sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Para Lá Dos Portões Há Sonho

Espera-me acolá a voz do beijo negro outrora concedido,
Tal desabafos deitados sobre esta neve incandescente,
Pintados na alma, gravados no peito, no descomedido,
Fechado entre quatro paredes por mão do tornado crente,

Dedos cuidados procurando descalços um sonho, a paisagem,
De lábios vertidos, os sentidos humedecidos pela enxurrada, 
Viverei de sonhos pois para sonhar somente é preciso coragem, 
Nossos segredos cantados desse precipício da berma da estrada, 

Ensombrados pelo esquecimento da criança em velho tornada,  
Esperamos a manhã, a aurora cobrindo um jardim prazeroso,
Onde nos beijemos com amor numa quimera assim encontrada,

Inexactos, mas certos do brilho da vida, altivos e enfatuados, 
Segurando os meus sonhos dentro deste embalar generoso,
Para lá dos portões da morte, eternamente seremos serenados.  



terça-feira, 29 de novembro de 2022

Saudades De Quem Não Fui

Estas saudades que tenho dos momentos em que não fui,
E dos outros que não tive a oportunidade de por fim ser,
O potencial edifício com mais andares que no peito alui, 
Por não ter sido erguido para além do horizonte do ver,

Há estrelas no então longínquo brilhando eternamente sozinhas, 
Onde os mortos nos ajudam a contar os segundos não vividos,
Afagando nosso peito vamos percorrendo o trilho destas linhas, 
E nesses números vemos no ar os fôlegos até agora dispendidos, 

Que tal chuvas cadentes se mostram em instantes e momentos,
E ao ouvido as aspirações e medos tentando culpar o caminho,
Mercê, mercê perante a sepultura de quem foi só fragmentos,

Pois se há ainda a viver, ainda não chegou o tempo da partida, 
Por isso iremos indo, encarando-o acompanhado ou sozinho,
Nascidos para ser, vivendo para ver para lá da noite contida.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Sou Todos Aqueles Que Permiti Me Tocar

A chegada do instante é um voo inominado,
Tal verdade contida de uma lágrima invertida,
Um carta enfim deixada  ao mais doce cuidado,
De um amor incandescente, a maré tanto querida,

Não obstante do pai ou do filho, o Universal,
É sonho cá em baixo tornado, fôlego achado,
E nós de olhar embaciado definidos no real
Somos os suficiente para desculpar o obrigado,

Por altos momentos de asas soltas a volutear ,
Envoltas pela nostalgia do que está por vir,
Completadas pelo sol a cair e a se enxaguar,

Por aquilo que me há-de a mim, enfim, importar,
Com saudades daqueles que não fui, do elixir,
Por todos os simples detalhes que escolhi amar!

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

A Beleza No Imperfeito

Por favor traz porções de maresia para eu suspirar,
Procurando momentos semi-perfeitos aos bocados,
Chegou a altura, chegou o momento de tudo arriscar,
Pois há vezes em que é preciso mudar nossos fados,

O destino do homem inteiro tornado quase porção,
É a verdade inaudita, o caderno ainda por escrever,
Não busca assim o mistério do ser ou a sua resolução,
Somente instante melhor que antes, instante para ser,

Então refastela-se no sangue e lágrimas concedidas
Para o pulsar do coração e o olhar além do horizonte,
Neste caminho onde se vêem as cores mais coloridas,

Que são necessárias para pincelar os montes e colinas,
Aquelas que vai ultrapassando e criando em sua ponte,
Há beleza no imperfeito, belezas infinitamente divinas.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Entre o Sonho e o Real

Percorrendo os aros da pele como o paraíso,
A fragrância do cabedal de notas de suicídio,
Camas feitas e barbas desfeitas num sorriso,
A estrela da manhã e a sua queda o subsídio

De homens que foram esquecendo o que é ver,
As camisas passadas por trilhos desconhecidos,
Tipos de contos de fadas, será isto o que é viver?
Tentando apagar vestígios de sonhos coloridos,

Estranhando este respirar, esta procura incessante,
Apesar de tudo, pergunto-me "Quando aprenderei?"
Fechando os olhos e o ver num fôlego inebriante,

Aproximo-me do fim, deste uno momento final
Esperando a sua deixa deixada pois por fim sanei
No aprender a distinguir entre o sonho e o real.
 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Vertem-se Aguarelas

