segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Amar Simplesmente Não É Para Amantes

Alheio ao passageiro, a quem para trás poderá ter ficado, 
Não vemos caras nem devaneios, não custa esperar, 
Pois acreditamos no fantástico, no trilho inacabado, 
Apesar de nunca ter ouvido dizer que era fácil amar, 

O amor não é para os amantes, é para os monólogos
De quem procura e suspira com os luares perdidos, 
Amigos, até já me esqueci desses suaves diálogos, 
Que surdem dos suaves toques de murmúrios rendidos

À luz de estrelas há muito explodidas em ovação, 
É o detalhe do fantasma de ontem, crepitando, 
É sinónimo para quem quase esqueceu o dar a mão, 

E que por extensão, apregoa o silêncio derramando
Silabas em vasos urdidos ao palpitar de um coração
Autuando seu pulsar, não vá ele buscar, o que vem ansiando.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Quando Regressares Amanhã Terás Flores Plantadas Por Ti No Teu Jardim

Quando a calmaria é o passar através da tempestade,
Por vezes a ampulheta não é medição para o agora,
Vejo os meus irmãos com corações cortados em metade
Pois quem passa deixa cortes e leva-os para o frio lá fora,

Que, apenas num momento, parece toda uma eternidade,
Pois apesar da consanguinidade para sermos no esvaecer
Até ao tremor das estrelas está esta única vera verdade
Sem distinção ao toque pois ou é a vida ou o morrer,

Esta é a canção das sirenes e envolvimento nos sentidos,
É o post-mortem e o pré-natalício, a mãe e o infanticida,
Já tivemos tantos rostos, tantas rugas e tantos apelidos,

Vós sabeis quem e de quem, adorna-vos o canto do olhar,
Este é pois o raio de Zeus no trilho, do aceno à despedida
Onde seguir-vos-ei por séculos de riqueza por tudo partilhar.




quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Quando Se Almeja Ver Apenas Pelo Coração

É a velha ampulheta que nos apanha eventualmente,
No ventríloquo esquerdo o lerdo acumular das areias,
Sou um sonho cadente, o voltar de trás para a frente,
Que nele partilha todas as cores, sejam bonitas ou feias,

E se ele não voltar, serei o desconhecido de novo a reinar,
Agora vai, vai, mesmo que ele não volte, o eterno beijo,
Silenciosamente a clamar os instantes em que perdi o ar
Quando eles eram apenas enseada para o anseio, o desejo,

E se ele não voltar, serei um invólucro vazio para a vida,
Enfermo e doente, o sonho a cair sem espaço para ser,
Este buquê a desfolhada e neste momento a única saída

Para os números que contam para zero, a pendente questão
Sabe que não quero ir sem concretizar, sem conseguir ver,
Pois saibam que quebrarei o padrão, verei só pelo coração!

domingo, 2 de agosto de 2020

O Meu Avô Um Dia Disse

Que um dia saberás o valor da vida, vê-la-às perdida
Quando dos teus olhos sangue eventualmente escorrer,
Verás então o quanto ela é madrasta, que nada lhe basta
Enquanto quiseres e não conseguires mais ir, ver e correr,

Que um dia verás que nem todos sonhamos igual e que mais,
Que há igualdade nessa diferença, que ela é a maior pertença
Pois quando apenas vazios suspiros se aproximarem abismais
Que por fim olhes e vejas que podes ter a cura para a doença, 

E quando o coração quebrar e não conseguires mais aguentar
Lembra de que há beleza no chorar e para tudo há um tempo,
Que só atinge realmente quem ousou um dia passado sonhar,

Que um dia a morte virá, e isso é certo e perfeitamente natural,
Não natural é esperar a sua vinda, ficando enfermo e sem alento,
Há que aproveitar o que de bom vem, só isso a ser é enfim especial.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Das Cicatrizes Nas Costas ao Diadema

No palco da Vida esta lúgubre viela é actriz,
Aguarela dispersa no espaço de uma pintura,
Flagrante, no instante o diadema e a cicatriz, 
Desconhecendo o quanto ela termina ou dura, 

