sábado, 29 de janeiro de 2022

Entre o Ver e o Horizonte

A minha voz canta cantigas feitas somente de amor,
Ao clique vagaroso do tempo onde lacrimejando
Vai rascunhando apelidos dentro de bolhas incolor
Tal sonho presenteado em cada trilho alcançando

A Aurora-Boreal, o jardim de Éden, a absolvição e redenção,
Acalma a calma, as flores crescem e o sol brilha intensamente,
É a manhã vindoura, a aventura reconhecida do coração,
Até ser colhida pela noite quase assim de repente,

E esta saudade do que está por vir palpita na alma,
Embalada por quilómetros em perspectiva efectuados,
Somos abreviação de uma estória guardada na palma

De uma mão fugidia dividida entre o horizonte
Pois defronte a sua linha e seus poderes ilimitados
Para um ver que não se encerra por enfim ser a ponte.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

As Coisas Por Trás Do Luar

Divagações entre os lençóis de uma manhã adormecida,
Traições de uma flor que para o sol não se floresce,
Dentre o orvalho há um trilho de uma imagem querida,
Em frente de um amor que frente a si se entristece,

Sussurrando que estas são as coisas por trás do luar,
Bastando um pouco de paciência, de constância,
Assim os vagões encontram os trilhos e em nós há lugar,
Pois de onde vim agora só há o vento e a sua distância,

Estes rostos ornamentos para roupas desgastadas de areia,
Veste o tempo na ruga e cicatriz de céus outrora coloridos,
O nome sempre o mesmo, porém vai mudando a candeia,

A fome de infinito, de mais, estejamos achados ou perdidos,
Satisfeitos pelo universo reluzente habitante nestas veias, 
Perfeitos são os desígnios superiores pela abóboda difundidos.


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Num Momento

Trazendo o Sol, a esperança é a última a morrer, 
Sob a língua que chama, o prefácio debruçado,
Vemos o mundo saindo da orbita, a esmorecer
Num fragmento do inteiro, a porção do bocado, 

Desabafo uma lamúria onde o vento é senhor,
Os caminhos de contracurvas, ai que saudade,
Por onde íamos sem caução, somente com amor,
Só assim encontrava-mos o trilho para a felicidade,

E desta forma podemos acabar com esta tristeza
Independentemente se sozinhos ou acompanhados,
Tal como o Sol nascer amanhã, essa é a única certeza,

E quando chegarmos saibamos dar-nos por partilhados,
Fechando os olhos, nessa escuridão prospera beleza,
Sê-a, indómito e leve, num momento por fim amados!

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Pintando A Paisagem

A viuvez das cores vivas transbordando na palete, 
Ao centro, esquerda e direita, o pincel é dançarino, 
Traçando os berços e urnas em cima do cavalete
Vai extravasando para um único instante e destino,
 
Suas cores, sinais iridescentes duma aragem passada, 
O ponto preciso, sempre esvanecente, sempre presente,
Nascendo de palavras jamais ditas, vem a debandada,
O poema na mão concebendo um turbilhão ascendente,
 
Da tela para a paisagem, assim também sou rascunho,
O Ver é o pincel, a alma a tinta mediante a sua idade, 
E heis a obra-prima de uma vida de linha a gatafunho, 

Entre a terra, o mar e o céu, sem divisas nem bandeiras, 
Vestido com a vestimenta do divino, sem vaidade, 
Só saudade de quando nossas mãos eram companheiras.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Uma Estória Digna De Ser Contada

Preenchido trazendo vento nas palmas das mãos,
Levantem as âncoras, baixem as velas dos mastros,
A carteira vazia, pois, vem cheia a algibeira de bênçãos,
Podendo não ter muito a mostrar, temos histórias e rastros

De quem passou e viu sóis e luares a nascer e a se pôr,
Porque há estórias ainda por viver e a um dia a se contar,
Este céu, abrigo para quem mais que o deseja, é nosso amador
Que sorrindo se lança querendo o eterno um novo dia alcançar,

E ao ecoar, ecoa dentro de uma perpetuidade jamais capturada,
Assim se plenificam os bolsos com belos momentos e instantes,
Cada um deles quase, quase tocado, de mente aberta e alma focada,

