segunda-feira, 28 de junho de 2021

Desperta-me

Desperta-me de um sonho lindo num amanhecer,
Do despontar do Sol dentre o abraço do horizonte
Enquanto vou esboçando estrelas cintilantes no ver
De uma criança sendo isto tudo para o olhar fonte, 

Porém como a uma pedra vem a queda, o negrume
De um Inverno sem fim advindo de beleza sem par,
O silêncio preenche os lábios roxos e o seu lume
Abranda, acalma, sossega o repuxe que é do mar, 

Esbanjando a juventude por um instante infundado
E ouvindo revelamos as nossas feridas, a tragédia,
Estas asas coladas às costas tal um balão emendado,

Não é suficiente para subir aos céus, quietamente, 
Apenas para compor estas rimas nesta comédia
Que é do coração mestre e que é beijo felizmente.


segunda-feira, 21 de junho de 2021

Esboço Para Um Astronauta

Vou pensando nos seus olhos delineados e bem abertos,
Sorrindo enquanto puxam as cores de verdes prados,
Retratando as linhas delicadas dos corais despertos,
Em névoa e felicidade de estrelas e aviões deslumbrados,

Vou sonhando com o seu olhar enquanto aguardo por uma rima, 
Esperando o rodopiar do mundo para lentamente reaparecer,
Pois tens reunido anjos e esvanecido cada dia em cada lágrima
Que reflecte pássaros-azuis, reensinando-me por fim a ver,

E a alvorada imagina a refracção dos satélites a azul e verde,
Lembra-me de que gostaria do teu cabelo longo pelo chão
Pois mal posso esperar por extinguir esta implacável sede,

És a canção que anseio ouvir, uma linha de pérolas ao pescoço,
Se quiseres que explore o espaço entre o teu olhar, no colchão, 
Eu serei o astronauta girando para fora com este nosso esboço.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Rimas de Papel

Bate um coração por baixo de cada semblante,
E nesse pulsar há um momento para o instante
E é aí que Deus discursa indómito na terra e céu,
Através do inteiro que é impulso e instinto para o eu,

A palavra é partilha de um amor tido como imensurável
Por padrões humanos, espaço entre o adeus e o bem-vindo,
Pois parece-me que entre constelações encontrei o confortável
Permanecendo dormente por épocas e épocas num sonho lindo,

Por isso vou passando a mão entre os cabelos do tempo,
Grisalho e enrugado, com um sorriso de missão cumprida,
Até parece que esvoaçamos mais alto que o próprio vento

Parece que a escrita é indomável nestas rimas de papel,
Assim adormeço entre as estrelas que me dão guarida, 
Num esbelto e eterno beijo tocado por um celestial gospel.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Sou Rabisco Em Caderno Feito de Plumas

Estáticos são os rabiscos num caderno feito de plumas,
Erráticos desaparecíamos entre eles cadentes tornados,
Tenho toda uma vida para sair quase ileso destas brumas,
Desenho-as suavemente entre dedos e vincos enrugados,

Crianças caindo tais cometas de um céu semi-escarlate,
Em danças eternas que só desaprendiam ao crescer,
Qual a diferença entre um salvamento e um resgate,
Quase igual ao presente incluso do nascer até ao morrer,

O caminho ao avesso calcado por passos desalinhados,
Com carinho tombávamos entre montanhas e astros,
A jornada é o dia a dia, os pequenos nadas alcançados

Pela estrada de um poema há sempre campos e prados vastos,
Enquanto houver amor a partilhar nestes sapatos calçados, 
Por este canto que o tempo silencia enquanto cobre estes rastos.




sábado, 5 de junho de 2021

Coloca a Mão no Meu Ombro

Coloca a mão no meu ombro e as palavras sussurradas, 
Esperando o passar dos anos, do medo em mim retido,
Mais cedo ou mais tarde o reabrir das portas encerradas,
Desperdiçamos lágrimas e sangue num andar comprometido,

Aguardando a aurora, a procura de um único Sol e a sua luz, 
Enquanto a sombra deflagra, e a lua se engasga, doce beleza, 
Imagino-nos à frente da auréola do sol que assim em contraluz
O perdão de um sentimento sem futuro, a verdadeira tristeza

Presa fácil entre todos os desejos e todas as necessidades, 
A noite vem e as coisas vulgares são a vista da janela, 
Enquanto o amanhã se aproxima de mim tenho saudades

