quarta-feira, 15 de maio de 2013

Um Pouquinho Mais: Então Muito Mais Seria

Um pouquinho mais e então muito mais seria
Algo diferente que jamais algures tenha sido,
Um píncaro de estrelas, uma pitada de magia
Eis a poção que nutre o homem recém-nascido

Cheio de coisas que são o espaço na algibeira,
Espaço esse que agora é este relógio entre nós,
Errámos para onde a casa não é em tal canseira
Que da ária que era nossa se apartou a una voz,

Destes lábios juntos, toda a embriaguez e perdição
Do olhar do poeta e de sua esperança e almejo,
Quão ansiava desejar, quão queria o sim e o não

Para reter no frasco que tragava a cada lampejo,
Aspirando e respirando para o poder dar a mão,
Resfolgado e viandado neste tão breve versejo.

domingo, 12 de maio de 2013

Sobre o Inteiro: E o Destino no Caderninho (Entre Luares e Dias de Verão)

As suas lágrimas caiam mais do que páginas havia,
Eu - as frágeis letras delicadamente escritas a azulino,
Sem fim, embaladas por ela que era a Lua desse dia,
Esbranquiçadas a azul onde imperava o sonho coralino

Nocturno e submerso, impelido através dos abrolhos
Linha a linha através da entrelinha de um dia de verão
Por onde já havia alguma poeira a cansar estes olhos
E a fatiga da viagem esmorecia o ânimo de dar a mão,

Contudo não desistíamos não, várias páginas faltavam,
Talvez alguns sorrisos algures a serem impressos também
Aí sabia que por vós em mim as brumas cerradas recuavam

Para ver o esbelto semblante desse cativante alguém,
Que me há cativado no escrito que os passos ansiavam:
Entre nebulosas e buracos negros por onde o Inteiro é além.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

... E O Rapaz Pt. V: Que Olhava Por Estes Olhos

Através do rio onde se espelhou outrora
O olhar reflectido era diferente mas igual
Na íris trazia os pincéis das cores da aurora
Iluminando nas mãos abertas um coração tal

Que o mundo ao vê-lo parava na precisa hora
E o velhote enrugado ficava catraio pequeno
A brincar com bola colorida no que era lá fora,
Sorrindo não pelo olhar mas pelo Ver enfim sereno,

Ssh! O mundo sempre discursa nos pequenos nadas,
Para o escutar é preciso parar e nosso ruído silenciar,
E… aceitar cada brisa suave e as tormentas danadas

Como prémios e ornamentos a este breve caminhar
Até mesmo as cicatrizes nas pegadas atrás deixadas
As aconchego bem perto do peito num irrestrito amar.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

... E O Rapaz Pt. IV: Que Deixava o Colibri Acontecer

Era a melodia da caixa de música entoada
Pelas persianas entreabertas um pouquinho
De nada mais e seria um pouco mais que nada
Pois no que aqui é enfim deixarei voar o passarinho,

Que sou eu e é de todos por isso a ninguém pertence,
Por vós e eu esvoaça ele através da brisa e tormenta,
Que ele aconteça planeado há quem ainda tal pense
Não percebem que o ruído deste mundo o afugenta,

Que ele detém a única vera politica, religião e filosofia
Aquela de quem é nos braços da brisa e a bem aceita,
Por vezes é a Lua invernal mas há vezes em que é dia

Então é a pluma no ar do colibri, a melodia que a enfeita
O sorriso do Sol, o beijo e o anzol numa sublime sinfonia,
E aí sim, é Magia... Nesta união que vai para lá de perfeita.

terça-feira, 7 de maio de 2013

... E O Rapaz Pt. III: Que Viandava Através da Estrada Branca

Se em vez de Lua fosse aquele outro dia
Colorido a crayons e embebido em poesia
Se em vez de pouco fosse só o bocadinho
Que juntava duas almas num só caminho,

Se em vez de lágrima fosse o azul do céu
E lá em vez da nuvem parda fosse só eu
Envolto pela noite alta na voz do trovador
Através do silêncio que é Sol e resto de cor,

Se em vez do destino fosse apenas a estrada
E de tudo um pouco quisesse pouco ou nada,
Sempre tão perto e longe à berma da viagem

Sem origem ou destino e sendo tão só à passagem,
Por aqui vou viandando sempre e sempre adiante
Até que o que era fica aqui enfim em mim distante.

