terça-feira, 26 de abril de 2022

Frente ao Coração

Incendiamos amanheceres em valsas feitas ao pé-coxinho,
Através de suspiros silenciosos que não esquecem a eternidade
Ou um outrora de cores pintadas ora depressa ora devagarinho
Que convidadas à ausência de fulgores vou supondo à reciprocidade,

Esprememos as noites da sua bruma, daquilo tido como real escuridão,
Dançando a pé-descalço na parte funda do lago, de olhares sossegados
E de almas preenchidas, enxaguadas dos seus caminhos, da sua moção,
Se dependesse de mim seriamos todos pela luzência do sol tocados,

Pincelando as estrelas e os astros cadentes num pouco mais de proximidade
Daquilo que somos supostos ser, perto do que tem sido só esquecimento,
O legado silente do testamento tácito, o Inteiro e a sua completa serenidade

Para um dia olvidar os apelidos terrestres aprendidos e a sua confusão,
E poder chorar de tanto rir estando entre este divórcio e casamento
Enquanto vêm os dias em nascente e corremos em frente - frente ao coração.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Distinção

Há presenças pelo esquecimento que se vão esvaindo,
Com olhos embevecidos em aléns de perenes procuras,
Cantando uma canção misteriosa que a si própria se traindo
Vai apagando os lampiões e velas deixando ruelas escuras,

Por onde semeamos silêncios e o seu subsequente alarido,
Através dum tempo que não é nosso a ampulheta quebrada
Reflecte o outrora e o para sempre, num beijo quase preterido
Em espelhos, o sorriso e dia soalheiro para ser encoberto na estrada

Branca onde o luar é bebida e sede para quem se atreve a passar
A ponte que liga as margens, saudades dessas memórias queridas,
Pois trago a poeira dos passos que não dei na algibeira, o caminhar

De mil poetas que nunca chegaram, a solidão do altivo sonhador,
Lugar e abrigo para a claridade, não obstante das chegadas e idas, 
Neste momento onde aqui distinguimos os fãs dos eternos amadores.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

O Primeiro e o Último Verso

As plumas que eram parte de asas espalham-se pelo chão, 
E eu, aprendiz de Ícaro, por ventos e tormentas subjugado,
De joelhos prostrado, suplico a quem me confira a sua mão,
Pois os danos da queda deixaram-me um pouco desamparado,

Procurando o céu e a abóboda inatingível tal rua e recreio, 
O anjo caído feito poeta inquisitivo, feito em indómito astro,
Adormecendo nesse pensamento sem qualquer medo ou receio,
Largando assim no celestial um rodopiante e cadente rastro,

O corrimão para o além vem para aqueles que são ousados,
Para os que recuperam luz da treva e da sua nebulosidade, 
Pois no final serão sempre esses os infindáveis bocados

Que satisfazem o Inteiro, Deus a falar através do Universo,
Trazendo finalmente para o terrestre Sol e a sua claridade
Criando por fim na e da alma o primeiro e o último verso.

domingo, 10 de abril de 2022

Para Me Abraçar

Acolhe-me o voo dos pássaros, um desabar de solidão
Dos apelidos que sobrevoei, as flores, as pedras atiradas
Aos meus pés, esta história contada no bater do coração,
Pelo menos o rio sabia o nome destas cicatrizes demarcadas,

Estas pálpebras com o horizonte pintadas, em breve serei um caixão,
Há que viver esta vida, levar o pincel à tela e senti-la perto, sentida,
Suspeito por procurar e por fugir de quem me quis outrora dar a mão,  
E estas carícias tornadas retoques, por curva e contracurva proferida,

Abscondido do lume de dois lábios, das sombras no quarto do poeta,
Fugidias onde o tempo se foi, memórias em jazigos, no olhar o beijo
Há muito perdido na rua tal aquele que do amor se tornou proxeneta,

E eu entre margens, sem ir e sem ficar, sem partir e sem um dia chegar,
Bebendo de minha sede, a procura da espera, o anseio tornado almejo, 
Quando virá aquela donzela para preencher o abismo, para me abraçar?
 

