quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Enquanto Houver Vida

Então tropeçava nas estrelas cadentes do caminho,
Assim, impaciente para ir e ansioso por chegar,
Com candeias rodopiando a cabeça, oh carinho
Partilhei segredos que desconhecia, vou devagar

Subindo a colina, tentando não olhar para trás, 
O céu desmorona e a terra treme, é o motim
Que só é dos poetas, é preciso correr atrás
Do beijo, do abraço, do saber dizer que sim, 

Quebrar o feitiço do mundano, isto é a vontade
De ir sem esperar por empurrão ou travão, 
Um dia chegaremos e esse dia será metade,

Perfeitamente complementar, de mão em mão, 
Esperando a Lua para poder dançar em reciprocidade,
E em boa verdade, conseguir trazer Vida para o coração

(pois só isso é verdade...).

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Arrependimento

De quando não fui pelo instante passageiro,
Por isto ou por aquilo não me preenchi de Vida,
Por tanta cautela, fugi a medo sempre ligeiro,
No meio da luz fui escuridão sem qualquer lida, 

Quando podia andar arrastei-me por entre corredores, 
Estas linhas de vida e sinais de quem foi esmorecendo,
Isto é quando andar na água não faz de nós salvadores,
Quando não há distinção se vamos subindo ou descendo,

Há um velho que fui, a mais leve queda, os lençóis engelhados,
Não há livro onde caibam as possibilidades do que não foi, 
Por isso os enterro em tecidos funerários embrulhados,

Percorrendo as palavras afirmativas e negativas, o caminho, 
Pois as hóstias que engulo não sanam a ferida que ainda dói
E o beijo para onde rumo, longínquo, aqui procuro-o sozinho.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Pedágio da Vida

Sou uma retícula à porta de uma encruzilhada,
Honrando a voz que é bramido pela ribanceira
Levando-me adiante onde vou pela algibeira,
Ora veículo para a berma, ora simples estrada,

De instantes sendo retido, conforme prometido
Sou apenas uma alma vagabunda indo em frente,
Encontro e perco-me  face ao tempo que indiferente
Me julga mediante as rugas no rosto em si reflectido,

Vai ficando a voz grisalha, os beijos então glosados, 
Entre duas margens, entre as bermas, o terno cinzeiro, 
Sendo pertença para quem não vê, onde os implicados

Fecham-se em quartos sem janelas, é impossível ver
A cor do prado, a luz do sol, sem recado e do bueiro,
Metade ou inteiro, quão difícil é por vezes simplesmente viver.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Até Que Durma

Hoje a morte levanta-se, portanto, disparem à vontade!
Pois apesar do amor por ela, ele continua seu escape,
Não obstante do sentir e da congruência da metade,
Fugindo sem aviso, como os outros, eu outro recape

Na ferida fugindo do dilúvio, da sombra obscura
Que é fraterna da morte, amor no chão quebrado,
Que é queda na cova, que é viela da rua escura,
E isto vai passando, vai-se esquecendo o bocado

Em que éramos o único toque e o lábio descarnado,
A vida de poeta não é fácil pois escasseia o deserto
Para a sede, e a sede é de infinito, o rasto entornado

No trilho da combustão instantânea, dá vontade de (r)ir, 
Hoje então descanso com moedas nos olhos, o incerto
Apadrinhar-me-á até meu cansaço vier e se esvair.
 

