segunda-feira, 30 de novembro de 2020

O Velar Nesta Condolência

Estas lágrimas que escorrem pela face acorrentada
Ao passado, há tanto deixamos o lar e ele esquecido
Trouxe o coração infracto, a sombra que é da estrada,
Da curva à berma até à margem e eu então enternecido

Pois os sóis distantes eram vertidos por horas transientes,
Eu insignificante, porém importante, maior que o mundo,
Repleto de luz para partilhar de vista na chuva incipiente,
E assim de repente, sem vestígios de graça então me afundo

Em trajectórias cúmplices com joelhos e pernas quebradas,
Longínquo sonho, tanto a andar com esta sede de infinito
Coincidente com beijos não dados e de mãos afastadas, 

Sonhando sem respirar, preciso de ti amor, és a carência, 
A falta, a privação e escassez que acolho no interno grito
Que zela a alma dos perdidos, que velo nesta condolência.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Estas Palavras Escritas

Recontam-me o silêncio de uma madrugada escurentada, 
Inebriado por versos de um poema hoje desconhecido, 
Deixado algures numa rua atrás da porta escancarada, 
Onde era tudo e nada num escrever por Deus enaltecido,

Escrevi de ti para mim, estrofes pomposas repletas de beleza, 
Pois o silêncio desses lábios era demasiado para aguentar,
Então no papel os coloquei para esconder essa subtileza 
De um rosto trazido no coração que não pára de tentar, 

Esta lágrima luzidia neste olhar nublado e o ecoar da solidão
Pelos corredores de mármore a passo pesado, quase a chegar
Ao lugar onde permaneço, donde escrevo poemas de imensidão

Pela tua voz em sonetos, esse toque em papel, maior do que a vida!
Não tem fim este amor quebrado, é enterra-lo para não me acorrentar,
E enfim, livre para voar para longe dessa tristeza, por uma capa envolvida.

Por Cada Momento

Outro poema que veio e já se foi assim esvaecendo
Na reflexão nos corredores destes tempos passados,
Ao fugirmos da chuva, cantarolando e revivendo,
Atravessando vistas e olhares por ontem defasados,

Reunindo-se onde ainda havia a criança e a esperança,
Sem canseira do vulto que quer ser homem ou mulher,  
É este coração vagabundo que por ter tanta lembrança
Vai por vezes morrendo por tudo não conseguir conter, 

E esta nostalgia amálgama com saudade, é o sorriso
Vertido na lágrima do órfão sem amante, o restante,
A estação que passa, de oásis nos desertos preciso

O rosto lunar no avarandado do sol, e eu rouco de bramar
O pé descalço na valsa do pé-coxinho, a poesia do instante
É esta paixão aqui, hoje, agora e em cada momento por cada amar.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A Eterna Procura E Espera

Procurando abrigo desta precipitação interior,
O desejo é simples, é um dia outrora fustigado
Por sorrisos onde abrolham flores longe e em redor
Do coração, que venha a estação, direi o recado

Deixado à porta dos deuses dos vivos e dos mortos,
E esta mensagem escrita a ferro e fogo nas paredes,
Pais, filhos e avós lembrados e nós imóveis e absortos
Pois sabíamos que esta água não saciaria estas sedes, 

De homens indolentes cujo trilho não deixa encalço,
Este rastilho até mim, este olhar até o fim do horizonte
Onde o acontecer é real, não há hesitação ou percalço,

O fôlego deste amanhecer, procuro da chuva resguardo,
Entre os charcos um reflexo livre de ruídos, claro e insonte,
Dentro da ondulação as palavras: “Eu por mim aguardo!”.

domingo, 15 de novembro de 2020

Não Vale A Pena Temer O Adeus

Não direi mais adeus, agora apenas darei boas vindas, 
O cansaço do aceno de despedida quebra a esperança,
Enche-me de escárnio das manhãs e as noites lindas
Proteladas pelas estrelas de dois olhares em lembrança,