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Nunca Encontrei o Meu Poema

Então ela sussurrava: "Nunca encontrei a minha poesia",
Por campos e prados de um outono que não parecia acabar,
Um relance ao sorriso do sol que sabe os píncaros de magia
Que foram passando, tépidos e mornos antes do mundo desabar,

Então ela pedia ao vento para permitir que a Lua esperasse 
Por almarges e pastagens, levava o suspiro a novos lugares,
Num último carinho suplicando para que o verão voltasse
Qual nascente e poente, por beijos tudo menos vulgares, 

As saudades eram de um tempo ainda por vir, tão reais, 
Ao som de um piano de fundo, um ruído minimalista
Preenchia-lhe o olhar o caminho de passos imortais

Quando tudo o que pretendia era de um astro o toque, 
Pois o coração ardia, naquela alma tão sentimentalista, 
Que assim traria o âmago do éter atrás ou em reboque.

segunda-feira, 21 de março de 2022

Lamento do Sonhador Que Vai Deixando de Sonhar

Sussurra-me um cantiga feita de altitude, 
Saudades da bênção do coração, do aqui, 
Das profundezas da minha enorme solitude
Queria contar com a ventania das asas do colibri,

Estas palavras confundem-se com a voz da brisa,
Quanto tempo esta espera tornada em mim procuras,
Estranho este semblante que fala tal uma doce poetisa
Que vai escrevendo linhas da mais alta das alturas,

Rosa és falta, uma memória tornada em recordação,
Entardecendo,  que me vai trazendo o sono da morte,
Inverno longo tornado em história, tornado em ilusão,

E eu, eterno sonhador eternamente buscando a sua consorte,
Sou o primeiro a sorrir, a recair neste lúgubre fado canção
Quando apenas pretendo saborear a vida e largar a morte.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Para Quem Vai Deixando De Sonhar

Há um pouco de vida no cadáver na morte,
E um dia sim seremos escuridão e então?
Na vida somos seixos um pouco à sua sorte,
Uma comédia deixada à metade do coração, 

Linhas ainda por traçar, pontos mal desenhados, 
Enxovalhados, retratados por instantes de espelhos
Envolvidos por dobras de lençóis amarrotados,
Sujos por dentro, portões mal fechados por velhos,

E há vontades de escrever, porém sou desconhecido, 
A queda do sonho quando para trás o vamos deixando, 
Tenho tantos ainda por cumprir, esse anseio embevecido, 

Subam ao mastro, há um pouco de vida por viver, por ver,
Apesar do medo de ao nada a cometer, vamos beijando
O céu há hipóteses ainda para permitir ainda aqui ser.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Retraçando os Passos Onde Encontramos Amor

Numa tela vai-se pintando uma valsa de alvos vestidos, 
Sua pálida pele, silhuetas latejando dentre a distância,
Não precisamos de uma canção pois há ecos contidos,
Reparem, aqui encontramos Amor e a sua relevância, 

Ele enfim se encontrou no silêncio, absolutamente perdido, 
Suas vozes irascíveis, por utopias que precisam de remédio, 
Esta fantasia é um vazio gritado por teres o sol concedido
E no seguinte segundo o teres coberto a Lua em tal repúdio,

Cerrando os punhos, fechando os lábios, o exílio da madrugada,
Deixamos a crença para trás, o almejo de respirar um sonho lindo, 
De um amanhã que se tornou no passado de uns outros pés à estrada, 

O seu abraço, o meu olhar, uma ode à perfeição em substância, 
Desperdiçamos o que outrora fomos, esse néctar vai esvaindo,
Reparem, aqui encontramos Amor em toda a sua importância.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

A Queda de Ícaro (Poeta) e o Seu Som

Este é o burburinho da ruela, mera conversa de esquina,
Estrelas cadentes recaindo em braços suspensos no ar,
Simples fotografia do mundo na alma de quem imagina,
A queda de Ícaro na perfídia desta luz demasiado invulgar,

Curvo a cabeça perante o conter de instantes acumulados,
Fragmentos de uma Vida inteira, destilando na ampulheta,
Embalado numa cadeira de sonhos, fracções e até bocados,
Para o além, para o longínquo até ao lugar onde alui o poeta,

Alguns vão dizendo de que o seu corpo jamais será encontrado,
Haja ou não escadas para subir ao céu, sem sonho, de cama desfeita,
Pois são tempos estranhos quando o último anseio é da Lua pendurado,

Quando só queríamos a aurora, a madrugada de um amanhecer por vir,
Esta é a sua queda, o quão apetece tornar em viúva esta ânsia imperfeita,
Esperanço que ele sonhasse com Glória, livre enfim num sorriso, num ouvir.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

O Tentar

O murmúrio do riacho vai alçando as plumas do vento,
Lembra os quilómetros feitos, o tempo em cada perna,
As lágrimas, sangue e suor deixados por cada momento,
De uma outra partida e destino sob a luzência da lanterna,

