quarta-feira, 3 de julho de 2024

Trazendo uma Fénix no Coração

São os ecos de um sonho perdido, fragmentos do esquecimento,
A resignação à estrada vista pelos olhos diáfanos de pouco ver,
Estas lágrimas translucidas são apoteose para o passado momento,
Porém também legado e facto de que estamos a ir e estamos a viver,

Mesmo que rumo ao esvaecimento, a uma saudade sem qualquer cura,
A Lua nos charcos, o vento no cabelo, trago em mim cadernos de poesia,
A nenhum lugar condenado, o doloroso que fica em nós e que dura e dura,
Sou morte e renascimento, pluma de fénix em cinzeiro, oh que doce algesia!

Este é o fim de um anseio, o assentar da poeira, trago na vista o entardecer,
A pétala da flor descarnada e encarnada em mim, é uma estrada de fragmentos,
Pois para nela ir e conseguir ser nesta Vida, por vezes é preciso também morrer,

Portanto sim, há silêncio dentre estas palmas das mãos entre si e por si cerradas,
Desesperançando onde outrora somente havia esperança, assim são os sentimentos
De um poeta vagueando entre planícies, aguardando, porém, as estrelas almejadas.

Memórias de uma Vida Preterida

Assim ansiando estrelas numa busca interminável,
O Sonho está enfim morto e agora aqui enterrado,
Recomeço do início com esta vontade indomável,
E irei pela estrada e bermas apesar de quebrado,

Com ela ficou parte e fracção do que era fragmento
De mim e em mim, estarei eu ao nenhures condenado?
Hoje prefiro as manhãs, são a lembrança dum momento
Em que eramos complementares e me sentia enamorado,

Beijo as memórias que são estes pulsos ensanguentados,
Pois sou quase menos, sou a Lua pelos charcos reflectida,
Percebem porque de mim em mim sou mil aposentados?

Trago-a perto, na algibeira ao lado de uma luzência querida,
Pouco mais tenho a fazer cá pois os bares estão fechados,
Ao esquecimento rumo, ao esvaecimento de uma Vida preterida.

terça-feira, 18 de junho de 2024

Estilhaços de Uma Jornada

Caminhando nos dedos dos pés por uma Vida,
A procura por um lar tem sido um belo percalço,
Aonde temos ido e vindo por uma aventura querida,
Por onde temos quase chegado em seu doce encalço,

Estas quase plumas são asas em cansaço enfim tornadas,
Coração solitário perdido entre uma multidão sem rosto,
Pois as braçadas são para a eternidade palpitações entoadas,
Abraçadas, envolvidas e num sorriso comovidas, porém o oposto

Também trago, pois, a morte foi o tocar seus lábios ornamentados
A felicidade, a glória, a beijo ecoado num infinito e terno momento,
Nosso reflexo mudou e somente ficaram estes mil espelhos quebrados,

Fragmentado não pela tormenta, mas pelo subtil toque desta brisa então,
Que mutilou as artérias, deixando lágrimas e sangue onde só ficou o vento,
Não quero saber se ficar aqui para sempre segurando nada para além do coração.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Trilhos de Ausência

Os trilhos do caminho exibindo a sua ausência,
Um último trago para recuperar destes sentidos,
Tropeção para os astros num tapete e a luzência
De um êxtase cadente dentre mil beijos perdidos,

Anseio por luz pois os vagões vão na escuridão,
Estas paredes interiores, prisão para a felicidade,
Correntes envoltas por asas quebradas, combustão,
Aqui - onde íamos de mão em mão em reciprocidade,

Invadido por vigílias ao gelado cadáver do passado,
Restos de sonho, a minha mãe partiu ainda era criança,
Com os olhos na estrada, órfão solitário, fragmentado,

Esta Vida é tempo recluso, tarde ansiada sempre distante,
O meu Amor sozinho negou esta nossa única aliança,
Parece que quem partiu é fantasma em ido instante.

domingo, 9 de junho de 2024

Estrelas Cadentes e Esperança

Esperança é a saudade que no futuro projecto,
Um destino por acontecer, um abraço a esperar,
Pois mesmo na ausência será que já estarei perto
De, apesar do silêncio, ouvir vosso eterno sussurrar?

