segunda-feira, 8 de maio de 2023

Um Dia Chegarei

Permaneço por onde vou ficando, marginal,
À lei natural da Natureza e de canto em canto,
Por vezes este caminho parece ser tão irreal,
Que não distingo os alarves risos do pranto,

Escondam-me nos recantos, entre o pavimento,
Pois um dia reivindicarei sob ele meu espaço,
Contra os ponteiros do relógio em sentimento,
Por entre vidraças azuis ora translucido ora baço,

Não fosse um fantasma diurno, por vezes oportuno,
Ou casa vazia, procurando memórias de quem foi,
De passo em salto em passo, seja ou não importuno,

Um dia chegarei à outra margem em vulto e semblante,
Cativo e refém somente do Sol e da vontade que corrói,
Um dia chegarei seja aonde isso for seja perto ou distante!


quarta-feira, 26 de abril de 2023

O Rapaz das Estrelas

... E então poderia ser o teu rapaz das estrelas, 
Logo brilhando perto do Sol, dando-te a mão,
Mesmo que caísse em pedaços pelas passarelas
Seriamos unos no pulsar único de um coração, 

... E então seriamos um par a dançar enfim com o luar,
Com o passar da noite, juntos e unidos em percalço,
Procurando um sítio aonde sonhar, para logo flutuar,
E quando a Lua tentasse fugir iriamos no seu encalço, 

Através de praias desertas que ousassem ser nossas num suspiro,
Escapando por entre os dedos do tempo, seriamos nos ventos,
Na eternidade de um belo instante, no momento de um respiro,

... E então poderia finalmente ser o teu rapaz estrelado,
Com fotografias de ti nos bolsos, seguindo os cataventos,
Há sempre uma canção para cantar nesse fôlego ansiado.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Através do Tempo

Através da noite foi a Lua que furtou a dormida
De um trovador ora tornado num romanticida,
Pois havia Vida no seu sorriso, na eternidade,
Assim passada ao seu lado, sem termo ou idade,

Através da noite foi um dia exíguo então a escassear, 
Custava-lhe por vezes passar na mesma casa, no mesmo lugar,
Que lhe acossava com água nos olhos, num sonho triste
Até regressar à memória de um instante altivo em riste,

E o relógio trauteava uma canção pelo tempo esquecida,
Porém soava a beijo na testa, a uma margem querida,
Amor, tu que te encontras distante, dá-me a tua mão,

Só assim se erguerá o sol, só assim baterá este coração,
Até lá serei ermo, relento, sonhador sem qualquer sono,
Acorda-me levemente com um beijo deste terno Outono.
 

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Cada Pedaço do Viver

Passam estes abraços devolutos cobertos por um céu envelhecido
Parando assim instintivamente e procurando uma mão para dar,
A fragrância dos passos não conferidos é apenas o tempo perdido, 
E também o espaço entre a partida e chegada, porém o não chegar,

Estas lembranças são os dias passados de olhos quase cerrados,
O sonho a erguer-se para além do sono num beijo de despedida,
De verso em verso feito silêncio, os poetas são por fim sentenciados
À eternidade de um momento, a uma passagem imortal e abscondida,

O repousar de uma beata no cinzeiro, do último homem ao primeiro,
Esquecemo-nos da criança que se foi, ainda guardada na algibeira,
Do velho que bate à porta pretendendo tornar-se no Homem Inteiro,

"Serás poeira" - enuncia o Tempo com os seus dedos apontados,
É a orfandade da Vida o espelho desta enfim apagada fogueira,
A repetir-se cada pedaço do viver na parte dos instantes fragmentados.

terça-feira, 4 de abril de 2023

Até Já Mestre Ryuichi

Aproxima-se o soalho por um silêncio versado,
Escrevemos em palavras minúsculas o rascunho,
Vamos indo andando aos círculos num quadrado,
E flui a poesia jorrando do sangue do cerrado punho,

Já pernoitei deste lugar, já desabrochei que nem flor,
Alonga-se a distância do caminho num beijo inacabado,
E a alma feita pássaro azul procura poiso, procura amor,
Ou pelo menos sítio onde poder ficar por mais um bocado,

As algibeiras repletas de sonhos mesmo que demore a chegada,
Por vezes a orfandade é do infante a amiga, sua longa jornada,
Estendida entre o que fui e o que serei numa inconfundível pertença,