sábado, 4 de maio de 2013

… E O Rapaz Pt. II: Que Colhia Faúlhas Uma a Uma... Uma... A Uma

Em admiração ele observava atento o firmamento
Algures por lá Ema bailava insciente à desfolhada,
Pequenas faúlhas caiam em oscilante movimento
Colhidas pelo rapaz deitado à berma da estrada,

Cada rodopio era rascunhado a régua e esquadro
Sendo em papel de marca de água por ele pendurado,
Suas mãos tinham nascido para pintar o seu quadro
E o seu olhar para verter em memórias o tão ansiado:

A melodia que era dela e que era sua pertença também,
Às vezes lamentava cada pestanejar pelo então perdido,
Ela era a visão estranha tão familiar, seu tudo e seu ninguém

Onde o resto passava e raramente ficava após ter partido,
Porém ele era enamorado por ela e por ela cativo e refém
E era ela a ocasião nele emoldurado e no seu olhar retido.

... E O Rapaz: Que Vivia Sob as Estrelas Cadentes

Encontrai-o em sítios abertos e arejados
Onde se ouça o cicio do ribeiro aligeirado,
Das estrelas revendo em si mil bocados
Aqui por fim e finalmente reencontrado

De pés descalços a beijar a relva verde,
O rosto delineado pela brisa da viagem,
O sedento de tudo enfim de saciada sede
Prostrado à lua nova pela breve passagem

Agora ele vive, finalmente ele é na Vida!
Não há tormenta ou sequer bruma no olhar,
Há um brilhozinho tornando a viagem sentida

Aqui finalmente, por fim e enfim basta o bastar
E quando a brisa o beijar em terna despedida
Que se lembre que um dia soube... ele soube ficar.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Eu, Tal Orfeu Pt.III: Saltitava, Submerso no Viandante

Aquelas eram as noites dos três murmúrios distantes.
Esboçando sorrisos suspirava através da branda brisa
Que rodopiava em espirais por escadarias ondulantes,
De mãos e braços esticados à Lua estava Rosa - a poetisa.

Ema espreitava, porém raramente olhava para baixo,
Saltitava de nuvem em nuvem sempre amorosa e ligeira
Confundindo-a com Orfeu apenas algumas pegadas abaixo,
Esse viajando dentre avantesmas largando o trilho à poeira,

Por vezes tomava Rosa por Eurídice e invitava-se ao escape,
Essa fuga era para o Sonho de Ema ou para o sono de Rosa,
Que nem Ícaro esvoaçava desenfreado entre Vénus e Marte,

Arrebatado ele era o pouco demasiado, o poema em prosa
Em vagão destravado, o caldo entornado no que é à parte
Nesta propensão à grande ascensão e à queda buliçosa.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

À Brisa e ao Mar Pt. II: A Aldeia da Criança e do Velho.

Hoje não, não haverá o vulgar alarido da mente,
Ela é aldeia e sossego situada em lugar incógnito,
Envolvida por água cristalina iria contra a corrente
Porém não hoje, hoje não há lugar para tal frémito,

Hoje são, são passarinhos a bailar e flores a crescer,
É hora de apanhar e soltar borboletas após o beijo,
Até quase caio na tonta ousadia de voltar a crer
Que o Universo é tão sublime tal e qual como o vejo,

Tudo é maravilha quando envolvido em mãos de criança,
Este olhar torna-se pólen voador, sorriso e bola de sabão
De lado para lado nessa tão esporádica e delicada dança,

Tão sincera como a lágrima que lhe delineia o semblante
Que embala o velho para o sonho nesta bonita canção
E que à chegada ambos acomoda dentro do viandante.

À Brisa e ao Mar: (Em Maresia) Pintando Escadarias para o Céu

Aqueles eram os tempos do não olhar para trás
Deslizávamos distraídos atrás do candor da maré,
Nossos lábios entre o azul e o vermelho eram lilás
Tolhidos pelas suaves ondas contudo em tal banzé

Que Deus era através de nós e nós éramos através dele,
Seguindo o Sol fazendo escadarias para o horizonte
Poucos percebiam o precioso sorriso que era daquele
Instante cativo e que de resto era a nascença da fonte,

Vinham as planícies, os vales, as montanhas e os penhascos
O viandante apenas era quando a brisa se reflectia no rosto
Cujo melífluo sabor preservava num multicolorido frasco…

