terça-feira, 30 de junho de 2020

O Intuito Do Viandante

Para baixo da cama varrendo outro cobertor,
Sou eu o menino, a criança, o eterno amador, 
E cai neve, e cai granizo e vem a enxurrada, 
E eu de boca aberta esperando a madrugada, 

E os outros sempre a me puxar para o outro lado, 
E quem vem sou eu, vêem-me bem lá recostado
Ao molde que ofusca deuses e molda divindades,
Aqui, onde tudo é certeza sem improbabilidades,

É o brilho que cega o viandante, aqui visitante, 
Por um pouco de tempo traz-lhe a paz à alma,
Cai cadente a alba, e somos mais que o restante,

Somos o fragmento de um momento de calma,
Onde o universo rodopiava sobre si num instante
Breve como a própria vida e cativo nesta palma.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O Cosmonauta do Vestido do Horizonte

Vagueando entre as costuras de um vestido,
A brisa é um feitiço para quebrar o momento,
Ouvido o vento crepitar no céu por mim sustido,
Na algibeira albergando supernovas, e eu sedento

De colinas, montanhas, céu, horizonte e firmamento,
Sobre eles entrelacei a estória do homem feito divino,
Deferido e definido, deixem-me estar, quase estou isento
Do humano pois só me falta largar a pele e seguir o destino,

Contemplem o instante do interior, as verdadeiras batalhas,
Que não imploram nem atalham mais! Criando e sonhando,
Eu brilho, eu fulgo, eu cintilo para além de muros e muralhas,

É universal e meramente casual, esta passagem dos segundos,
Que a passe a pé-descalço, sendo, tentando, dando e partilhando,
São estes os berços advindos dos funerais, os mil e um novos mundos.

domingo, 14 de junho de 2020

Enfim, Um Dia, Navegaremos de Novo

Estas lápides relembram quem lá está enterrado,
Enforcado, o alvoroço deixado num eco passado, 
Somos um instante, um momento, sacro sacramento, 
Que passa num instante, momento, que vai com o vento,

Um brinde a quem um dia preencheu e ocupou este lugar,
Tal bala pelo crânio e é instantâneo, é uma eterna satisfação, 
De pequenas asas nos pés sinto os querubins a vir-me buscar, 
Os portões do céu abertos, fechando os olhos, parando o coração,

De boca aberta as porções a cair tal pó de fada, iremos para casa, 
Hoje, veremos pelos olhos do Céu, tu e eu, de almas entrelaçadas, 
Por camadas de nuvens, nebulosas, supernovas e de pés em brasa, 

Num buquê quebrado, o quê? Poções e afrodisíacos e falta-me alguém, 
E para nenhuma surpresa, não haverá surpresa, as suas mãos perfumadas
Não dadas a estas, varrendo pois o tempo e a maré não esperam por ninguém.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Desaforos

Suspiro pela estrada fora, rostos por pó desfeitos,
Confabulo sonhos em vozes de outros poetas,
Engolindo supernovas não me dando por satisfeito,
O meu testamento são estas estrofes, estas letras,

Faltam-me palavras para a beleza astral do olhar
Do sonhador proficiente por suspiros da distância
Ao sonho. Caem árvores na floresta, diz o sonhar,
Apelando ao excesso, recesso, o sol e sua instância,

Enquanto cupidos mergulham por nuvens ascendentes,
Contentes, batem, matam e cospem em quem é amador,
Que são os que não arredam o pé, os eternamente crentes,

Então rindo-se com lágrimas no olhar, com champanhe barato,
Alguns suplicando que cubram seus corações a cimento, a dor
É grande sim, mas é ela também dos grandes poetas o retrato.

