sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O Corrimão Para O Céu - Mentira?

E um dia teremos parte de um fragmento, Atenas, momento,
Esta é a escrita cadente e é o anseio pelo longínquo tesouro, 
Da vida, quando o pouco que foi, todo este acontecimento,
A enxurrada entregará para o horizonte pelo escoadouro,

Onde cascos são cópias carbonizadas de homens partidos,
Drenem o lago, procurem o cadáver do derradeiro fado,
Os vestidos brancos e as danças lentas, os poentes retidos,
Respirando este ar rarefeito, se calhar passei-me ao lado,

Hoje a envoltura de uma silhueta entre um terno abraço,
Era uma a promessa de um eterno, um eterno dar a mão,
Quando nem para um certo tempo havia sequer espaço,

Abram-me as veias e acordai os anjos, hoje serão alcançados,
Ainda há impressões digitais nas nuvens, neste corrimão,
Que haja luz para fazer das sombras amigas em belos bocados.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Por Aqui Sou Caminho

Por aqui, por onde caminhamos, a tempestade ainda tem lugar,
É a parada negra, largando a mala para poder andar à boleia,
Adormecido, os comprimidos engolidos eram algo para matar
Não a vida mas a ausência dela, indeferido, nesta mão-cheia,

Ou matamos a morte ou a morte matar-nos-à minha gente,
Por isso vou quebrando as correntes deste frágil coração,
Que o seu colchão seja confortável nesse trabalho diligente,
Este amor não é preto nem branco, é o passar de cada estação,

Sim, é quando pensamos que as boas meninas vão para o paraíso,
Que vemos que esta é uma instância do limbo,a aréola soqueada, 
Somente o paraíso sabe, só ele sabe qual o lucro ou o prejuízo,

Esperando na penumbra, eu deixo-o solto, eu deixo-o apertado,
É a parte que é resto, fragmento da noite esperando a alvorada
Pois somente ela é caminho e Luz, só ela o pedaço do amado.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

É Preciso Ir e Correr Atrás do Luar!

Este pedaço de mim é ruído e silêncio - o seu namoro,
O caminho vincado na pele nua, a cicatriz e os diademas,
O assobio despreocupado, o gesto com ou sem decoro,
Pois das potenciais prisões sou eu o portador de suas algemas,

Que são esta ânsia, esta vertigem irregular por si procurada,
A altura da falésia para o vazio, para o nó da garganta, 
É um breve suspiro para o solavanco da berma da estrada,
Esperando as luzes de presença, o abraço de uma manta,

Caminhando ao meu lado, esta sombra tornada semblante,
Há poesia nesta passagem, a moção neste terno paginar,
É a ode a Deus, a ode a vera beleza, a ode ao instante,

E neles o único sítio onde pretendo de facto estar,
Pois ele é insciente a qualquer ouro ou diamante,
Este é o único espaço e tempo que pretendo ocupar.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

E De Tempo a Tempo, Estamos Todos Perdidos

O mundo roda e rodopia e quase por mim é contido,
Percebei que eu sou o fim desta era, o único alarido
Que mantém homens acordados a noite inteira,
A porção que morre na palma, o ninguém à beira,

Quando as toquei perdi a metade que era no coração,
E nesta alma o único sempre que poderia algum dia ser, 
Com o barulho que nem é ruído, que é falta de oração,
Que é pouco para estar vivo mas que nem sequer é morrer,

A abertura sem envoltura é beijo sem ser sequer dado,
Pois eu sou, eu estou na vontade do viver sem estação,
Eu sou a impermanência, a loucura e o sítio de estado,

Com todo o amor que puder dar mesmo com raiva e suor,
Na ausência da poesia, na ausência do verdadeiro refrão,
Pois o amanhã é apenas o consequinte do pôr-do-sol anterior. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A Minha Querida Amiga, A Anhedonia

Confere o papel do coração, é o corte, é o sol e a sua moção,
Batendo a porta, meu deixar-me, amor permite-me a entrada,
Entretanto lavei as mãos, banhei-me em núpcias, sou estação
Para o resto dos dias que não chegam, para a chuva inacabada,

É esta a menina das grinaldas de luz que repousa entre prados,
No instante infinitésimo perdido no infinito de um respirar,
Onde eu perco, eu encontro, eu espero, onde procuro os fados,
Que são pertença somente do aqui e agora, num lesto ansiar,

Entre as margens do celofane, pulmões negros de anjos erguidos,
Donde outrora eram caídos, a tosse sanguinolenta, a doce ternura,
Gritando por uma resposta, por cá nós os eternamente escondidos,