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Se Soubéssemos

Se soubéssemos beijar não haveria solidão
E acordaríamos repletos de maquilhagem
Enquanto parte de nós apertaria o coração,
Outra parte iria com o vento, com a aragem, 

Se soubéssemos nadar não haveria mais naufrágios, 
Pois sem problemas nadaríamos de costa em costa,
São estes suspiros que afugentam os maus presságios
Onde o pôr-do-sol em si vai e no horizonte se encosta,

Às paredes de uma glória pertencente a  uma outrora, 
Penso em todos os afogados, aos quase interrompidos,
E assim vem quem deve vir no passar desta ligeira hora,

Pois havemos ficado cansados de ser barulho de fundo,
Da ténue linha que separa os olhos no céu insculpidos
Da areia molhada ao ver incipiente que vê o mundo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Os Filhos de Ícaro Pt. II

Há degraus a subir sem olhar para trás, 
Tal Orfeu e a sua busca que a luz ofusca
E passos por conferir em busca de paz
Enquanto se rebusca o quanto a alma custa,

O sol e o seu corrimão que abrasa o coração,
Quantas vezes estas escadas foram mascadas,
Quantas vezes sua inauguração passou de mão
E as estrelas ficaram ancoradas em emboscadas?

Pois aqui quase detenho o luar evidente hoje neste olhar, 
Aquele para o qual é preciso coragem para ir na viagem,
Nem há esforço a andar, é somente preciso ir para alcançar!

É preciso acreditar para voar, ter noção das asas e seu propagar,
Agora é onde escolho tirar a maquilhagem e ir com a aragem
Sem ser preciso os sonhos penhorar, é preciso é ir e concretizar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Os Filhos de Ícaro

Abrindo a cortina do sorriso, o quão é preciso
Estar presente com brechas na parede, ter sede
De algo maior e superior e nós em improviso,
É a dança da Vida, o truque é não cair na rede, 

Corpos cansados não podem descansar, então adiante!
Deixem a luz entrar, persianas com as fendas abertas, 
Preenchem o peito e facultam o poder do instante
Na voz de mil gerações ao passar das horas incertas,

As sentenças tornam-se convalescenças de um outrora, 
Mal recordo os rostos que passaram, só o que ficaram,
Caminhamos o trilho para o Sol, rumo à boreal aurora

Se cairmos enfim encontra-se outra solução do problema,
Sozinho ou a dois, quantos por cá passaram e ansiaram 
De olhar fechado beijar o horizonte? Assim nasce o poema.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Amar Para os Poetas

Amar não é para os poetas e só os poetas sabem amar,
É o suspiro ante o precipício e conseguinte mergulho, 
Não há que disfarçar, são poucos os que sabem beijar,
Sem se esconder, são poucos os que aguentam o marulho, 

Amar é para os poetas pois só os poetas não sabem amar, 
É a brasa na lágrima que os diferencia da comum gente,
Pois há da brasa cinza e da lágrima sulfato, o germinar,
O caminhar, diligente, vai de lado para lado, para a frente, 

E há quem não aguente, e há quem o faça numa eterna dança, 
Quem vá magoado a chorar para casa com o coração na mão, 
E quem o partilha de mão em mão em constante perseverança

Não obstante do quanto andou ou já passou, ao mundo dão,
Amar é e não é para os poetas, pois só eles sabem seu teor
Do sentimento em papel ao toque do sorriso e da sua dor.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Entrelaçado Com Aquela Que Me Importa

Os seus beijos ofegantes, delirantes aqui centrados, 
Parecem balões de algodão no céu alto esvoaçando,
O calor da sua mão relembra-me aqueles bocados
Nos quais não olhávamos para trás, íamos ansiando

Reciprocamente o carinho que entre nós então havia, 
O quanto ela me queria, o quanto eu a queria, e cria
Nessa crença sem pertença que levanta as fundações
Do céu, o seu corpo no meu entrelaçado - as escoriações 

Sediadas no peito e alma, porém com calma vivíamos, 
Pintando as constelações, um ao outro pertencíamos, 
Éramos mais do que recordações, éramos o infinito

Um dentro do outro a refractar num olhar tão e tão bonito, 
Afagado no interior de um abraço maior, cheio de beleza,
Que em meados desta melancolia me conferia asas em subtileza.