Esse suspiro quase indelével é vínculo para uma eternidade,
Tal passo ligeiro no corredor do Universo atentamente a ecoar,
O som esmorecendo, haja luz entre esta terna nebulosidade
E vagões nos trilhos e esses trilhos enfim remetidos no olhar,

Pois hei-de a ir buscar, essa verdade em aparência distante,
E retornar partes da tela levemente como uma alba a renascer
Dentre a fagulha nas rugas do rosto de uma criança diletante

Que vai à procura de cometas e astros sendo a subir ou a descer
O sonho, amarrando pedras nos pés também para ficar, não obstante,
Do abraço ao colhido, ao voo desgarrado, do tentar e tentar e tentar viver.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

A Esperança Voltará

As pegadas ecoam no espaço entre esta poça e eu,
Parece que já passei por aqui, aqui jazem lembranças
De pedras lançadas em lagos protegidos por um luar seu,
Era um caminhar sem o poeta se sentir perdido nas andanças

Que eram suas, as estórias contidas no vento e véu do instante,
Levadas para outras possibilidades, levadas para outras cercanias, 
Por lugares por encontrar onde nos escondíamos da nossa amante
Enquanto o presente era levado para o longínquo por certas ventanias,

Sua fragrância persiste no mínimo detalhe da mais pequena coisa, 
Luzindo entre memórias e tecidos agora rasgados ao esmo da estação.
Hoje ainda vai preenchendo o canto do olho onde um gentil colibri poisa,

Dentro de um raio de Sol ela virá um dia e quando cair a chuva virá também,
Ergue-se o turbilhão, levanta-se a tempestade, o aqui é propriedade do coração
Que sem objecção permite a vida acontecer onde a espera e procura ainda bebem.
 

sábado, 29 de janeiro de 2022

Entre o Ver e o Horizonte

A minha voz canta cantigas feitas somente de amor,
Ao clique vagaroso do tempo onde lacrimejando
Vai rascunhando apelidos dentro de bolhas incolor
Tal sonho presenteado em cada trilho alcançando

A Aurora-Boreal, o jardim de Éden, a absolvição e redenção,
Acalma a calma, as flores crescem e o sol brilha intensamente,
É a manhã vindoura, a aventura reconhecida do coração,
Até ser colhida pela noite quase assim de repente,

E esta saudade do que está por vir palpita na alma,
Embalada por quilómetros em perspectiva efectuados,
Somos abreviação de uma estória guardada na palma

De uma mão fugidia dividida entre o horizonte
Pois defronte a sua linha e seus poderes ilimitados
Para um ver que não se encerra por enfim ser a ponte.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

As Coisas Por Trás Do Luar

Divagações entre os lençóis de uma manhã adormecida,
Traições de uma flor que para o sol não se floresce,
Dentre o orvalho há um trilho de uma imagem querida,
Em frente de um amor que frente a si se entristece,

Sussurrando que estas são as coisas por trás do luar,
Bastando um pouco de paciência, de constância,
Assim os vagões encontram os trilhos e em nós há lugar,
Pois de onde vim agora só há o vento e a sua distância,

Estes rostos ornamentos para roupas desgastadas de areia,
Veste o tempo na ruga e cicatriz de céus outrora coloridos,
O nome sempre o mesmo, porém vai mudando a candeia,

A fome de infinito, de mais, estejamos achados ou perdidos,
Satisfeitos pelo universo reluzente habitante nestas veias, 
Perfeitos são os desígnios superiores pela abóboda difundidos.


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Num Momento

Trazendo o Sol, a esperança é a última a morrer, 
Sob a língua que chama, o prefácio debruçado,
Vemos o mundo saindo da orbita, a esmorecer
Num fragmento do inteiro, a porção do bocado, 

Desabafo uma lamúria onde o vento é senhor,
Os caminhos de contracurvas, ai que saudade,
Por onde íamos sem caução, somente com amor,
Só assim encontrava-mos o trilho para a felicidade,

E desta forma podemos acabar com esta tristeza
Independentemente se sozinhos ou acompanhados,
Tal como o Sol nascer amanhã, essa é a única certeza,

E quando chegarmos saibamos dar-nos por partilhados,
Fechando os olhos, nessa escuridão prospera beleza,
Sê-a, indómito e leve, num momento por fim amados!