Por baixo de roupas usadas e cobertores rasgados, a doce ironia,
Dificilmente recordo o meu nome nesta eterna e terna brandura,
Estas algemas estão apertadas, filtra-se o lago, oh querida anhedonia!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Este É O Momento

Pelos campos carbonizados de neve existe um palpitar,
Cada um deles sufrágio silencioso para um tempo sem espaço,
Pois quando havia um pouco, uma metade, um respirar,
Então o floco era quebrado na ausência de um abraço,

Este é apenas um poema para os partidos, para a passagem,
Perdendo a ressonância com os seus nomes e apelidos,
Os ossos que engulo ao exalar nesta quase viagem
Que é apenas campo de batalha para os mortos e feridos,

Este comprimido é só para existir, não para viver,
Possivelmente dormitamos enquanto ardem cidades,
Se assim for, irei em frente para poder ser e conter,

Estes são os dias que passam, o bocadinho retido
Ficando entre as linhas dos olhos através de minutos e idades,
Que somente se torna a história do nosso passar quando sentido.






domingo, 22 de dezembro de 2019

Hemorragia

Ele nem se pendura dos campos vestidos de Serafins,
Ele nem vê o brilho dos teus olhos, as rugas da tua mão,
Os sapatos de salto alto que esqueceste no armario, os enfins,
Por isso porque o queres se eu poderia preencher o teu coração?

Então abraça-me ou deixa-me ir mas não sejas meio termo,
Não é simples quando não há oxigénio para respirar,
Não é beijo quando os lábios nem sequer se conseguem tocar,
E eu até estou bem, eu não estou louco ou sequer enfermo,

Eu sou ilhas, eu sou glaciares e foste semeada neste peito,
Estas palavras não têm significado, não têm horizonte,
Os pares entre si vistos num eterno para sempre rarefeito,

Preenches os teus copos com estes ossos contornados a carvão,
E nesse bocadinho há espaço para um beijo, tempo para a ponte
Onde és o giz no contorno que larguei e abdiquei no meu coração.



La La La La

Se passares a noite aqui seremos encurtados,
Abaixo da cintura, abaixo dos joelhos no beijo,
Penso que a ela e a mim fomos sim encontrados
Neste lento passar da noite onde tenha lá sido todo o desejo,

Por vezes é difícil sarar,  chama-me o instante,
O relapsar do suspiro que suga o latejar do coração,
Preciso mais dela nas veias, fluindo em frente, adiante,
Quando o único momento real é quando damos a mão,

Esconder a vez que fomos a queda, que excede e escorregamos na merda,
É uma piada, o não haver novos caminhos para explorar,
Pois quando o sol se põe, eu sinto a ausência, eu sou a perda,

Sou o esconder no fim da garrafa, o prefácio para o pouco, o muito, o amar,
Sentindo o suor, sem medo, o pé à esquerda da esquerda,
Pois por vezes, por vezes, estamos todos perdidos até nos encontrar.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A Dor do Terminar em Segundo

Acordei desnudado após com amor ter sonhado,
Polindo os ângulos destros, a réstia do encontrado
Era esta a dor do homem trilhando no solo sem piso
Pois de veias e sangue por elas escorrendo é preciso,

Procurando os seus pedaços no fundo da garrafa,
Até desvanecer o contorno desta entoada canção,
A estrada solitária até levou a palavra que estafa,
Preenchendo os bolsos com os ossos do coração,

Pois nesta corrida hei sempre terminado em segundo,
A sala cobrindo-se de fumo, erguido ou permitindo,
Os sussurros perfurando os ecos do vazio profundo,

É a dor do permitir, deixar o presente vir, sorrindo,
E quando a lágrima assentar e imperar a escuridão,
Um dia, novamente virá o sol, virá uma nova estação.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

4 e 43 da Manhã - Empregada de Balcão

O cigarro no canto do cinzeiro, define o trilho passado,
O tempo para lá deste momento, a sua cor, o seu estado,
O pouco que não foi, o muito no receber de uma mão,
E a espera pela procura do que puder preencher o coração,

E os cobertores daquilo que deixei de ser caminho,
A parte do trilho, a parte do pai, a parte do filho,
Largaste amor nas ruelas, vielas, na tua ausência,
Esqueceste o beijo iterado que era a próxima essência,

Abres garrafas pois perdeste a sede, o toque consagrado,
Atendendo a parte que foste e não pediste para ser, o tocado,
Entretanto esqueceste as beatas, os bêbedos, o ser partida,