Pois um coração velho não se contenta com novas paixões, 
Logo não há canção para dançar, não há amor ou donzela,
Para imbuir um sorriso no peito sem quaisquer objecções.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Se Um Dia For Caixão

Se um dia for caixão, deixem-me ser leve,
Pois os sonhos e a esperança não têm peso, 
São memórias e ideais de quem em si escreve
O passar dos anos acumulados num instante, preso,

A um esgar perdido no tempo, agora encontrado,
Se um dia for caixão achar-me-ão entre estrelas,
Através de épocas e eras disperso e por fim achado,
Reconhecer-me-ão ao brilhar tanto ou mais que elas,

Os horizontes inconsequentes dentre este indúbito olhar,
Se um dia for caixão saibam que tenho uma constelação,
E saibam também que dentro dela aprendi enfim a dançar!

E para isso só foi necessário permitir bater o coração,
Pois se um dia for caixão espero ter aprendido a amar
O tempo que passa, e passou e fui sendo de mão em mão.


sábado, 22 de maio de 2021

Um Dia

Dói-me o tempo trazido no olhar da esperança,
Pretendia brisa para auxiliar a subida da colina,
Porém navego em água rasa numa delicada dança
Que me resguarda da intempérie um pouco acima,

Alastra-se o fogo pela pradaria de um sonho ido,
A água pelos tornozelos, o fôlego escasseia-me, 
De um lugar ilusório onde perdi a certeza do apelido,
Então beija-me, aquele conforto do caixão rodeia-me,

Que pertence a um Outono passado, hoje e aqui elapsado,
E eles, os poetas, com o coração na mão, amaldiçoados
Pela bênção de respirar de peito cheio, bem marcado

Pelo destino, pelo fado, pelo nem sequer saber qual o norte,
De tanto esforçar, de tanto querer, ficam de ossos quebrados
Por isso fecham os olhos e deixam-se ir, um dia encontrarão a sua sorte!


segunda-feira, 10 de maio de 2021

Quarentena

Esta fuga é escape entre o vazio e o preenchido, 
Voando e sucumbindo à água de pé descalço,
Parece que vai o instante e não sei se é vivido,
E parece que do nada, nada surge em meu encalço,

Quatro paredes tornam-se família, tornam-se lar, 
E eu vou encontrado mais vazio, mais falta de ar,
Esta fuga é escape que parece nunca mais acontecer,
Aparentemente não é fácil somente ir e começar a viver,

E eu com bolsos cheios de nada, fiquei de testa enrugada,
Nesta clausura, nesta reclusão que não é auto-infligida,
Que é tempo parado e coração sozinho, alma isolada, 

Vida à porta fechada, por onde vão passando as estações,
E eu sonhando o sono e serenando a aurora pretendida,
Pois, não obstante, os invernos têm passado os verões. 

terça-feira, 4 de maio de 2021

Desaguo

Onde os rios se encontram eu sou e desaguo,
Inculcam os moinhos águas de outros ventos,
O tempo conhece estas marés, e eu no recuo
Vou em frente molhando os pés em momentos

De mais um dia passado, após o sol e as estrelas, 
Lançamos âncora nas praias rasas, no superficial,
Olho para cima e regozijo em finalmente vê-las
Hoje preencho o lugar entre o efémero e o imortal,

Relembro-me que por vezes pulsa o peito lá para fora,
Logo me caem as coisas que fui trazendo na algibeira,
Os beijos que fui partilhando desde o anoitecer à aurora,

Pois quando envelhecer dúvidas pretendo jamais ter, 
Do que podia fazer pois que a luz se torne verdadeira
Será assim tão difícil dar Vida a quem só quer viver?

quarta-feira, 28 de abril de 2021

O Trazido

O oceano que trago no olhar revestido,
É folha caída numa floresta abandonada,
E os prados estelares que sinto tal vestido
São refracção para o não visto, para a luz apagada,

Passam diante de mim as opções um dia tomadas,
Os trilhos escolhidos, o claro e até o escuro,
Pois digo-vos de todas essas vontades ansiadas
Muitas das vezes fui contra um resiliente muro!

