segunda-feira, 5 de junho de 2017

Tenho Tanto de Fado

Tenho tanto de fado como de passado,
Tanto tenho eu de insano como de são,
Reúno imagens e fotos mentais em vil fardo
Que assusta e apoquenta o resto dum coração,

Fragmentos lembram o dia em que era rei,
Espiralando enquanto duas mãos se desfaziam,
Eu criança cujo medo se tornará assim a lei
Pelas sombras que na noite se escondiam,

Entre palavras, doutros lugares quase posse,
A chegada torna-se numa espera enfim,
Cuspimos vogais através de uma rubra tosse

Que parece não entender o real mesmo assim,
Sob a língua torna-se o sabor meio agridoce
De um homem que desconhece o que é o fim.

Pela Vista Desta Janela

Pela vista desta janela cerram-se portões,
Atormentado pelo vazio de um terno abraço,
Respiramos por sorte no meio de dois corações,
Errados ou certos dormíamos na ideia de regaço,

Revelamos a verdade sangrando ao vento,
Estes sentimentos irão um dia subsidir,
O sorriso retornará e num beijo todo o alento
Que um dia pensamos ter deixado de existir,

Já não penso na donzela mais nem menos,
Esta é a noite em que por último respirarei,
Beberei da fonte da solidão seus mil venenos

E procurarei nas vielas o que não consigo encontrar
Nesta viagem perdida, o que amanhã serei
Será só outro sonho que continuarei a buscar.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Poeira e Pó

Poeira e pó sobre o coração hoje cerrado,
Se ainda respiramos somos os sortudos,
Foram os amantes que deram errado,
Estamos amargurados pelas mais-que-tudo,

Poeira e pó e restos de lenços rasgados,
Escrevemos poemas para os deixar à estrada,
Gargantas doridas tornam-se sonhos quebrados,
Do princípio somos fim, quase um nada,

Piscando os olhos há tanto e tanto a perder,
As visões do ventre materno são eternidade,
Ideias são o lugar lentamente a arder,

Sombras preenchem lugares já sem lugar,
O vazio de outro beijo trazem a inverdade
De um homem apaixonado que não sabe amar.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Coração, Porque

Coração, porque me enganas com estas ciladas?
Tropeço em ti, procurando um apaziguamento,
Porém sou refém de tuas mil e uma emboscadas
Que somente me levam para a dor e o sofrimento...

Coração, porque bates e te silencias logo a seguir?
Será que perdeste a luzência e brilho de criança?
Parece que tua paz ainda não está bem para vir,
Será que a tua boémia é apenas uma lembrança?...

Coração, porque não esvoaças mais alto que o céu?
O mundo sem mercê ou sequer um pouco de perdão,
Ainda há tempo para reencontrar aquele leve troféu,

Espero que ainda haja tempo para partilhar uma mão,
Pois à sua ausência pouco mais és que lúgubre mausoléu
Onde dormita para sempre um triste e pesado coração.

Mais um Adeus

"Mais um adeus", uma outra separação,
Procuramos quem não quer ser encontrado,
Até nunca meu amor, vem minha solidão,
Vivemos a ilusão de um sonho já quebrado,

"Mais um adeus", um outro instante passado,
Viva a agonia e miséria, a lágrima do trovador,
Outra vez maldito, outra vez o desencontrado,
Quem vem não o segura, não lhe confere amor,

"Mais um adeus", uma mão que não foi dada,
Dois não alcançando hoje o esbelto horizonte,
O sorriso ido de uma cama fria, não partilhada,

"Mais um adeus" que parece nunca mais passar,
Para o beijar perdeu-se o chão, foi-se a ponte,
Será assim tão difícil ter quem nos possa amar?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Refém de um Último Beijo

Refém de um último beijo e da sua lembrança,
Da ligeireza com que um abraço é perdido,
Torna o homem novamente numa criança,
Ficando toda uma espera enfim sem sentido,

Pois aguardámos silentes de coração na mão,
Permitindo estações passar e rios chegar à foz,
Hoje não há espaço para conceder seu perdão,
Mas não importa, para o fazer já não há a voz,

Deixando-a deixei parte cativa do meu passado,
Eu morri quando iniciaram a diferir nossos passos,
Momentos e memórias para um futuro partilhado

Não foram o suficiente para manter esses laços
Que envolviam dois numa dança e abraço apertado
Pois que durmam para sempre em mil pedaços.