De Discípulos, Seguidores e Apóstolos Não Preciso

Outrora fomos um dia filhos de marinheiros estelares,
Fulgimos e esvaecemos tal brasas no céu colocadas,
Então vadiando e caindo aladas entre terras e mares,
(E eu a tentar apanhá-las e elas entre os dedos escapadas), 

Todos os grandes lutadores têm cicatrizes de batalha,
Lembranças do passado, e eu, entre mim emboscado, 
E amado, enfim, o perfume no pescoço que vai e retalha
As colinas, as florestas, sobre as montanhas e o bocado

Aonde caminhei celebrando o trovão, a chaga, o canhão, 
As minhas mil maneiras seguidas porém sem seguidores,
Pastoro demi-deuses, aqueles que vão de alma e coração

E não se importam com o sim ou com o não; Suas dores,
Ao longo da jornada tornam-se em cores, e a sua mão
Procura pelo transeunte pois são de Deus os embaixadores.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Entre Os Ponteiros do Relógio

Eram assim vestidos brancos e danças lentas, 
Através do silêncio da noite e por ela embrulhada, 
Sossego, o ponteiro de um relógio e o que aparenta
Ser um instante infinito, parado e bem atento à estrada,

Opulento é o momento e escrevinhado à mão por um poeta, 
Daqueles enlouquecidos pelo Mundo e com vozes na cabeça, 
Inspira e expira, expira e inspira, da estirpe dos Deuses estafeta, 
Não obstante, o lobo e o rebanho que faz com que o Sol resplandeça,

Em alvoroço silencioso, a tela para as cores do Sol, o anzol, o isco,
Mas também o pescador e a cana (tal como toda a margem e o rio),
E esvoaça o espírito, chove luz, reluz a enxurrada, os dois em chuvisco, 

E nós nus, sem nada mas com tudo no peito, na mão partilhada, é incerto,
O destino, o fado dos homens, mas há magia, há poesia, há beleza e brio,
E ente as linhas de um poema, Amor Verdadeiro, daqui já vejo o mar-aberto!

 

terça-feira, 2 de junho de 2020

Somos Todos Fragmentos de Uma Supernova Que Não Tem Nome

Deixo-me na envoltura de uma densa nebulosa,
Encostado a uma constelação há muito esquecida, 
O mundo a meus pés, a noite altiva e tão formosa, 
Com as rotações da Terra parece que foi perdida, 

Sorriso no peito e este coração, varão de escadas
Para as estrelas cadentes por poetas imaginadas,
Por pintores pinceladas, por escultores esculpidas, 
O sonho de quem ousou e por este olhar recolhidas,

Cinco oceanos, sete mares e sua maré, vento norte
Que me empurra para a Primavera do firmamento, 
Tormenta após tormenta, dependente da boa sorte

Tal como bom marinheiro, este poderá ser o momento
Em que vejo o vero beijo e escapo à bruma da morte, 
Hoje é o dia em que da hiper-supernova sou fragmento.

sábado, 30 de maio de 2020

Furtando Estrelas

As cores do horizonte sou eu, eu sou pertença,
Dessas luzes fulgurantes, correntes, o beijo dourado,
Que vão e perduram no firmamento como sentença,
São eles que me fazem sentir vivo, sentido amado,

Pois sem Luz apenas escuridão restaria, a delicada
Luzência, também minha essência como é a negritude
Sou mescla de ambas, estando ou não na estrada errada,
Só assim sou relembrado que da falésia eu sou a altitude, 

Por olhos negros esbranquiçados duma boneca de porcelana, 
Frágil e franzina,  conta-me os segredos de ambos, esplêndido, 
Quando adormecer, ouvirei a sua cantiga, dulcificada e leviana, 

As cores do horizonte sou eu e de volta com estrelas na algibeira, 
Procurando e passando o firmamento tal estrela cadente difundido
Pelo cerúleo, hoje é o dia de trazer as cores distantes para nossa beira.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O Verdadeiro Sentimento

Nus, de vestidos brancos e de pés descalços,
Correndo a colina acima, em busca do divino, 
Encontrei o Amor, activo e passivo, os destroços
Do ontem, são a valsa do pé-coxinho, o destino, 

Não é preciso uma música, nós somos o dançar,
Sua cabeça encostada neste ombro, sou afortunado
Por ter quem me quer e eu quero, durmo, a sonhar, 
Para lá da sombra do silêncio, acordo, ainda inebriado

Pela quimera que me acossou, pelo beijo entretanto dado, 
Persegue-me o dia, quando apenas sonho à noite, e eu – quebrado
Deitando fogo à chuva, salva-me com um beijo, com a eternidade, 