Entre As Insónias e o Sonhar

As insónias estão associadas à impossibilidade de sonhar,
Respiro o murmúrio abandonado por quem um dia passou,
O segundo passageiro, o terno forasteiro a si a se flanquear,
É o momento feito instante para sempre reiterante que voou

Para a planície distante onde reinam seres divinos e imortais,
Respiro o suspiro deixado ao percurso, o piscar da vista e olhar,
Um brinde de copo cheio aqueles seres loucos e imorais, os tais
Que saltam cercas e desmoronam muros, consenti ao pedinte amar

Pois traz cores ao mundo, é um alívio profundo maior que o viver,
O retrato apesar de inexacto de um propagar de asas do passarinho,
Sabendo que o lugar onde criou seu ninho também lhe fez crescer

Cores várias no assentar do segundo, o beijo de uma temporada,
Não obstante se estes passos vão então depressa ou devagarinho,
Desde que o caminho leve ao fim da noite, ao chegar da alvorada.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

O Velar Nesta Condolência

Estas lágrimas que escorrem pela face acorrentada
Ao passado, há tanto deixamos o lar e ele esquecido
Trouxe o coração infracto, a sombra que é da estrada,
Da curva à berma até à margem e eu então enternecido

Pois os sóis distantes eram vertidos por horas transientes,
Eu insignificante, porém importante, maior que o mundo,
Repleto de luz para partilhar de vista na chuva incipiente,
E assim de repente, sem vestígios de graça então me afundo

Em trajectórias cúmplices com joelhos e pernas quebradas,
Longínquo sonho, tanto a andar com esta sede de infinito
Coincidente com beijos não dados e de mãos afastadas, 

Sonhando sem respirar, preciso de ti amor, és a carência, 
A falta, a privação e escassez que acolho no interno grito
Que zela a alma dos perdidos, que velo nesta condolência.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Estas Palavras Escritas

Recontam-me o silêncio de uma madrugada escurentada, 
Inebriado por versos de um poema hoje desconhecido, 
Deixado algures numa rua atrás da porta escancarada, 
Onde era tudo e nada num escrever por Deus enaltecido,

Escrevi de ti para mim, estrofes pomposas repletas de beleza, 
Pois o silêncio desses lábios era demasiado para aguentar,
Então no papel os coloquei para esconder essa subtileza 
De um rosto trazido no coração que não pára de tentar, 

Esta lágrima luzidia neste olhar nublado e o ecoar da solidão
Pelos corredores de mármore a passo pesado, quase a chegar
Ao lugar onde permaneço, donde escrevo poemas de imensidão

Pela tua voz em sonetos, esse toque em papel, maior do que a vida!
Não tem fim este amor quebrado, é enterra-lo para não me acorrentar,
E enfim, livre para voar para longe dessa tristeza, por uma capa envolvida.

Por Cada Momento

Outro poema que veio e já se foi assim esvaecendo
Na reflexão nos corredores destes tempos passados,
Ao fugirmos da chuva, cantarolando e revivendo,
Atravessando vistas e olhares por ontem defasados,

Reunindo-se onde ainda havia a criança e a esperança,
Sem canseira do vulto que quer ser homem ou mulher,  
É este coração vagabundo que por ter tanta lembrança
Vai por vezes morrendo por tudo não conseguir conter, 

E esta nostalgia amálgama com saudade, é o sorriso
Vertido na lágrima do órfão sem amante, o restante,
A estação que passa, de oásis nos desertos preciso

O rosto lunar no avarandado do sol, e eu rouco de bramar
O pé descalço na valsa do pé-coxinho, a poesia do instante
É esta paixão aqui, hoje, agora e em cada momento por cada amar.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A Eterna Procura E Espera

Procurando abrigo desta precipitação interior,
O desejo é simples, é um dia outrora fustigado
Por sorrisos onde abrolham flores longe e em redor
Do coração, que venha a estação, direi o recado

Deixado à porta dos deuses dos vivos e dos mortos,
E esta mensagem escrita a ferro e fogo nas paredes,
Pais, filhos e avós lembrados e nós imóveis e absortos
Pois sabíamos que esta água não saciaria estas sedes, 