Há abraços a arrancar ao destino, outros voos a esvoaçar, essa é a crença,
E dentro da voz do pássaro volutear, escapulir por fim ao tido como mundano,
E de tal farei meu Reino, minha doutrina não há qualquer dúvida ou engano!


segunda-feira, 20 de março de 2023

O Poema

Do caminho é dos ousados, faz-se poesia,
Em letra simples numa estrofe composta,
Com a rima certa e píncaros de fantasia,
Cada verso será para sempre uma aposta,

Os sonetos de um Outono à porta deixado, 
Serei folha ondulando à mercê do vento,
O esboço do coração no espelho embaciado
Através de vidros azuis neste olhar luarento, 

Cai a Primavera num terceto assim vertida,
Ao espaço de um sol nascido e enfim caído,
Num horizonte limpo, numa margem querida, 

A narração do trilho do viandante, o seu esvoaçar,
Ante abismos e precipícios, no sonho concedido,
Este é o poema, um principio sem nunca acabar.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Amore

Vou escutando as mais simples nuances do amor, 
Sendo ele abstracto e concreto, tão feio e tão belo,
Tal o frágil balão voador e o Olhar na vista em redor
Dá-me alento para viver, retorna-me o Ver singelo, 

Torna-se significativo cada ar finalmente exalado,
Num ritmo cintilante que seja fluído ou ofegante
É mão conduzindo a um lugar já não relembrado,
O beijo à flor da pele, o saber o que é importante,

Uma luz no coração das trevas, a eternidade do sorriso
Que é brisa matutina, as estrelas fazendo-nos companhia, 
Um pouco de relva verde e pés descalços é o que preciso,

E folhas esvoaçando ao vento gentil, o que mais podemos querer?
É aproveitar o instante passageiro seja de noite ou seja de dia,
Havemos um dia de partir meu amor, havemos de um dia morrer.

sexta-feira, 3 de março de 2023

Para as Musas e Sonhadores À Espreita

Nuvens cinzentas encobertas por uma triste canção,
É a senda que estreita, a fantasia sendo contrafeita,
E eu, no topo do precipício, com a mão no coração
Questiono se há musas ou sonhadores ainda à espreita,

Vamos procurando um lugar ao qual se possa chamar lar,
Esperando para sempre, pela dízima de um ser ornado,
Sem caução e com cuidado, vamos procurando devagar
Por um beijo alado, simples e suave, eternamente dado,

Sorrisos serão partilhados e lágrimas serão enfim jorradas,
E no fim do caminho, o trilho encerrado por umas almofadas
Pois ergue-se o poeta sonhador, fruto do ir e vir e de uma dor

Estranha ao rosto da humanidade, as garras de um condor
Esvoejando sozinho perante a perfídia de uma alegre canção
Por onde alguns se perdem e por onde outros ainda hoje vão.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Quando Chega A Hora De Partir

Sustendo o fôlego de instantes outrora eclipsados,
Hoje pincelo a abóboda de cores jamais imaginadas,
Vou sacudindo a alma de pesadelos ontem sonhados,
Despindo lentamente as paredes entre si confinadas,

Acredito que suspiros são sorrisos ainda não vividos,
Pronuncio o passado, ansiando o futuro, absorto,
Rachando o chão por caminhos sinuosos e perdidos, 
Pulsando o ventre, frio e quente, erecto e até torto,

Entretanto aprendo: “Não há mais tempo para despedidas”
Pois o coração também pára na noite eterna e passageira, 
Prisioneiro do frio derrelicto, feito a dois por sendas divididas,

Somos roupas usadas recriando sombras em lúgubres recantos,
Sombras essas que vão dançando ao vento na luz forasteira, 
Trago os vultos que fomos indo, o pouco deixado e os tantos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Beija-me o Coração

Quero da água que brota da fonte distante,
Trouxe-te dentes de leão presos numa linha,
Lágrimas sorridas de um momento confortante
De um canção só tida no que um beijo sublinha, 

Esperamos primaveras e flores de pétalas tão belas,
De outros amores, de amores por ontem esquecidos, 
E eu quero chorar, aprender a contigo ser sob as velas
Dos instantes vertidos entre os dedos e que são perdidos, 

Tal palavras trocadas entre estranhos, então prisioneiros
Por mãos envolvidas por ervas, por eras, por esta solidão
Que comove os cigarros do chão, os secos entre aguaceiros,

E é enfim bonito ser feio nos braços dos outros, na multidão,
Pouco é regra e tudo termina no fôlego de outros, de terceiros,
Quando estivermos sozinhos num instante, por favor… beija-me o coração. 