Fecho e reabro os olhos, esta é uma dança lenta enquanto a sala arde,
Labaredas mais altas que os demónios de Hades, parado num momento, 
Em que eu e ela sabíamos o que era Amor Universal, o verdadeiro sentimento.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Massagem de Mãos Sobre Os Ombros

Apontando para o horizonte, para a porta de saída, 
Eu ainda acredito no Amor, só não acredito  no amor, 
É o escape incerto a uma fotografia do sol retraída
Que parafraseia o sal da maré, o toque do trovador 

Faz com que vivam sobre o arco-íris, sobre as nuvens,
A aprendizagem do permitir ir, há mais que o branco
E negro, há cores que nunca vi, o muro dos homens
Esvaece os anos, invade a idade, é forte tal potranco, 

De peito quebrado, de coração subtraído, doce ironia, 
O amador sem objecto para amar, o silêncio eterno,
Entre a fauna e a flor, olhos de oceano, a infinita afonia,

Não permite o permitir, "Olá!", é o que apetece dizer,
Quando o meu reflexo passa, passa todo o Inverno, 
Mãos sobre os ombros, para as abraçar, para as querer... para as querer...

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O Anseio Pelo Momento

Por vezes sim há palavras que não conseguimos sequer pronunciar,
Há que festejar e empurrar o pão com vinho, sentir o bem-querer,
Ou aquele ímpar e eterno Amor que não sabemos partilhar,
Sou apenas um homem, deixem-me estar, deixem-me correr…

Pois por vezes há paladares que se escapam dentre a cavidade oral,
Aqueles olhares que se perdem enquanto vêem o tido como beleza,
Este engolir em seco, expurgando o suor da testa, o palpitar amoral
Lembra que o instante passa, independentemente da gentileza,

Tal e qual como por vezes há livros que não sabemos colorizar,
Também há instantes que não conseguimos capturar, é natural,
Ou momentos que não sabemos mesmo bem, bem aproveitar,

Quando há tanto para permitir acontecer, permitir ser nesta Vida,
Mesmo quando nos esquecemos de nós neste nosso quadro pictoral,
Anseio e desejo o estar perdido no momento, na chegada, na partida...

terça-feira, 19 de maio de 2020

Eternos

É uma teia de aranha estas correntes, 
Cedidas por aranhas para criar casas,
Pacientemente, vendo, estrelas cadentes,
Ornando a cúpula, estreitando esta asa, 

Conferido sonho alado, tempo sem espaço,
Soletrando as sílabas de Deus, a crença, 
A sentença é acaso até este andar descalço
Coincidência ou lapso? Não, esta é presença, 

É Ser Inteiro, celeste longe da sombra e escuridão, 
Por isso rio e choro tal Cavalo de asas pregadas
E rio e choro, e rio e choro e me segue a claridão,

A primeira em muito tempo, minha única pertença
É o tempo despendido entre partidas e as chegadas,
É viagem que faz do transeunte tanto a cura como a doença, 



segunda-feira, 18 de maio de 2020

Mesmo Quando Tolhido Pela Maré

O tráfego transversa lá fora o pavimento,
Não posso albergar o Sol só numa algibeira, 
É esta acumulação de instantes e de momentos, 
Um dia chegarei à foz, seguindo para lá da fronteira,

Nada mais tenho para lembrar nem nada para esquecer, 
Espera-me à esquina dos perdidos, a dos desencontradas,
Estoirando-me no peito um grito à desgarrada, quase a viver, 
Pressagia-me e que o colibri cante com as plumas eriçadas, 

Trago no rosto as aventesmas e as crianças deste caminho, 
É a fuga e a lentidão, súbita e clara, nos olhos - a solidão, 
Aberta e enterrada num berço, o ímpeto do percaminho, 

Este é aquele instante que define aquele instante anterior, 
Sim, somos tolhidos pelas marés mas é o pletórico coração
Que não arreda, que não cede que não desiste – ele é o Ser Inteiro, ele é o Excelsior. 

segunda-feira, 11 de maio de 2020

... E Assim nos Elevamos

…Tropecei nas escadas, a universal estenografia,
Reviso as estrelas a recaírem da escuridão,
São terra e crepúsculo retido em garrafa,
Incidindo em asteriscos de eviterna servidão, 