De homens indolentes cujo trilho não deixa encalço,
Este rastilho até mim, este olhar até o fim do horizonte
Onde o acontecer é real, não há hesitação ou percalço,

O fôlego deste amanhecer, procuro da chuva resguardo,
Entre os charcos um reflexo livre de ruídos, claro e insonte,
Dentro da ondulação as palavras: “Eu por mim aguardo!”.

domingo, 15 de novembro de 2020

Não Vale A Pena Temer O Adeus

Não direi mais adeus, agora apenas darei boas vindas, 
O cansaço do aceno de despedida quebra a esperança,
Enche-me de escárnio das manhãs e as noites lindas
Proteladas pelas estrelas de dois olhares em lembrança,

É uma partida infindável, é o receio dos velhos lugares,
O retorno ao mesmo tal manchas depositadas nas mãos,
Não obstante do quanto já fomos ou quantos andares
Subimos, somos sôfregos, somos inertes, somos órfãos, 

Perguntando-nos qual a vista para o recreio, o corrimão
Para o céu que transfigura os homens em sonhadores,
E eu preciso de sonhar, preenche a alma e o coração, 

E tenho saudades do lar, nós não somos deste mundo, 
Há lugar no instante fugidio entre a brasa e os ardores,
Espaço para a criança alada e este sentimento profundo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Um Dia Ganharemos Asas

Este é o ecoar de quem se lança destemido à estrada,
Os suspeitos de viver, suspeitos de correr atrás da Vida, 
Um breve sonho de bolinhas de sabão, vê-la idolatrada
Como um ligeiro toque sobre o sepulcro de despedida,

Pois o sonhador também é subalterno ao abraço da Morte,
Apesar de não a abraçar, não a temem, não rezam a ausência
Ou vão esperando, lentamente seu próprio definhar, a sorte
De quem está para ir, não para ficar em eterna abstinência

Do sabor próprio que tem a vida, a passagem entre o poema, 
Delicada como o ecoar de quem vai sem medo, vai destemido,
Pois ao passar do tempo somos estranhos, sem palavra ou tema, 

Perseguindo a procura e a espera por um dia enfim grandioso, 
Esta pulsar é sincero, este pulsar é verdadeiro não é enrustido
Deixemos para trás o terrestre, saudemos o céu em tom ansioso.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Tal e Qual Dois Amadores

E após estes anos eles regressaram - o coração na manga, 
Estes sonhos frágeis destinados a ficar sob a sepultura, 
O pôr-do-sol desacorrentado é este grito de Ipiranga,
Vê-lo beijando o rosto do mar caído da mais alta altura, 

Ainda estás aí? A voz harmoniosa que ladeia este caminho
Onde a erva cresce alta e indómita, como a etérea serenata, 
Quando a lágrima é recíproca, indicadora do Sol e eu sozinho
Vou sussurrando o suspiro de quando o silêncio acena e retrata

O dia enfim a finar, alfim ajudem-me também a desaparecer,
Tal como o riso a flutuar sobre a maresia, a nossa magia
Foi esse dia dentro do dia um momento, a vida a esvaecer,

O grande acordar é este eco de pegadas entre os corredores,
Aqui era onde caminhávamos de mão em mão em sintonia,
Lembras-te que costumávamos cantar tal e qual dois amadores.