Abro a boca e em cascatas se vertem aguarelas,
Em palavras inexistentes e silêncios entre nós,
Onde vão ressoando os ecos através das janelas,
E onde as paredes repousam nos nódulos da voz,

A passagem é ligeira, a fronteira de uma ampulheta,
Hora de ponta onde passos se escoam na calçada,
Pela estreiteza das ruelas, pela vileza da sarjeta,
Tudo passa e nada passa, é o poder da estrada,

E ainda tem sinais vitais a verdade deste fado
Cantado na orla da maré, trauteando ao vento!
Tenho-nos ausentes no presente, futuro e passado,

Numa terna balada hás-me cativado tal flor estrelada
Do mais brioso páramo, o brilhante de que sedento
Estou, sou culpado de as seguir até à doce alvorada! 


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

A Asa Latente

Tenho o interior por teias de aranha ornado,
Sombras dançando noite dentro neste quarto,
Com sonhos lúcidos e por eles sendo inebriado
Neste uno fôlego nu e desnudado enquanto parto

Para outras planícies e margens, fragmentos
De mim vagueando entre os dias do outrora,
Ouvindo mil corações quebrar nos aposentos
Da solidão, da confusão, da contusão do agora,

Dedos esguios percorrendo o cabelo da noite,
E eu beijando-a entre mil vultos e semblantes
Então conhecia o o sonho e o seu terno açoite,

Perseguindo a aurora, construindo uma casa,
Um lugar para descansar os ossos como dantes,
Erguendo um bastião, latente ao coração e sua asa.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Aonde Estás?

Trago o olhar ao peito numa alcova perdida, 
Desabafo-o às ruas e às pedras ladrilhadas,
Procurando onde sonhar - a margem querida, 
O resto - naufrágio dos seres, almas encalhadas,

Um lugar então esquecido, o sonho que não vem,
Quando apetece levantar voo, plantar o turbilhão,
E que desse erguer então mil e uma ideias viessem
Para criar escadas para o céu, para levantar em mão

O que não é dado, mas ganho na aventura da Vida,
Aquela cuja vela vai ardendo demasiado brilhante,
Parece, mas não é, traço brunido da vista envolvida,

Sustentando o peso dos querubins num desfile vistoso,
Quando o tema é o Amor, quando a verdade é semblante
Esguio pergunto – “Aonde estás?” - porém ainda inexitoso.

O Poema Que Trago Entre Os Lábios

Escreve-me na certeza abrupta de dois lábios,
Descontinuados à cintura, somos só fantasmas,
Outrora por nós cravaram nas estrelas provérbios,
Longe das ruelas e vielas que conferem miasmas,

Esta ausência é capaz de lentamente matar o vazio,
Temos silêncio de onde duas vozes eram erguidas,
Por isso das primaveras e verões se fez enfim frio,
E a ampulheta proporciona estas estações perseguidas

Por fumo e nevoeiro, por um eterno e solitário luaceiro, 
E assim perdíamos os cabelos do vento, o calor do Sol,
E do próximo se fazia o longínquo e da abóboda o aguaceiro,

A verdade é que trago essas gotas num sonho envolvente,
A ela em cada dádiva, só a ela em cada ínfimo anzol,
Num coração em prato decorado a luz ainda reluzente.

 

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Debaixo dos Lençóis

Por vezes escondo-me por baixo dos lençóis,
Procurando a luz da qual me vou escondendo,
Por lá vou deparando-me com mil e um anzóis,
Quase escapando do moto do "quase fui vivendo",

Esta é a viagem nunca feita, a verdade por existir,
A realidade inacabada, o real por mim esquivado
Pois se viver apenas no real acabo por me reflectir,
Do pedaço de um inteiro me tornando num bocado,

E pretendia encontrar-me onde por fim me escondo,
Num terrível meio termo que não é de todo viver,
É adiamento da alma, reunião com algo hediondo,

A vontade de não sorrir, a necessidade de não ser,
O escape por dentro de um quadrado redondo,
Para encontrar assim a chama do meu querer.

domingo, 2 de outubro de 2022

O Escape

A escapatória é a fuga entre braços esquivos,
Relutante e petulante, vou procurando o amar,
Parece que por vezes encontramos os fugitivos
Que um dia deixamos de querer encontrar, 