Vendo estrelas a difundir-se entre as palmas das mãos,
E eu, clandestino e viajante no interregno infinito
Sendo ponto de intersecção para melodias e seus sons

Faziam-me viajar absorto e liberto entre constelações,
Que resumia comummente num sempre e eterno grito,
Assim é que se vai e faz por chegar ao ritmo de mil corações.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Choro as Lágrimas

Choro as lágrimas que mais ninguém vê,
Já não tenho azul para as manter a jorrar,
A dor que sinto apresento a quem me lê,
Sem um lenço que a consiga enxaguar,

Choro as lágrimas de um coração ferido, 
Atropelado pelo que é o fado, pelo destino,
Pois até quando pulsa magoa, está partido, 
É este o bater de um triste olhar clandestino, 

Choro as lágrimas onde me vou afogando, 
E todos me vêem, porém ninguém me ajuda,
Choro as lágrimas e dentro delas vou chorando

Pranteio a lástima do que trouxe na algibeira,
O velório de uma multidão numa vela desnuda,
Um mar de lágrimas arrepiando pé por uma ribeira.



domingo, 18 de abril de 2021

O Que Faz Um Poeta

Encobre-o a auréola que faz um poeta, 
Escrevendo letra a letra de noite e de dia, 
Preenchendo de belas estrofes e rima certa,
Trazendo para o real o que pode de magia, 

Este fôlego que é para a obra o seu sustento,
A inspiração é um olhar no horizonte vertido, 
Um toque, um beijo que vai e vem como o vento, 
Pois por vezes, por vezes, até o poeta está perdido, 

É uma dança lenta ao som de um fósforo a arder, 
Dentro da estrutura, é a liberdade que é do poema, 
E nele a bater vai o seu coração, todo o seu querer,

Sob palavras, sob silêncio numa voz que é universal, 
E a escreve-las não há incerteza, não há sequer dilema, 
Pois ao anoitecer ele será mensageiro entre o céu e o abismal.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Enxaguadela

Enxagua as lágrimas, ainda vejo o comboio,
Voltarei enquanto o tempo for passageiro, 
És Vida, o fluir de memórias neste arroio, 
Saudades do que foi e não voltará, o viageiro

Leva pontos por cada sorriso deixado ao lado,
Perdido eternamente na tristeza de um coração, 
Por cada momento ou instante não contemplado
Eu tornei-me a falta, a carência e a não justificação, 

Por isso caminho perante o abismo, o despenhadeiro
É meu, se viver mil vidas pelas chuvas e torrentes,
A lama e a sujidade, sem proa e sem timoneiro,

Dar-me-ias a mão? Dir-me-ias qual a canção
Que sossega a mente e quebra as correntes,
Que repousa a verdade e trará redenção?

domingo, 11 de abril de 2021

Poema A Quem Passou, Ao Mar e ao Sol

Recolher os milhares de fragmentos de uma pessoa
É como largar lágrimas à chuva, água num riacho,
A envolvência do mar revolto, o vendaval ressoa
Fluindo pelo subsolo marítimo onde me encaixo,

As ondas e marés sustentam as margens, as miragens
Trazidas de outros lugares, a doce fonte inspiradora, 
Fatigado de tanto navegar anseio tanto novas aragens,
Há um pouco de quem passou nesta alma ensejadora,

Outras proas diriam o mesmo neste convés de calmaria,
É o vento que me abraça as velas que difunde a cantiga
Deste encanto, deste prazer, deste tormento, da hemorragia,

Embalo-me na corrente, desalgemado em noites de lua cheia,
Procuro-me onde ainda não me encontro, no espírito que mendiga,
Almejando Vida e um pouco mais de Sol onde a luz ainda escasseia.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Um Momento de Claridade

Um momento de claridade, prontos a navegar, 
Aproxima-se o dia de reflexão, da libertação, 
A sonata para a noite, o tentar sempre chegar
À montanha mais alta, ao ponto de elevação, 

Este céu que nos abriga dos morros uivantes,
Chuva antes de mais, é uma rosa feita de amor
A partilhar que faz do longínquo menos distante
E torna este poema, mais poema, beijo, clamor!