É uma partida infindável, é o receio dos velhos lugares,
O retorno ao mesmo tal manchas depositadas nas mãos,
Não obstante do quanto já fomos ou quantos andares
Subimos, somos sôfregos, somos inertes, somos órfãos, 

Perguntando-nos qual a vista para o recreio, o corrimão
Para o céu que transfigura os homens em sonhadores,
E eu preciso de sonhar, preenche a alma e o coração, 

E tenho saudades do lar, nós não somos deste mundo, 
Há lugar no instante fugidio entre a brasa e os ardores,
Espaço para a criança alada e este sentimento profundo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Um Dia Ganharemos Asas

Este é o ecoar de quem se lança destemido à estrada,
Os suspeitos de viver, suspeitos de correr atrás da Vida, 
Um breve sonho de bolinhas de sabão, vê-la idolatrada
Como um ligeiro toque sobre o sepulcro de despedida,

Pois o sonhador também é subalterno ao abraço da Morte,
Apesar de não a abraçar, não a temem, não rezam a ausência
Ou vão esperando, lentamente seu próprio definhar, a sorte
De quem está para ir, não para ficar em eterna abstinência

Do sabor próprio que tem a vida, a passagem entre o poema, 
Delicada como o ecoar de quem vai sem medo, vai destemido,
Pois ao passar do tempo somos estranhos, sem palavra ou tema, 

Perseguindo a procura e a espera por um dia enfim grandioso, 
Esta pulsar é sincero, este pulsar é verdadeiro não é enrustido
Deixemos para trás o terrestre, saudemos o céu em tom ansioso.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Tal e Qual Dois Amadores

E após estes anos eles regressaram - o coração na manga, 
Estes sonhos frágeis destinados a ficar sob a sepultura, 
O pôr-do-sol desacorrentado é este grito de Ipiranga,
Vê-lo beijando o rosto do mar caído da mais alta altura, 

Ainda estás aí? A voz harmoniosa que ladeia este caminho
Onde a erva cresce alta e indómita, como a etérea serenata, 
Quando a lágrima é recíproca, indicadora do Sol e eu sozinho
Vou sussurrando o suspiro de quando o silêncio acena e retrata

O dia enfim a finar, alfim ajudem-me também a desaparecer,
Tal como o riso a flutuar sobre a maresia, a nossa magia
Foi esse dia dentro do dia um momento, a vida a esvaecer,

O grande acordar é este eco de pegadas entre os corredores,
Aqui era onde caminhávamos de mão em mão em sintonia,
Lembras-te que costumávamos cantar tal e qual dois amadores.

(aqui éramos magia)

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

E Sonho Acordado

E sonho acordado com o rosto da eterna musa, 
Aquela que me inspira, que me confere a mão,
Que é a ponte para o horizonte da luz difusa, 
Aquela que simplesmente me preenche o coração,

E sonho acordado com o seu semblante retocado, 
O pormenor do detalhe, a tenra imersão corporal
No abraço das horas, a vogal, o suspiro invocado,
Deixando-me apartado escrevendo este madrigal, 

E nas esquinas do tempo cruzamo-nos obliquamente,
Da doença advém a cura, sara-se assim de repente, 
Num instante sinto o rosto afagado pela palma da mão, 

Relembrando, sim, de que este para o céu é o corrimão
Por onde vou trauteando o desejo numa doce semifusa,
Onde sonho acordado com o leve beijo da eterna musa.


domingo, 1 de novembro de 2020

Amigo, Farão Festas Por Ti

Amigo, farão festas por ti sobre a tua sepultura, 
E flores florescerão e a manhã virá desse chão, 
Então veremos os dias, as nuvens e cores da altura
Para nos lançarmos enfim de mão em mão em mão, 

E os dias transientes de uma noite agora tão fria,
Efémeros, pois, o pássaro assim para longe voejou
És o que ficou, o que uma estrela passageira trazia,
És seu fulgor, és a sua magia que em nós pernoitou,

Porém és pássaro e os pássaros não caem, eles são
A parte inocente e leve que permanece no coração,
Amigo, trouxeste sorrisos para o comum transeunte,