(aqui éramos magia)

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

E Sonho Acordado

E sonho acordado com o rosto da eterna musa, 
Aquela que me inspira, que me confere a mão,
Que é a ponte para o horizonte da luz difusa, 
Aquela que simplesmente me preenche o coração,

E sonho acordado com o seu semblante retocado, 
O pormenor do detalhe, a tenra imersão corporal
No abraço das horas, a vogal, o suspiro invocado,
Deixando-me apartado escrevendo este madrigal, 

E nas esquinas do tempo cruzamo-nos obliquamente,
Da doença advém a cura, sara-se assim de repente, 
Num instante sinto o rosto afagado pela palma da mão, 

Relembrando, sim, de que este para o céu é o corrimão
Por onde vou trauteando o desejo numa doce semifusa,
Onde sonho acordado com o leve beijo da eterna musa.


domingo, 1 de novembro de 2020

Amigo, Farão Festas Por Ti

Amigo, farão festas por ti sobre a tua sepultura, 
E flores florescerão e a manhã virá desse chão, 
Então veremos os dias, as nuvens e cores da altura
Para nos lançarmos enfim de mão em mão em mão, 

E os dias transientes de uma noite agora tão fria,
Efémeros, pois, o pássaro assim para longe voejou
És o que ficou, o que uma estrela passageira trazia,
És seu fulgor, és a sua magia que em nós pernoitou,

Porém és pássaro e os pássaros não caem, eles são
A parte inocente e leve que permanece no coração,
Amigo, trouxeste sorrisos para o comum transeunte,

Por isso não há dúvidas, não há quem ainda pergunte,
Amigo, és o suspiro de uma criança brincando no passeio, 
És o abraço no cimo da colina, o acenar de despedida no recreio.

para o Kaia
 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Quando O Primeiro Passo Está Entre O Ir E O Hesitar

Aqui um fôlego por uma vida, um beijo suspirado
Entre os dentes e a estória que acaba finalmente, 
Por um minuto passageiro, um ontem fantasiado,
Suficiente para tornar o maior céptico em crente, 

E em mente, um charco de sangue no chão, o botão
Do Inverno, cisterna para extinção da sede da morte, 
Não obstante de quem nos beija e tocando o coração, 
É mais do que uma questão de destino, fado ou sorte,

Inclino a garrafa, correndo do seu fundo, submerso, 
O pôr-do-sol é carreira para os acordados, libertários, 
De maquilhagem manchada, do seu oposto ao inverso, 

O anseio pelas sementes de uma nova dimensão, estação, 
Desde que do céu caímos que seremos eternos refractários,
Sem destinatários, entre as colinas, entre o ir e esta hesitação.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Os Filhos de Hiroshima

O tecto mostra-me enfim os raios da manhã, regressa o dia, 
Com os cordeiros, o abrir os olhos numa grande charada,
É dos insectos a parada, o golpe da faca, a morte da cria
Que ainda não nasceu, que não esqueceu a ferida sanada, 

É esta a eterna emboscada, a procura no ventre esterilizado, 
Mil e uma vezes fecundado, porém sem encontrar a vivalma
Que traz o sorriso ao Sol, apesar de ser outro dia desolado,
Há fotos tiradas que relembram os mortos e a sua calma, 

A noite foi-se, veio a manhã, e novamente lâminas nos sentidos
Por quem não se lembrava do nome, entre o fumo, entre a bruma, 
Enfim, as nuvens de onde caiam anjos e os pilares do Sol vendidos,

Deixaram apenas sombras atrás, beatas e cinzas pela colina abaixo, 
Carniça aos olhos dos abutres, ouçam o silêncio, a verdade é uma, 
Os filhos de Hiroshima ao tempo de um suspiro, são terra, por baixo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Entretanto A Vida Acontece

Desentedia-te, a vida acontece para lá de quatro paredes, 
E a cada instante nós mais próximo dela e mais perto do fim,
É preciso ir e procurar o Sol, o Luar, apaziguar as mil sedes, 
Pois no final deste livro, quando pisarmos o solo do eterno jardim

Espero que nenhum segundo tenha sido em vão, ouçam com atenção!
É preciso ir e ir sem medo das pegadas aqui e para trás largadas, 
É preciso ir com a mente em mente, mas também à frente o coração,
Só assim deixaremos para trás pegadas dignas de serem deixadas