A esperança guia-me tal estrela oblíqua e cadente,
Depositada no peito como a luz de um doce sonho,
Pois mesmo que por vezes só haja a escuridão à frente 
Devemos sempre procurar por um reencontro no risonho,

Na calma dessa esperança, essa tormenta tão próxima,
Esta alma ansiosa, solitária, vai aguardando um abraço,
Vosso olhar distante e sem promessa de volta, a lástima

De não sabermos qual o nosso fragmento, nosso fado,
Descansarei algum dia minha cabeça nesse terno regaço
Ou serei só mais uma alma perdida de um tempo eclipsado?

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Elegia Para Orfeu

Seguirei até aos Infernos as suas lúgubres pegadas,
As suas lágrimas somente carreiros para os suspiros,
Por entre as cordas soltas destas mil liras quebradas
São elegia para Orfeu pelo enxofre que aqui inspiro,

As sombras que me acossam, a morte e a paixão, 
Resgatarei o meu Amor por tudo que é sagrado, 
Ouçam este lamento sobre a forma de canção,
Esperancei com sua melodia neste meu fado,

A tristeza é assim deste moribundo rapaz das estrelas,
É o eterno pois a fugir-lhe entre os dedos entrelaçados,
A alma em Tártaro, escapa-se em lembranças de aguarelas,

Era, pois, Eurídice a delicada promessa - a morte do poeta,
O destino, a saudade, o Ver entre si a escuridão dos olhados,
Tragédia dolorosa na dor afagado por esta caminhada obsoleta.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

O Nosso Tempo É Passado

As cadeiras vazias ostentam as memórias de ausência, 
Ditando pós de ouro num olhar submisso ao passado,
As fragrâncias do seu perfume na noite e a sua essência,
Estas roupas vazias de tempo resgatado em garrafas de fado,

Que é meu momento, eclipsado pelo vento, um beijo na brisa,
As águas do rio enlevaram-nos para um longínquo oceano,
Já te esqueceste da nossa canção, aquela que fulgia indecisa,
Este sorriso cravado em profundas cicatrizes, a dor do insano!
 
Entretanto, não tenho nada para lembrar, nada para esquecer, 
Se partir amanhã, serei somente mais uma sombra neste panteão
De Vida, onde o Amor é barato, onde os berços são para morrer,
 
Estas trevas são sangue não fluindo, não há razão mais para sonhar,
As estações revolvem cobrindo com Tempo os restos do coração, 
Vivo no tempo errado, vivo no lugar errado, sem espaço para amar.
 

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Trazendo

Trazendo no olhar e vista esta enxurrada,
Desde o início me resta a eterna chamada,
Um vento tão cruel as lágrimas enlevando,
Ouvindo só o som de uma alma quebrando,

Trazendo no peito esta saudade de uma geração,
Sou do Cupido peão, simples poeta, a refração
De luz num instante inexacto, dou-me por fraco,
Pois não a consigo esquecer mesmo Dionísico,

Trazendo fantasmas na mente e no caminhar,
Sozinho e mal-acompanhado, rápido e devagar,
Sinto a sua falta, reaprendendo esta companhia,

Trazendo-a sempre no coração, que doce maldição,
Nada mais para andar, nada mais aqui para amar,
Eu sou o meu pior inimigo, a mais cruel contradição.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Vaga-lumes

O efémero vagueia na luz transiente da aurora,
Sonhei com o rosto que não consegui alcançar,
Pois antes de chegar já me tinha ido embora,
O amor que trago é sozinho neste só caminhar,

O poeta vagueia no suspiro que ninguém entende,
É o trajecto que ninguém irá alguma vez compreender,
Pela ferida pelas vezes que a si mesmo se rende,
Ele um dia se irá, ele suspirará até por fim morrer,