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Pintando A Paisagem

A viuvez das cores vivas transbordando na palete, 
Ao centro, esquerda e direita, o pincel é dançarino, 
Traçando os berços e urnas em cima do cavalete
Vai extravasando para um único instante e destino,
 
Suas cores, sinais iridescentes duma aragem passada, 
O ponto preciso, sempre esvanecente, sempre presente,
Nascendo de palavras jamais ditas, vem a debandada,
O poema na mão concebendo um turbilhão ascendente,
 
Da tela para a paisagem, assim também sou rascunho,
O Ver é o pincel, a alma a tinta mediante a sua idade, 
E heis a obra-prima de uma vida de linha a gatafunho, 

Entre a terra, o mar e o céu, sem divisas nem bandeiras, 
Vestido com a vestimenta do divino, sem vaidade, 
Só saudade de quando nossas mãos eram companheiras.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Uma Estória Digna De Ser Contada

Preenchido trazendo vento nas palmas das mãos,
Levantem as âncoras, baixem as velas dos mastros,
A carteira vazia, pois, vem cheia a algibeira de bênçãos,
Podendo não ter muito a mostrar, temos histórias e rastros

De quem passou e viu sóis e luares a nascer e a se pôr,
Porque há estórias ainda por viver e a um dia a se contar,
Este céu, abrigo para quem mais que o deseja, é nosso amador
Que sorrindo se lança querendo o eterno um novo dia alcançar,

E ao ecoar, ecoa dentro de uma perpetuidade jamais capturada,
Assim se plenificam os bolsos com belos momentos e instantes,
Cada um deles quase, quase tocado, de mente aberta e alma focada,

Deste ponto adiante de certeza de que nada mais será como dantes,
É que de tanto querer, não pretendemos mais do que quase nada, 
De tanto querer só aspiramos que o sonho surja das noites restantes.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

A Ver Estrelas

Decora-me as pálpebras com briosas estrelas, 
Numa tinta sem corrente, esperando por alguém,
Pois assim, assim de repente sou tal como elas,
Acompanhado bem alto no céu e para lá do além, 

Sem ti, sinto-me perdido, não há sequer libertação, 
A sombra da pluma passageira esvoaçando adiante
Não consegue abraçar o Sol apenas esta inquietação
De ombros encolhidos e palavras inauditas, o amante

Que partiu, rasgado e esfarrapado, num silêncio de afogado,
A casa desabitada, por debaixo dos pés o ranger das folhas, 
Os últimos pingos de chuva arrumadas num dia engavetado, 

Procuramos a sede de toda uma constelação, a imaginação, 
O sonho, a quimera, a chuva caindo enquanto vais e olhas
Para os pássaros cantando que nos acordando vêm e vão.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Os Pregos Assentes

Domingos à noite sou rio a entrar em estuário, 
Foz de uma memória, riacho para um instante, 
Indo de maré para maré donde vem o obituário
Do dia inconcluso, o sono perpétuo e relutante,

Há feridas ainda por abrir, sonhos por adquirir, 
Porém enfrentamos quezílias, a batalha infinda,
O corpo torna-se corrente para o céu encobrir
A terra de nuvens, ansiando uma manhã linda,

A maravilha do olhar de uma criança, desinibido,
Inquirido pelas estrelas, as paredes ruem enfim, 
Traz-me conforto, enfim é o princípio do querido,

E os pregos assentes nas mãos e pés caem por fim, 
Ajuda está a vir! O rio fluindo no até então preterido,
Desafogando as quimeras que vão brotando de mim.

sábado, 4 de dezembro de 2021

Poema da Solidão

Para os poetas, um beijo é quase um desejo,
Um instante no tempo ao vento quase perdido,
Pois o passageiro deixa atrás sombra, almejo,
Somos pluma sem asa num momento já ido,

Carrego-os aos ombros, leves, quase pesados,
O restante é ideia e pedágio, perdão, pecados,
E eu a solidão de meia mão sem outra mão,
O bocado que não ecoa longínquo no coração,

Esperando por bilhete para entrar no comboio,
Ruptura da mente, somos aqui recém-chegados
A um ponto de partida neste trilho tão rastoio

Onde falham as pernas para caminhar, para ser
Pena na boca de pássaro-azul, somos pernoitados
Por um dia que não chega, o horizonte do não ver.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Tal Mariposa

Ninguém repara em nós enquanto passa o mundo,
Os transeuntes deixam-nos num sítio bem escuro,
E eu cheio de escarro, pus e sangue tal vagabundo
Em torno de uma luz rodopio, o Sol ainda procuro,