Criamos escadas para o céu de exíguas colinas,
Onde o trilho for, por onde o rio fluir a cada vez,
O objectivo:as encruzilhadas, altas ou picolinas,
E eu respiro seus Deuses por um, a dois, a três,

Através de vales e montes, este é o Cosmos privado, 
Pássaros chilreiam, animais pastam e eu sou preenchido, 
Há quatro estações apenas num dia, deveras obrigado! 
                                                                                 
Somos tantos, vários e diversos pontos descontrolados, 
Sempre entre margens, pela ponte e o horizonte colhido, 
Pour le monde, enfim ascendemos e somos deificados!!! 

Por Vezes Esta Miragem Quase Sabe a Vida

A paixão por um beijo adagiado estancado no peito, 
Enamorado por um gesto quase consumado em vida, 
A vida vira meia morte por alívio, remédio, por respeito, 
Entre estes dedos as mãos de Rhea nos últimos restos de vida, 

Uma cama de rosas impaladas, enfim em frente o jardim do Eterno, 
É um toque de alaúde e caiem todas pérolas dos seus pés, 
Rasguei as asas para andar com os humanos, oh tao ingénuo, 
É mera luz e restos de sonhos dentro de vagões indo invés 

Do caminha da graça, este vestido resguardo, estas paradas atrasadas, 
Aí meu amor, a nossa dor, a nossa vida, mas que epopeias deificas, 
Esta é a a minha serenada a quem atravessou, aquelas outrora amadas, 

Por isso sereno a madrugada, por isso as indentações do coração são sorrisos, 
Conto os segundos para a manhã, fujamos para algures bonito, por lendas seráficas! 
Depois descansaremos num majestoso lugar… já ouço os passarinhos cantar, já ouço os passarihos a cantar….

sexta-feira, 3 de abril de 2020

... E Que Assim Seja

Permite o teu valor se erguer! Ousando a bravura irada!
Aquelas mãos acossando para longe da esposa e filhos,
Por ti, eu, o desafio, os raios do inferno, a emboscada,
Enquanto meus inimigos a penumbra, tu fulgor, eu brilho!

Tão forte quanto puder, tão forte enquanto puder, o divino!
Melhor que este genocídio, maior que esta contrariedade,
Sou a raiz da terra, sou a vida ao tentar o aqui do destino,
O orgulho de uma pequena ilha, transversal à integridade,

Ó Deus, não tremerei enquanto vir os lobos enfim fugindo,
Eu triunfo pelo tempo, maior que Deus, através do espaço,
A comida que o cão come com prazer e renome e eu brindo

À morte! É a morte (posso morrer)! E à vida! É a vida (sou-lhe tudo),
É a morte! É à morte! É a vida! É à vida! E nós o homem peludo,
Que convoca o sol e o faz brilhar, passo acima, para cima o passo

(Um passo para cima, outro passo adiante …eu faço o Sol brilhar!).

sexta-feira, 20 de março de 2020

É Preciso Abanar as Fundações de Tudo o Que É Confortável - Queimem Todos Os Templos Sem Deuses Dentro!

Pérolas e laços, máscaras e confetes, prazos de expiração,
Submergido no topo da montanha, a derradeira façanha,
Um beijo de adeus e vem o genocídio de uma geração,
A fundação para o fundo da algibeira, a divina artimanha

É tentar indo esvoaçar com asas por chumbo revestidas,
Auréolas rotas, os homens de fato oferecem salvação,
Passem o cesto de pensamentos e orações perdidas,
Eles são o vosso pai porém eu sou o vosso irmão,

E Deus apareceu-me no espelho pois os anjos caíram do paraíso,
A casa de deus promete a vida eterna, para além além do horizonte,
Por favor larguem essa pele, erguer-vos do vosso cadáver é preciso,

E Deus falou com a minha voz dizendo: "Escutem o vosso sorriso,
Pois só assim se criam escadas para o céu, essa é a verdadeira ponte
Deste momento para o próximo", e o resto meus irmãos... O resto é impreciso.

terça-feira, 17 de março de 2020

Cinza e Pó Onde Se Erguia Uma Igreja

Um breve adeus na bochecha, pétalas e arroz a seus pés,
Estas mãos pintadas a vermelho, de querosene o cheiro,
O vestido de noiva em segunda mão, os outros rodapés,
Onde sonhos penhorados eram reis enforcados num bueiro,

Neste olhar que nada muda, despeito para os corações quebrados, 
Lembrando o tentar pensamentos felizes a caminho da igreja
Pois eram tardios amanheceres e entardeceres antecipados,
E esses lábios de outrora, quem será que os levemente beija?