De cabeça encostada no resto de uma cadente, 
Amanhã já é tarde para estes cavalos selvagens,
Então não sou só eu, sou eu e vós minha gente 
Alçando escadas para o céu em únicas imagens,

Imagem feita daquilo que não consigo passar sem,
Repleta de momentos, sedes, fomes, e até jejuns, 
Vozes de ilhas, de pores do sol, sou vosso refém,

Posso morrer de sede no mar, de fome no deserto
Não suplicarei por alimentos a homens nenhuns,
Toquem-me, esta estrela cadente sou eu, liberto.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

É Preciso Permitir Ser

É… quando o sol se puser, eu serei o próprio pôr,
Tenho fragmentos para ser livre, para livre ser,
Não preciso de mais do que tenho, apenas cor
Do relvado, do céu e do belo horizonte para ver,

Eu sou um homem simples, de muito não preciso,
O anseio vem com o sorriso matinal dum sonho,
Descanso, pois de mim próprio tenho sobreaviso
Que o resto destas serenatas que no beijo ponho

São fonte para o vislumbrar e o deixar ir também,
É o único tempo benquisto, pois hoje estou vivo!
Hoje sinto cada dia e cada noite, estou bem, bem,

E enquanto vir, eu sei, só preciso do respirar e amar,
O resto que por acréscimo vier será no impulsivo
Campo do não saber o que virá, é preciso almejar!

domingo, 26 de julho de 2020

O Poeta Pensa Em Todos Os Comboios Em Que As Suas Donzelas Foram Passageiros

Queima o frenesim do buquê outrora fracturado
Por favor não vás, quebra o padrão, dá-me a mão,
Pois outras passam e não ficam, estou extenuado,
Daquilo que não fica, que parece o ciclo da estação

De comboio, passando a alameda de uma vida,
Oh querida, soubesses os comboios destes carris,
Talvez então fosses apenas chegada e jamais partida,
Trago vossa passagem na contenção desta brilhante iris,

Estes pulmões repletos de fumaça, o óxido de sulfato,
De facto, não é suficiente para a minha horizontalidade,
E em boa, boa verdade de tantas vidas já estou putrefacto,

Escondido atrás de um sorriso, atrás de um outro semblante,
Quando não obstante, penso em quem de mim morreu barato,
Quase gratuitamente, por quem nem sequer era gente, era instante.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

... E Entretanto?

Leve, puro e inocente, eu era então o crente
Para perder a crença e a inocência, coragem!
É a ousadia que merece o mundo de repente, 
De trás à frente, o sopro do Universo na aragem

Que nos imbui, um sonho numa nuvem ancorado,
Que seja permitido um bocado, leve, e eu alinhado
Para lá do sono, trilhando dentre briosas nebulosas,
Imensas e fabulosas, terei meu momento de prosas,

Condigno, encarando a manhã, e o seu rosto o espelho,
Reaparecendo num semblante não o meu, seria poesia
Isto que incendeia e sossega a alma, de joelho a joelho?

É ambares recolhidos e sustidos pela passagem da maresia,
Esta Vida é passadiço para uma criança se tornar no velho,
E entretanto?... Entretanto temos o oceano, o céu e a magia!

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Eu - A Cura e a Doença

Sim, sim sou eu, sou o Doutor e o paciente, 
Eu sou a parte da cura e o bocado da doença, 
Outorgante do comité do Sr. ministro e o utente, 
Preciso de algo para me deixar ir, a droga, a crença,

A paranóia é a vidraça quebrada de quem não sabe olhar, 
Quando não basta bastar, quando falta poesia no tocar, 
Fica a máquina parecendo humana, a ausência de poesia, 
Não confere porto de abrigo, lugar de passagem, magia, 

É a carência por algo impossível de algum dia alcançar, 
É a querença por um pouco mais, envolvido na pulsação, 
Pois esta vontade é de facto o querer ir mais longe, o ir buscar