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Andar Para Trás

Tento andar para trás num belíssimo despiste,
Revelando os passos outrora e entretanto dados,
Pois por onde já fui vou ora de arma em riste,
Enfeitiçado pelos tratados de outros passados,

Aqui, abaixo da abóbada celeste tenho lugar
Para um dia retornar, em caves procriado,
Abaixo do diálogo do soalho, num estranho andar,
Prevalecido sobre os estilhaços do caminhado,

Esta camisa de forças é a porta das insanidades,
Quisesse eu retalhos de mim, iria de novo atrás,
Não ficaria entre as crianças e o velho das idades,

Procurar-me-ia entre o gelo e o carvão das horas más,
No momento em que a lembrança eram as saudades,
No que o vento do norte vai levando e por fim trás.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Só Pretendo A Eternidade

Há lugarejos através de recantos de escuridão,
Onde o poema vai perdido sem o seu segundo,
E eu, viandante das estrelas envolto em solidão,
Vou procurando meu lugar, minha parte do mundo,

Renasço em poesia quando o fruto do amor invade
As muralhas que ergui perante a sombra que resfria,
Sabei que com o horizonte ainda sinto cumplicidade,
Um dia hei-de o passar brioso e altivo em grande euforia,

Trago raios de sol nestes meus braços que vou embalando,
Resplandecem a esperança de um outro dia, outra manhã,
Por cada esquina transvasada, verto-me em água, cantando, 

O hino dos poetas que me precedem, dos deuses lá do alto!
Acordando para mim mesmo, vem lentamente outro amanhã,
Farei desse momento eterno por cada passo dado neste asfalto.


domingo, 5 de fevereiro de 2023

O Boato (Cerebral)

Tenho gritos de guerra na garganta ainda hoje plantados,
São poiso para asas engarrafadas em navios sem destino,
Filhotes de heróis mortos cujos corpos nunca procurados
São eu, orfandade e lágrimas, as moradias sem inquilino,

E é desespero, vontade do não anseio, o suspiro perdido,
E eu vencido antes de ser derrotado, sem qualquer perdão,
A pluma na faca aguçada, um nome sem qualquer apelido,
Aprendi a morrer enquanto sou vivo de algemado coração,

Ela pavoneia-se entre as estrelas, sem qualquer amor para dar,
E cada letra, cada palavra é sentença para de mim recuar,
É o solavanco na estrada, a direcção alterada, o inebriar palato

Indiscreto, esvaecendo tal vinho entre dedos descalços, insensato
Sou eu, é o bocadinho da dúvida, o não conseguir comigo relacionar
O fragmento em que somos vida, em que não somos apenas o boato. 



terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Pela Brisa Levado

Sim, vamos segurando as mãos de eventuais estranhos,
Através de sepulturas e paixões em estado terminal,
Desabafados por fôlegos largados na dor dos rebanhos
Que vamos seguindo cegamente, é inexacto, é pontual,

Envelhecendo na berma da estrada, na quase vontade,
De quando dois olhares entre si se viam em plenitude,
E sorrisos eram sussurrados no encontro da vera metade,
Amor, eramos maiores que o mundo, a mais alta altitude,

Entrementes dela fomos queda, precipício aberto e incerto,
Fragmento de coração, sem isenção, o compromisso quebrado,
De quando urgia o bocado, o instante passageiro, o desconcerto,

Fica a nostalgia de momentos de magia - eternamente cravado
No peito do trovador, com e sem a sua dor, o momento eclipsado,
Que aquele que seja o último a suspirar seja enfim pela brisa levado.


domingo, 15 de janeiro de 2023

Enquanto Ouvir As Harmonias

Traz-me enfim conforto, sussurra o nome à estrada,
Com dedos cuidadosos cerrando seu olhar cansado,
Onde andamos por jardins verdes vem a encruzilhada,
Esta noite num outro dia viveremos um dia no sonhado,

O ar nocturno pelos poros da pele então será exsudado,
Dizendo o sabor que entre estes lábios se vai escapando,
Caindo da mais alta montanha ao precipício saudado,
Acordamos onde esvaecemos, num riso estampando