Falha-me a visão, cego hei-me tornado meia vida,
Carecido de fontes, montanhas e planícies, liberto
Perante a perfídia do tempo, a ventania no peito ida,
Porquê criar estas pontes se o segundo é tão incerto,

Sou recém-chegado procurando uma mão singular,
Um beijo na testa que dure eternas eternidades, 
Enquanto que é tão simples ir é tão difícil chegar,

E faz frio invernal, calco as folhas caídas a meus pés,
Ouço o riso de quem passou em frente, as saudades,
Pois agora sei, irei sempre adiante, jamais irei de rés.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Quando Cair O Outono

Mal consigo lembrar de alguém para este Outono, 
Assim trago neve no olhar, como sempre, definido, 
Conforme o sol se aproxima do seu seguinte sono,
Somos agora amigos perdidos num beijo dolorido, 

Olha, algo aconteceu nesta pele submersa, interna,
Crescendo onde prosperam aqueles sem abrigo,
Estamos no caminho quase certo, vejo a lanterna, 
Vamos assim nos conhecer, já não em mim me ligo, 

Ainda assim, eu sinto que sei, embora não saiba bem
Que minha mais do que querida, esta é a única canção,
Temos cores, pérolas e poesia neste momento com ou sem,

Qual o problema com a vaidade, porque não abraçá-la?
Basta ir devagarinho, com o pé na palma desta mão,
Assim se chega longe, a melodia é possível cantá-la.  

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Acenando ao Silêncio

Acenando o silêncio destas luzes apagadas,
O sono que não vem, é cruz e é desamparo
Para o sonhador vaivém, cortinas cerradas,
Trazendo fagulhas para deixar o dia claro,

Indo no holofote, dedos por janelas apontados, 
O mundo, entretanto, mudou perante este olhar,
Quatro estações num dia por sol e lua pautados
Através do passageiro, pratos ainda por lavar,

E eu a escutar a chuva que não vejo, o desejo
De dormir numa cama feita, a dor do tratante,
Ansiando o ardor da manhã, o seu único beijo,

A ajuda está a vir! Ouvi num instante um murmúrio,
E o meu coração tão distante, e o pulmão ofegante 
Rezando por paz, suplicando por um bom augúrio.


segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Numa Poça de Água

Numa poça de água reflicto o rosto do passado, 
As marcas superficiais e a cicatriz já profunda, 
Os rastos cadentes são do trilho o caminhado
Tal cinza de cigarro esbatido na bruma vagabunda, 

Dentre o sol nascente e poente fulge o firmamento, 
Tanto espaço para o olhar espargido no telhado,
O sussurro deste suspiro é porção, é fragmento  
De coração esbatendo nos carris do eclipsado, 

Transbordando a noite perante o beijo do dia, 
E eu com saudades da sua verdadeira melodia, 
De braços sem meus braços num abraço eterno

De uma vida rascunhada a aguarelas num caderno,
Caderno esse com margens e bermas, leves curvas,
O dia está prestes a raiar por entre estas noites turvas.

domingo, 31 de outubro de 2021

Escravos do Tempo

Os relógios assim vão extinguindo o fogo da Vida, 
Sinto os minutos a passar tal paisagem fugidia,
Contando os segundos até à margem querida,
São as areias do tempo elidindo a noite vadia, 

Os sapatos sujos de lama ecoando na passagem,
Da alma junto da mente, da carne virando osso, 
Estes rastos esboçados pela poeira da viagem,
De passada em passada enviada para o poço, 

Vou lentamente esquecendo o meu nome, silêncio, 
Somos todos escravos do tempo, assim vai o vento,
Levando pedaços de nós com ele, assim vivencio

Que a Vida vai sendo trocada por rugas e cabelos grisalhos
E que o que fica são os bocados, momentos e seu alento
Confere a Vida deixada, talvez trocada tal queda de orvalhos.

domingo, 24 de outubro de 2021

Por Vezes Lembro-me

As vigílias destas ruínas tecem da noite segredos, 
Perscrutando linhas do horizonte, eternas pontes,
Tal corpos arqueados sobre o oceano e estes dedos,
Esplendores maravilhosos, brotam mil e uma fontes,

De onde permaneço há ainda para ver novos luares,
Numa espécie de melancolia que me leva o dia a dia,
Que sussurra ao ouvido a ausência de novos lugares,
Que abolem novos caminhos para o que então seria