Por isso não há dúvidas, não há quem ainda pergunte,
Amigo, és o suspiro de uma criança brincando no passeio, 
És o abraço no cimo da colina, o acenar de despedida no recreio.

para o Kaia
 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Quando O Primeiro Passo Está Entre O Ir E O Hesitar

Aqui um fôlego por uma vida, um beijo suspirado
Entre os dentes e a estória que acaba finalmente, 
Por um minuto passageiro, um ontem fantasiado,
Suficiente para tornar o maior céptico em crente, 

E em mente, um charco de sangue no chão, o botão
Do Inverno, cisterna para extinção da sede da morte, 
Não obstante de quem nos beija e tocando o coração, 
É mais do que uma questão de destino, fado ou sorte,

Inclino a garrafa, correndo do seu fundo, submerso, 
O pôr-do-sol é carreira para os acordados, libertários, 
De maquilhagem manchada, do seu oposto ao inverso, 

O anseio pelas sementes de uma nova dimensão, estação, 
Desde que do céu caímos que seremos eternos refractários,
Sem destinatários, entre as colinas, entre o ir e esta hesitação.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Os Filhos de Hiroshima

O tecto mostra-me enfim os raios da manhã, regressa o dia, 
Com os cordeiros, o abrir os olhos numa grande charada,
É dos insectos a parada, o golpe da faca, a morte da cria
Que ainda não nasceu, que não esqueceu a ferida sanada, 

É esta a eterna emboscada, a procura no ventre esterilizado, 
Mil e uma vezes fecundado, porém sem encontrar a vivalma
Que traz o sorriso ao Sol, apesar de ser outro dia desolado,
Há fotos tiradas que relembram os mortos e a sua calma, 

A noite foi-se, veio a manhã, e novamente lâminas nos sentidos
Por quem não se lembrava do nome, entre o fumo, entre a bruma, 
Enfim, as nuvens de onde caiam anjos e os pilares do Sol vendidos,

Deixaram apenas sombras atrás, beatas e cinzas pela colina abaixo, 
Carniça aos olhos dos abutres, ouçam o silêncio, a verdade é uma, 
Os filhos de Hiroshima ao tempo de um suspiro, são terra, por baixo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Entretanto A Vida Acontece

Desentedia-te, a vida acontece para lá de quatro paredes, 
E a cada instante nós mais próximo dela e mais perto do fim,
É preciso ir e procurar o Sol, o Luar, apaziguar as mil sedes, 
Pois no final deste livro, quando pisarmos o solo do eterno jardim

Espero que nenhum segundo tenha sido em vão, ouçam com atenção!
É preciso ir e ir sem medo das pegadas aqui e para trás largadas, 
É preciso ir com a mente em mente, mas também à frente o coração,
Só assim deixaremos para trás pegadas dignas de serem deixadas

No éter, no tapete da entrada da casa de Deus, ouçam amigos meus,
Aqui beijamos o chão sem nele tocar, aqui aprendemos a ir e a voar, 
É o suspiro da criança do Elísio patente nestes passageiros segundos eus, 

É o toque divino, outrora esquecido, estas são as verdades ontem renunciadas, 
É uma mão na outra e plim! Faz-se magia no querer ir e no querer eternizar
O momento d'oiro, este é o corrimão para o céu, e estas as divinas escadas.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

A Morte Bateu-me À Porta

A morte bateu-me à porta e eu permiti-lhe a entrada, 
Trouxe-me rebuçados e doces de um tempo perdido,
De magia e epopeias de quem não era de todo lembrada,
E o seu murmúrio era sossegado a um simples pincel colorido, 

A morte bateu-me à porta e eu mostrei-lhe o caminho, 
Trouxe-me cigarros e beatas na mão aberta, era o incerto,
Ela disse: "Não sabes que nesta vida morre-se sempre sozinho?"
E eu acenei com a cabeça, ela olhava-me como se fosse seu adepto,

A morte bateu-me à porta e eu permiti-lhe sentar-se,
Trouxe memórias de porções de beijos do tão distante,
No longínquo ouviam-se gemidos, era o velho a lamentar-se,