Outras alturas, na água fria entre estes pés descalços,
Lavando as mãos, a oferta daquelas asas cobiçadas,
E levantamos voo para o sol poente, ao seu encalço,

Relembrando o brilhar de estrelas altivas, mil sinfonias,
Onde dançamos ao seu som, notas do silencio afectadas
Pelo calor de uma mão na outra e das suas eternas harmonias.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Em Sonhos Éramos


Em sonhos relembro-me de calcar vidro, indo descalço, 
Também saltando sobre cinzas e rochedos, de mãos na mão,
Batendo nas portas e engolindo suas chaves num percalço,
Aonde ia beijando beatas de cinzeiros enfim dormindo no chão,

Em sonhos relembro-me de embaciar vidros com o fôlego
De mil ideais, esperando sois poentes, outras vertentes,
Cultivando o desapego, truz, truz, onde eramos resfôlego, 
Onde pretendíamos ser asas pintadas no céu e entrementes

Em sonhos éramos um pouco de luz por átomos divididos, 
Fechávamos os olhos, não obstante na cinza do dia passageiro,
O ontem torna-se um pássaro entre anseios e desejos despendidos,

Saibam que este sonhar era um outrora e um será, assim soalheiro, 
Alegria e luto ao passar, o riso e chorar sempre e sempre cândidos, 
Era Terra do Nunca nas palmas de uma criança e era o seu aguaceiro.


sábado, 24 de dezembro de 2022

Um Milhão de Pedaços da Estrada

Suspiros vazios empurrados por goles de vinho,
A visão da donzela pelo canto da mente vestida,
Parece que a encontrei sob a folha do azevinho,
E parece que neste coração a tenho amanhecida,

Pintando espelhos a tons de dias do passado,
Onde a poesia levava os dias na bagagem,
Estou perdido, suplicando para ser encontrado,
Solitário tal gestos inauditos pela paisagem,

O aprendizado então mudado, beijo o desconhecido,
Precisando de oxigénio para poder enfim respirar,
É fácil fechar os olhos e deixar ser o permitido,

Sei que sou um milhão de pedaços da estrada,
Os momentos aos quais me propus finalmente amar,
Então enterrem-me no fim no céu da tela já viajada.




terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Entre a Treva e a Luz

Tenho ainda nós no ventrículo esquerdo,
E luminárias delineiam esse sentimento,
Que é a beleza dos instantes que herdo
Entre a treva e a luz – o seu casamento,

Onde inebriado ouço o esvair das lágrimas
Dum coração pela estratosfera descalço,
Quando tudo o que pretende são as rimas
Para fazer do seu bater tudo menos percalço,

Vendo os anos a passar através da janela,
Os sentidos humedecidos, hoje preteridos
E perpassados pelo avistar de uma donzela

Que era todo o meu pesar, todo o meu voar,
Enquanto eu rastejava, oh quanto a ansiava,
Entretanto assim carecia todo o meu amar.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Não Obstante

Objecções e insinuações, para voar instruções,
Ânsias e fragrâncias de tempos já eclipsados,
Entretanto há instantes onde dois corações
São assim todos os caminhos jamais pisados,

E neve incandescente cai só para quem a sente,
Procuramos um sítio ao qual chamar de lar,
Onde poder pernoitar e ir adiante e em frente,
Para a terra dos sonhos, para aquele lugar

Que não tem dono, nome ou sequer apelido,
As saudades de quem ainda não é passado,
É sim uma porção fragmentada de vento ido,

Acredita, por todas essas tormentas te hei amado,
Não obstante do quanto fui queimado ou ferido,
Ainda penso no amanhã, inteiro ou quebrado.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Despeja Uma Constelação No Meu Copo

Despeja um para mim, os sonhos vou segurando,
Escrevo estes poemas por gotas de sol recolhidas,
E esta voz é o erguer das constelações, recuando,
Entre as sombras que nos seguem, ora partidas,

A última nota tornou-se na primeira, sou guarida,
Sítio para pernoitar, para ficar, para enfim sonhar,
Dedilhando esta brincadeira dos céus conferida,
Há-de ser a minha flor de cabeceira, o meu lugar,