O espaço perdido entre o caminho, a parte que me deixa sozinho, 
A fagulha esquecida pelo Homem que sustentava o seu coração, 
Por isso a procuro, sustenho e a partilho com quem é aqui vizinho.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Quando Amar É Proibido Pt. II

Sente-se nos ossos quando amar é proibido,
É um frio miudinho num invólucro de geada,
Que relembra da lancinante dor, rua sem sentido, 
Sendo o resto uma voz suave às estrelas suspirada, 

Quantas vezes ladeada pela Lua, respirando o instante, 
Com memórias murmuradas por momentos já passados,
A sua sombra torna-se cicatriz e o sentir, enfim, reluctante
Não obstante do sentimento, a crença, o Sol sempre acossado,

"Lembra-me um sonho lindo", por este rio acima, à enseada, 
Diz o vento à tempestade, a ausência do perfume da sua mão, 
Esperançava pelo seu regressar de volta a mim, minha amada,

Esta esperança mais forte que o tempo, mais forte que a morte,
De que há coisas incontornáveis, do plano divino do coração 
Que tudo sabe e conhece menos qual é o Sul e qual é o Norte.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Quando Amar É Proibido

Chora gentilmente onde os outonos caídos repousam, 
Um dia voltarás a voar, um dia só daqui serás o Inteiro,
Mesmo que seja póstumo, por onde poucos ainda ousam,
Mesmo como suspiros e confissões sobre o nobre forasteiro,

Pois este instante é uma eternidade, proibido ao lesto coração, 
É maior do que a maior caminhada, é um beijo, é um dar a mão, 
Não me esperem mais, a estrela do norte beijou-me e foi partida,
Sem chegada, uma noite para saber o que resumir toda uma vida, 

Num simples toque e um rebobinar dos dedos de lá de cima, 
Um sonho na terra se erguerá, acolhedor e maior que o mundo!
Somos dízimas de esboços de anjos vendo a cor do céu belíssima, 

O resto é fragmento quebrado na estrada, um querer tudo e nada!
Pois procuramos a mais altiva montanha ou o poço mais profundo,
Assim é o Caminho, assim é a Vontade e os píncaros desta velha estrada.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

O Homem Que Tinha Medo de Amar

Doces sonhos de melhores tempos, esticada mão
A ondas de âmbar, vestidos de veludo e paredes
Que ainda não conseguem encurralar o coração,
Ele fulgura no escuro, pouco sacia as suas redes

De auroras boreais, de quimeras que tais, embora
Suspire, tal maré, o forro de prata enfim quebrado, 
As mil vontades, um a uma, os tempos de outrora
Relembram momentos de inocência, deslumbrado,

Os traços do seu rosto ainda delineado a lápis estelar,
Oh por favor abraça-me, esqueci-me de como chegar, 
Depois de tudo, ainda me faltavam moedas no bolso, 

Era uma a um, apenas pretendendo o seu reembolso, 
Por isso parto sem ir, sem chegar, homem no convés!!
Pois com medo de Amar, criança no porão ao revés!
 

domingo, 5 de julho de 2020

Amén

Atirando pedras através do lago, eu estava aqui,
De fotografia na mão, o sorriso da mera ilusão,
Algures entre a treva e a luz, algures por aí...
Vistas e sons e eu aguardando pelo coração... 

À beira-mar, seduzido e absorvendo a maresia,
Inocência na mira do caçador e frágil a maré
Trazendo entre as ondas pedaços de poesia 
E um buquê de flores como oferenda a Oxumaré,

Através do vidro, um espelho por fogo baptizado, 
Céu limpo e poeira de ouro no globo ocular, à deriva,
Entre e por pontos de luz difundida finalmente elevado

Para cair dentre nuvens cinzentas, o fado dos itinerantes,
Salvaguardo o respeito e a paixão por qualquer coisa viva, 
Natália, sim ainda acredito nas coisas inteiramente deslumbrantes.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Guardado na Palma da Mão Pt. II

De pés descalços sobre as estrelas eternamente cintilantes,
Brilhamos com elas, sem palavras numa bela dança infinita, 
De sentidos apurados, o beijo das nuvens ternas e mirabolantes, 
Esbelta é a transição de homem para o eterno, o fogo enfim crepita!!!