Deste ponto adiante de certeza de que nada mais será como dantes,
É que de tanto querer, não pretendemos mais do que quase nada, 
De tanto querer só aspiramos que o sonho surja das noites restantes.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

A Ver Estrelas

Decora-me as pálpebras com briosas estrelas, 
Numa tinta sem corrente, esperando por alguém,
Pois assim, assim de repente sou tal como elas,
Acompanhado bem alto no céu e para lá do além, 

Sem ti, sinto-me perdido, não há sequer libertação, 
A sombra da pluma passageira esvoaçando adiante
Não consegue abraçar o Sol apenas esta inquietação
De ombros encolhidos e palavras inauditas, o amante

Que partiu, rasgado e esfarrapado, num silêncio de afogado,
A casa desabitada, por debaixo dos pés o ranger das folhas, 
Os últimos pingos de chuva arrumadas num dia engavetado, 

Procuramos a sede de toda uma constelação, a imaginação, 
O sonho, a quimera, a chuva caindo enquanto vais e olhas
Para os pássaros cantando que nos acordando vêm e vão.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Os Pregos Assentes

Domingos à noite sou rio a entrar em estuário, 
Foz de uma memória, riacho para um instante, 
Indo de maré para maré donde vem o obituário
Do dia inconcluso, o sono perpétuo e relutante,

Há feridas ainda por abrir, sonhos por adquirir, 
Porém enfrentamos quezílias, a batalha infinda,
O corpo torna-se corrente para o céu encobrir
A terra de nuvens, ansiando uma manhã linda,

A maravilha do olhar de uma criança, desinibido,
Inquirido pelas estrelas, as paredes ruem enfim, 
Traz-me conforto, enfim é o princípio do querido,

E os pregos assentes nas mãos e pés caem por fim, 
Ajuda está a vir! O rio fluindo no até então preterido,
Desafogando as quimeras que vão brotando de mim.

sábado, 4 de dezembro de 2021

Poema da Solidão

Para os poetas, um beijo é quase um desejo,
Um instante no tempo ao vento quase perdido,
Pois o passageiro deixa atrás sombra, almejo,
Somos pluma sem asa num momento já ido,

Carrego-os aos ombros, leves, quase pesados,
O restante é ideia e pedágio, perdão, pecados,
E eu a solidão de meia mão sem outra mão,
O bocado que não ecoa longínquo no coração,

Esperando por bilhete para entrar no comboio,
Ruptura da mente, somos aqui recém-chegados
A um ponto de partida neste trilho tão rastoio

Onde falham as pernas para caminhar, para ser
Pena na boca de pássaro-azul, somos pernoitados
Por um dia que não chega, o horizonte do não ver.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Tal Mariposa

Ninguém repara em nós enquanto passa o mundo,
Os transeuntes deixam-nos num sítio bem escuro,
E eu cheio de escarro, pus e sangue tal vagabundo
Em torno de uma luz rodopio, o Sol ainda procuro,

Falha-me a visão, cego hei-me tornado meia vida,
Carecido de fontes, montanhas e planícies, liberto
Perante a perfídia do tempo, a ventania no peito ida,
Porquê criar estas pontes se o segundo é tão incerto,

Sou recém-chegado procurando uma mão singular,
Um beijo na testa que dure eternas eternidades, 
Enquanto que é tão simples ir é tão difícil chegar,

E faz frio invernal, calco as folhas caídas a meus pés,
Ouço o riso de quem passou em frente, as saudades,
Pois agora sei, irei sempre adiante, jamais irei de rés.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Quando Cair O Outono

Mal consigo lembrar de alguém para este Outono, 
Assim trago neve no olhar, como sempre, definido, 
Conforme o sol se aproxima do seu seguinte sono,
Somos agora amigos perdidos num beijo dolorido, 

Olha, algo aconteceu nesta pele submersa, interna,
Crescendo onde prosperam aqueles sem abrigo,
Estamos no caminho quase certo, vejo a lanterna, 
Vamos assim nos conhecer, já não em mim me ligo, 

Ainda assim, eu sinto que sei, embora não saiba bem
Que minha mais do que querida, esta é a única canção,
Temos cores, pérolas e poesia neste momento com ou sem,

Qual o problema com a vaidade, porque não abraçá-la?
Basta ir devagarinho, com o pé na palma desta mão,
Assim se chega longe, a melodia é possível cantá-la.  