Escasseia o que falta, um pouco mais de coração, 
Então, um sorriso rasgado propelido pelo ar,
Pretendo que saibam que vai de mão em mão,
E que nunca o pretendi alguma vez abandonar,

E hei-de refutar quem o contrário me disser,
Sobre o voo na rosas entre diversos cantos,
Não obstante do que houver ou ainda vier, 

Por isso vou pregando a minha vida tal poema,
Ressoando no eco do "eu o homem entre tantos",
E que a resposta não tem nem solução ou problema.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Resquícios do Verão

Entre os resquícios do Verão e da sua melodia, 
Vem o impulso para partir, fugir destes braços,
Então caminhando sobre pontes e nesta rebeldia
Olhava directamente para o sol e os seus traços

Confinados entre as paredes de um coração,
Sem pranto, num instante que nem é partida,
Apenas com tempo para uma última oração,
Cravado um nome numa estrada inadvertida,

Outrora já foi, agora ausência do seu semblante, 
Os dias em parada passeando-se diante mim
Tal grito ecoado ao longe e hoje tão distante,

Parece que já não há espaço para ser mais assim, 
Cantava com gritos ainda na garganta inobstante, 
Círculos ao contrário e a Vida mantida em frenesim.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Entre Cubículos

Sem respostas, pelo peso de cubículos esmagados,
Por um pouco mais deixamos um trilho de migalhas,
O silêncio tem olhos, mantenham-se das janelas afastados,
Essas órbitas trazem o lutar ou fugir portanto tragam as tralhas,

Arrastado por entre as vielas da cidade, por entre o azul aguaceiro,
É apenas água, somente chuva, só lágrimas, a sempre presente dor,
Tiraram-me as sementes mas ainda guardo uma flor de um luaceiro,
Paranóico de amor e morte, não temais o facto de sermos simples amador,

E agora que todos ouvem os pregadores do vazio, beijo-vos as mãos,
As palavras gotejando através do seu queixo, as sarnas removendo,
Onde ia suspirando: "Quase que me perdia aqui entre as multidões",

Ninguém aqui é ouvido, ofegante num conforto da reflexão de um espelho
"Há alguém ai fora?" - estes passos continuam a descer e descer, moendo,
Um respirador de uma cave, e eu a ir indo entre cubículos - o jovem velho.

domingo, 11 de setembro de 2022

Desbridado

Vou, desbridado, com os olhos a dançar, cintilantes,
Pincelando nas telas orbitais cores vivas, aprendizes
Do que pode acontecer enfeitado por flores flamejantes, 
Aqui sinto a mão divina na minha mão, somos felizes, 

Envolto no suspiro de uma vida, num tom esperançoso, 
Sinto a passagem luzidia perfumada a tons multicolores,
Inebriados ao tacto, no corpo tornado sorriso solaçoso
Pois estanca a lágrima, inconfessável nas suas indolores,

Trago este olhar repleto de querubins altivos do paraíso,
Assim a vigília, entre escarpas aguçadas, meu caminho, 
Indo passo a passo em frente mesmo quando indeciso,

Desejando sob estrelas cadentes, ecoando a eternidade
De mão na mão, um mapa com estradas quase quietinho,
Fechando os olhos serei parte transcendente da efemeridade.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Um Poema Para Quem Ecoa As Constelações

Este solitário poema é para mostrar ao mundo
O traço imperfeito da mão do poeta, o esboço,
O passo deambulante prostrado do vagabundo,
É um presente misterioso entre o velho e o moço,

Os assentos com lixívia são a charada em verso,
Acordando perdido num quarto outrora sonhado,
Perseguindo sombras na parede assumo-me imerso
No luar pejado através de mil noites no chão enlaçado,

De onde venho não é para onde vou, é refeito sentimento, 
A vida por lunetas rítmicas de compassos perfeitos e canções
Duma caixa de música a tocar assim reflectindo o momento,

Sonhamos e acordamos e assim seremos todas as multidões,
A ideia de um destino rasgado, de roupas usadas, fragmento
Ecoado em lembranças de um sítio chamado casa - as constelações.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Pelo Oceano Tolhido

Braços vazios e promessas levadas com a manhã, 
Caminhamos pela água sonegando-a por estrelas,
Têm as escadas para o céu ontem, hoje e amanhã,
Sentindo-as nas mãos vamos colocando-as em trelas,