Lar livre como o próprio éter, em árvores pousando,
Escutar-vos-ei nas cantigas e nos risos das crianças,
E desse recitar ver-me-eis desde aqui esvoaçando,

O noturno torna-se diurno, a memória torna-se promessa,
Eu dormindo no ombro das constelações e suas danças
Assim o mundo lentamente se vai e tudo o resto cessa.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Para Lá Dos Portões Há Sonho

Espera-me acolá a voz do beijo negro outrora concedido,
Tal desabafos deitados sobre esta neve incandescente,
Pintados na alma, gravados no peito, no descomedido,
Fechado entre quatro paredes por mão do tornado crente,

Dedos cuidados procurando descalços um sonho, a paisagem,
De lábios vertidos, os sentidos humedecidos pela enxurrada, 
Viverei de sonhos pois para sonhar somente é preciso coragem, 
Nossos segredos cantados desse precipício da berma da estrada, 

Ensombrados pelo esquecimento da criança em velho tornada,  
Esperamos a manhã, a aurora cobrindo um jardim prazeroso,
Onde nos beijemos com amor numa quimera assim encontrada,

Inexactos, mas certos do brilho da vida, altivos e enfatuados, 
Segurando os meus sonhos dentro deste embalar generoso,
Para lá dos portões da morte, eternamente seremos serenados.  



terça-feira, 29 de novembro de 2022

Saudades De Quem Não Fui

Estas saudades que tenho dos momentos em que não fui,
E dos outros que não tive a oportunidade de por fim ser,
O potencial edifício com mais andares que no peito alui, 
Por não ter sido erguido para além do horizonte do ver,

Há estrelas no então longínquo brilhando eternamente sozinhas, 
Onde os mortos nos ajudam a contar os segundos não vividos,
Afagando nosso peito vamos percorrendo o trilho destas linhas, 
E nesses números vemos no ar os fôlegos até agora dispendidos, 

Que tal chuvas cadentes se mostram em instantes e momentos,
E ao ouvido as aspirações e medos tentando culpar o caminho,
Mercê, mercê perante a sepultura de quem foi só fragmentos,

Pois se há ainda a viver, ainda não chegou o tempo da partida, 
Por isso iremos indo, encarando-o acompanhado ou sozinho,
Nascidos para ser, vivendo para ver para lá da noite contida.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Sou Todos Aqueles Que Permiti Me Tocar

A chegada do instante é um voo inominado,
Tal verdade contida de uma lágrima invertida,
Um carta enfim deixada  ao mais doce cuidado,
De um amor incandescente, a maré tanto querida,

Não obstante do pai ou do filho, o Universal,
É sonho cá em baixo tornado, fôlego achado,
E nós de olhar embaciado definidos no real
Somos os suficiente para desculpar o obrigado,

Por altos momentos de asas soltas a volutear ,
Envoltas pela nostalgia do que está por vir,
Completadas pelo sol a cair e a se enxaguar,

Por aquilo que me há-de a mim, enfim, importar,
Com saudades daqueles que não fui, do elixir,
Por todos os simples detalhes que escolhi amar!

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

A Beleza No Imperfeito

Por favor traz porções de maresia para eu suspirar,
Procurando momentos semi-perfeitos aos bocados,
Chegou a altura, chegou o momento de tudo arriscar,
Pois há vezes em que é preciso mudar nossos fados,

O destino do homem inteiro tornado quase porção,
É a verdade inaudita, o caderno ainda por escrever,
Não busca assim o mistério do ser ou a sua resolução,
Somente instante melhor que antes, instante para ser,

Então refastela-se no sangue e lágrimas concedidas
Para o pulsar do coração e o olhar além do horizonte,
Neste caminho onde se vêem as cores mais coloridas,

Que são necessárias para pincelar os montes e colinas,
Aquelas que vai ultrapassando e criando em sua ponte,
Há beleza no imperfeito, belezas infinitamente divinas.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Entre o Sonho e o Real

Percorrendo os aros da pele como o paraíso,
A fragrância do cabedal de notas de suicídio,
Camas feitas e barbas desfeitas num sorriso,
A estrela da manhã e a sua queda o subsídio

De homens que foram esquecendo o que é ver,
As camisas passadas por trilhos desconhecidos,
Tipos de contos de fadas, será isto o que é viver?
Tentando apagar vestígios de sonhos coloridos,