Poder Adormecer

Poder adormecer nos seus braços de cimento,
Ter simples regaço e descanso, o sonho infinito,
Num retrato a ode de cores a um firmamento
Que embeleza as suas redondezas e é bonito,

Esboçando as emboscadas para um coração,
O poeta acenando a mil e uma despedidas,
Jazigo pleno para quem não soube dar a mão
E se foi perdendo à passagem pelas avenidas,

De dedos esticados quase alcanço a lembrança,
Um momento delicado suavemente retocado
Por mim, quase eu, numa sumptuosa dança,

Para mim todo um almejo alguma vez ansiado,
O ar aberto, o sorriso indelével de uma criança
Que trago nas rugas de um dia outrora passado.

Por Janelas de Vidros Azuis

Por janelas de vidros azuis observamos a vida,
Somos plumas ao vento sendo o voo alcançado
Na queda da montanha até à margem querida,
Sob o indómito desejar de um céu mais azulado,

Procuramos razão para toda uma triste ansiedade,
Para saber que temos céu e chão para o passeio,
O silêncio acontece quando isso não é a verdade
E novamente caímos, reféns desse mesmo anseio,

Almejámos mais do que conseguimos enfim voar,
Passam instantes recordando-nos do findo tempo
Daqueles possíveis beijos que já não podemos dar

E que não há quem pare este tiquetaquear lento,
Há que o permitir, conseguir os passos enfim amar
E esperar que algures belo nos leve este lesto vento.

Procuro na Estrada

Procuro na estrada restos de beleza,
Por instantes que me façam inteiro,
Pois à sua falta só resta esta incerteza
Que ofusca a alma tal denso nevoeiro,

Em certas noites vem-me o cansaço,
A fadiga de para sempre ser aprendiz,
Sou parte, fragmentos sou até pedaço
Que em si próprio diz e se contradiz,

Era suposto ter já encontrado alguém
Que trilhasse comigo a vala incerta,
Estranho caso é ainda não ter quem

Para viver esta vida vivida e sonhada,
À margem ou pela porta entreaberta
Desde que longe fosse eu e a amada.
  

Perdemos o Sol

Perdemos o sol e os passos da estrada,
Derramados em suspiros feitos de luar
Sou espectros de ecos à ida madrugada,
Atento ainda ao passado, procurando lugar,

Para mim não bastam estas mil imagens,
Preciso de brilhos em mim encontrados,
Pois à vista da morte, de cinzas paisagens,
Espero-a onde me perdi, no chão ajoelhado,

Sob a enxurrada pergunto-me pelo destino,
A última despedida removeu todo o fado,
Eu roubo, eu rogo, eu prego tão franzino

Por uma mão na minha ou um beijo dado,
Pois vai passando breve a tarde vespertina
Que não me parece levar a nenhum lado.

sábado, 6 de maio de 2017

Este Desconhecido

Este desconhecido é deste andar a incerteza,
A vigília do instante impregnada no presente,
Confere a esta passagem vestígios de beleza
Salvaguardada no coração do homem ausente,

Pedindo o possível desejando todo o oposto,
Assim me ergo onde os Deuses vão tombando,
Através e no firmamento encontrei o encosto
Para do puramente humano me ir libertando,

Guardo numa caixa toda a dor do enamorado,
O tempo passa e traz-me cicatrizes esquecidas,
Eu que os cantos e esquinas tenho aqui tragado,

Serei mais do que as breves estações perdidas?
Não, pouco mais sou do que um presente passado
E escoltado pelos dias ao rodopio das avenidas.

Era à Margem

Era à margem deste tempo pois era poeta,
Tudo de uma vez era luzência e escuridão,
Era o abrir da porta, o rodar da maçaneta,
No pequeno menino que ia de mão em mão,

Perdia-me só pelas horas enfim transviadas,
Na procura incessante e ânsia pela pertença,
As lembranças doutrora das ruelas beijadas
Pouco mais eram do que uma vil sentença,

Confesso às estrelas o indómito sentimento,
E sento-me esperando por cerúleas escadas,
Que me levem para o céu em contentamento,

Que me mostrem beleza pelas noites erradas,
Pois afinal a palma da mão é só um momento,
Onde as horas enfim se dão por idas e findadas.