Estas cicatrizes relembram-nos de que é bem real o passado,
E o muro que entre nós existe, é cerco e rendição para o ser,
Onde sua cara ainda fazia parte dos vivos, esse terno bocado

Era júbilo apoteótico, luzes sem sombras, era o único vero lugar,
Sim, tenho palavras para o não, sim eras e és todo o meu querer,
Cheira o queimado, quando o Inferno vier, deixem-nos o fogo banhar

quinta-feira, 5 de março de 2020

Indo Por Onde Se Vai Sendo

É a ausência de oração, a absoluta submissão, a falta de ar,
Dança, dança por dois e meio segurei séculos neste olhar,
Que por vezes se abstrai da beleza que é o próprio coração
E que por vezes até é aquele órfão sem lar, as asas sem avião,

É o sentimento o tormentório, a cela do asilo como enigma,
Verticalizado nesta mão que é procura, os lábios já beijados,
Outrora num bocadinho de lua a mostrar-se-me no estigma,
Que é a cabeçada na auréola, os dias raramente albergados,

Tentando ir esperando um dia chegar, tão sozinho no respirar,
Completando-me com passos conferidos no chão ladrilhado,
A destreza da queda de uma pena é o vento suave, o suspirar,

Foi por aqueles passageiros que trouxe no peito ao convés,
Com as velas abertas, o horizonte nestas plumas esvoaçado,
A marcha solitária, serei o barco, serei o céu, serei as marés.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Ouçam-me seus Filhos da Puta

Não sou o Kurt Cobain nem Robin Williams nenhum ,
Mas sou um rockeiro filho da mãe, sou a agulha partida
Que traz o demónio em si, a puta familiar, sou algum
Pino sem sinalização, a cabra da generalização, a batida!

E esta segregação de mim para mim fode-me a globalização,
Eu sei que estás perdido apesar de perfeitamente encontrado,
Mentira, já me perdi mais a mim do que a ti sem me ter procurado,
É só esta a vontade, a vontade de ir sem trela, ir sem ser achado,

Tu que ardes sem arder, tu que preferes a não vida ao morrer,
E sonhas sem tentar alcançar, que esqueceste o ir e o buscar,
A correção outrora partida, a quase revisão, a factura do querer,

Iremos ser vidas passadas, voando para casa com cada "a tal",
O do-li-ta, o actuar sem palco, o pior dos actores a representar
E eu voarei para casa portanto vejo-vos um dia no meu funeral!

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Há Coisas Que Eu Fui Que Tu Nunca Deverias Saber

Esta montanha que subo sou eu, eu sou a montanha,
A última e seguinte batalha para a vencer, para viver,
Vislumbrai a guerra do ontem, que é quem me acompanha,
Sou eu, a cicatriz entreaberta, a beleza na morte sempre a morrer

Enquanto procuro uma flâmula interior, eu brilho, eu vou e viando,
Eu sou a e na jornada pelos pés largada, esta verdade, esta ilusão,
Eu sou a última verdade que para mim importa, selvagem e brando,
Que quase passa sem se ver, que é esta falsidade, que é este coração,

Imaginai a vida como uma silhueta e então na noite caminhantes,
Ireis para longe do lugar que ocupais aqui, além do bem e do mal,
Notando que para sempre deste trilho seremos os últimos viandantes,

Somente ninguém se aventura para lá da luz, minha linhagem findará,
Este sangue largado na lágrima largada no suor, eternamente marginal,
EU sou a tempestade, EU sou a ovelha, eu sou em ti, por aqui e por acolá.