O encanto vagueia no murmúrio ao eterno deixado,
Este lenço enxuto, o chorar até não mais conseguir,
Prisioneiro de suas amarras, a ela sempre acorrentado,

E a brisa envolve as lembranças de um beijo já partilhado,
Folhas de papel transviadas por um vento que a me perseguir
Demonstra o regaço que perdi, a mão na mão, o nosso bocado.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Eu Amo-te, Adeus

“Eu amo-te, adeus” – cada verso por lágrimas contidas,
Num descuido a alma resvala entre este coração partido,
Ecoando as palavras ditas, entretanto num hoje perdidas,
Numa voz ausente que nos pertence num beijo preterido,

Parto dela, ficando em mim o eco do que foi o firmamento,
Agora, por solidão, tão triste, tão cego, envolvido noite e dia,
Este é o cruel compasso da vida que nos separa do momento,
Ter-te-ei em sonhos e não nesta despedida, tão cruel, tão fria,

Eu amo-te, adeus, neste espaço dentre sonetos terás lugar,
Seguindo em frente, rumo à canção cantada por uma metade,
Mesmo aflorando no peito a memória de um doce e belo amar,

Eu amo-te, adeus, o lamento de uma melancolia aqui rascunhada,
Pois assim que por fim da mentira se faça novamente a verdade,
Trago-te na poesia, de mim para ti, para sempre em mim lembrada.

domingo, 12 de maio de 2024

Poeira de Ouro

Há poeira de ouro no olho e no seu canto,
Pois canto lamentos para quem os ouvir,
Vistas e sons vão e alimentam este pranto,
Por vezes neste trilho apetece é desistir,

Fotografias que relembram o então passado,
Congeladas em memória num doce beijo,
Algures sei que tenho enfim por cá ficado,
E que por cá tenho sim perdido o almejo,
 
Esses caminhos que juntos fomos caminhando,
Onde nossos apelidos se juntavam alegremente,
Nunca pensaria que este coração se ia quebrando
 
Pois alguém algures sorriu entre a bruma e escuridão,
Tempos esses que passaram tão rápido e docemente
Que a poeira de ouro já nem quer ficar nesta mão.


sábado, 11 de maio de 2024

Vigília Sobre O Nosso Cadáver

O tempo vai passando e eu por cá sediado,
Vem a pegada que vou trilhando sozinho, 
Onde de mim faço fragmentos em bocado,
Por onde mim faço solitário este caminho,

Desperto para memórias dum tempo levado,
As sombras do dia subjacentes a esta alma,
Parece que o páramo já nem é tão estrelado,
Pois a algibeira sussurra pelo trilho calma,

A mim me abandonei quando perdi a sua mão,
E permiti a distância por fim ser vencedora,
Trago uma dolorosa cicatriz neste coração,

E assim fugi da sua envolvência tão acolhedora,
Agora vou por desertos e glaciares à contramão,
Até quando durará esta vigília entristecedora?

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Entre o Universo e a Poesia

Há poemas entre as estrelas, galáxias e constelações,
São estes os astros forjados no âmago das nebulosas,
O cosmos espreitando no infinito em mil observações,
O gentil sopro de ar debaixo de asas sempre formosas,

E há brilhantes estrofes em sorridentes e esbeltos versos,
Há emoção no Crepúsculo e há sentimento na Aurora, 
Cometas e meteoros tal como estrofes por céus dispersos,
O Sol espelhado por um rosto lunar, o sonho de outrora,

Névoas e vórtices retornados na breve escrita de um caderno,
A beleza é tácita como um "amo-te" deixada num sussurro,
Entre a poesia e a prosa e sim, entre o Verão e o Inverno,

A alma é metáfora para o ainda não lido, a eterna melodia,
Reflexos de mil estrelas cadentes indo afluentes no enxurro,
E eu, simples poeta olhando o firmamento - o quão tudo queria… 