Trago punhados de tempo no trilho e no fim
Não pretendo mais do que um pouco mais
Do que ouso sonhar ou pedir só para mim,

O rio que flui e chega defronte o mar, a maré
Vertida em sonho de porcelana, não temais
Hoje prostrar-me-ei aos pés de Oxumaré!



quarta-feira, 31 de março de 2021

Quando Chegar a Hora

Para além do outro lado, fechando com dedos cautelosos
Nossos olhos de melancolia pela bruma surpreendidos, 
São estes os últimos dias do verão, estes ventos dolosos
Permanecem nas margens por choros ainda preenchidos,

O céu de cristal silenciosamente suplica por novos horizontes,
Nossos destinos entrelaçados falam de visões ainda por vir,
Campos dourados regozijam nos toques com sede de mil fontes,
Um estalido de faísca de ouro, fagulha nos peitos ainda por sentir, 

Beleza, querida teia de estrelas aproximando-se da abóboda, 
Labirinto do tempo, meu agora e para sempre nesta solidão, 
Cruzemos então a vida e a morte, uma alma na eterna roda, 

Aquela que é Deus para um infinito número de caras e rostos, 
Tempo, a divindade, Eu vim e tomei estas terras celestiais na mão
E agora que a noite me leva, tal pegada na areia, ofereço meus gestos.


sexta-feira, 26 de março de 2021

O Bosque Pelo Mar Sem Margem

Olhamos para dentro buscando a auréola exterior, 
Era eu, o homem de mãos à cintura, a bravura,
De quem esperava o amanhecer do dia anterior, 
Precisando de ébano e marfim, de simples alvura, 

Pois há bosques adiante de luzes fragmentadas, 
Os celestiais livres de tristezas da substância,
Doces sítios para movimentos e emboscadas
Quando, para lá da vista, ainda há relevância, 

Para lá das barreiras que limitam esta existência, 
Um dia, adiante, serei para lá dessa dimensão, 
Abraçando Rainhas e Reis em toda a sua iminência, 

Os céus cairão a meus pés, passado e presente,
Como um recém nascido de coração na mão, 
Este é o momento em que nos tornámos crente!

quarta-feira, 24 de março de 2021

Tanto Quanto Os Meus Olhos Conseguem Ver

Tanto quanto os meus olhos conseguem ver
Há sombras próximas, as portas sendo abertas, 
E eu, velho e sábio, não consigo ir ou me conter
À pergunta: "Será breve o passar das horas incertas?"

E tanto quanto os meus olhos conseguem ver, 
Os ventos de Outono trarão o Domingo, o vento, 
Quando for velho e sábio e no caminho for e correr, 
Um dia qualquer, no meio do tempo, ainda lamento, 

"Já foste meu amigo não foste?" - caem os confetes,
Saúda-me meu velho amigo, esqueci-me das pontes, 
Fecho os olhos, cerro o coração, não me inquietes, 

Poeira na brisa, uma gota de água num mar infinito,
Desconhecendo o que poderá vir depois ou dantes, 
Eu sou o aprendiz dos mestres, o eterno incógnito. 

As Palavras Que Saem Do Coração

Sei que as palavras são cegas e vagabundas,
Trilham na vaidade, no velório da impaciência,
São veículo para o longínquo, roda das rotundas, 
Porém o instante dita-me sobre sua transcendência, 

Prematura ou inesperada, deixai-me ir à procura,
Vestidos brancos, uma tela de tintas ainda fresca, 
Atracções onde nos vemos, a pele é tal brancura
Silhueta para a perfeição e a paisagem é pitoresca, 

Onde me perco vezes sem conta nos seus cabelos, 
Os dias poesia para uma noite repleta de estrelas,
A maré sobe, movemo-nos num sonho dos belos, 

Aqueles que nos antecedem, que abrem caminho, 
As palavras juntam-se em moções de aguarelas,
Pouco mais tenho a oferecer, só este bocadinho. 

terça-feira, 16 de março de 2021

A Infinda Vestimenta

Vou caminhando sozinho, em busca do perene itinerário,
Nunca tive os pés sobre a terra, desta terra quase falto,
Preferia ser um pássaro, vendo o mundo ao contrário,
Talvez fosse tudo mais belo visto do alto, lá do alto…

Outrora era astro indómito navegando o firmamento, 
A fagulha então luzente, a estória ainda por acontecer,
Aprendiz para o Inteiro, trazendo nos bolsos o sentimento
Que alumia o Céu e que não se permite em bolsos conter,

Doces brisas no topo das árvores, limpai-me o rosto,
Tenho esperado por séculos o regresso ao alvorecer
Guardá-lo-ei em garrafas para perdurar pelo sol-posto,