Para tragar pela viagem e para beber o outrora eclipsado,
A berma da estrada para a cabeça era aprazível encosto,
Para sorrir e chorar às pegadas, para sustentar o ansiado.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Ao Sono: Pois Permite a Concretização do Sonhado

O recosto da almofada dá este dia por acabado...
Assim cedi, eventualmente sendo pela alvorada
Entre o despertar e o acordar então retratado
A pinceis suaves e borrões de sulcos da estrada

Que tudo me dão e que neste ir nunca dão nada,
Há portanto de aproveitar a brisa desta paisagem,
Respirá-la, senti-la e sê-la por onde ela for levada,
Da alta e baixa sou e faço parte tal como a folhagem

Que esvoaça e é pisada porém de vista no horizonte
Vale sempre a pena, vale sempre a pena quando se é
Pois o tudo e nada são irmãos que precisam de ponte

Para tudo o que é e certamente foi e talvez um dia seja
Em mim… sempre enfrentando o céu e o abismo até
Que durma… Perceba o porquê… e que enfim Veja.

Truz-truz-truz: ... Assentado

Este sono é pertença entre pálpebras semicerradas
Onde os cantos das paredes escutam as confidências
Feitas ao rosto da lua quando só a lua nova é escada
Para o sublime pincelado onde se esboçam as ausências

De quem por lá passou e ora as desceu ou então as subiu,
Deixado para trás ficou o aqui neste ténue almejo suspirado,
O sonhado concretizado que este olhar um belo outrora viu,
Gentil e suave, como batidas sobre o caixão levemente baixado

Truz… truz… truz… seu semblante é neste tão formoso sorriso
Chorado por diferentes segundos alguém num dia já percorrido
E tornado passado em tal rapidez através do meandro indeciso   

Que por vezes até duvido que a Vida tenha realmente acontecido…
Vem sono, traz-me o Sonho, da sua concretização ainda preciso
Pois o ser na Vida para um dia beijar bem a morte assim faz sentido.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Por Mundos e Mundos Pt. II: Aonde a Brisa ou a Tormenta o Levar

Através da vista onde ainda a trago, revisto a vida,
Seu reflexo é óbvio no sincero beijar do beija-flor
Que traz o coração à flor, dá-lhe cor e à despedida
Não pergunta se deu ou recebeu pois ambos são amor,

A brisa é a passageira por onde ele esvoaça alado,
Há mundos e mundos todavia apenas um beijar,
Ao vê-lo no ar dá para apontar o rasto deixado
Onde rodopia e parte pois ainda não aprendeu a ficar,

De instantes vem a espera, o esvoaçar e a nova partida,
Para esquecer as gotas do tempo que bebia outrora
Fazia por deslembrar aquelas três palavras na Vida,

Tentava e estrebuchava, tentava e cambaleava torto,
Ferido, compreendia tudo, percebia todos e à demora
Do tempo o mundo não passava e ele tombava morto.

Há Mundos e Mundos: Porém Apenas Um Beijo do Petiz Beija-Flor

“Olá, Eu Amo-Vos, Adeus”: quando o dia termina
Soluços pendem aquelas palavras e frases inauditas,
São nos restos fragmentados que ofuscam a lamparina
Que se prostra de joelhos a vida face às horas malditas,

Já nem apetece respirar ou escutar o bater do coração,
A criança que catraiava jaz neste seu vil silêncio interior,
Visito-a por vezes nos riachos onde tento dar-lhe a mão
Onde raramente sei se a deixo ir ou a embalo num cobertor,

O beija-flor raramente repara no que é na sua proximidade
Contudo quando beija uma, ela torna-se no seu amor, seu tudo,
A sua saúde por aquele sorriso, das suas lágrimas - a enfermidade

Porém nada, nem este céu em redor delas ou a sua cor são meus
Tenho sempre em mente que a brisa passa por aqui sobretudo
Por isso ao vê-la sempre digo: “Olá, Eu Amo-Vos e Adeus”.

Sobre o Reflexo: Através da Vista Onde a Trago e o Revisto

Aproximai-vos e espreitai para o espelho
Através do canto deste plácido olhar,
Dizei-me, vislumbrais o miúdo ou o velho
Que este rapaz foi e que um dia se irá tornar?