Ecos de Um Amor Perdido

Em breve meu amor seremos novamente poeira,
Os laços que unem desprenderam-se na eternidade,
Não alcançamos o horizonte, solidificou-se a fronteira,
Fronteira essa que, porém, não matou esta voraz saudade,

O vazio no peito aliado as lembranças esquecidas são esta solidão
A sua querida ausência, outro adeus para esta alma tão perdida, 
Faz-me incidir tal estrela num silêncio ensombrado tricotado à mão,
É tão difícil caminhar de novo sozinho, é tão difícil esta nova despedida,

Da nostalgia de quem sente as cicatrizes abertas, esvaecendo num lamento,
É a ruína de quem acredita que amar é o mais altivo dom, o sacro sacramento,
Desesperado e abandonando o sítio ao qual outrora apelidávamos de querido lar,

No meio deste desencanto, deste desvanecer, não me parece ser possível aqui ficar,
Queria ser breve, somente dizer-lhe o quanto para mim ela para sempre significará,
Mas este é o tempo do consolo num silêncio sem dono dum amor que jamais perecerá.

domingo, 28 de abril de 2024

Desamparo Sob o Arco Quebrado

Estava errado, pois afinal não era para ter um final feliz,
Nas estrelas tal demarcado, e eu tratado como um petiz,
Até fui eu a escolher a minha dor do menu do coração,
Escolhi o júri, jurado e executor desta minha triste canção, 
 
E faltam-me as asas para poder ser voo, sua mão na minha,
Enganos após enganos, sim sou apenas outra alma sozinha
Sem lugar para ter sítio, sem sítio para possivelmente ter lugar, 
A esquecer lentamente o que é viver, a morrer por tanto amar,

Por baixo de um buraco, num arco quebrado cai a seta em mim,
Somos nós a regra partida de Cúpido, a dolorosa verdade assim,
Nem importa mais o caminho até agora trilhado, nada é importante,

O resguardo caiu, o refúgio fugiu, e neste trilho sempre inconstante
Sou peão e transeunte, com um beijo que de mim se foi esquecendo,
Se ela de mim já não é parte, então de mim me vou aqui perdendo.

Vínculos da Ausência

Confissões do poeta a um ainda visível rosto lunar,
Por entre a bruma, entre a noite a inevitável perda,
Entre os dedos ela escapou-se ficando um triste pesar,
O sonho sonhado lacrimejado da direita para a esquerda,

Passou o nosso instante, a distância reclamou o momento,
Dentre as margens ficou o afogado, eternamente encurralado,
Somos sepulcro, caixão e o espaço que percorre atrás do vento
E o coração é pó em cachoeira e através do tempo é enfim embalado,

E por fim não há beleza, já não há o seu olhar, nem aquela mão na mão,
Vem a brisa e o tumulto, vou por onde não sou sequer já encontrado,
É a vida a seguir caminho via trilho de vagão passando por cima do coração,

Estes bolsos de lembranças rasgados, este olhar novamente semicerrado,
É o reaprender a justificar o dado, o perceber entre o dizer sim ou o não
Ao próprio poema, mas a ela estou e estarei indubitavelmente amarrado.

terça-feira, 23 de abril de 2024

No Silêncio da Ausência

Silenciosamente, sussurramos os nossos apelidos,
Esticados por momentos alienígenas, algibeiras
Abertas por tempos incertos, enfim tão perdidos,
Por aqui é onde andávamos de mãos em rasteiras,

Aqui ecoam lembranças em surtos ao acaso deixados,
Nem poeta sou, não com este bater desassossegado,
A noite para estar confuso, dois trilhos desconectados,
Para esquecer e por um ombro desaparecido ser apoiado,

São pesadelos e cruzes no pavimento e sepulturas abertas
Somente para nós, com luz ou sem sol, por agora tudo bem,
O silêncio esperando ir adiante, são estas as horas tão incertas,

O tiquetaque é a lágrima batente, custa-me o mundo, dói-me a verdade,
Que é o fim, o absoluto fim, sem a despedida pelo comboio que vem,
Indubitavelmente sozinhos, esta é sim a minha eterna e única soledade.