Pelo tempo que não foi Vida, pelo frio que era triste, pela geada, 
A morte bateu-me à porta e deu-me a mão num silêncio reconfortante, 
E eu fui com ela satisfeito por tudo ter feito, não obstante de tudo ou nada.


domingo, 25 de outubro de 2020

As Histórias e o Mundo

O mundo é feito de histórias, uma em outra tecidas,
Novelos impressos a diferentes ritmos entrelaçados,
Sendo fôlego ao acontecer no espaço e tempo rendidas,
Somos sua parte do prefácio ao epitáfio em nossos bocados, 

É entre a vida e a morte, entre o visto e o ainda por ver, 
Bem altas e fortes, linha a linha contando outros momentos, 
Que parecem tão pequenas, é a vontade que as faz crescer, 
Seja em alegrias passadas, lágrimas deixadas ou ainda tormentos

Que se sobrepõem tenuemente à língua em tons prazenteiros,
Sendo que os longos parágrafos separam diferentes epopeias, 
E ainda por cada respiração faz dos meios simples e inteiros,

Há prosas ou poesias mediante a história, a ida e caminho, 
Haverão narrativas para soprarem a outros estas ideias,
Enquanto elas aqui se vão tricotando como fios de linho.



sábado, 17 de outubro de 2020

Alguns Espelhos

Alguns espelhos deixam homens em migalhas,
Côdeas de pão para outros transeuntes desatentos,
E eles gostam de pão. Tens erigido em teu torno muralhas
Apontadas para a linha do horizonte, erectas para os ventos,

Terra dos perdidos, mais um dia negro para o pedinte,
Ao desabrigo desta canção, pedindo perdão ou isenção,
Ainda na sala de espera para entrar e por conseguinte
Dar entrada na vida, aonde for pulsante o coração,

O resto é poeira no olhar, a tensão nas cansadas pernas,
Quando é apenas e somente outro dia a cinza pintado,
É cinzento, ao vento, ao suspiro destas tristes cavernas

Onde alguns fazem moradia sem lar até ao seu jazigo,
É o perigo de voltar as costas à vida, ao breve bocado
Por onde somos bem vindos, por onde há sempre um amigo.




sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Há Horas Sem Segundos

Há horas sem segundos, e instantes sem momentos, 
Até dias em que já não nos servem as roupas usadas,
Há um frio com calor misturando aqueles sentimentos
Que colocamos em gavetas por mil chaves fechadas,

Temos cruzado as encruzilhadas e nelas sido cruzados
Por rostos que em nós passaram, os eternos passageiros
Que tenuemente nos beijam a bochecha, somos achados
Em ciclos onde dentro de nós por vezes somos estrangeiros, 

E vem a bruma, e vem o bueiro, e escuta-se o vento, 
O passarinho ainda chilreia, é moldura com intento
De cobrir mais, esvoaçar mais alto de olhar aberto,

Pois apesar de seu voo ser tudo menos um voar certo,
É nas estrelas que enleva seu ninho, seu altivo sonhar, 
Pois venham essas horas sem segundos, estou aqui para as aclamar!

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Os Fantasmas do Crepúsculo

Temos de abanar a poeira e bolor do esqueleto,
Somos os fantasmas do crepúsculo; o fim do dia
E início da noite pertence a quem fala o seu dialecto,
E cada um de si vai na sua própria companhia,

Onde as sombras se dão como imperadoras
E não há candeias com luz suficiente para alumiar,
Ouçam ao longe as vozes que outrora foram merecedoras
De um beijo que entretanto foi perdido, que já não sei como apontar,

As persianas de uma janela deixada entreaberta,
Falta-nos espaço para respirar, a pele foi largada
À perspiração de uma noite onde cada hora era oferta,

Poia para quem a mim seguir, a quem a mim for seguinte,
Deixo-vos a voz de Deus, uma luz mesmo que inacabada,
É vida e missão para o vivo, para quem continuar, para o bom ouvinte.

(De uma história ainda não observada).