No peito dos Titãs, dos Atlantes, os deuses do Olimpo e submundo!
E darei como oferenda o píncaro dos céus e o fosso mais profundo, 
A palavra do pensamento, a paz da acalmia vira tormenta e dor, 
Um sonho dentro de um sonho, as pegadas o pincel no trilho e a sua cor, 

Escutai-me bem, isto não é paixão, é Amor, é a ausência do humano,
Pois aqui grito com a voz de um louco, grito e vamos mano a mano, 
É o mundo aos pés dos filhos do sol, que não vos falte então o chão,

Esta é a era para a caminhada em frente, para o tão ansiado, 
Façam a mala, abram as persianas que sombreiam o coração
E que não vos encontrem vazios depois de ter tudo dado.

Guardado na Palma da Mão

Quando for com estas malas feitas pela estrada,
Para lá da montanha, verei o sol enfim cintilante,
Dando admiração aos semi-deuses, à asa dourada, 
Pois estas caixinhas desaparecem no caminho errante, 

Adornado a plumas e por elas ornado, os esbeltos contos
Contados um dia serão cor para gerações ainda por vir, 
A sorrir, e nós, imortalizados no firmamento em mil pontos
Fulgurantes, hei-de chegar a nebulosas ainda por descobrir,

E colorir a ritmos cardíacos, lá no alto do céu, a pincelar,
O que os sonhadores imaginaram será o nosso novo lar,
Venham as armas, os mosquetes, espadas e a corrente, 

Através delas hei-de lutar sendo o poeta da linha da frente
Da Guerra das Rosas, eu sou Luz, eu sou o bocado do fotão, 
Eu sou a nada e o tudo guardado na palma desta minha mão.

terça-feira, 30 de junho de 2020

O Intuito Do Viandante

Para baixo da cama varrendo outro cobertor,
Sou eu o menino, a criança, o eterno amador, 
E cai neve, e cai granizo e vem a enxurrada, 
E eu de boca aberta esperando a madrugada, 

E os outros sempre a me puxar para o outro lado, 
E quem vem sou eu, vêem-me bem lá recostado
Ao molde que ofusca deuses e molda divindades,
Aqui, onde tudo é certeza sem improbabilidades,

É o brilho que cega o viandante, aqui visitante, 
Por um pouco de tempo traz-lhe a paz à alma,
Cai cadente a alba, e somos mais que o restante,

Somos o fragmento de um momento de calma,
Onde o universo rodopiava sobre si num instante
Breve como a própria vida e cativo nesta palma.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O Cosmonauta do Vestido do Horizonte

Vagueando entre as costuras de um vestido,
A brisa é um feitiço para quebrar o momento,
Ouvido o vento crepitar no céu por mim sustido,
Na algibeira albergando supernovas, e eu sedento

De colinas, montanhas, céu, horizonte e firmamento,
Sobre eles entrelacei a estória do homem feito divino,
Deferido e definido, deixem-me estar, quase estou isento
Do humano pois só me falta largar a pele e seguir o destino,

Contemplem o instante do interior, as verdadeiras batalhas,
Que não imploram nem atalham mais! Criando e sonhando,
Eu brilho, eu fulgo, eu cintilo para além de muros e muralhas,

É universal e meramente casual, esta passagem dos segundos,
Que a passe a pé-descalço, sendo, tentando, dando e partilhando,
São estes os berços advindos dos funerais, os mil e um novos mundos.

domingo, 14 de junho de 2020

Enfim, Um Dia, Navegaremos de Novo

Estas lápides relembram quem lá está enterrado,
Enforcado, o alvoroço deixado num eco passado, 
Somos um instante, um momento, sacro sacramento, 
Que passa num instante, momento, que vai com o vento,

Um brinde a quem um dia preencheu e ocupou este lugar,
Tal bala pelo crânio e é instantâneo, é uma eterna satisfação, 
De pequenas asas nos pés sinto os querubins a vir-me buscar, 
Os portões do céu abertos, fechando os olhos, parando o coração,