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Acenando ao Silêncio

Acenando o silêncio destas luzes apagadas,
O sono que não vem, é cruz e é desamparo
Para o sonhador vaivém, cortinas cerradas,
Trazendo fagulhas para deixar o dia claro,

Indo no holofote, dedos por janelas apontados, 
O mundo, entretanto, mudou perante este olhar,
Quatro estações num dia por sol e lua pautados
Através do passageiro, pratos ainda por lavar,

E eu a escutar a chuva que não vejo, o desejo
De dormir numa cama feita, a dor do tratante,
Ansiando o ardor da manhã, o seu único beijo,

A ajuda está a vir! Ouvi num instante um murmúrio,
E o meu coração tão distante, e o pulmão ofegante 
Rezando por paz, suplicando por um bom augúrio.


segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Numa Poça de Água

Numa poça de água reflicto o rosto do passado, 
As marcas superficiais e a cicatriz já profunda, 
Os rastos cadentes são do trilho o caminhado
Tal cinza de cigarro esbatido na bruma vagabunda, 

Dentre o sol nascente e poente fulge o firmamento, 
Tanto espaço para o olhar espargido no telhado,
O sussurro deste suspiro é porção, é fragmento  
De coração esbatendo nos carris do eclipsado, 

Transbordando a noite perante o beijo do dia, 
E eu com saudades da sua verdadeira melodia, 
De braços sem meus braços num abraço eterno

De uma vida rascunhada a aguarelas num caderno,
Caderno esse com margens e bermas, leves curvas,
O dia está prestes a raiar por entre estas noites turvas.

domingo, 31 de outubro de 2021

Escravos do Tempo

Os relógios assim vão extinguindo o fogo da Vida, 
Sinto os minutos a passar tal paisagem fugidia,
Contando os segundos até à margem querida,
São as areias do tempo elidindo a noite vadia, 

Os sapatos sujos de lama ecoando na passagem,
Da alma junto da mente, da carne virando osso, 
Estes rastos esboçados pela poeira da viagem,
De passada em passada enviada para o poço, 

Vou lentamente esquecendo o meu nome, silêncio, 
Somos todos escravos do tempo, assim vai o vento,
Levando pedaços de nós com ele, assim vivencio

Que a Vida vai sendo trocada por rugas e cabelos grisalhos
E que o que fica são os bocados, momentos e seu alento
Confere a Vida deixada, talvez trocada tal queda de orvalhos.

domingo, 24 de outubro de 2021

Por Vezes Lembro-me

As vigílias destas ruínas tecem da noite segredos, 
Perscrutando linhas do horizonte, eternas pontes,
Tal corpos arqueados sobre o oceano e estes dedos,
Esplendores maravilhosos, brotam mil e uma fontes,

De onde permaneço há ainda para ver novos luares,
Numa espécie de melancolia que me leva o dia a dia,
Que sussurra ao ouvido a ausência de novos lugares,
Que abolem novos caminhos para o que então seria

Alguém novo em improviso de colibri, o seu perfume,
O infinito geminado na palma da mão, a imortal paixão, 
Entre lençóis, o silêncio de braços procurando o ardume

Que não surge, a lembrança de um sono, um pacto quebrado, 
E é ai que reparamos que a saudade é maior do que o coração
Consegue albergar, mais do que sangue a estancar, que o amado.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O Tempo E A Sua Inevitabilidade

Desabafo meus pronomes tal folha outonal, 
Talvez não caiam para baixo como é suposto,
Explicam o silêncio de um amor incondicional
Partindo de uma ponte onde o andar é proposto

Por quem o vê a passar de uma margem direita, 
Será que basta ser metade nestes dias de outrora?
Caminho nu e sozinho por uma ruela tão estreita,
Caminho nu para ser encontrado por uma aurora, 

Vou indo em desprendida pressa, vou indo discreto
Em arremesso certeiro, na muche, mas ao seu lado,
A carícia do relógio, a ampulheta mudando o afecto

De quem percorre os ponteiros de areia, o inevitável
É só o agora nas órbitas de uma pelicula cujo fado
É destino e balada perante o tido como indubitável.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Esta Poesia É Ardor