Sem Parar

Um desastre rodoviário e calço vidros quebrados,
Quase em vida, convulsões vinculadas a questões
De quem não teve em criança aqueles bocados
Que supostamente conferem ao ser fundações,

Mil e um perdões, cheguei e não me dei por apresentado,
Pois saibam que sou aquele cujo trilho advém da salvação,
Sabei que não sou pertença de ninguém, sou quase amado
Por quem toquei no caminho, por com quem partilhei a mão,

Quando as paredes caem ficam os astros do firmamento,
Sorrio pois conheço esse momento, não receio o que possa vir
A não ser que seja a ausência de vida, de acontecimento,

Pois quando o rosto do sol é coberto pelo não querer
Ainda há tempo e espaço para o beijo, para o sorrir
E então os gritos deixarão de ensurdecer e a vida de morrer.




sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Retratos Inexactos

Retratos inexactos de uma dança outrora bailada,
Enunciada e soletrada a minúsculas numa ponte
Era a trova do romance, a lágrima ontem deixada, 
De onde uma alma saia e perdia em si o insonte,

Era um nome murmurado pelas alcovas nocturnas, 
As vielas ecoavam-no ao patamar da insanidade,
E eu perdia tempo e então numa ânsia taciturna
Ia-se o fôlego e ofegante sustia-se em iniquidade, 

Assim vertiam-se-me os olhos, gotejava-se a vista
Em charcos de alvoroços, as pálpebras restantes
Então largavam-me e cerravam sem qualquer pista,

Não bastava o asfalto e o pavimento, era o momento
Para permitir a bruma ser, talvez ser como era antes
De as estrelas cadentes caírem neste nosso casamento.


quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Há Dias Cinzentos - Aceita-os

Há dias cinzentos em que não há sequer no céu passarinhos, 
Somente bradicardia no momento actual residente, é utente,
Para quando houver uma aberta através de ermos caminhos
Que irregulares, sim, convergem para o mesmo - o presente,

Assim é uma simulação de vida através de modelos de cera,
Onde abanamos as raízes e bradamos aos céus por salvação,
Esperando vamos, é esta minha ânsia que o interior esviscera, 
Reparem, nestas pegadas rareia o beijo que é do coração, 

E sustentas o fôlego, e suspiras com os dentes cerrados, 
As folgas entre o pavimento lembram as asas cortadas,
Pois em instantes perdemos os trilhos certos e errados

Que eram fonte surdida onde há rosas e pétalas pintadas,  
Erguidas e amarfanhadas por outroras e dias acinzados,
Houve bocados, mas nenhum tinha luzes fragmentadas.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O Pai Tempo E A Vida Que Passa Entre Os Seus Dedos

 Poeira sobre as roupas pelo ontem vestidas, 
Os pontos ligam-se nos vértices coincidindo,
E eu indo caminho as ruelas e vielas perdidas,
Sem que as portas pelas quais passo irem abrindo,

Percorrendo, imóvel, os momentos do passado, 
Onde, abstraído, era moço, homem e até velho,
Todos esses instantes fui sendo por um bocado
E eles se tornaram no que fui vendo ao espelho,

A menina das alianças me deixou e foi-me levando,
Pois em boa verdade, quase não reparei no relógio,
Foram tantas as mudanças que eu fui almejando

Que o tempo veio e se foi e agora se dá por acabado,
E, sorrindo percebo, ela é recurso precioso e privilégio
Para quem vai e vem na alma e coração no minuto apartado.






terça-feira, 29 de setembro de 2020

Eu e a Brisa

Faltam e sobram-me horas de um dia inacabado, 
Uma tarde primaveril bailada a dois num beijo, 
Onde o simples era regra e o trilho encruzilhado
Era mote para o ainda por vir, para o vero ansejo,

A graça de uma valsa dançada no conteúdo da alma, 
Entre a tempestade e a acalmia que a todos nos erguia, 
Uma cidade com vista para o oceano onde nem vivalma
Trilhava as ruelas, onde nem a Morte passava, ela fugia!