Apregoando amor perante o vendaval, perante a tormenta!
E o que restar guardarei nas algibeiras até poder oferecer,
Sim, as constelações terei um dia como infinda vestimenta.

segunda-feira, 15 de março de 2021

A Espera Continua

Vou seguindo o pássaro negro para casa, o lugar
Que apelido é onde descanso os ossos enfim, 
Pressiono a cara contra a vidraça da sala de estar,
Toco na janela e abro a porta, espero-a em nosso jardim,

Pois sei que Deus espera por mim no final do trilhado,
Não receio a morte nem a bruma que um dia virá,
Caminho procurando a libertação do coração algemado.
Procuro o Inteiro, desejo o prometido e pretendo-o já!

Quanto a quem amei um dia, sempre haverá espaço,
Para a ver quente e feliz, haja chuva ou faça Sol, 
Suspiro este desabafo nas nuvens ansiando seu regaço,

Os castelos de areia feitos no ar, tão difíceis de fazer,
Tão bonitos de ver, são apenas emboscada e anzol,
Miragem e ilusão para um peito casto satisfazer.


A Candeia Entre a Neblina

Algures entre este sol desponta o horizonte, 
De olhos perdidos para o poema, para a Vida, 
Translúcido, procurando sementes para a fonte
Que sacia a sede do sedento na ocasião envolvida,

Algures anoitece, a frialdade do ar queima o rosto,
O dano de um beijo e o ser colocado num cinzeiro,
Porém agitam-se os ramos e por instantes não há desgosto,
Para além de um manto de penumbra acossando o luzeiro, 

É o esplendor que separa o trigo do joio, o insigne amor, 
Descendo os corrimões que vão para Tártaro, à perdição!
Quase ouço os sopros, imponentes e repletos de clamor,

Antes que sucumba sobre mim a noite escura, a última cortina,
Percorrerei a terra, para sempre buscando o fragmento do coração,
Nesse preciso momento serei Deus a alumiar envolvido por neblina.

sábado, 13 de março de 2021

Este Quase Talvez

Olhos mexendo sob lágrimas azuladas, 
Este sonhar por vezes não é sustentável, 
Crava-se na pele e nas marés atracadas,
O tempo retoca e passa, isso é indubitável, 

Imobilizado e vestido em baldes de cimento,
Agarrando nuvens tentando obter o horizonte,
Onde o passo logo é passada e incremento
Para o viandante, o ir para lá desta ponte,

Porém ainda se perguntavam para onde foi o verão
E a beleza das transparências de corda ao pescoço
Apoquenta a graça, remedeia o ponto do cidadão,

Perdido e encontrado assim por uma última vez,
Sendo tão difícil de engolir, sendo tão insosso, 
Esta pedra que trago na garganta, este quase talvez.

sábado, 6 de março de 2021

Acordando Desperto

Acordando desperto procurando o brilhante
Do estelar, a incerteza de um olhar objectivo
Aí jaz então a beleza encontrada no instante, 
Desde o detalhe do abraço ao beijo respectivo,

Reflicto no passado, é vê-lo ao comprido estirado,
Foi a lágrima e o sorriso, foi o deixado e pretendido,
Onde a mudança foi permanente e é o único guardado
No baú deste coração ornamentado o então difundido, 

Os fragmentos que ligo são holofote para meninos perdidos,
Para sempre caindo magoando o joelho, arco-íris vendendo, 
Fugindo atrás do Sol, por um momento no tempo concedidos

Ao prazer de não ver as sombras no ir indo sobre o horizonte, 
Sobre a linha do céu, somente tu e eu, o infinito querendo
Quem trouxer ao passar do segundo, ao passar pela ponte.

terça-feira, 2 de março de 2021

Lágrima ao Mar

Não temais marinheiros, entrai bravios no mar,
Ante a próxima intempérie, o sonho inacabado,
Procurando a palavra, retorquindo deste lugar,
O osso do inteiro outrora então fragmentado,

Não temais exploradores, apostai na revinda, 
Sorri ao inalcançável, somos brisas e perdição, 
Os restantes dias passados donde a luz finda
Dos bastidores e uma cortina fecha o coração,

Escondemos os tesouros tão fundo sob a terra, 
Gritos entre segredos ocultos e lábios cerrados,
O mundo por vezes é aquilo que nos encerra 