Até te esqueceste do instante que era para lá, que era ida,
O fluxo natural, o passo dado através desta bizarria,
Se és essa metade, eu sou o sorriso, eu sou a melancolia.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Acorda Amigo, Não Morras Antes de Viver

Incrédulos, trago amor nas alcovas para partilhar,
Envoltura, o propiciar e o ver toda a estranheza,
Pois procuramos e por vezes não há espaço para andar,
Por vezes há momentos em que não há beleza,

Mas há espaço eterno sem importunar o infinito,
Ver o revés da moeda, com o coração nas nas mãos,
E perder o pouco que tínhamos no último grito,
Quando percebemos e deixamos cair todos os nãos,

Quando apenas temos a queda como único irmão,
Dormitando perto do prefácio próximo do trilho à margem,
E há tentativa sem sequer tentarmos ser tecto sem chão, 

E para viver há nuvens porém nunca tempo suficiente,
E o aqui é perto, é a última parte ou resto da miragem,
E o pequeno bocado que pode passar, passa sempre rente.

(Mas não rente o suficiente)...

sábado, 30 de novembro de 2019

Aqui e Agora Encontrado

Residimos nas mãos de quem tem amor para compartilhar,
Incorporando o brilho que cega, o escuro quando achado,
É o carrossel de emoções, o anseio e o esvoaçar
Que dão asas por cada resto e por cada bocado,

Saboreando as nuvens que perseguem a voz altiva,
São os anjos que se erguem do meu ombro apontando,
Pois sou aceno de cabeça, sou a procura, sou a tentativa,
Mesmo quando em mim próprio não sou encontrado,

A libertação não é o muro que foste mas o que ainda serás,
E o lar tem de ser aqui e hoje, no lugar ora ocupado,
Só assim combateremos a não-vida transpondo as horas más,

Por isso persigo o sol, a lua em mim albergando,
Por isso escuto o ruído, permitindo o silêncio - em ambos o recado,
Por isso vou no caminho, por permito ser e por isso vou largando...

(Pois nada é meu para possuir, nem este bocado).





segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Querida Deixa-me...

Esta noite estatelada no chão e eu - a tempestade,
Sim, o álcool bebido afogará a mágoa do coração
E essa morte enfim permitir-me-à matar a saudade,
Querida deixa-me sarar, querida concede-me a mão,

A manhã não terá amanhã e cada uma das horas malditas
Serei eu na quantidade destes comprimidos engolidos,
A viver com um alfabeto de palavras para sempre inauditas,
Querida deixa-me entrar, querida somos os ímpetos preteridos,

Parece-me tão difícil dormir quando as ovelhas são este nevoeiro,
Que adensa, que é este asfixiar e eu sem conseguir resfolegar,
Querida deixa-me respirar, querida não me atires para o bueiro,

Não funcionamos, é difícil ficar se cada memória é um lacrimejar,
Pois sei que este peito para os seus lábios é somente mais um cinzeiro,
Querida deixa-me ficar, querida deixa-me ir, doce querida deixa-me amar!!!

Aurora Queria

Aurora queria..  O esvoaçar do instante deixado,
A reflexão desta alma, o bocadinho já esquecido,
É retirado e repelido por residir, é o prefaciado,
Para outras, para os outros serei o nunca vivido,

Aurora queria..  O esvoaçar do instante deixado,
A reflexão de uma alma, o bocadinho do outrora,
Procurando o eu, aquele pedaço nunca encontrado,
Para tudo o que vem, passa e vai, eu sou o agora,

Eu sou o acenar e a despedida, o último bocadinho,
É o cedo sem ainda amanhecer, é o silente a gritar
E a parte que é metade da vida, é parte do caminho,

Já deixei o meu eu, aquele pedaço nunca encontrado,
O coração foi pois foi lugar, o único que pôde ocupar,
Aurora quero, é parte do latente do outrora imaginado.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Eu Sou a Cidade Sem Sonho

Amor, este tempo é o espaço que não nos é pertença,
Percorrido foi o tempo do passeio e veio a despedida,
Este é olhar do penar, é a enfermidade e é a sentença,
Por favor permite-me o retrair e o fechar-se da ferida,

Na mente ainda sombreado por passadas aventesmas,
Percorro e corro sendo apanhado pelas relembranças
Deste andar nu por ruas que para sempre serão as mesmas
Porém indo sendo diferentes nestas renovadas andanças,