Deambulávamos numa dança própria de dois amantes, 
Eu e a brisa, assoprando pela almargem, entre a vontade
De ir mais longe, de ser mais Inteiro, ao Universo aspirante,

Este jardim esverdejante voluteando entre palavras inauditas, 
As frases incompletas, os parágrafos inconclusos, a metade
Que era minha e estas querenças para sempre na areia escritas.


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A Musa Que Me Inspira

A musa que me inspira é as estrelas do caminho, 
Os amores por ele plantado, os instantes, os bocados,
Até as ruelas e vielas escurecidas por onde vou sozinho, 
As lembranças tornadas memórias em rascunhos traçados,

A musa que me inspira é serena e educada, afável e inocente, 
Gosta do sol e luares redondos, confidencia-se à sua vontade
E não é minha prisioneira logo tanto vai como vem de repente,
Ela é imperativa, é urgente e precisa de amostrar a sua verdade,

A musa que me inspira tem lábios redondos e um abraço profundo, 
Ela é a Vida e Morte à altura do céu e à queda no precipício fundo,
Traz-me saudades do que está por vir e ansejos do que é passado, 

A musa que me inspira é esbelta como o belo jamais foi retratado,
Ela é liberdade, a mão aberta e o abraço para o horizonte alcançar, 
Ela ensina-me o simples, o detalhe do incerto mas principalmente... o nunca deixar de tentar.

domingo, 27 de setembro de 2020

O Propagar De Asas De Um Passarinho Moribundo

Ondas na lagoa são marés atrás de marés revistas
O trecho inacabado de um voto numa colher restado
Por lembranças que se vertem por valetas com vistas
Na imprevisibilidade de um papel no lixo amarrotado,

Para o precipício exsudado por cada olhar, cada passo, 
Onde passo e repasso a canção de Ícaro ao esvoaçar
Próximo do Sol, próximo da perdição, sem compasso,
Sem traço no lápis, sem tinta no pincel por cada traçar

Caíamos dentro do eviterno quando o pássaro me morria
Nas mãos, demasiado fraco para voejar e no céu propagar, 
“Mãe, ajuda-me a viver!” – seus clamores quase em euforia

Na minha cabeça ainda habitam caindo dentro deste ouvido, 
“Oh meu amor, oh meus queridos”, esquecemos o que é amar
E longe de casa suspiramos tão próximos do seu coração ferido.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Um Cais Para Amar

Por vezes faz-se do clarão da fenda, a tristeza, 
Em círculos percorrendo o que a vista alcança, 
Das sombras o vínculo com a bruma, a incerteza
Que com o Inverno e Outuno vai, fica e até dança,

Da abóbada celeste, uma caçadora já com ideias pautadas
Por braços de silêncio onde dois corpos longe se estendem, 
Quando existe uma vida atrás através de experiências contadas,
Do prefácio houve ruído e o alarido então que no epitáfio se findem

As vozes dos poemas de outrora, das letras de cada voz ou canção, 
Porque já passou tempo para olhar e ver, passou para pedir perdão, 
E eu não perdoo, pois, o passarinho apartado voou e caiu da sua cama, 

E tal peso morto, como buraco no solo, quase que esqueceu quem ama,
É a doença dos amadores armados em trovadores do fim do mundo
Quando na verdade, só querem um cais que não seja muito fundo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Desde Que a Música Do Caminho Persista - Há Caminho

Sim, deste alpendre ao luar escrevo debaixo do sol,
Só eu sei as noites inacabadas e os dias por findar, 
De um lugar isolado onde vem o embuste e o anzol,
A casa onde esta erva daninha se acaba por alastrar,

O sonho era encaminhado de mão em mão rumo à voz
Da criança que fui a brincar na alma, sem reféns ceder,
Compus o aceno num instante dedicado ao fluir da foz, 
E fui arrepiando caminho sem o vero ideal comprometer,
 
Que era uma canção feita de linhas tecidas de ano a ano,
Divinas, eternas, imaculadas pela sombra que é o humano,
As formas distantes e duvidosas por onde nem sei por onde

Quando não sei sequer o que a curvatura da estrada esconde,
Portanto peço beijos quando os há, ou o abraço quando existe,
Evitando os buracos das ruelas e continuo, pois, a música persiste.