Percalços e Encalços

Percalços e encalços na beira da estrada,
Luzências da noite, sombras deste dia,
Outrora era fonte, tudo e quase nada,
Mais do que muito, mais do que podia,

O último dos poetas, beijo-a na testa,
Sou, fui um semblante deste passado,
Hoje outro boémio procurando festa,
Cambaleando torto de si quase abdicado,

Mãe, dá-me a mão, puxa-me para o céu,
Estampa-me o sorriso que foi deixado
Confere-me um caixão que seja só meu,

Um pouco do firmamento tão, tão amado,
Cansado deste andar por campos de asmodeu
Por mim já tão esquecido, por mim tão ansiado.

Passo a Passo

Passo a passo, trilhando este caminho,
Na vereda do sonho vem outra despedida,
Parte-se o coração, sinto-me tão sozinho,
Assim não alcançando a margem querida,

A envolvência do mesmo olhar perdido
Entre arvoredos por ontem ensombrado,
Caindo pelo horizonte em mim expedido,
Sem destinatário e por ninguém esperado,

A brisa e o vento, meus nomes abreviados,
Através da planície, o ausente desta vida
Entre margens de sonhos sempre adiados,

Sou as ruelas, sujo e ímpio, sob a lua partida,
Poças de água choca, pores-do-sol deixados,
Atrás, os ecos largados são ósculo à avenida.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Daqui

Daqui, sonhos ausentes são acordados,
As suas plumas destas costas penduradas,
Estala a madeira sob os olhos cerrados
Pela colina abaixo apanho as enxurradas,

Canta o meu rouxinol e vem a madrugada,
Acredito em princesas e anjos do mundo,
Não sou único, punhos fechados à alvorada,
Sou a montanha escalada pelo vale profundo,

As algibeiras por nós de cabelos alinhadas,
Sussurrado por cada direcção, qual estação
Será lar para o vagabundo? Garras cravadas,

Respiro o afago de Deus e canta o coração,
Porque não me vês tu de peles pigmentadas?
Eu só preciso do arremesso dado pela tua mão.

Um Último Beijo

Um último beijo e que venha a estrada,
Seus lábios sepultura neste resto de mim,
Tanto já feito, tanta cor por aqui deixada,
Será mais do que pluma caída do querubim?

A lágrima largada ao desleixo da enxurrada,
À penúria do instante do demónio andante,
Eu, o poeta trovador tocando a trovoada,
Cativo do seu olhar ermo, frio e hesitante,

Em cada rio há um cinzeiro: eu na rua,
Minhas musas, minhas Oressas - sou recluso
Do breve passado, da minha mão na sua,

Saudade deste coração cego e alado a correr,
Saibam que outrora fui parte do sonho difuso
Pois à sua ausência por cá ainda prefiro morrer.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Este Olhar

Este olhar é pastor para as nuvens, o céu,
É amador do visto, sonhador do imaginado,
A perfeição é que nada é meu, nada é meu,
Nem o que trago nos bolsos ou tenho ansiado,

Este olhar é um coração irrequieto a palpitar,
Insano e louco, sem protecção no seu trajecto,
Travo na garganta do que posso experimentar
Indo rascunhando no beijo este breve soneto,

Este olhar é também do lado de dentro farol,
Espaço trilhado e fadado para quem procura,
Mesmo quando este se cega pela luz deste sol

Em si continua sendo a moldura do horizonte,
Onde mais ninguém a si próprio lhe segura
E onde para diferentes margens é ponte.


Estes Versos

Estes versos vêm do mar em branca espuma,
Esbatendo-se e contra o firmamento dispersos,
Caem do céu tal pétalas de rosa, uma a uma,
Para mim são céus, planícies e sonhos diversos,

Estes versos são fragmentos do plural ancestral,
De uma verdade única quase, quase inatingível,
São oferendas para o Deus de tudo o que é astral
E reflexo do homem de pluma aberta e sensível,

Estes versos são ode e apoteose para o instante,
Para aqueles momentos sempre perto do coração
Pois do eterno e imortal somos o perene amante

E o pluriverso em nós é a lembrança e a ambição,
O sorriso no canto da lágrima, a sombra semblante
Cativos da rosa dos ventos e na palma desta mão.