A Despedida

Aqui divergem enfim os caminhos de dois perdidos,
Não mais temos a mão na mão, um futuro potencial,
As ondas oceânicas estilhaços nos dedos então urdidos,
Por mim, por ti, um para sempre a enlevar a ferida com sal,

Incompleto, fragmento da porção tida como um anseio,
Nascemos para um outrora podermos fenecer sozinhos
No abraço ofegante de uma liberdade onde me rareio,
Somos indiferentes perante o vindoiro redemoinho!

Prorrogáramos o inevitável fim, sem indulto ou perdão,
Este tempo e distância enfim serão campeões, a tristeza
É cair na real e perceber que sim, enfim perdemos o chão,

O resto é absolvição, o compreender que há também beleza
Na queda, na mágoa, na vontade terna de morrer do coração,
Pois se um dia fomos a altura, que sejamos agora a profundeza.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Lamento à Estrada

Desabafo suspiros na orla da branca estrada,
Perdido sem o seu fôlego, sem a sua beleza,
Nunca foi suficiente esta barca cá fragmentada
Para alumiar a luz com estes píncaros de incerteza,

Maremotos de saudade, tsunamis de nostalgia,
Durante horas, durante dias, senti-me completo,
Pois era porção e centro do tido como real magia,
E esse caminho levava-me face ao esbelto trajecto,

Desperdiçamos luz, sim, acredito que algures seriamos,
Mais do que alguma vez pudemos ser neste amanhã,
Sem esperança no ontem, por si nos quebraríamos,

Há uma lágrima que trago num beijo aqui protelado,
Adiado então para um dia que temo nunca vinda terá,
Esta é a triste sentença para o amador que há amado.

terça-feira, 16 de abril de 2024

Beleza e Solidão

Na solidão tão vasta e longínqua sua beleza ecoa,
Por tons oblíquos dentro de um silêncio cerrado,
Reverberando sua voz que por memórias entoa
O pedaço de nós dois pelo tempo não cobrado,

Sempre solitária, essa eterna beleza em si se revela,
Que não falte um sonho por cada noite e seu regresso,
Pois por e através de cada traço, há uma história singela,
De dois lábios sedentos dentre si e que em mim confesso,

Sua beleza e esta solidão, dançando em perpétua harmonia,
Por terna quietude, numa fonte que inadiável jamais cessará,
Em cada suspiro conferido sim virá um novo verso de poesia,

E por cada nova linha, uma nova tentativa de ver o amanhã,
Pois em boa verdade a sua beleza sempre encontrará sua via
Para o meu coração, somente um receptáculo para o que virá.

terça-feira, 9 de abril de 2024

Emaranhado

Passando por aquilo pelas poças de água reflectido,
A refracção no olhar aberto de vidros embaciados,
Faz frio entre o vazio e o efémero é sempre o ido,
O amigo do Outono quebra-se em partes e bocados,

E dos fragmentos parecem não advir belos momentos,
Somente mais restos de algo ao vento e brisa deixado,
Por isso me dói o ar e o peito sob estes céus cinzentos,
Sem conseguir prosseguir adiante perante o sonho adiado,

Resignado a andar à deriva sob um luar triste de solidão,
Vou por onde não me encontro, e por fim sou não encontrado,
E mesmo que vá e me encontre, já se me quebrou o coração,

Não obstante de quem por lá passou ou quem tenho amado,
A tentativa do adiante, a tentativa de novamente dar a mão
É ilusão do poeta, a desilusão do amador, sem voz no soletrado.