sábado, 19 de setembro de 2020

A Orfandade Desta Procura

Os meninos órfãos vivem três andares acima de deus,
De corpos aéreos, dançando no tecto de mil promessas,
Onde cada pai e mãe foi despedida sem um único adeus,
Enviando cartas postais sem entregas ou sequer remessas,

O tocar do telefone, rodopiando em punhos de anos e anos,
Onde os sonhos são perdidos pelo hediondo som da cidade,
Onde a inocência é estuprada por anseios e desejos levianos,
Vão eles crescendo antes do seu tempo ao acrescentar da idade,

Quem nunca foi uma dessas crianças das ruas e vielas perdidas?
Quando a verdade é que ostentamos círculos para nenhum lugar
Pois desviamo-nos do caminho para casa e as roupas vestidas

São simpatia de estranhos onde a inocência é difícil de encontrar,
Quando não há partida nem chegada, apenas lágrimas contidas,
Se esse sítio nunca dorme será que ninguém consegue sonhar?

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

O Caminho É Longo Até Encontrar O Lar

Acredito que há um subtil abraço que ao Inteiro é envolvência,
Num instante simples e fecundo, tal o respirar de uma criança,
Porque para o alpinista a sua montanha é inescapável, persistência!
Pois há sempre caminho a andar quando de nós para nós há distância,

Aqui dentro a vigília mais forte que a sorte, mais forte que o tempo,
A esperança de que o primeiro passo seja tão forte como o último,
Porque há ecos deixados na maré por cada gesto articulado entretempo
Do agora e depois, digo-vos, o coração também é um caminho legítimo,

Sustem-se o fôlego, somos escapes renitentemente fugindo de um embuste,
Que é passagem de dia e noite, percorrendo as colinas de um sonhar belo,
De quem vagueou além-horizonte, quando este ideal é inabalável e encruste,

Sim há momentos em que tenho saudades de um algures apelidado de lar,
Pois todos ansiamos pelo mesmo, todos desejamos aquele toque singelo,
Logo o destino é continuar o trilho e o caminho enquanto não encontramos lugar.

Todo O Sonho É Reciclável

É ao sonho amarrotado e deitado ao lixo de uma aurora, 
Tu que raramente viste a luzência do olhar de uma criança, 
Foste quem foi a sua própria ausência até ao beijo d'outrora,
Onde esvoaçaste para longe pois o vento colocou-te  uma aliança,

Eram tantos panfletos de autores sem apelido, almas sem lugar
Para poisar e sequer brotar para o Oceano, no eterno suspiro, 
Daqueles momentos em que a escolha foi-se ausentar
Numa ode ao ansiado, do alto da altura - eu inspiro e expiro

Sob os estranhos ao espelho, perante a imperdoável estrada,
Quando batem à porta do agora, ergue-se a oportunidade,
É preciso acordar, despachar a brisa pelos lábios soletrada, 

Pois hoje é tudo ou nada, estou pronto para no riacho escorrer,
Seja viver ou morrer, este é o perene circulo e sua sinceridade,
Não distingue nada nem ninguém por isso há que o deixar correr.



A Crença Jaz Na Aceitação Do Que É Como É

 As palavras são feixe de luz, as brasas na escuridão, 
Ponte para os viajantes, espelho para as centelhas,
Que fustigam as veias oculares em troca da visão,
Caindo silenciosamente no requebrar das telhas

De um telhado atravessado por correrias de criança,
Trazendo o sonho na pálpebra do olhar, mão abertas
E esticadas para uma abobada celeste que alcança
Os quatro ventos baptizados pelas ruelas incertas, 

Até erguermos o sonho à primavera do apartado berço, 
Todos já perdemos irmãos nesta guerra, vem o sono
Imploramos por paz, o inebriar dos sentidos que alicerço, 

As fundações para o céu, a parte de mim que é pertença
E a parte de mim que não sou eu, que é morte e outono,
Quando na verdade, o aceitar de ambos sobe e enleva a crença.