Estranhando este respirar, esta procura incessante,
Apesar de tudo, pergunto-me "Quando aprenderei?"
Fechando os olhos e o ver num fôlego inebriante,

Aproximo-me do fim, deste uno momento final
Esperando a sua deixa deixada pois por fim sanei
No aprender a distinguir entre o sonho e o real.
 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Vertem-se Aguarelas

Abro a boca e em cascatas se vertem aguarelas,
Em palavras inexistentes e silêncios entre nós,
Onde vão ressoando os ecos através das janelas,
E onde as paredes repousam nos nódulos da voz,

A passagem é ligeira, a fronteira de uma ampulheta,
Hora de ponta onde passos se escoam na calçada,
Pela estreiteza das ruelas, pela vileza da sarjeta,
Tudo passa e nada passa, é o poder da estrada,

E ainda tem sinais vitais a verdade deste fado
Cantado na orla da maré, trauteando ao vento!
Tenho-nos ausentes no presente, futuro e passado,

Numa terna balada hás-me cativado tal flor estrelada
Do mais brioso páramo, o brilhante de que sedento
Estou, sou culpado de as seguir até à doce alvorada! 


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

A Asa Latente

Tenho o interior por teias de aranha ornado,
Sombras dançando noite dentro neste quarto,
Com sonhos lúcidos e por eles sendo inebriado
Neste uno fôlego nu e desnudado enquanto parto

Para outras planícies e margens, fragmentos
De mim vagueando entre os dias do outrora,
Ouvindo mil corações quebrar nos aposentos
Da solidão, da confusão, da contusão do agora,

Dedos esguios percorrendo o cabelo da noite,
E eu beijando-a entre mil vultos e semblantes
Então conhecia o o sonho e o seu terno açoite,

Perseguindo a aurora, construindo uma casa,
Um lugar para descansar os ossos como dantes,
Erguendo um bastião, latente ao coração e sua asa.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Aonde Estás?

Trago o olhar ao peito numa alcova perdida, 
Desabafo-o às ruas e às pedras ladrilhadas,
Procurando onde sonhar - a margem querida, 
O resto - naufrágio dos seres, almas encalhadas,

Um lugar então esquecido, o sonho que não vem,
Quando apetece levantar voo, plantar o turbilhão,
E que desse erguer então mil e uma ideias viessem
Para criar escadas para o céu, para levantar em mão

O que não é dado, mas ganho na aventura da Vida,
Aquela cuja vela vai ardendo demasiado brilhante,
Parece, mas não é, traço brunido da vista envolvida,

Sustentando o peso dos querubins num desfile vistoso,
Quando o tema é o Amor, quando a verdade é semblante
Esguio pergunto – “Aonde estás?” - porém ainda inexitoso.

O Poema Que Trago Entre Os Lábios

Escreve-me na certeza abrupta de dois lábios,
Descontinuados à cintura, somos só fantasmas,
Outrora por nós cravaram nas estrelas provérbios,
Longe das ruelas e vielas que conferem miasmas,

Esta ausência é capaz de lentamente matar o vazio,
Temos silêncio de onde duas vozes eram erguidas,
Por isso das primaveras e verões se fez enfim frio,
E a ampulheta proporciona estas estações perseguidas

Por fumo e nevoeiro, por um eterno e solitário luaceiro, 
E assim perdíamos os cabelos do vento, o calor do Sol,
E do próximo se fazia o longínquo e da abóboda o aguaceiro,

A verdade é que trago essas gotas num sonho envolvente,
A ela em cada dádiva, só a ela em cada ínfimo anzol,
Num coração em prato decorado a luz ainda reluzente.

 

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Debaixo dos Lençóis

Por vezes escondo-me por baixo dos lençóis,
Procurando a luz da qual me vou escondendo,
Por lá vou deparando-me com mil e um anzóis,
Quase escapando do moto do "quase fui vivendo",

Esta é a viagem nunca feita, a verdade por existir,
A realidade inacabada, o real por mim esquivado
Pois se viver apenas no real acabo por me reflectir,
Do pedaço de um inteiro me tornando num bocado,

E pretendia encontrar-me onde por fim me escondo,
Num terrível meio termo que não é de todo viver,
É adiamento da alma, reunião com algo hediondo,

A vontade de não sorrir, a necessidade de não ser,
O escape por dentro de um quadrado redondo,
Para encontrar assim a chama do meu querer.