De boca aberta as porções a cair tal pó de fada, iremos para casa, 
Hoje, veremos pelos olhos do Céu, tu e eu, de almas entrelaçadas, 
Por camadas de nuvens, nebulosas, supernovas e de pés em brasa, 

Num buquê quebrado, o quê? Poções e afrodisíacos e falta-me alguém, 
E para nenhuma surpresa, não haverá surpresa, as suas mãos perfumadas
Não dadas a estas, varrendo pois o tempo e a maré não esperam por ninguém.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Desaforos

Suspiro pela estrada fora, rostos por pó desfeitos,
Confabulo sonhos em vozes de outros poetas,
Engolindo supernovas não me dando por satisfeito,
O meu testamento são estas estrofes, estas letras,

Faltam-me palavras para a beleza astral do olhar
Do sonhador proficiente por suspiros da distância
Ao sonho. Caem árvores na floresta, diz o sonhar,
Apelando ao excesso, recesso, o sol e sua instância,

Enquanto cupidos mergulham por nuvens ascendentes,
Contentes, batem, matam e cospem em quem é amador,
Que são os que não arredam o pé, os eternamente crentes,

Então rindo-se com lágrimas no olhar, com champanhe barato,
Alguns suplicando que cubram seus corações a cimento, a dor
É grande sim, mas é ela também dos grandes poetas o retrato.

De Discípulos, Seguidores e Apóstolos Não Preciso

Outrora fomos um dia filhos de marinheiros estelares,
Fulgimos e esvaecemos tal brasas no céu colocadas,
Então vadiando e caindo aladas entre terras e mares,
(E eu a tentar apanhá-las e elas entre os dedos escapadas), 

Todos os grandes lutadores têm cicatrizes de batalha,
Lembranças do passado, e eu, entre mim emboscado, 
E amado, enfim, o perfume no pescoço que vai e retalha
As colinas, as florestas, sobre as montanhas e o bocado

Aonde caminhei celebrando o trovão, a chaga, o canhão, 
As minhas mil maneiras seguidas porém sem seguidores,
Pastoro demi-deuses, aqueles que vão de alma e coração

E não se importam com o sim ou com o não; Suas dores,
Ao longo da jornada tornam-se em cores, e a sua mão
Procura pelo transeunte pois são de Deus os embaixadores.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Entre Os Ponteiros do Relógio

Eram assim vestidos brancos e danças lentas, 
Através do silêncio da noite e por ela embrulhada, 
Sossego, o ponteiro de um relógio e o que aparenta
Ser um instante infinito, parado e bem atento à estrada,

Opulento é o momento e escrevinhado à mão por um poeta, 
Daqueles enlouquecidos pelo Mundo e com vozes na cabeça, 
Inspira e expira, expira e inspira, da estirpe dos Deuses estafeta, 
Não obstante, o lobo e o rebanho que faz com que o Sol resplandeça,

Em alvoroço silencioso, a tela para as cores do Sol, o anzol, o isco,
Mas também o pescador e a cana (tal como toda a margem e o rio),
E esvoaça o espírito, chove luz, reluz a enxurrada, os dois em chuvisco, 

E nós nus, sem nada mas com tudo no peito, na mão partilhada, é incerto,
O destino, o fado dos homens, mas há magia, há poesia, há beleza e brio,
E ente as linhas de um poema, Amor Verdadeiro, daqui já vejo o mar-aberto!