Estas cicatrizes são memórias que nunca esqueceremos, 
Instantes hoje sem voz, coloridos pelo pincel do tempo,
Parece que estes dias são apenas para contemplarmos,
A vida é termo cinza, árvore cujo fruto vai com o vento, 

É a tempestade e a calamidade do embate do coração,
Ondas de esperança e o rosto por lagrimas preenchido,
O conforto não virá e invés virá a chuva, virá a moção,

Adormecemos com fôlegos curtos em oxigénio enrustido,
Num mapa arterial delineado nas veias, no galope da canção, 
E nessa narrativa, nossos beijos vêm e vão - pelo oceano tolhido.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Para de Mim Ser Menos Distante

Um sonho para um insomníaco e por fim há sono, 
Despachai-vos e esperem, este é de loucos o barco, 
Pois esta tentativa de sonhar é pé sobre folha de outono,
Sem outras estações, neste rosto encontrareis um charco, 

Para além do horizonte, o caminho estreito torna-se casa, 
Vivendo a Vida como se não houvesse algum amanhã,
Vamos beijando a abóbada celeste fluindo de asa em asa,
Assim alimentando uma esperança que é tudo menos vã,

Pintando segundos refractados por espelhos poeirentos, 
Lembrando a criança de uma vida regressada, a estória,
Como bolas multicolores dissipando-se na rosa dos ventos,

Por vezes esta mascarada cansa-me, e eu somente semblante
Vou procurando qual o lugar, qual a casa, qual a escapatória
Para fugir, para reencontrar, para de mim ser menos distante.




domingo, 14 de agosto de 2022

Esquecendo a Eternidade

Sim, amanhã se me afogar nas águas rasas, 
Dar-me-ias a mão, puxar-me-ias para cima?
Custa-me a voar com estas quebradas asas,
Vasculho o páramo para a estrela mais ínfima,

Preciso de brilhar, ser a constelação mais brilhante
Que concede esperança ao triste e lúgubre sonhador,
Imortalizado ao passear, deixando um rasto fulgurante,
Numa infinitésima dança como para sempre amador,

Lancem-me no mais alto dos devaneios, o sonho alado, 
Caminho tal os pássaros pelo azul celeste então estirado,
E então ar fresco acorda-me, cessam as vozes dos malditos,

Perdido trago mapas colados nas sobrancelhas em gritos inauditos,
E amor em pulsos cortados e largado à indiferença de um olhar,
Vos apresento o viandante que lentamente vai esquecendo o voar.

(E cuja eternidade vai deixando de o ecoar...)

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Não Abstido de Amar

As ondas eram na mão então docemente trazidas,
Uma lágrima no oceano para o ver a transbordar,
Hasteávamos a vela e deixávamos a costa querida
Pois não é possível para sempre no dia pernoitar,

A janela do vidro azul sabia também o nosso apelido,
Entretanto prostrado atrás por nunca ter cicatrizado,
De tantas vezes ser translúcida num olhar esquecido,
Chamava-lhe de irmã pois no fim nos ter encontrado,

E aqueles que nos fizeram esquecer esse cantarolar,
O murmúrio que ecoamos pela vizinhança do sonho,
Mais tarde ou mais cedo iremos por fim reencontrar

A verdade que é nossa e de um caminhar mais risonho,
Ao destino desvendado por um Deus não abstido de amar
E um Amar altivo iluminando o escuro e o medronho.

terça-feira, 26 de julho de 2022

A Contemplação do Poeta

Escuta-se uma voz ao longe, pequena e esvaecendo,
Por segredos tornados cicatrizes e lábios então rachados,
Alcançando o precipício pondo as montanhas tremendo,
Que não falte a sorte de uma vida com todos os seus bocados,

Desde a manhã em que acordo até à noite em que adormeço,
Aí vem o anoitecer num despertar de um céu deveras estrelado,
E ela com uma grinalda feita de astros na cabeça que teço
Em poesia cuja reflexão é nos lagos um amor enovelado

Por milénios passados, silenciosamente tecidos pela atenta mão
Do trovador, que com ou sem dor, vai mostrando a face de Deus,
E assim caminhando para a montanha, condecorando o coração, 
 
Emudecido, calado, com vultos aos seus pés, no céu só um semblante,
Que num momento, num instante, tanto nos acena como nos diz adeus!
E o desejo do poeta é esse meio que ele completa num único olhar vigilante.
 