Aprendemos que uma promessa não é um talvez,
Ardendo cartas antigas de candeias feitas de amor,
Procurando agulhas em palheiros outra vez,
Especado a olhar o sol, estes olhos retratos para o ardor

Que sente quem lacrimejou um outrora,
Em moções silenciosas, o peso aos ombros do inverno
É suficiente para até ir esquecendo a  aurora
Enquanto se rascunham pestanas num  caderno,

Porém, a tragédia é que ainda em anjos acredito,
Fotos empilhadas em contentores do lixo
Trazem memórias da sua face de cor e por escrito

Pois sua voz são os meus silêncios, a acalmia
Diante a tempestade, diante o requebrar do esguicho,
E a obra de arte, a despedida no aceno desta poesia.

domingo, 3 de outubro de 2021

A Vida Ainda Está Por Começar

Trago-te nos nódulos dos dedos, neste olhar, 
Nos abraços conferidos, na pele sobre a pele, 
Nos lábios fantasma, na revolução do beijar, 
Nas caricias nos braços, na canção que impele

Estes versos, que faz o sol em mim ainda brilhar, 
Por favor, permite-me um dia nunca esquecer,
São estas palavras que travam a língua, o retornar
De uma brisa a espreitar-lhe no cabelo, a estremecer,

Trago-te descalça e branda numa moção levezinha, 
Numa alvorada sobre a enseada da outra margem
Que parece por vezes anoitecer pela noite vizinha,

Entre cortinas, havemos um dia ainda de escapar
Desta vida que é morte, que não é sequer viagem
Acredita amor meu a vida ainda está por começar!
 

Entre Mim e Eu - Uma Distância a Percorrer

Há entre mim e eu uma distância a percorrer,
Um desejo por dar por cumprido, um anseio, 
Pois de tantos beijos dados nem sei o que ser
Parece que de tantos ter sido me perdi no enseio,

Era agora dormir para verter dos olhos o silêncio, 
A lembrança de dois lábios em e por si embriagados, 
Melancolicamente bonito, o instante que vivencio,
Lugares que trazem o verão, pássaros voando liberados,

Atirando seixos para os solavancos, sem sítio para mim,
Hoje, como estranho nas entranhas esta sua ausência,
Esta solidão infligida, o coração entreaberto, o sim,

O não, este conter o oxigénio por debaixo de um rio,  
Não obstante do mundo, trouxeste-me esta poesia,
Então quando me recordo, recordo-me de ti... e sorrio.

 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Mil E Uma Fontes

A Primavera é esta pétala que trago na mão, 
De fragrância forte e aberta para o nascente, 
Tem a asa ferida, mas voa sem temer o chão,
É vela ao vento, um ângulo do Sol crescente,

E vão passando as estações, vem a alvorada,
A maré é a corrente de um sono em quietude
Onde sozinho caminho esse trilho, essa estrada,
Por acreditar que no centro é que está a virtude!

Esvoaçam as nuvens num dia feito de frialdade, 
A vida é vagante, espuma à tona de uma praia
Onde um dia nos afogámos, mas... aqui há beldade,

No rosto pintado de pássaros largados aos horizontes,
O fluído de uma existência enraizada que desmaia,
Que é sede no viandante, que é suas mil e umas fontes.


domingo, 19 de setembro de 2021

O Pedaço de Vida

Eu não sou o mesmo, mudou de sítio o coração,
Mil e uma vozes soam igualmente nesta cabeça,
A tristeza é mulher, a chuva é lágrima no pulmão,
Demora-me a verdade, e demora-me que aconteça

A Vida, pois a solidão amedronta, é rareamento,
É um dia escuro, estação a estação, desmaia o sol,
E assim cerro o olhar a nublando o discernimento
Pois eu amei, muito mais do que podia, cai no anzol

Que é do peito, infinito, e vai a noite alta mas a tua falta
É escassez de água, é areia na língua, beijo nas rochas, 
De mãos nos olhos a Lua fraca que este instante enalta,

Por só pretender querer ser feliz nesta estrada tão branca, 
Este caminho é tão sozinho a percorrer, sem luz de tochas
Apenas procuro o pedaço de Vida que esta ferida estanca.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