Dentro do sol, sufocando e mendigando ar, 
Contando as sombras dos dias já rasurados, 
Com o tempo na lágrima, a lágrima no mar.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Pois Um Dia

Fechando os olhos apenas por um momento,
A berma afastada celebra um sonho sonhado, 
Recuso-me a partir, a esquecer o sentimento
De quem se largou no poema, o escrevinhado, 

Não posso descurar que somos poeira ao vento,
O anseio e desejo futuro, um instante passado,
Pois ao partir a pegada na estrada é testamento
De quem lá passou em ritmo lento ou apressado, 

Para a foz tragam o melhor que vem da passagem,
Esta brisa é o ponto do tempo que é toda a verdade,
Por isso preencho os pulmões, sinto-os com a aragem, 

A procura é por quem não encontramos, dentro ou fora, 
Almejando que o dia regresse agindo em reciprocidade,
Pois um dia sim iremos todos fugir, iremos todos embora.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

O Passo Desalinhado

Esta melancolia verte-se na lágrima caída,
Esta solidão, esta demora é esta amante,
Por quem me enleva o coração, a batida
Aumenta o ritmo da chuva sempre errante, 

Espero por quem ainda não me apareceu, 
Espero por quem já foi e partiu há estações,
Esquecendo o beijo que esvoaçou para o céu
E timidamente, esqueceu a fluidez das canções

Que adormeciam gigantes na delicadeza do amor,
Então merecem os corações esse toque de Ícaro? 
O perdão pedido, as asas ardendo e neste torpor 

Encontrar felicidade, o morrer com um sorriso traçado,
Que o morro deixe a paz e paixão elevada ao pícaro
Do Elísio, pois tem de haver trilho para o passo desalinhado.

Acredita Nestas Palavras E Confere-me A Mão

Confere-me a mão em plena confidencialidade,
Demonstrando-me que não há razão ou idade
Para se ser feliz por um momento desta vida
Pois a qualquer instante vem o fim, a partida, 

Logo devemos aproveitar este bocadinho de sol, 
Escapar às curvas da estrada, às redes, ao anzol,
Pois há tanto para ver e saborear, há tanto a tocar, 
Por vezes parecemos baratas tontas de papo para o ar, 

E há parte do expoente do dia, parte do que é importante, 
Por isso a procuro sempre mais e mais, o eterno suplante
Do passado, o amor indomável, o beijo eterno e devasso

Em breve seremos novamente poeira, é erro crasso
Não aproveitar este mundo enquanto nele estamos,
Ou não instanciar o beijo enquanto nele habitamos.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

De Mão em Mão

Cabeça na almofada, despertador na cabeceira,
Debaixo do Sol caminhamos de mão em mão,
Perdidos entre cores, encontrados na ribanceira,
De tanta curva e contracurva, vem a contramão,

Lá fora o Luar expedita aqueles sonhos e ilusões, 
Onde, de mão em mão, estrelas foram alcançadas, 
Nas frentes outrora escuras temos nossas dimensões,
Este instante é nosso, dizem as noites alvoraçadas,

E se um dia me faltar o ar, se um dia eu for partida, 
Que o deslumbre continue, que não seja peça extinta,
Pois enquanto formos de mão em mão, na investida,

E tivermos falta de mais, chama, o mundo a nossos pés,
Trincando a maçã, bebendo o vinho na sombra indistinta, 
Com saudades do Lar, lugar, beijo na face em belos rodapés.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Eu Por Cada Momento

Transpõe-me para uma ausência de escuridão,
Pois a terra é um carvalho assente em raízes, 
É um livro escrito com galhos em imensidão, 
Apontado para Norte, somos meros aprendizes, 

Folhas caídas pelo Outono revestidas, doce som,
Pois aqueles que abdicam de si são crianças nuas, 
Calcando ignorantes o futuro e a sua sofreguidão, 
Assim vão passando os sois, assim passam as luas, 

Daqui para o infinito e dele para o preciso instante
Onde enveredamos pelo trilho cuja semente é plantada, 
Crescem fortes estes troncos do peito, não obstante

O quanto nos lembramos do que pretendemos projectar,
Este jardim de Éden, os campos Elísios, a luz fragmentada
Nada nem ninguém me irá impedir de cada momento amar.