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Prisioneiro De Um Abraço e Beijo

Há um escape entre os nós das nossas mãos, 
As pontas dos dedos enrugadas por fim dadas, 
Elas vão até aos ventríloquos de um coração
Dividido entre dois e as suas águas furtadas,

Há pontes para o além no sorriso da donzela,
Navegando entre marés do ciano mais azulado,
Deixando flores desse brilho d'oiro numa tela
Lembrando que esse brilho é sempre partilhado,

E à distância entre os nossos lábios assim enlevados,
Nesse breve instante somos da Vida companheiros,
Trazendo indentações de asas, de céus esvoaçados,

Que nesta visão são maiores que quaisquer aguaceiros
Que diagonalmente caindo nesta boca tão imaculados
Me tornam o vosso abraço e beijo, sou eu vosso prisioneiro.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

O Pronome Para o Dia

Trago as mãos enrugadas de tanto as ter aqui vestidas,
Por noites estreladas findando a solitária caminhada,
Pintando paletes de outros dias e as suas despedidas
Sombras nos montes para esta Vida que rascunhada

Soava a mais, mas eles não ouviam, não sabiam como, 
Acalmados pelo suave toque dos dedos do artista,
Que apesar  de livre nos olhos tinha apenas fumo
E breu, da noite escura, da ode olvidada do paisagista,

Tons mudando de tom, esperançando com o potencial,
Há beleza na mudança, no temporário, na possibilidade,
Equaciona o adiante seja este então diferente ou igual, 

Quadros pendurados em corredores sem nome, e a fome
De mais, de ser o homem das roupas usadas, sem idade,
Ouço o estático, o barulho branco, sou deste dia o pronome.

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Canto

Canto as cantigas de amores ainda trazidos,
Cantando epopeias doutras épocas já passadas,
Lábios e beijos de amor um dia e outrora sentidos,
Hoje com a cabeça ao ombro destas horas cessadas,

Pergunta-me quem sou e o que este olhar vê e procura,
Qual ponte é horizonte e qual lugar dará enfim guaridas,
Quando o tempo se torna água que tanto bate até que fura
Começamos a confundir os encontros com fugidas,

Murmuremos a fonte da poesia em doces palavras 
Ao ouvido, quase sussurrando o adeus jamais ouvido,
Perdido numa prisão de reflexões de trevas obscuras

Esperando a vogal que jaz entre as linhas do poema,
Nadando na água em busca do tesouro querido,
A iluminação da mente e a entrega do diadema.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Por Vezes os Outros Vêm a Mim

A paixão por um beijo adagiado estancado no peito,
Enamorado por um gesto quase consumado em vida, 
A vida vira meia morte por alívio, remédio, por respeito, 
Entre dedos as mãos de Rhea nos últimos restos desta dívida, 

Cama de rosas impaludada, enfim em frente o jardim do Eterno, 
Um toque de alaúde e caem todas pérolas dos seus pés, 
Rasguei as asas para andar com os humanos, oh tão ingénuo, 
É mera luz e restos de sonhos dentro de vagões indo invés 

Do caminho da graça, este vestido rasgado das paradas atrasadas, 
Aí meu amor, a nossa dor, a nossa vida, trouxesse o restante deifico,
Esta é a a minha serenada a quem atravessou, aquelas outrora amadas, 

Por isso sereno a madrugada, por isso as indentações do coração são sorrisos, 
Conto os segundos para a manhã, fujamos para algures bonito, por lendas Élficos! 
Depois descansaremos num majestoso lugar… já ouço os passarinhos cantar, amor meu... já ouço os passarihos a cantar….

sexta-feira, 1 de julho de 2022

A Guerra das Flores

Sou o órfão de uma geração hoje e agora esquecida,
Dum passado nunca longe, cicatriz jamais perdida,
Procurando porto de abrigo para lá da tormenta,
Ao coração uma grinalda de espinhos o ornamenta,

Quem me levou o sorriso conheceu minha queda,
Por onde vou sozinho na clausura desta vereda,
Com imagens mentais de um momento eclipsado
Por si próprio, o sorriso que é só de um bocado,

Desconhecido sou, as razões vazias de potencial,
Amanhã talvez não consiga mais, que não usual,
Olhos completamente abertos sem conseguir ver,