A Todo E Qualquer Amador

Aqui faz trevas, e vem toda uma solidão, 
Com tanto frio, tanto vazio, porém vontade
De ser igual ao que bate alado neste coração, 
Que vem e porém fica cortado por uma metade,

Estes lábios ainda tremem por uma resolução, 
As minhas mãos vão indo, indo e vacilando,
Inconscientes de que está para vir a revolução
Das mentes devaneadoras que se vão a si rascunhando,

Pois nem eu com cobertores sobre esta minha cabeça
Me esconderei da libertação que é do pós-remador,
Assim fecho os olhos e vou, aconteça o que aconteça

Porque do céu nos vertemos, o Pai será nosso legitimador!
Somos um exército de sonhadores, a terra que estremeça!
Esta é a simples trova dedicada a todo e qualquer amador.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Haverá Momentos

Um pouco de sol e um poço de desejos, 
Haja asas para esboçar, evocando os almejos
Que trazem Deus do universo para a terra,
Suspenso entre ambos desde o que o tempo encerra,

Tenho água rasa na nudez destes lábios,
Inesgotável na mudez de homens sábios,
Já há navios sem voltar ao seu porto,
Digam-me se têm lugar para eu ir vivo ou morto

Pois a queda é vigília, é parte da embriaguez,
É o grito mais baixo, é quase aquela surdez,
Há bruma entre o sonho, treino para a verdade,

Pois de tanto querer, acabo sempre na saudade,
Há solidão envolvida em sacos plásticos
Em tons de aguarela, em beijos espásticos.




terça-feira, 17 de agosto de 2021

Não Consigo Ver O Luzir Das Estrelas

Onde o rio atravessar o lago serei levado, 
Fazendo as malas, chegou a hora de partir
Para outro testamento, para outro legado,
Esta é a verdade que hoje me deve vestir, 

Onde o vento atravessar o ciclone serei petiz,
Com nuvens às costas, este sorriso é perdido
Pois desencontrou o coração ou um beijo feliz,
Assim segregou a mente da alma e do sentido

Que era milhões de galáxias, ao peito constelações, 
Não obstante dos ecos passados dados na eternidade,
Daqui nenhuma rima é escrita entre estas divagações,

Esperando por um sinal do outro lado da insanidade,
Disseste que me encontrarias na luz e suas refrações
Pois daqui nenhuma terra é nossa, só a efemeridade.

sábado, 14 de agosto de 2021

Quando Me Levantar

Há lembranças sim no fundo do caldeirão,
E eu cego e torturado por uma memória
Que me atormenta a porção do coração, 
Que me desdenha tal uma outra história,

Lançamo-nos no musgo, isto é quase amor,
Faço cicatrizes no meu peito, no imperfeito
Ser que tenho, lembro-me de setembro a dor
Que é minha e de quem vive e morre no leito

Pois devias ter visto o meu funeral, foi apoteótico, 
Os enlutados presentes tão novos para se apresentar,
Pesadelos sobre o mar, compartimentos no exótico, 

E eu sem conseguir caminhar, sem conseguir trilhar
O espaço entre aqui e o além, a harmonia, o caótico,
Liberta-me desta noite, há tanto a ir e ainda a chegar.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Ver Nascer a Primavera

Bebamos hoje à exumação do sonho sepultado,
Aquele que brilhava, que comecem as estações
E haja o sabor de lábios e que sob eles abrigado
Haja tempo para viver do alto desses corações, 

Despertamos os astros guardados na cabeceira, 
Limpando as teias de aranha do anseio suspirado,
A Valsa de Orfeu trazendo mil ideais na algibeira
E eu, sôfrego, procurando o passo outrora trilhado,

Esta tela de aguarelas longínqua da estrela da tarde
Aguardando pincel subtil para o encanto da Vida,
A descida de uma estrela que a mim me resguarde

Para ver nascer a Primavera, é um amor a transbordar,
Procuramos a luz ao fim do túnel, a ímpar alma querida,  
Entre ambas sempre haverá uma cantiga para cantarolar.




quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Assim Passo as Noites

Esta vida vertendo-se no olhar para cataratas frias, 
A mentira foi a crença, esta vontade de pertencer,
O aguaceiro dos meus olhos, estas preces vazias,
Quando tudo o que pretendo é o permitir acontecer, 