(A reticência para lá do ponto final...;)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Chromované

Para sempre haverá impressões digitais no cadáver do passado,
Foste ruínas, morte e decomposição, foste ausência de perdão
E entretanto do perene ruído fez-se silêncio, fez-se o bocado,
Quando a estrela do norte nem apontava para o resto do coração,

Por um eco reverberado em corredores à ausência deixados,
É uma vida sem viver, é tempo de ir e acordar - hoje, 
Pois há corações ao vento, por si bem quase amados,
Foi quando o velho se fez ao trilho de quem de si foge,

Pois para os mortos somente um sonho é esta vida,
E se todas as donzelas vão para o céu só o céu sabe,
Então se espero, se vou, se em mim sou também escapulida.

Que brevemente haja espaço para as palavras inauditas,
O tesouro a encontrar, eu sou o portão que enfim se reabre,
Eu sou toda a implosão de supernovas neste sonhar escritas.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O Corrimão Para O Céu - Mentira?

E um dia teremos parte de um fragmento, Atenas, momento,
Esta é a escrita cadente e é o anseio pelo longínquo tesouro, 
Da vida, quando o pouco que foi, todo este acontecimento,
A enxurrada entregará para o horizonte pelo escoadouro,

Onde cascos são cópias carbonizadas de homens partidos,
Drenem o lago, procurem o cadáver do derradeiro fado,
Os vestidos brancos e as danças lentas, os poentes retidos,
Respirando este ar rarefeito, se calhar passei-me ao lado,

Hoje a envoltura de uma silhueta entre um terno abraço,
Era uma a promessa de um eterno, um eterno dar a mão,
Quando nem para um certo tempo havia sequer espaço,

Abram-me as veias e acordai os anjos, hoje serão alcançados,
Ainda há impressões digitais nas nuvens, neste corrimão,
Que haja luz para fazer das sombras amigas em belos bocados.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Por Aqui Sou Caminho

Por aqui, por onde caminhamos, a tempestade ainda tem lugar,
É a parada negra, largando a mala para poder andar à boleia,
Adormecido, os comprimidos engolidos eram algo para matar
Não a vida mas a ausência dela, indeferido, nesta mão-cheia,

Ou matamos a morte ou a morte matar-nos-à minha gente,
Por isso vou quebrando as correntes deste frágil coração,
Que o seu colchão seja confortável nesse trabalho diligente,
Este amor não é preto nem branco, é o passar de cada estação,

Sim, é quando pensamos que as boas meninas vão para o paraíso,
Que vemos que esta é uma instância do limbo,a aréola soqueada, 
Somente o paraíso sabe, só ele sabe qual o lucro ou o prejuízo,

Esperando na penumbra, eu deixo-o solto, eu deixo-o apertado,
É a parte que é resto, fragmento da noite esperando a alvorada
Pois somente ela é caminho e Luz, só ela o pedaço do amado.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

É Preciso Ir e Correr Atrás do Luar!

Este pedaço de mim é ruído e silêncio - o seu namoro,
O caminho vincado na pele nua, a cicatriz e os diademas,
O assobio despreocupado, o gesto com ou sem decoro,
Pois das potenciais prisões sou eu o portador de suas algemas,

Que são esta ânsia, esta vertigem irregular por si procurada,
A altura da falésia para o vazio, para o nó da garganta, 
É um breve suspiro para o solavanco da berma da estrada,
Esperando as luzes de presença, o abraço de uma manta,

Caminhando ao meu lado, esta sombra tornada semblante,
Há poesia nesta passagem, a moção neste terno paginar,
É a ode a Deus, a ode a vera beleza, a ode ao instante,

E neles o único sítio onde pretendo de facto estar,
Pois ele é insciente a qualquer ouro ou diamante,
Este é o único espaço e tempo que pretendo ocupar.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

E De Tempo a Tempo, Estamos Todos Perdidos

O mundo roda e rodopia e quase por mim é contido,
Percebei que eu sou o fim desta era, o único alarido
Que mantém homens acordados a noite inteira,
A porção que morre na palma, o ninguém à beira,

Quando as toquei perdi a metade que era no coração,
E nesta alma o único sempre que poderia algum dia ser, 
Com o barulho que nem é ruído, que é falta de oração,
Que é pouco para estar vivo mas que nem sequer é morrer,