Eu, cemitério para ti, para este amor ainda não sentido,
Sonhos, venham a mim, tragam-me o beijo eternizado,
Por um ou algum momento e para ainda o ver hoje partido,

És a sombra deste caminhar, a nuvem triste e tristonha,
Há noites que a tua cara é todo o meu dia, o único ansiado,
Mas… se esta cidade nunca dorme, será que alguém sonha?

sábado, 16 de novembro de 2019

Quando A Noite Persegue o Dia

Era ela, esbelta sob a candeia da noite esquecida,
O sorriso e a diversão pautada em sensualidade,
Aquele que num breve suspiro resumia uma vida,
Renegado ao silêncio do olhar contendo a verdade,

Feita e revestida de partículas de brilho, a pertença
É sentimento aflorado na pele, a eternidade do aqui,
Passageiro do palpitar do coração, marca a diferença,
Sou eu, é ela, o que é, o que foi e portanto será no ali,

Lá vai ela, lá vou eu, indefinidos como a sua definição,
Eu, dia eterno, ela, noite infinda rodeando este mundo,
Onde não basta ser para ter, onde é preciso ter coração,

Pois as pegadas dadas passam, sendo pelo ontem afastadas,
É a impermanência rainha, o único amor a este segundo,
A lágrima vertida no asfalto, as mãos separadas... (E eu... Nauseabundo).


quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Rendição Não É Palavra

Basta deixar e permitir a ausência de condição,
É simples, renovada vida jorrando ao segundo,
Ao a olharmos nos olhos, vemos, solta-se a mão,
No brilho entre o escuro, o lindo pa hira lá do imundo,

Sim, é súbito o fôlego sobre o berço de quem nascerá,
A verdade é inteira, rescendendo a sonho acordado,
Envolvendo a planície, seguidor e vigia onde haverá
A procura por lugar no eu,  o tal suspiro aligeirado,

O círculo interminável e inevitável jamais terá um fim,
Mantendo luz por perto, mesmo no regaço da morte,
Há foco, há prefácio para o inefável e só assim

Seremos trajecto dentro de nós,  o encontrar da solução,
O resto é esquecimento, o não ver enfim o norte,
Pois na ausência de nós, quem em vós verá coração?

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Deixem a Caixa (Por Favor) Deixem-se Amar

Os escravos do relógio, de uma hora apressada,
Estes corpos enviados esperando pelo passado,
Trilhando adiante mas caindo na mesma emboscada
Auto-imposta, auto-infligida, pesando os bocados,

Entre as persianas semi-cerradas destas paredes
Aprisionando os brilhos de um olhar sonhador,
Escritórios ou caixões não distinguem esta sede
Que é fulgor para quem é livre e partilha amor,

A distância entre margens é o passo aqui vadeado,
Entretanto, entre o tanto, curemos a alada viagem,
É dia de despertar enquanto ela alcança o ansiado,

Essa é a estrela que alguns deixaram de ver e olhar,
Esta é a noite em que vivo desde que esta miragem
Descurou a vinda do sol, vem a nós, deixem-nos amar.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

(No Escuro) Apenas Procurando a Mais Bela Cantiga

Lá trazia o abrigo da tempestade num olhar inocente,
A voz envolvida por trapos de silêncio humedecidos,
Perante o fim era caminho face ao destino indiferente
Pois os homens erram até à morte, por vezes indefinidos,

Os passageiros eram marés passadas e mãos enrugadas,
Este frio trajado por lençóis novos por ontem rasgados,
E eu, Cupido apontando para as ampulhetas quebradas,
Aquelas esquecidas pelo vento em ausência de legados,

A bússola ficando turva perante o rosto deste espelho,
Alheado pela cilada da pureza dos oceanos erguidos
Por uma semente estelar tornada em pó, num velho

Que se esconde num silêncio inaudito, a eterna intriga
Era respiradoiro para céus abertos e de sóis vestidos,
A procura por um lugar em mim, a mais bela cantiga.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Somos Anjos Com Saudades Do Lar

E por isso tomamos o céu e aquele peso dos criadores,
A alma solitária, o corpo quebrado falando o ontem,
Chacais esfomeados, abutres beijados e seus amores
Seriam o esquecimento de um silêncio de outrem,

Por vosso nome desbotado com um sorriso na cara,
Há a flâmula que é o caminho para quem a não vê,
São esses braços abertos, envolvidos na noite clara,
De quando tudo que é, simplesmente é, então sê!