Lembro-me do que já vi, o fôlego da morte de perto, 
Anos desperdiçados misturando-se com o ver do poeta,
Por favor, beija-me, beija para longe os espinhos e decerto
Que o amor exalará desses olhos não de uma forma obsoleta,

Assim passo as noites acordado, esperançando vossa vinda,
E esta vida significa mais pois há fagulhas perto do precipício, 
E delas se alimenta a alma, e delas se faz a constelação infinda, 

Assim passo as noites sem dormir, escutando a queda do aguaceiro, 
Um punhal cintilante no coração da verdade e por pouco o resquício
De um dia não terminado onde estes lábios não beijassem o cinzeiro.

terça-feira, 27 de julho de 2021

Culminando Neste Grito

E tempo já passou minha viúva fatigada,
O perfume de uma pétala cativa do porto,
Liberta-me com o teu sorriso, doce amada,
Liberta-me do fardo dos vivos, desse conforto

De quem conhece aquela canção de radiância,
Preenchido por flores no jazigo de um outrora
Entre harmonia e o caos ornado aquela distância,
Do ontem vem a raiz, do hoje a semente e a aurora, 

Entre o ontem e o amanhã procuro o meu lugar, 
Escapando das armadilhas na pele ainda cravadas, 
À procura de uma palavra perfeita para poder rimar

Assim vem o continuo e adjacente ao tido como infinito
Pretendo-o acumular radiante em poses almejadas
Até abarrotar por todos esses dias culminando neste grito! 



segunda-feira, 26 de julho de 2021

Ou Não

Esperando pela palavra das caras vazias preenchidas, 
Vamos vivendo para a solidão dos ecos sem varão, 
A palavra lida entre as linhas por poemas despidas,
O ruído das ruas sem ninguém, a ausência de verão,

É o som forasteiro de uma cidade de nome perdido,
Onde viuvez é adjectivo para as minhas noivas,
Cadeiras amontoadas, lascando um beijo concedido
E eu, caído dos céus, vou esquecendo das dádivas

Que eram valor acrescentado, a semente de uma estrela
Velha, o bater de uma nova, sou um estranho à constelação
Que me cedeu nome, caminhando os trilhos que são dela,

Vivo para quartos desocupados resfolegando ar rarefeito,
Dando a volta ao destino, ao fado, ao que diz o coração
Esquecido de mim, numa parte de mim, o amor-perfeito (ou não).

sexta-feira, 16 de julho de 2021

É Preciso Amar

As alvoradas aparecem com o Sol presenteado,  
Chilreiam os pássaros Ícaro ainda relembrando, 
E eu do chão observo-os liberto neste bocado 
Das mundanismos terrestres, do trilho onde ando, 

Suplico aos céus uma bússola que possa alumiar
Os passos que vou dando depressa ou devagar
Pois o detalhe é divino face à perfídia do caminho
E eu mero peão que o vai trilhando sozinho,

Um dia chegará um dia, disso faço esta certeza,
Portanto vou andando sem descanso ou cuidado,
Sei que enfrentarei a fealdade do andar e a beleza

É que de tanto ir poderei nunca vir aqui a chegar, 
Por isso canto a preciosidade do instante dado,
Por isso exalto a necessidade indelével de amar!

segunda-feira, 5 de julho de 2021

O Fascínio do Trilho

Derrama-te na areia humedecida este nome escrevendo,
Esquecendo-te de mim como as nuvens se vão dissipando,
Até eu olvido esta vontade, esta pertença, este ir querendo, 
Pretendo apenas um amor até vir a morte neste quebrando,

Busco coisas improváveis, sonhos impossíveis de alcançar,
A magia a fluir para longe, a chuva que cria rios ao recair, 
Este vento que passa, que vem e quase me abraça sem tocar
O beijo, a fundação para a força herculana que ao se esvair

De marés, de ondas, desta intempérie que trago no peito, 
Se silencia, se sossega, cala num instante a aurora boreal,
É aqui que se vêem melhor as estrelas, daqui é perfeito!

Pedacitos de sol arranham o céu caindo perpendicularmente,
Trepando ao galho mais alto, o oxigénio daqui não é igual, 
O fascínio do trilho é que ainda temos tanto trilho pela frente.

(O fascínio do trilho é o trazer do sonho para o real)