Ou vedes o instante neste actual presente
Por vezes invocado pela noite infinda
Outras onde é o abrir da aurora luzente?
Quando o partir tantas vezes soa a revinda

Ao sítio donde partimos naquele outrora
Polvilhado na vista, no reflexo inda vos vejo,
Trago-vos em cada olhar por cada arquejo

(…em cada agora…)

Seremos o reflectido ou aquilo que supomos (Ser reflectido?)
Ouvi! Parti todos os espelhos e nesse lampejo
Que eles nos mostrem por fim quem somos.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Sobre o Coreto Onírico: … E as Pegadas na Areia

Meia pegada deixada no rosto da areia,
Aqui somos o fragmento do dia incompleto
Pela noite dentro o avistar da luz encandeia
Vacilámos pois errantes na ausência do coreto,

Uma pegada dada, de pé em pé a salto
Aqui pulámos e andamos ao pé-coxinho,
O mundo precipita-se em imenso sobressalto
Hesitámos sim… mas vamos indo devagarinho,

Duas pegadas na areia e deslizámos enfim,
A viagem é a brisa no rosto e o vento o rasto
E que frescos ambos são ao passar por mim,

(Agora…) Quatro pegadas eventualmente serão uma,
Cobrirão então toda a porção deste areal tão vasto
Sim, ainda voaremos leves no adejar dessa pluma.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

As Suas Flores Pt. II: De Instantes Vem a Espera

Pensávamos no imaginar tanto e tanto maior,
Mesmo quando éramos tão e tão pequeninos,
Os pedaços que éramos também eram no beija-flor
E passavam por nós e pela aragem aos bocadinhos,

Silentes e pelo silêncio em tal alarido estapafúrdio
Além do que era, era o beijo de semente a semente,
Em nossos bocadinhos deste nada e naquele tudo
O que nele era, tanto e tanto ainda era no ausente,

Do coração enfim a parar, o saber não conseguir estar
Passava tudo, passava tudo, passava tudo e nada era
Como eu naquele momento e no seu instante ao luar…

Como o Sol eu a perseguia… tal como eles, eu à espera,
Ter esses instantes, altos e belos nesta parede a ornar
O mais do que tudo aquilo que ali parecia... oh quem dera!

As Suas Flores: Eram a Gota do Tempo

As suas flores eram as minhas horas
A gota num imenso oceano de sede
Onde os segundos esperavam auroras
Então encurraladas no quadro da parede,

E eras a água pelos desertos esfaimados
Onde jaziam os desejos feitos de tudo,
Para tocá-los faltavam beijos e bocados
Dos fragmentos feitos deste olhar mudo,

E o passar não passava obstinadamente
Então nada mais passava ou era passagem
Para além do que era para lá da mente,

Era assim o tempo em porção de aragem
Onde o sonho esquecia meu nome finalmente
Aonde suas flores eram estes beijos à viagem.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Eu, Tal Orfeu Pt. II: Deslembrámos As Três Palavras

Três palavras que completem esta trova
Que concedam descanso a esta insana lida,
Que sejam a terna almofada, manta e alcova
Que soem ao retorno ao lar, à costa querida,

Aqui não tem sido a Vida ou a Morte a pulsar
Tem sido o meio-termo de vista semicerrada,
De punhos fechados que esqueceram o abraçar
Da eternidade imensa do sonho na vista almejada,

Que eternidade terá então o instante esvoejante?
Tudo parece ósculo de colibri à chuva e ao sol
Encurralados por garrafas donde bebe o viandante,

Azuis, tal como as três palavras que ainda aguarda
De dedos esticados e braços abertos à luz do farol
Pois da névoa para ele... elas são o seu tudo... o seu nada.

sábado, 6 de abril de 2013

Eu, Tal Orfeu: Após Eurídice

Há segredos que nem as paredes devem saber,
As esquinas já os conhecem e já os esqueceram,
Há becos e cantos cuja passagem é o perder
Dos passos atrás dados e o que estes souberam,

Era ela, sempre à distância de um longo suspiro,
Beleza em frágeis delicadezas adiante projectadas,
Para lá dos degraus aonde suave e lentamente espiro,
Algures… as suas pestanas por estas eram beijadas,

Agora são esqueletos no armário e monstros sob a cama
Daquele cujos lábios amontoam fracções de constelações
Ora tornadas na aventesma que este nome ainda chama,

Frágil e delicadamente ecoa e ecoa numa suave lentidão,
De olhos bem fechados passam não passando as estações
Pois o tempo não é tempo aquando da bradicardia do coração.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