 

terça-feira, 2 de junho de 2020

Somos Todos Fragmentos de Uma Supernova Que Não Tem Nome

Deixo-me na envoltura de uma densa nebulosa,
Encostado a uma constelação há muito esquecida, 
O mundo a meus pés, a noite altiva e tão formosa, 
Com as rotações da Terra parece que foi perdida, 

Sorriso no peito e este coração, varão de escadas
Para as estrelas cadentes por poetas imaginadas,
Por pintores pinceladas, por escultores esculpidas, 
O sonho de quem ousou e por este olhar recolhidas,

Cinco oceanos, sete mares e sua maré, vento norte
Que me empurra para a Primavera do firmamento, 
Tormenta após tormenta, dependente da boa sorte

Tal como bom marinheiro, este poderá ser o momento
Em que vejo o vero beijo e escapo à bruma da morte, 
Hoje é o dia em que da hiper-supernova sou fragmento.

sábado, 30 de maio de 2020

Furtando Estrelas

As cores do horizonte sou eu, eu sou pertença,
Dessas luzes fulgurantes, correntes, o beijo dourado,
Que vão e perduram no firmamento como sentença,
São eles que me fazem sentir vivo, sentido amado,

Pois sem Luz apenas escuridão restaria, a delicada
Luzência, também minha essência como é a negritude
Sou mescla de ambas, estando ou não na estrada errada,
Só assim sou relembrado que da falésia eu sou a altitude, 

Por olhos negros esbranquiçados duma boneca de porcelana, 
Frágil e franzina,  conta-me os segredos de ambos, esplêndido, 
Quando adormecer, ouvirei a sua cantiga, dulcificada e leviana, 

As cores do horizonte sou eu e de volta com estrelas na algibeira, 
Procurando e passando o firmamento tal estrela cadente difundido
Pelo cerúleo, hoje é o dia de trazer as cores distantes para nossa beira.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

O Verdadeiro Sentimento

Nus, de vestidos brancos e de pés descalços,
Correndo a colina acima, em busca do divino, 
Encontrei o Amor, activo e passivo, os destroços
Do ontem, são a valsa do pé-coxinho, o destino, 

Não é preciso uma música, nós somos o dançar,
Sua cabeça encostada neste ombro, sou afortunado
Por ter quem me quer e eu quero, durmo, a sonhar, 
Para lá da sombra do silêncio, acordo, ainda inebriado

Pela quimera que me acossou, pelo beijo entretanto dado, 
Persegue-me o dia, quando apenas sonho à noite, e eu – quebrado
Deitando fogo à chuva, salva-me com um beijo, com a eternidade, 

Fecho e reabro os olhos, esta é uma dança lenta enquanto a sala arde,
Labaredas mais altas que os demónios de Hades, parado num momento, 
Em que eu e ela sabíamos o que era Amor Universal, o verdadeiro sentimento.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Massagem de Mãos Sobre Os Ombros

Apontando para o horizonte, para a porta de saída, 
Eu ainda acredito no Amor, só não acredito  no amor, 
É o escape incerto a uma fotografia do sol retraída
Que parafraseia o sal da maré, o toque do trovador 

Faz com que vivam sobre o arco-íris, sobre as nuvens,
A aprendizagem do permitir ir, há mais que o branco
E negro, há cores que nunca vi, o muro dos homens
Esvaece os anos, invade a idade, é forte tal potranco, 

De peito quebrado, de coração subtraído, doce ironia, 
O amador sem objecto para amar, o silêncio eterno,
Entre a fauna e a flor, olhos de oceano, a infinita afonia,

Não permite o permitir, "Olá!", é o que apetece dizer,
Quando o meu reflexo passa, passa todo o Inverno, 
Mãos sobre os ombros, para as abraçar, para as querer... para as querer...

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O Anseio Pelo Momento

Por vezes sim há palavras que não conseguimos sequer pronunciar,
Há que festejar e empurrar o pão com vinho, sentir o bem-querer,
Ou aquele ímpar e eterno Amor que não sabemos partilhar,
Sou apenas um homem, deixem-me estar, deixem-me correr…

Pois por vezes há paladares que se escapam dentre a cavidade oral,
Aqueles olhares que se perdem enquanto vêem o tido como beleza,
Este engolir em seco, expurgando o suor da testa, o palpitar amoral
Lembra que o instante passa, independentemente da gentileza,

Tal e qual como por vezes há livros que não sabemos colorizar,
Também há instantes que não conseguimos capturar, é natural,
Ou momentos que não sabemos mesmo bem, bem aproveitar,