Este Caminhar

Este caminhar é o mistério do luar por perto,
Por onde poucos passam, lugar sem gente,
Para eles a ausência de vida é um deserto
Que se vai passando num passar latente,

Este caminhar é tristeza e toda uma solidão,
O sonho não recíproco, o avançar da idade,
Parece que já não há onde pousar a mão
E que algures perdemos a própria identidade,

Este caminhar é o ignorar, é o desconhecer,
Ter a lágrima a afunilar a vista sem mercê,
É tudo um pouco querer sem conseguir ser,

Este caminhar é este cinzento da estrada,
Trazê-la ainda no coração sem um porquê
Vivendo a busca-la, ansiando por mais nada.

sábado, 15 de abril de 2017

Os Pretextos

Os pretextos para os beijos da viagem
A procura incansável da estrela cadente,
Aquela que risca o céu e se deixa à margem
Da abóbada celeste e do homem ausente,

Aquele vertical caminhando quase inteiro,
Através dos segundos e a canção de embalar
Que é o suspiro da morte e do mestre Caeiro
Tão simples e pequeno num ínfimo almejar,

Desabando e erguendo escadas para o céu,
Oh poeta bardo, rosa e espinho na garganta
Onde todo o passado é tudo o que já deu

Então passou de mão beijada ao seguinte,
O último dia de sol e a chuva que é tanta
Que pede e dá esmolas tal abastado pedinte.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Estes Trilhos

Estes trilhos que conferem a rastos lugar
São a lágrima no sorriso do viandante,
Entre si o espaço de quem não sabe ficar
E se perde tanto em si como no instante,

Assim passam o tempo e as estações,
Num sentimento incólume à sua passagem,
É assim que se esbatem dois corações
E mil dias se estendem numa única imagem,

A pretensão em sorver um amor eterno,
Esperando o néctar de flores esquecidas,
Venham os anjos caídos e todo o inferno,

Vede! Pouco mais sou que todas as partidas
E a sua envoltura num abraço fraterno
Do beijo abdicado em infindas despedidas.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O Amor Deste Coração

O amor deste coração é uma encruzilhada,
Onde passam beijos e algumas lembranças,
Onde a flecha do cupido se dá por quebrada
E num cofre esquecido se guardam alianças,

Desde menino o sonhador de porcelana,
Frágil e delicado numa infinda despedida
Aonde passa a hora, o dia e a semana
Quando em si próprio já não há guarida,

Esconde-se em redutos desprovidos de cores,
Lado a lado contando as sombras da viagem,
Por vezes olvidando a sua beleza e as flores,

À mercê da intempérie, refém da insanidade,
Até o que tinha por certo se torna miragem
E ele se dá perdido nesta sua terna beldade.

domingo, 9 de abril de 2017

O Reduto

O reduto para os últimos dos sonhadores,
Escapistas da alma e da mente espairecida,
Espiamos parte do não visto e seus amores
São os ósculos impedidos pela despedida,

Escorremos através do leito de uma cama,
Inscientes ao tempo de uma dádiva passada
Em que o rapaz trazia na mão a sua dama
E vinha o mundo à passagem da estrada,

Saudades de tempos idos e outros instantes,
Quando me enlevava num voo sem rede,
Por muito que pretenda tornar a um dantes

É de mim próprio que é por demais a sede,
Assim se esquecem de si os dois amantes
E vamos um sem o outro contra a parede

quarta-feira, 5 de abril de 2017

No Rosto Impresso

No rosto impresso os dedos da noite cerrada,
Perto do desencontro quase encontrado,
Vejo outra meretriz por si embriagada,
Sou ela em mim e o seu cálice tragado,

Outra garrafa de vinho e pinto constelações,
Esboço nuvens e horizontes sem fim,
Desde que não parem com os garrafões
Quase que esqueço de quem sou para mim,

Outro trago e encontra-se enfim a solução
Perdida para quem deixou de se procurar,
Até se perdem as perguntas para a questão

Então deixem-me, não me quero enfadar,
Pretendo a morte do homem de antemão
E nestes embevecidos instantes poder estar.