No éter, no tapete da entrada da casa de Deus, ouçam amigos meus,
Aqui beijamos o chão sem nele tocar, aqui aprendemos a ir e a voar, 
É o suspiro da criança do Elísio patente nestes passageiros segundos eus, 

É o toque divino, outrora esquecido, estas são as verdades ontem renunciadas, 
É uma mão na outra e plim! Faz-se magia no querer ir e no querer eternizar
O momento d'oiro, este é o corrimão para o céu, e estas as divinas escadas.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

A Morte Bateu-me À Porta

A morte bateu-me à porta e eu permiti-lhe a entrada, 
Trouxe-me rebuçados e doces de um tempo perdido,
De magia e epopeias de quem não era de todo lembrada,
E o seu murmúrio era sossegado a um simples pincel colorido, 

A morte bateu-me à porta e eu mostrei-lhe o caminho, 
Trouxe-me cigarros e beatas na mão aberta, era o incerto,
Ela disse: "Não sabes que nesta vida morre-se sempre sozinho?"
E eu acenei com a cabeça, ela olhava-me como se fosse seu adepto,

A morte bateu-me à porta e eu permiti-lhe sentar-se,
Trouxe memórias de porções de beijos do tão distante,
No longínquo ouviam-se gemidos, era o velho a lamentar-se,

Pelo tempo que não foi Vida, pelo frio que era triste, pela geada, 
A morte bateu-me à porta e deu-me a mão num silêncio reconfortante, 
E eu fui com ela satisfeito por tudo ter feito, não obstante de tudo ou nada.


domingo, 25 de outubro de 2020

As Histórias e o Mundo

O mundo é feito de histórias, uma em outra tecidas,
Novelos impressos a diferentes ritmos entrelaçados,
Sendo fôlego ao acontecer no espaço e tempo rendidas,
Somos sua parte do prefácio ao epitáfio em nossos bocados, 

É entre a vida e a morte, entre o visto e o ainda por ver, 
Bem altas e fortes, linha a linha contando outros momentos, 
Que parecem tão pequenas, é a vontade que as faz crescer, 
Seja em alegrias passadas, lágrimas deixadas ou ainda tormentos

Que se sobrepõem tenuemente à língua em tons prazenteiros,
Sendo que os longos parágrafos separam diferentes epopeias, 
E ainda por cada respiração faz dos meios simples e inteiros,

Há prosas ou poesias mediante a história, a ida e caminho, 
Haverão narrativas para soprarem a outros estas ideias,
Enquanto elas aqui se vão tricotando como fios de linho.



sábado, 17 de outubro de 2020

Alguns Espelhos

Alguns espelhos deixam homens em migalhas,
Côdeas de pão para outros transeuntes desatentos,
E eles gostam de pão. Tens erigido em teu torno muralhas
Apontadas para a linha do horizonte, erectas para os ventos,

Terra dos perdidos, mais um dia negro para o pedinte,
Ao desabrigo desta canção, pedindo perdão ou isenção,
Ainda na sala de espera para entrar e por conseguinte
Dar entrada na vida, aonde for pulsante o coração,

O resto é poeira no olhar, a tensão nas cansadas pernas,
Quando é apenas e somente outro dia a cinza pintado,
É cinzento, ao vento, ao suspiro destas tristes cavernas

Onde alguns fazem moradia sem lar até ao seu jazigo,
É o perigo de voltar as costas à vida, ao breve bocado
Por onde somos bem vindos, por onde há sempre um amigo.




sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Há Horas Sem Segundos

Há horas sem segundos, e instantes sem momentos, 
Até dias em que já não nos servem as roupas usadas,
Há um frio com calor misturando aqueles sentimentos
Que colocamos em gavetas por mil chaves fechadas,

Temos cruzado as encruzilhadas e nelas sido cruzados
Por rostos que em nós passaram, os eternos passageiros
Que tenuemente nos beijam a bochecha, somos achados
Em ciclos onde dentro de nós por vezes somos estrangeiros, 

E vem a bruma, e vem o bueiro, e escuta-se o vento, 
O passarinho ainda chilreia, é moldura com intento
De cobrir mais, esvoaçar mais alto de olhar aberto,

Pois apesar de seu voo ser tudo menos um voar certo,
É nas estrelas que enleva seu ninho, seu altivo sonhar, 
Pois venham essas horas sem segundos, estou aqui para as aclamar!