… e o Mundo Parou e Disse: Viandante És o Espaço

“Viandante tanto e tanto tens viandado
Que já nem sabes o que é estar como eu,
Tanto riso e pranto aqui tens partilhado
Que do que tens dado ignoras o que é teu,

Indiscretos, serão imensos os pequenos nadas
Erigindo um castelo que rascunhe partes do céu,
Serás ainda a saudade nas ocasiões não passadas
E o tempo escondido na tribuna de quem é o réu

Entre e onde a terra se mistura com o firmamento
Sendo o horizonte que a todos toca e a nenhum chega,
A aparente linha que se divide a cada novo momento

Onde o tempo passa parado, aguardando por nós,
Sem tirar ou dar pois somente o partilhar sossega
O espaço maior que o imenso e que dele é a voz.”

Aos Amadores: Esses Poetas Disfarçados

Não ao Amor de acordo pré-nupcial esterilizado
Feito reciclável e cómodo para sacos de plástico,
Aquele que à meia-vida é o reboque ou vem atrelado
Pois não é Vida nem é Morte, não é o ser no fantástico!

Pretendo apenas daqueles amores loucos e impossíveis,
Daqueles mesmos enfermos que saibam à doença
Que torna os ligeiros contos em factos indiscutíveis
Pois um dia ao olhar para trás serão a única pertença,

Torturado morrerei por cada beijo a rosas deixadas para trás
Somente assim saberei o quão curta e bela é esta Vida,
Os veteranos da Guerra das Flores raramente terão paz,
Porém almejá-la-ei com o peito todo fazendo-a sentida,

Ao longe vejo as pessoinhas de batas e luvas brancas ao peito
E sinto honra de ser pelo tão obviamente ridículo e patético,
Sem utilizar diminutivos para a Vida em fôlego rarefeito
Ou vulgarizando o coração de namorico em penico,

Outros riem-se de dedos apontados às próprias costas,
Não sabendo que desta maldição sou o abençoado
Pois à passagem das ruas, dos vales e das encostas
Do trilho esta é a única coisa que o torna digno de ser pisado.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Para Além do Eviterno: O Que É Que Fica?

Aqui, esta almofada é o ombro ansiado,
Brilha por nós quando a noite é branca,
“Já falta pouco” – dizia em tom sussurrado:
“Esta é a respiração que o mundo estanca,

Só mais um pouco, só mais um bocadinho
E acordaremos para a jovem e moça manhã
Tendo a batida do coração o único caminho
Verá a noite reconciliando-se com a sua irmã”,

Ainda a chuva caí mais do que aqui brilha o sol
De amores perdidos e horizontes por alcançar,
Indecisos conhecendo a ausência que é farol

No nevoeiro do beijo que no eviterno perdura
Pois sem ele jamais saberei o que é o beijar…
Peço ínfimos eternos até à vinda da sepultura.

terça-feira, 19 de março de 2013

Um Beijo: Ao Céu Que nos Abriga (E a Tudo Que Contém)

“Se te traçasse as galáxias escusas em meu olhar,
Envolvê-las-ias?” - suspirava Mirto face à bela Oressa,
Enamorando-se das estrelas em pincéis feitos de mar.
- Rascunha novamente Ema na noite antes que alvoreça!

“Pois este aqui vai passando por cada novo palpitar”
- Elevando sua mão do azulino em busca de beleza
Por vezes recolhia-a outras não lhe conseguia chegar,
Eram grinaldas de luz, ofertas de Ema em tal delicadeza

Que em mente, sabia que ela era maior que todo o Universo,
De que para o Inteiro não há preço e que bom é sonhar
E conseguir retornar o sonho ao plano infinito de um verso

E que imenso privilégio é poder dar, dar, dar, dar, dar!…
Pois eu sou o resto e o resto passa mas deste nosso berço
Há refulgências e o beijo às estrelas ainda permite voar.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Aos Homens: Que Esqueceram o Seu Nome

Alguns homens já nascem velhos,
De olhar mirrado e peito escavado,
Seu semblante é fosco à vista de espelhos
Que revelam as lacunas do que há passado,

Estranham-se do caminho longo para casa
E da fragilidade do abrir os braços ao mundo
Ou quão belo é aquele adejo de asa em asa
Nas cores do olhar do incontível vagabundo,