O bocadinho de mim que por mim quase não é pilhado,
O corpo acordado, sonhado para além deste horizonte,
Sendo eu a negritude, a bruma, o passageiro adiado,

Por isso vou, por isso fico, trago uma legião sem ponte,
A sombra da parte que é metade, o toque aqui retratado,
Pois a sede é de tanto: o estro poético de anseio da fonte.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Albergando no Centro do Peito os Estrangeiros

Era o suspiro que pelo canto do olho era escape
Para o sonhador esquivo e o trovador radiante,
Pois desse perene brilho não há quem se enfarte
Rumo à chegada para além do horizonte distante,

Pergunto se para o lugar que ocupo sou suficiente,
Pois procuro pousio após o voo alifero sem retorno,
Esta é a eterna batalha entre o incrédulo e o descrente
O não distinguir a pena da pluma, é imenso o transtorno,

Pois sonho sem adormecer e vejo de olhos fechados,
Projectando a luz do sol no peito num olhar reflectido
Pelo cerúleo, são esses os amantes outrora separados

Indo por eras e épocas, segundos em mim passageiros,
Porém em aqui que sou encontrado apesar de perdido,
Que no peito consigo albergar os a si próprios estrangeiros



sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Codeas de Pão, Vida Adiada

Ninguém quebrou este coração para além de mim,
Pois com a beata da beira do cinzeiro sou casado,
Fui eu que o pintei a carvão negando seu real fim,
Boneca de porcelana às mãos do vento deixado,

Os suspiros familiares de uma memória esvaecida,
Por um fantasma matutino és vestido para ele voltado,
E eu, na margem largado, os vestígios da noite rescindida
Pois procuramos mais luz que aquilo ainda não repintado,

Eu conheço os teus rostos melhor do que ninguém,
As fissuras das tuas mãos, ruas para o meu viver,
Percebe, neste mundo só pretendo ser o vosso alguém,

Poris como podes ama-lo se me podias a mim amar?
As côdeas de pão são o toque jamais tocado no ser,
E eu, cansado do hoje adiado, do esquecer do beijar.

domingo, 22 de setembro de 2019

Sois Vós Os Anjos?

Sois vós os anjos que nos levarão para casa?
Sois vós os anjos que nos levarão para casa?
Sois vós os anjos que nos levarão para casa?
Sois vós os anjos que nos levarão para casa?

Sois vós os anjos que nos levarão para casa?...
Sois vós os anjos que nos levarão para casa.. ?
Sois vós os anjos que nos levarão para casa??...
Sois vós os anjos que nos levarão para casa?

Sois vós os anjos que nos levarão para casa?
Sois vós os anjos que nos levarão para casa?!?!
Sois vós os anjos que nos levarão para casa?!?!?!

Sois vós os anjos que nos levarão para casa?
Sois vós os anjos que nos levarão para casa?
Sois vós os anjos que nos levarão para casa?

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Confesso, O Meu Amor É O Eterno

Por favor, sê o meu derradeiro sonho de porcelana,
O abraço, o regaço, o espaço para o meu sonhar,
O abrir do bocadinho maior que eu, o fechar da pestana,
O último instante, a verdadeira partilha deste beijar,

O resto é passagem oblonga, o ir sem ter chegada,
As sombras que seguem a metade do homem partida,
Não percebeis que desta vida só a pretendo ter abraçada
Num instante que se propague por toda uma vida,

É a promessa de luz, a cumplicidade com o divino,
A contenda dos semi-deuses a mim precedentes,
É por dois que vivo e morro, o escapar do citadino,

A vertigem da alma, a fobia do coração é o ser abstinente,
Beija-me e perpétua-te em mim num sonho coralino,
O infinito é lar para os segundos passageiros, a afluente.

domingo, 8 de setembro de 2019

Poema Pertencente Aos Poetas Que Me Precederam

Eu sou a cor ainda por vir, o Ícaro e a sua alma,
Lato o fim do mundo num coração despedaçado,
Sem luz, sem espaço, sem tempo ou calma,
Perdido entre aqui e o após, o infindo malfadado,

Escondido no olhar de quem implora ao sonho
A proximidade de mais luz, brilho e eternidade,
Pois na vista que levemente contorna o enfadonho
Somente procurando um pouco mais de verdade,

A bruma alcança e vai puxando para o seu regaço,
E na minha alma está o único beijo que consigo ser,
Esperando por dois num eterno e inteiro abraço,

Por um lugar bonito onde possa enfim viver,
Pois por vezes é a vertigem que encontra o espaço
Portanto ouçam esta voz que apenas quer dizer:

