dúvida.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A Criação É Bela?

A Lua da colheita tem ceifado as já plantadas sementes,
Entre cataratas frias, tenho visto aqueles olhos sedentos,
A queda de água fria num corpo nu, o ranger de dentes,
E, nas mãos, facas de noites retorcidas aos quatro ventos,

E, entretanto, esquecemo-nos dos nomes que eram apelidos,
Baixando a cabeça num andar moroso, tão repleto de morte,
Aprendemos a permitir ser subtraídos pela criação dos idos,
Alas, é mais um dia sem nuvens, sem sol, sem qualquer sorte,

E tenho saudades dessas, umas vezes berço, outras sepultura,
Um mar de sono passando um véu sobre um olhar cansado,
Foram séculos de derrota, bebi da doença que era semicurа,

Num quarto vi uma vela volitiva, e noutro, uma nova grinalda,
De olhos arrancados, respirei através do prometido, do dado,
E aprendi que água que bate tanto, tanto esfria como escalda.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A Última Resistência - Os Sonhadores

A manhã escrita à mão traz sussurros do passado,
Esperando a sua palma junto da minha no caminho,
Entretanto, almejamos as estrelas e aquele bocado
Entre o horizonte e o zénite, marcado no pergaminho,

Esta é a curvatura entre o ângulo e a perpendicular,
Estou fora da chuva, em momentos que sustento,
Pois o verão está longe de mim, do meu caminhar,
Cada cadente que rasura o céu e deixa um fragmento

Que se assemelha a casa, mesmo por um breve instante,
E trago tanto quanto consigo carregar, assim vou indo,
Passando os portões de mármore, o quarto é minguante,

Então, comprometo-me com esta ideia de impermanência,
Relutante, desafiante, tudo o que vejo é final, porém infindo,
Estamos por cá, os sonhadores, para ser a última resistência.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Somos Eidolons Diurnos

A ampulheta vai ditando o tempo que nos é dado,
E, ao espelho, procuro a identidade do passageiro,
A candeia precipita-se, a bússola torna-se em fado,
E, em essência, o silêncio fica por nosso companheiro,

Nesta garganta a seiva das manhãs ainda não previstas,
Rescaldo de uma bruma interna - que venha a geada,
Há prelúdio para as olvidadas derrotas e para as conquistas,
Através de arcadas feitas de mármore, a vista então enevoada

Será sepulcro para quem passou a Vida tal fantasma diurno,
Vigília sobre o imóvel cadáver de um ontem então protelado,
Eidolons de aventesmas somos nós, num toque frio e soturno,

Pois a impermanência é rainha, e nós os seus meros súbditos,
Entre a aurora e o crepúsculo, dou o início por fim acabado,
Trazendo lágrimas, suor e sangue dos caminhos malditos.