Entre Quatro Paredes e Mil Espinhos

Pesa-me o espaço onde sou porção fragmentada
De um homem procurando o Inteiro, à desfilada,
Falta-me um pouco de amor para me dar sentido,
Alguém que me dê a mão e carregue este apelido,

Lábios descarnados, apelo à eternidade, sabendo a lar,
Contudo tal pegadas na areia que pretendem não ficar,
São o fogo na água e momento para um olhar cerrado
E uma mão que não encontra a outra no outrora beijado,

E é tão difícil caminhar sem tacto neste lúgubre caminho,
Pois de todos os trilhos este é o que ocupo ainda sozinho,
Vai-se o sorrir, vai-se o sorriso, cai a bruma sem firmamento

Entre horizontes deveras distantes, assim me arrasta o vento!
E eu, entre quatro paredes e um tecto, deixo este triste poema,
Hei-de morrer de pé e solitário e com espinhos como diadema!

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Sob o Caixão dos Sonhos: Uma Elegia para a Busca e a Perda

Faltam-me sonhos para me manter acordado,
A cor própria da procura por o único semblante
Que leva ao inteiro, que busca o último bocado,
Que nos faz perceber a Vida e nos torna presente,

Desperto com sonhos colocando-os leves na algibeira,
Contudo é um oceano, é um deserto entre dois amantes,
Um labirinto e um abismo preenchem-me até chegar à sua beira,
Enquanto conjugamos dois particípios passados, somos distantes,

Quebra-me o coração e resguarda-o numa sepultura feita de plumas,
Cantando a eterna elegia, murmurando a cela em maiúsculas soletrada,
As carícias são parte do passado, as cicatrizes o que este poema perfuma,

E é o vento possante que nos arrasta para longe, sou só um transeunte,
Em breve para nos tornarmos estranhos na longa e branca estrada,
Por isso um último suspiro sobre o caixão, que sua resposta nos pergunte.

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Poeta Procura Musa

O seu olhar e nome é pelas árvores sussurrado,
Por ela, o doce receptáculo do carinho profundo,
Eu sou o poeta perdido, procurando ser beijado,
Enquanto vamos pelas bermas do ribeiro fecundo,

As formas onde a Primavera é em si adormecida,
São vultos acossando o poeta e a sua envoltura,
É convulsante e no chão, a donzela seria fingida
Ou seria ele o dono que um mundo cão augura,

Que se curva tal a vida, por momentos pungente,
É esta batalha que vai reabrindo a sua eterna ferida
E que lhe relembra o conforto que é estar ausente,

Mas amor com amor se paga, amor é bem aqui preciso,
Somos a estrada e veículo para a passeata perdida,
Somos fuligem para o fumo que de si é indeciso.

domingo, 31 de março de 2024

Entre Correntes e Saudades: Um Cântico à Solidão

Estas correntes que me encarceram nesta prisão,
São fruto daquela que deu a mão neste caminho,
É súbita a paragem, porém faz parte do coração
Mesmo que o trilho se torne bruma e eu sozinho

Lentamente vá por onde este sonho é destroçado,
Com relâmpagos e fuligem nas costas, a saudade
De quem passou deixando passos no aposentado,
De quem tornou de mentiras esta única verdade!

Quando o amor se torna em minúscula, e a insónia
É noite e de dia, o crepúsculo abraçando a escuridão,
Nossos batimentos cardíacos ao ritmo da melancolia,

Somos somente um apêndice na retaguarda da Vida,
Apenas mais um prego nesta cruz feita de solidão,
Só mais duas mãos desencontradas, a eterna dúvida.

segunda-feira, 25 de março de 2024

Entre Paredes de Cimento

As suas mãos brancas de lixívia, na sombra da aurora,
Brevemente teremos asas irmão, em breve encontrado,
O falhanço do desapego, este orgulho de quem namora
Uma tentativa de ser algo mais do que um beijo almejado,

E por onde quer que vá, simplesmente não há pertença,
Escorregando no resvalo da saudade, vou e não pertenço,
Este olhar chamuscado pela cegueira de uma quase sentença,
De coração quebrado, procurando o não de um falso pretenso,

De um correr esbracejando aos círculos, um amigo é sim preciso,
Entre quatro paredes de cimento não é o final que tenho ansiado,
Obcecado e perdido nos pormenores, uma lágrima pelo seu riso,