Alguém novo em improviso de colibri, o seu perfume,
O infinito geminado na palma da mão, a imortal paixão, 
Entre lençóis, o silêncio de braços procurando o ardume

Que não surge, a lembrança de um sono, um pacto quebrado, 
E é ai que reparamos que a saudade é maior do que o coração
Consegue albergar, mais do que sangue a estancar, que o amado.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O Tempo E A Sua Inevitabilidade

Desabafo meus pronomes tal folha outonal, 
Talvez não caiam para baixo como é suposto,
Explicam o silêncio de um amor incondicional
Partindo de uma ponte onde o andar é proposto

Por quem o vê a passar de uma margem direita, 
Será que basta ser metade nestes dias de outrora?
Caminho nu e sozinho por uma ruela tão estreita,
Caminho nu para ser encontrado por uma aurora, 

Vou indo em desprendida pressa, vou indo discreto
Em arremesso certeiro, na muche, mas ao seu lado,
A carícia do relógio, a ampulheta mudando o afecto

De quem percorre os ponteiros de areia, o inevitável
É só o agora nas órbitas de uma pelicula cujo fado
É destino e balada perante o tido como indubitável.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Esta Poesia É Ardor

Aprendemos que uma promessa não é um talvez,
Ardendo cartas antigas de candeias feitas de amor,
Procurando agulhas em palheiros outra vez,
Especado a olhar o sol, estes olhos retratos para o ardor

Que sente quem lacrimejou um outrora,
Em moções silenciosas, o peso aos ombros do inverno
É suficiente para até ir esquecendo a  aurora
Enquanto se rascunham pestanas num  caderno,

Porém, a tragédia é que ainda em anjos acredito,
Fotos empilhadas em contentores do lixo
Trazem memórias da sua face de cor e por escrito

Pois sua voz são os meus silêncios, a acalmia
Diante a tempestade, diante o requebrar do esguicho,
E a obra de arte, a despedida no aceno desta poesia.

domingo, 3 de outubro de 2021

A Vida Ainda Está Por Começar

Trago-te nos nódulos dos dedos, neste olhar, 
Nos abraços conferidos, na pele sobre a pele, 
Nos lábios fantasma, na revolução do beijar, 
Nas caricias nos braços, na canção que impele

Estes versos, que faz o sol em mim ainda brilhar, 
Por favor, permite-me um dia nunca esquecer,
São estas palavras que travam a língua, o retornar
De uma brisa a espreitar-lhe no cabelo, a estremecer,

Trago-te descalça e branda numa moção levezinha, 
Numa alvorada sobre a enseada da outra margem
Que parece por vezes anoitecer pela noite vizinha,

Entre cortinas, havemos um dia ainda de escapar
Desta vida que é morte, que não é sequer viagem
Acredita amor meu a vida ainda está por começar!
 

Entre Mim e Eu - Uma Distância a Percorrer

Há entre mim e eu uma distância a percorrer,
Um desejo por dar por cumprido, um anseio, 
Pois de tantos beijos dados nem sei o que ser
Parece que de tantos ter sido me perdi no enseio,

Era agora dormir para verter dos olhos o silêncio, 
A lembrança de dois lábios em e por si embriagados, 
Melancolicamente bonito, o instante que vivencio,
Lugares que trazem o verão, pássaros voando liberados,

Atirando seixos para os solavancos, sem sítio para mim,
Hoje, como estranho nas entranhas esta sua ausência,
Esta solidão infligida, o coração entreaberto, o sim,

O não, este conter o oxigénio por debaixo de um rio,  
Não obstante do mundo, trouxeste-me esta poesia,
Então quando me recordo, recordo-me de ti... e sorrio.


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Mil E Uma Fontes

A Primavera é esta pétala que trago na mão, 
De fragrância forte e aberta para o nascente, 
Tem a asa ferida, mas voa sem temer o chão,
É vela ao vento, um ângulo do Sol crescente,

E vão passando as estações, vem a alvorada,
A maré é a corrente de um sono em quietude
Onde sozinho caminho esse trilho, essa estrada,
Por acreditar que no centro é que está a virtude!

Esvoaçam as nuvens num dia feito de frialdade, 
A vida é vagante, espuma à tona de uma praia
Onde um dia nos afogámos, mas... aqui há beldade,

No rosto pintado de pássaros largados aos horizontes,
O fluído de uma existência enraizada que desmaia,
Que é sede no viandante, que é suas mil e umas fontes.