Quando há tanto para permitir acontecer, permitir ser nesta Vida,
Mesmo quando nos esquecemos de nós neste nosso quadro pictoral,
Anseio e desejo o estar perdido no momento, na chegada, na partida...

terça-feira, 19 de maio de 2020

Eternos

É uma teia de aranha estas correntes, 
Cedidas por aranhas para criar casas,
Pacientemente, vendo, estrelas cadentes,
Ornando a cúpula, estreitando esta asa, 

Conferido sonho alado, tempo sem espaço,
Soletrando as sílabas de Deus, a crença, 
A sentença é acaso até este andar descalço
Coincidência ou lapso? Não, esta é presença, 

É Ser Inteiro, celeste longe da sombra e escuridão, 
Por isso rio e choro tal Cavalo de asas pregadas
E rio e choro, e rio e choro e me segue a claridão,

A primeira em muito tempo, minha única pertença
É o tempo despendido entre partidas e as chegadas,
É viagem que faz do transeunte tanto a cura como a doença, 



segunda-feira, 18 de maio de 2020

Mesmo Quando Tolhido Pela Maré

O tráfego transversa lá fora o pavimento,
Não posso albergar o Sol só numa algibeira, 
É esta acumulação de instantes e de momentos, 
Um dia chegarei à foz, seguindo para lá da fronteira,

Nada mais tenho para lembrar nem nada para esquecer, 
Espera-me à esquina dos perdidos, a dos desencontradas,
Estoirando-me no peito um grito à desgarrada, quase a viver, 
Pressagia-me e que o colibri cante com as plumas eriçadas, 

Trago no rosto as aventesmas e as crianças deste caminho, 
É a fuga e a lentidão, súbita e clara, nos olhos - a solidão, 
Aberta e enterrada num berço, o ímpeto do percaminho, 

Este é aquele instante que define aquele instante anterior, 
Sim, somos tolhidos pelas marés mas é o pletórico coração
Que não arreda, que não cede que não desiste – ele é o Ser Inteiro, ele é o Excelsior. 

segunda-feira, 11 de maio de 2020

... E Assim nos Elevamos

…Tropecei nas escadas, a universal estenografia,
Reviso as estrelas a recaírem da escuridão,
São terra e crepúsculo retido em garrafa,
Incidindo em asteriscos de eviterna servidão, 

Criamos escadas para o céu de exíguas colinas,
Onde o trilho for, por onde o rio fluir a cada vez,
O objectivo:as encruzilhadas, altas ou picolinas,
E eu respiro seus Deuses por um, a dois, a três,

Através de vales e montes, este é o Cosmos privado, 
Pássaros chilreiam, animais pastam e eu sou preenchido, 
Há quatro estações apenas num dia, deveras obrigado! 
                                                                                 
Somos tantos, vários e diversos pontos descontrolados, 
Sempre entre margens, pela ponte e o horizonte colhido, 
Pour le monde, enfim ascendemos e somos deificados!!! 

Por Vezes Esta Miragem Quase Sabe a Vida

A paixão por um beijo adagiado estancado no peito, 
Enamorado por um gesto quase consumado em vida, 
A vida vira meia morte por alívio, remédio, por respeito, 
Entre estes dedos as mãos de Rhea nos últimos restos de vida, 

Uma cama de rosas impaladas, enfim em frente o jardim do Eterno, 
É um toque de alaúde e caiem todas pérolas dos seus pés, 
Rasguei as asas para andar com os humanos, oh tao ingénuo, 
É mera luz e restos de sonhos dentro de vagões indo invés 

Do caminha da graça, este vestido resguardo, estas paradas atrasadas, 
Aí meu amor, a nossa dor, a nossa vida, mas que epopeias deificas, 
Esta é a a minha serenada a quem atravessou, aquelas outrora amadas, 

Por isso sereno a madrugada, por isso as indentações do coração são sorrisos, 
Conto os segundos para a manhã, fujamos para algures bonito, por lendas seráficas! 
Depois descansaremos num majestoso lugar… já ouço os passarinhos cantar, já ouço os passarihos a cantar….