É preciso oxigénio, possivelmente para viver,
E quando o sono chega, já nem sei como sonhar,
Restam estes lábios que em guerras souberam beijar.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Este Apelo

Vestidos alíferos dançando na palidez do luar,
Eu vendo ornamentos e rostos sem semblantes, 
Quem dera ter alguém em quem poder encostar,
Pois o beijo só é beijo se for entre dois amantes,

É a perfídia do antes alimentando-se do depois,
Sinto o tremelejar de uma noite sem dormida,
Um oceano preenchendo o espaço entre dois,
Onde vou perdendo de vista a margem querida, 

Numa voz que celebra o tempo e a sua passagem,
Uma tapeçaria pendurada do céu, mostrando vida, 
Fica o silêncio familiar de quem escuta a aragem,

Precisando de encontrar a luz, de sonho do pesadelo, 
Cada lugar e cada estar, faz um feitiço nesta lida,
Pois que as minhas ninjas e musas ouçam este apelo.

terça-feira, 28 de junho de 2022

As Horas Hediondas

 Vou dormindo pensando quase estar despertado,
A ruga aflorada na pele, essa verdade escondida,
Não é perceptível do topo da montanha, acordado,
Acredito ainda ter por sonhar, mas vem a despedida,

A dor é real, a mágoa é pertença de batente coração,
Porque não? Porque não haveria de por fim o fazer?
Vou perdendo a quem dar realmente esta minha mão,
Cada vez se torna mais difícil de acreditar ou de ver,

Este cadáver esmorece com o vento e as suas ondas,
A vida pesa-lhe assim como lhe pesa o seu passar,
As horas vêm e vão tornando-se assim hediondas

Cerrando os olhos, permitindo por fim o anoitecer,
Até quando poderei dobrar este corpo antes de quebrar?
Até quando percorrerei este caminho sem nele fenecer?

sábado, 18 de junho de 2022

O Homem Tornado Deus

O sol no passadiço relembra as odes do passado,
Preciso de prados para poder enfim respirar,
Reflectindo o beijo dado no instante eclipsado,
O fundamental é ter espaço onde a cabeça pousar,

Que haja raízes, troncos e ramos bem erguidos
Para a abobada celeste ter em eterna celebração,
Por mapas azuis de Vida deixados e por eles vestidos,
Por vezes não são o suficiente para perceber o coração,

Ou sim, ou não, nada de meios termos, de incertezas,
Pretendo sorrisos e choros imensuráveis, o ilimitado
No rosto traz as rugas de uma criança e as suas belezas

Constam no cardápio de Atlas, para sempre o brilhante
Entre as palmas das mãos, num momento diz o ditado
Do homem tornado Deus ou num caminho semelhante.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Por Aqui Ou Por Lá

Pétalas de flores lançadas do alto de uma varanda,
Enquanto elas caem vou procurando por mim,
Indubitavelmente a vida é sempre esta ciranda
Que por vezes nem parece um dia chegar ao fim,

Quatro homens carregando um lúgubre caixão,
Quem diria que o enaltecido seria nele contido,
Assim lentamente deixou de bater um coração
Que entre passos dados se deu pela noite vestido,

Agora vem o reino do além feito para os sonhadores,
Eu nem sei se me acerquei, se me dei por encontrado,
Quanto mais qual é o procedimento, qual será o estado

Para me libertar enfim destas fúteis e terrenas dores,
Porém a certeza vem da incerteza: como será o amanhã?
Desconheço por inteiro seja vida ou morte por aqui ou por lá! 

domingo, 5 de junho de 2022

Aos Caídos

Os vestidos de Outono em bonecas de porcelana,
Enquanto atiro ao ar esta velha roupa usada,
Nas curvas conturbadas desta estrada insana,
Por onde ninguém passa e a passagem é cessada,

Fios de papagaios largados, enfim conseguimos voar,
Se seguir os trilhos dos vagões a casa terei chegado?
Ignorando os passos dados e onde eles hão-de ecoar,
Suspira aquele que outrora caiu sozinho e postergado,

Aos esquecidos esperando perante os portões dos céus,
Por cada eons os caídos suplicando e rogando entrada
Acenando à redenção do paraíso, removendo os véus,

Suas asas de plumas arrancadas, removidas de intenção
Implorando santuário, o pecado ou bênção perpetrada,
Vamos ansiando o altivo mediante o bater do coração.