Sonhos sem sono ferem as nossas noites, e o hoje ainda não passou,
Era eu sim, procrastinando o quanto estava em relação a tudo errado,
O não ter pertença nem sei se esta é a doença ou a doença a si se curou.

domingo, 24 de março de 2024

Entre as Brechas da Persiana

Vejo-a entre as brechas na persiana num desfile singular,
E os meus olhos, tal enchente de maré, em calma matinal,
Lembranças e esperanças de momentos possíveis de amar,
Devagar, atiçando tempestades e verdades no beijo auroral,

Provocando-me almejos insaciáveis, os inabaláveis instantes,
De livros nunca lidos, porém estremecendo entre as letras,
Dessas memórias contidas nas páginas entre dois amantes,
Eternamente ligados pelo poder que em mim vais e soletras

Através de sonâncias e toques já esquecidos pelos mortais,
Agradeço a oportunidade, agradeço o ensejo por confissões
Que fui fazendo a um rosto lunar, o coração que entregais

Faz jus aos poetas passados na ternura das suas mil canções,
Bom dia, somente outro caso de graça, o sangue me estancais,
De resto, sou pertença daqueles que se perderam entre gerações.


quarta-feira, 20 de março de 2024

Além das Palavras

Sustendo as asas repletas de plumas neste escrevinhar, 
O poeta é pintor e o poema é a escrita no firmamento
Das sentenças a que lhe foi possível outrora reivindicar, 
Com esse pintar e esvoaçar por cada incólume momento, 

Sacro sacramento, o beijo dado aos céus sem pedir em troca, 
Precisamos de dar para além do que é possível cá receber, 
Passando os arcos das portas e o que seu fogo estoca,
À procura de algo mais inteiro que permita perceber

O porquê de pintamos palavras que vão de mão em mão, 
A pergunta é feita para finalmente podermos responder
Quando será que faz sentido beijar a corrente estação, 

Mesmo quando melhores dias virão e a lágrima secará,
Portanto ao longo infinito esta moldura iremos remeter
Até quando por fim formos e chegarmos ao lado de lá. 


quinta-feira, 14 de março de 2024

O Caminho É O Estelar

Os tesouros de uma existência na palma da íris são retidos,
Em simples instantes passageiros correndo enfim graciosos,
Por cada passo conferido, vejo-os no peito firmes e embutidos
Numa relapsão quase de mão na mão em vários olhares radiosos,

Deixando um trilho cadente, somos as porções de estrelas perecidas,
Por um Ver brilhante, almejando o bastante, nascidos do firmamento,
Através do esvoaçar das asas por fios feitos de constelações tecidas,
Nestes corações o pulsar de outras vidas passadas de outro fragmento,

Dentre salas vazias e com as ponta do dedo por ouro assim decorada,
A relutância perante o efémero, diante o meramente tido como humano,
Apontando para o horizonte e para a ponte que para se erguer é obstinada,
 
Almejando mais do que a própria Vida, anelando mais num brinde ao desengano,
Nesta passeata regida por encontros e desencontros, uma flecha na carne cravada
É somente ornamentação para o caminho, num lugar onde o caminho é o soberano.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Melancolia dos Inóspitos

E assim pousa outro dia, indubitavelmente sozinho,
As lágrimas nos olhos fazem ver que estamos perdidos,
Não obstante do trilho caminhado ou do próprio caminho,
De vidros azuis observando pássaros hoje, outros partidos,

Nunca fui suficiente, emendiquei amor por portas cerradas,
Através delas restam estas ruínas, este eterno sofrimento,
O restante ainda é quase poeta apesar das asas quebradas,
O resto é somente esta ideia e este verdadeiro sentimento,

Sim! Somos nós os inóspitos, enlouquecidos e inadequados,
Os alicerces caídos, raízes sem ramagens, pés sem viagens,
Se um dia regressarmos a casa, ao longínquo lar no estelar,

Saberemos sequer ainda que dentro de nós somos regressados?
A dúvida é eterna, e este olhar peão perante tantas miragens,
Talvez um dia parta e vá esquecendo por fim o que é este amar.