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Serei Caminho Enquanto For Pt. II

Amanhã vem mas permite-me o beijo ao instante,
O sorriso efémero vindo da eternidade adjacente,
Que brilhe sobre a bruma no infundido radiante
Pois assim faremos de deuses a comum gente,

Pretendo sentir os sentidos em êxtase fecundo,
A sedução passional do momento aqui  vertida,
Eu sou o detalhe, sou o todo altivo e bem profundo,
Mesmo quando se perde a estrada ou esta não é sentida,

Por isso corro mais do que espero, sou o desejo,
O amor incondicional, só pretendendo eternidade
Pois quando há aceitação e partilha, há o divino beijo,

E para beijar apenas é preciso cerrar os olhos e ver,
Recobrar o fôlego e procurar o resto, a metade,
Pois o resto não essencial não é vida, não é viver.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Serei Caminho Enquanto For

Eu sou amor incondicional ou camisas outroras usadas,
Os olhos cerrados beijados no rosto, a eterna magia,
Ousadia é pertença para estas mãos esticadas,
E esta partilha é estrela sozinha, a esbelta melodia,

O regaço para enxurrada, ouvindo tudo e nascendo de cesariana,
Pois procuramos a singela voz, eterna e perfeita,
Porém só escutamos o sussurro sob a persiana
De quem é quem que fica longe do que foi a colheita,

Ouço o motor assoprar, anjos a cair por enredos
Pois beijei-a sem amanhã, fui o melhor de mim
E sempre os verões a fugirem dentre os dedos,

Falando em línguas até o meu corpo se erguer,
Chorando nos seus braços abertos por fim,
Só assim serei sempre caminho até um dia morrer.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

O Coração é a Única Melodia Para O Caminho

Sustenta o fôlego, vêm as folgas entre o pavimento
São aprendizagem feita pelo instante, o momento
É aqui, não o deixes passar, só assim existe amor
E com partilhado pincel e tela pintamos com vera cor,

O suspiro de uma criança pode ser a infinita dança,
A única forma de manter a inocente esperança,
Por isso beijo o chão após por fim nele aterrar,
A distância entre todos nós assim há-de encurtar,

Pois esta serenata é perfeita, tal beijo dado na testa
Da criança que lá fora brinca insciente ao mundo,
Sou ela em milhares de vozes que o tempo empresta,

Entretanto alfim percebo, sou o encontro e a perdição,
Ouço-vos melhor do que vós vos ouvis a vós no fundo,
Porém sou só um instante: aquele que pulsa no coração.

(Trago-o na mão)

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Ainda Há Lua Sobre o Orvalho

Jazz nos bares da sub-cave, a lua flutua sobre o orvalho,
E eu bebi demasiado, gastei demasiado, de novo pobre,
Amor... por onde andas esta noite, qual é o espantalho
Que amedronta quando penso quem agora te encobre?

Por trilhos parecidos na memória imagens por ti assinadas,
O toque sob o cerúleo suplementado por vistas inocentes,
Hoje escondidas no meu bolso e pelo tempo esfarrapadas,
Na margem do rio as luzes do talude tal jóias em correntes,

Pergunto-me por onde caminharás e quem contigo irá de mão dada?
Colocou-te uma coroa de luzes no coração e te faz sentir amada?
Pois na algibeira não tenho moedas, e o dia começa enfim a clarear,

Eu espero que ele faça tudo pela tua felicidade e te saiba abraçar,
Pois eu bebi demasiado, gastei demasiado e dói-me o coração
Por um momento perdido no tempo, pois que a lua oiça esta oração...

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Sonhos de Algodão em Sapatos de Chumbo

São sonhos de algodão trazidos nesta algibeira,
Arrombando a alma do pecador que os vê partir,
Enlevando-me mesmo quando perto da ribanceira,
É o veludo e o cetim que revestem este pesado sentir,

Mãos de papel e papel de dedos, este é o recanto,
Assim iluminam o espírito, pulsa forte a viagem,
Olhos cor do mar, tantas flores traz no seu canto,
Mar adentro, bem rápido, o resto é nutrir a miragem

De só sono sem despertar, tocado por esta voz,
Sentindo o sol queimando este peito, insano!
E eu juro que quando não sou eu só quero ser nós,

Por isso grito sob a água, prometo de dedos cruzados,
E vem um velho tomando meu lugar ano após ano,
Sendo que só pretendemos por um sítio ser abraçados.