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Os Fantasmas do Crepúsculo

Temos de abanar a poeira e bolor do esqueleto,
Somos os fantasmas do crepúsculo; o fim do dia
E início da noite pertence a quem fala o seu dialecto,
E cada um de si vai na sua própria companhia,

Onde as sombras se dão como imperadoras
E não há candeias com luz suficiente para alumiar,
Ouçam ao longe as vozes que outrora foram merecedoras
De um beijo que entretanto foi perdido, que já não sei como apontar,

As persianas de uma janela deixada entreaberta,
Falta-nos espaço para respirar, a pele foi largada
À perspiração de uma noite onde cada hora era oferta,

Poia para quem a mim seguir, a quem a mim for seguinte,
Deixo-vos a voz de Deus, uma luz mesmo que inacabada,
É vida e missão para o vivo, para quem continuar, para o bom ouvinte.

(De uma história ainda não observada).



Sem Parar

Um desastre rodoviário e calço vidros quebrados,
Quase em vida, convulsões vinculadas a questões
De quem não teve em criança aqueles bocados
Que supostamente conferem ao ser fundações,

Mil e um perdões, cheguei e não me dei por apresentado,
Pois saibam que sou aquele cujo trilho advém da salvação,
Sabei que não sou pertença de ninguém, sou quase amado
Por quem toquei no caminho, por com quem partilhei a mão,

Quando as paredes caem ficam os astros do firmamento,
Sorrio pois conheço esse momento, não receio o que possa vir
A não ser que seja a ausência de vida, de acontecimento,

Pois quando o rosto do sol é coberto pelo não querer
Ainda há tempo e espaço para o beijo, para o sorrir
E então os gritos deixarão de ensurdecer e a vida de morrer.




sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Retratos Inexactos

Retratos inexactos de uma dança outrora bailada,
Enunciada e soletrada a minúsculas numa ponte
Era a trova do romance, a lágrima ontem deixada, 
De onde uma alma saia e perdia em si o insonte,

Era um nome murmurado pelas alcovas nocturnas, 
As vielas ecoavam-no ao patamar da insanidade,
E eu perdia tempo e então numa ânsia taciturna
Ia-se o fôlego e ofegante sustia-se em iniquidade, 

Assim vertiam-se-me os olhos, gotejava-se a vista
Em charcos de alvoroços, as pálpebras restantes
Então largavam-me e cerravam sem qualquer pista,

Não bastava o asfalto e o pavimento, era o momento
Para permitir a bruma ser, talvez ser como era antes
De as estrelas cadentes caírem neste nosso casamento.


quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Há Dias Cinzentos - Aceita-os

Há dias cinzentos em que não há sequer no céu passarinhos, 
Somente bradicardia no momento actual residente, é utente,
Para quando houver uma aberta através de ermos caminhos
Que irregulares, sim, convergem para o mesmo - o presente,

Assim é uma simulação de vida através de modelos de cera,
Onde abanamos as raízes e bradamos aos céus por salvação,
Esperando vamos, é esta minha ânsia que o interior esviscera, 
Reparem, nestas pegadas rareia o beijo que é do coração, 

E sustentas o fôlego, e suspiras com os dentes cerrados, 
As folgas entre o pavimento lembram as asas cortadas,
Pois em instantes perdemos os trilhos certos e errados

Que eram fonte surdida onde há rosas e pétalas pintadas,  
Erguidas e amarfanhadas por outroras e dias acinzados,
Houve bocados, mas nenhum tinha luzes fragmentadas.