A abertura sem envoltura é beijo sem ser sequer dado,
Pois eu sou, eu estou na vontade do viver sem estação,
Eu sou a impermanência, a loucura e o sítio de estado,

Com todo o amor que puder dar mesmo com raiva e suor,
Na ausência da poesia, na ausência do verdadeiro refrão,
Pois o amanhã é apenas o consequinte do pôr-do-sol anterior. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A Minha Querida Amiga, A Anhedonia

Confere o papel do coração, é o corte, é o sol e a sua moção,
Batendo a porta, meu deixar-me, amor permite-me a entrada,
Entretanto lavei as mãos, banhei-me em núpcias, sou estação
Para o resto dos dias que não chegam, para a chuva inacabada,

É esta a menina das grinaldas de luz que repousa entre prados,
No instante infinitésimo perdido no infinito de um respirar,
Onde eu perco, eu encontro, eu espero, onde procuro os fados,
Que são pertença somente do aqui e agora, num lesto ansiar,

Entre as margens do celofane, pulmões negros de anjos erguidos,
Donde outrora eram caídos, a tosse sanguinolenta, a doce ternura,
Gritando por uma resposta, por cá nós os eternamente escondidos,

Por baixo de roupas usadas e cobertores rasgados, a doce ironia,
Dificilmente recordo o meu nome nesta eterna e terna brandura,
Estas algemas estão apertadas, filtra-se o lago, oh querida anhedonia!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Este É O Momento

Pelos campos carbonizados de neve existe um palpitar,
Cada um deles sufrágio silencioso para um tempo sem espaço,
Pois quando havia um pouco, uma metade, um respirar,
Então o floco era quebrado na ausência de um abraço,

Este é apenas um poema para os partidos, para a passagem,
Perdendo a ressonância com os seus nomes e apelidos,
Os ossos que engulo ao exalar nesta quase viagem
Que é apenas campo de batalha para os mortos e feridos,

Este comprimido é só para existir, não para viver,
Possivelmente dormitamos enquanto ardem cidades,
Se assim for, irei em frente para poder ser e conter,

Estes são os dias que passam, o bocadinho retido
Ficando entre as linhas dos olhos através de minutos e idades,
Que somente se torna a história do nosso passar quando sentido.






domingo, 22 de dezembro de 2019

Hemorragia

Ele nem se pendura dos campos vestidos de Serafins,
Ele nem vê o brilho dos teus olhos, as rugas da tua mão,
Os sapatos de salto alto que esqueceste no armario, os enfins,
Por isso porque o queres se eu poderia preencher o teu coração?

Então abraça-me ou deixa-me ir mas não sejas meio termo,
Não é simples quando não há oxigénio para respirar,
Não é beijo quando os lábios nem sequer se conseguem tocar,
E eu até estou bem, eu não estou louco ou sequer enfermo,

Eu sou ilhas, eu sou glaciares e foste semeada neste peito,
Estas palavras não têm significado, não têm horizonte,
Os pares entre si vistos num eterno para sempre rarefeito,

Preenches os teus copos com estes ossos contornados a carvão,
E nesse bocadinho há espaço para um beijo, tempo para a ponte
Onde és o giz no contorno que larguei e abdiquei no meu coração.



La La La La

Se passares a noite aqui seremos encurtados,
Abaixo da cintura, abaixo dos joelhos no beijo,
Penso que a ela e a mim fomos sim encontrados
Neste lento passar da noite onde tenha lá sido todo o desejo,

Por vezes é difícil sarar,  chama-me o instante,
O relapsar do suspiro que suga o latejar do coração,
Preciso mais dela nas veias, fluindo em frente, adiante,
Quando o único momento real é quando damos a mão,

Esconder a vez que fomos a queda, que excede e escorregamos na merda,
É uma piada, o não haver novos caminhos para explorar,
Pois quando o sol se põe, eu sinto a ausência, eu sou a perda,

Sou o esconder no fim da garrafa, o prefácio para o pouco, o muito, o amar,
Sentindo o suor, sem medo, o pé à esquerda da esquerda,
Pois por vezes, por vezes, estamos todos perdidos até nos encontrar.