Estas ruas tresandam a quem por lá passa
Contudo parece nunca por lá ter estado,
Estranho este estado que a alma estilhaça

Estranho até o suposto palpitar afinal silente
De quem tem tido amores mas nunca há amado,
Há existido porém não sido, nem atrás nem à frente.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Os Segundos Eus Pt. II: Do Ontem ao Adiante

Há ruído de fundo no fragmento do outro
Aquele, aquele que raramente é assumido,
Por colinas e vales por vezes ele é noutro
Lugar a metáfora ao momento não retido,

Naquele instante onde ele não é quem sou
Porém basta um pouco de brisa ao ouvido
E eu sei, eu sei que o mundo por onde vou
Será outro, o universo neste Ver renascido,

Toda esta vida apenas num olhar que veja,
Temos sido observáveis mas raramente visíveis
E as pegadas têm ficado no caminho ou seja

Não vades: Aquilo de bom e todos os impossíveis
Pois o resto será e passará sendo em quem verseja
Aqui o testemunho do toque aos ensejos tangíveis.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Os Segundos Eus… E a Viagem Pt. III : Venham os Próximos

O viandante caminha o que vai andando
E nessa passagem a Vida é em si passageira
Pois o percurso raramente vai abrandando
Porém sempre é, em vitalidade ou canseira,

À viagem o viandante vai-se indo e se esquece
Vêm os segundos revendo as ocasiões em que foi,
O mundo o esvaece mas porém quando acontece
Consegue tornar o vil covarde no maior herói,

Aquele que retorna do além fragmentos de Deus,
Uma a uma posta numa grinalda de fulgores vivos
E a partilha proclamando: “Sejam acima destes eus

Que em segundos passam pela berma do mundo”…
Ansiando que as empreguem em feitos significativos
Ínfimos ou colossais pelas pegadas do vagabundo.

quarta-feira, 6 de março de 2013

A Vista: Do Olhar do Poeta

A menos que as vejam do alto da colina
Ou até mesmo do fundo de uma ravina
Jamais sabereis as cores da vista do poeta
Podeis então tirar vossas cores da gaveta?

Aquela onde estão os risos daquela infância,
Onde dar a mão não era de todo prisão
Era pular e correr sem notar qual a distância
Do corrido e era saber… de coração na mão

Que o simples é perfeito quando enfim acontece
Que o resto passa e que o mundo se esquece…
Lembrai-vos pois de quando apontáveis estrelas

Pois quando as apontais vós sois a visão do poeta
Sorrindo elas para vós silenciando a ampulheta
Relembrai-vos… para tê-las aqui só é preciso sê-las.

terça-feira, 5 de março de 2013

Os Outros Dias... e a Viagem Pt. II: Por Janelas Abertas

Vem outro Sol através do nascer de um novo dia,
Ainda é muito cedo para o tanto já viajado,
Preciso de repouso pois do ponto donde via
A areia do tempo ainda encobria o já elipsado

Sendo que da parte do que passa que fica connosco
Há várias outras partes que ficam para o que é lá trás
Fulgindo no vidro azul progressivamente mais fosco
Onde todos aqueles segundos se foram pelas manhãs

E em boa verdade, ainda habitam no que aqui é,
No eu viandante em aceitação do que acontece
Agora e aqui dentro ao que está lá fora seja até

Maior do que o que a Lua ontem por cá e aqui deixou
Na parte que tirou como se tirasse tanto quanto desse
Através das janelas abertas pelas quais não espreitou.

sábado, 2 de março de 2013

O Dois... e a Viagem: Eu Crio Enquanto Falo

Estes olhos as pálpebras têm aqui beijado
Doce e suavemente viajando pelo além,
Sendo no conteúdo e da forma desapegado
Traz-se cá para baixo lá de cima este alguém,

E como o mundo é tão grande e tão pequeno
No dois a viagem é o que se espera alcançar
Do limiar da insanidade até ao percurso sereno
As correntes das pernas hei-de a todas quebrar

Pois assim se constroem as escadas para o céu
Eu brilho, eu ardo, eu brilho, eu ardo sozinho
Neste lene silêncio, neste estrondoso escarcéu

Onde brilhámos, ardemos e somos p’lo remoinho...
Agora magia… se exprimisse este sentir por palavras
Não chegariam as letras de “A” a “Z” ou mil abracadabras!