Pinto Seu Rosto

Pinto seu rosto nas estrelas refugiadas,
A felicidade é dos inconsequentes herança,
Eu sou ponte para seus tudos e seus nadas
Quase homem, sendo o velho ainda criança,

Preciso da procura da linha do horizonte,
Pousio para os sonhadores e seus ideais
Pois à escassez de água e da sua fonte,
Sou eu que de mim ainda preciso mais,

O resto é passageiro fugaz a traço incerto
Sussurrado no intempérie desta ventania
E é somente por ela que me sinto coberto,

Ao céu e à lua e claro ao paraíso venerado,
Que sobrem as contas que matam a magia
Desta bela e breve viagem em tom ansiado.

domingo, 2 de abril de 2017

Tenho Dois Vultos

Tenho dois vultos ao longo da estrada,
Lado a lado, um negro como o breu,
Outro com a luzência do sol à alçada
Sendo eu quem de ambos se esqueceu,

À margem da rua estranhando sua tela,
Pernoito à sua silhueta, quase acordado,
Tento beijá-los mas sou ignorado por ela
Que em mim é a penumbra sem cuidado,

Em ambos vejo este reflexo, tal fotografia,
Porém em nenhum me vejo por completo,
Então dividido fico entre a agonia e a alegria,

Entre a viagem sem margem antes da cortina,
A vós os dois vos dedico a ternura deste soneto
A vós meus vultos, o brilho da minha lamparina.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Este Vago Olhar

Este vago olhar é toda a minha solidão,
O beijo de Judas, o apontar de um dedo
Daqueles sonhos abandonados no sótão,
Hoje esquecidos num certo dia tão cedo,

Pois que seja a lua no firmamento vadio
Pois esta saudade é um véu de veludo
Que não permite a passagem ao estio
Sobrando apenas rastos dum sono mudo,

Refractados por essa longínqua confissão,
Sonho com o dia para cantar pretextos,
Por um lugar onde descanse o coração,

Me habitue à distância entre as margens,
À luz da vela ao vento que dita contextos
Um galho para pousar após estas viagens.

terça-feira, 28 de março de 2017

Varrendo

Varrendo com força a poeira doutra cilada,
Terra no rosto e pedaços deixados de leve
Nas feições da noite infinda esventrada,
Retocando o silêncio tão curto, tão breve

Que sou legado para quem perdeu a voz,
Esta outrora dada aos cantos da avenida,
Quase tal um rio extraviado da sua foz,
Haja afecto no deslumbrar de uma vida,

Haja vida no decorrer do homem perdido,
Deitado num sonho lindo quase acabado
Em constelações do que hei então querido

Que afaga os poros em impreciso traço,
Não recuso nem escuso o suspiro amado...
Para aqui, sou todo o tempo, todo o espaço.
 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Para Quando

Para quando os sóis caídos te entristecerem,
Eu serei chuva para a estação que não passa,
Servindo as sombras que nos antecederem,
Sem memórias de qual a avenida ou praça,

Nego as roupas rasgadas em cima da poltrona,
A poeira que vai assentando as promessas,
Os compromissos com a verdade e a madona
Enquanto caíamos desamparados às travessas,

Apenas fé e crença num amanhã enfim radiante,
Um suspiro e um pouco de força para respirar,
Por um sol que não se ponha ainda brilhante,

Por um ínfimo instante em que é possível amar
Mesmo que vá e caia e quebre ermo e ofegante,
Talvez num instante não tenha mais que procurar.

domingo, 26 de março de 2017

Tenciono a Intenção

Tenciono a intenção e a vontade de andar,
Sorver a madrugada do céu e tê-la deitada
Por este caminho sem nunca querer parar
E essa vida toda oscular e senti-la amada,

Quando vier a manhã para me levar o sonho,
Outrora eu beijei estrelas e adormeci astros,
Hoje sou a sombra ao sol, feliz ou tristonho,
Deixando atrás brilhantes e radiosos rastros,

Tal uma estrela cadente, tal um brioso poeta,
Sou um pensamento almejando o sentimento,
Nem importa por onde jornadeie neste planeta,

Serei para sempre cativo do diferente momento,
Voluteando gracioso no adejar de uma borboleta,
Através da ponte entre margens sou do firmamento.