terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Só Pretendo A Eternidade

Há lugarejos através de recantos de escuridão,
Onde o poema vai perdido sem o seu segundo,
E eu, viandante das estrelas envolto em solidão,
Vou procurando meu lugar, minha parte do mundo,

Renasço em poesia quando o fruto do amor invade
As muralhas que ergui perante a sombra que resfria,
Sabei que com o horizonte ainda sinto cumplicidade,
Um dia hei-de o passar brioso e altivo em grande euforia,

Trago raios de sol nestes meus braços que vou embalando,
Resplandecem a esperança de um outro dia, outra manhã,
Por cada esquina transvasada, verto-me em água, cantando, 

O hino dos poetas que me precedem, dos deuses lá do alto!
Acordando para mim mesmo, vem lentamente outro amanhã,
Farei desse momento eterno por cada passo dado neste asfalto.


domingo, 5 de fevereiro de 2023

O Boato (Cerebral)

Tenho gritos de guerra na garganta ainda hoje plantados,
São poiso para asas engarrafadas em navios sem destino,
Filhotes de heróis mortos cujos corpos nunca procurados
São eu, orfandade e lágrimas, as moradias sem inquilino,

E é desespero, vontade do não anseio, o suspiro perdido,
E eu vencido antes de ser derrotado, sem qualquer perdão,
A pluma na faca aguçada, um nome sem qualquer apelido,
Aprendi a morrer enquanto sou vivo de algemado coração,

Ela pavoneia-se entre as estrelas, sem qualquer amor para dar,
E cada letra, cada palavra é sentença para de mim recuar,
É o solavanco na estrada, a direcção alterada, o inebriar palato

Indiscreto, esvaecendo tal vinho entre dedos descalços, insensato
Sou eu, é o bocadinho da dúvida, o não conseguir comigo relacionar
O fragmento em que somos vida, em que não somos apenas o boato. 



terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Pela Brisa Levado

Sim, vamos segurando as mãos de eventuais estranhos,
Através de sepulturas e paixões em estado terminal,
Desabafados por fôlegos largados na dor dos rebanhos
Que vamos seguindo cegamente, é inexacto, é pontual,

Envelhecendo na berma da estrada, na quase vontade,
De quando dois olhares entre si se viam em plenitude,
E sorrisos eram sussurrados no encontro da vera metade,
Amor, eramos maiores que o mundo, a mais alta altitude,

Entrementes dela fomos queda, precipício aberto e incerto,
Fragmento de coração, sem isenção, o compromisso quebrado,
De quando urgia o bocado, o instante passageiro, o desconcerto,

Fica a nostalgia de momentos de magia - eternamente cravado
No peito do trovador, com e sem a sua dor, o momento eclipsado,
Que aquele que seja o último a suspirar seja enfim pela brisa levado.


domingo, 15 de janeiro de 2023

Enquanto Ouvir As Harmonias

Traz-me enfim conforto, sussurra o nome à estrada,
Com dedos cuidadosos cerrando seu olhar cansado,
Onde andamos por jardins verdes vem a encruzilhada,
Esta noite num outro dia viveremos um dia no sonhado,

O ar nocturno pelos poros da pele então será exsudado,
Dizendo o sabor que entre estes lábios se vai escapando,
Caindo da mais alta montanha ao precipício saudado,
Acordamos onde esvaecemos, num riso estampando

Outras alturas, na água fria entre estes pés descalços,
Lavando as mãos, a oferta daquelas asas cobiçadas,
E levantamos voo para o sol poente, ao seu encalço,

Relembrando o brilhar de estrelas altivas, mil sinfonias,
Onde dançamos ao seu som, notas do silencio afectadas
Pelo calor de uma mão na outra e das suas eternas harmonias.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Em Sonhos Éramos


Em sonhos relembro-me de calcar vidro, indo descalço, 
Também saltando sobre cinzas e rochedos, de mãos na mão,
Batendo nas portas e engolindo suas chaves num percalço,
Aonde ia beijando beatas de cinzeiros enfim dormindo no chão,

Em sonhos relembro-me de embaciar vidros com o fôlego
De mil ideais, esperando sois poentes, outras vertentes,
Cultivando o desapego, truz, truz, onde eramos resfôlego, 
Onde pretendíamos ser asas pintadas no céu e entrementes

Em sonhos éramos um pouco de luz por átomos divididos, 
Fechávamos os olhos, não obstante na cinza do dia passageiro,
O ontem torna-se um pássaro entre anseios e desejos despendidos,

Saibam que este sonhar era um outrora e um será, assim soalheiro, 
Alegria e luto ao passar, o riso e chorar sempre e sempre cândidos, 
Era Terra do Nunca nas palmas de uma criança e era o seu aguaceiro.


sábado, 24 de dezembro de 2022

Um Milhão de Pedaços da Estrada

Suspiros vazios empurrados por goles de vinho,
A visão da donzela pelo canto da mente vestida,
Parece que a encontrei sob a folha do azevinho,
E parece que neste coração a tenho amanhecida,

Pintando espelhos a tons de dias do passado,
Onde a poesia levava os dias na bagagem,
Estou perdido, suplicando para ser encontrado,
Solitário tal gestos inauditos pela paisagem,

O aprendizado então mudado, beijo o desconhecido,
Precisando de oxigénio para poder enfim respirar,
É fácil fechar os olhos e deixar ser o permitido,

Sei que sou um milhão de pedaços da estrada,
Os momentos aos quais me propus finalmente amar,
Então enterrem-me no fim no céu da tela já viajada.




terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Entre a Treva e a Luz

Tenho ainda nós no ventrículo esquerdo,
E luminárias delineiam esse sentimento,
Que é a beleza dos instantes que herdo
Entre a treva e a luz – o seu casamento,

Onde inebriado ouço o esvair das lágrimas
Dum coração pela estratosfera descalço,
Quando tudo o que pretende são as rimas
Para fazer do seu bater tudo menos percalço,

Vendo os anos a passar através da janela,
Os sentidos humedecidos, hoje preteridos
E perpassados pelo avistar de uma donzela

Que era todo o meu pesar, todo o meu voar,
Enquanto eu rastejava, oh quanto a ansiava,
Entretanto assim carecia todo o meu amar.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Não Obstante

Objecções e insinuações, para voar instruções,
Ânsias e fragrâncias de tempos já eclipsados,
Entretanto há instantes onde dois corações
São assim todos os caminhos jamais pisados,

E neve incandescente cai só para quem a sente,
Procuramos um sítio ao qual chamar de lar,
Onde poder pernoitar e ir adiante e em frente,
Para a terra dos sonhos, para aquele lugar

Que não tem dono, nome ou sequer apelido,
As saudades de quem ainda não é passado,
É sim uma porção fragmentada de vento ido,

Acredita, por todas essas tormentas te hei amado,
Não obstante do quanto fui queimado ou ferido,
Ainda penso no amanhã, inteiro ou quebrado.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Despeja Uma Constelação No Meu Copo

Despeja um para mim, os sonhos vou segurando,
Escrevo estes poemas por gotas de sol recolhidas,
E esta voz é o erguer das constelações, recuando,
Entre as sombras que nos seguem, ora partidas,

A última nota tornou-se na primeira, sou guarida,
Sítio para pernoitar, para ficar, para enfim sonhar,
Dedilhando esta brincadeira dos céus conferida,
Há-de ser a minha flor de cabeceira, o meu lugar,

Lar livre como o próprio éter, em árvores pousando,
Escutar-vos-ei nas cantigas e nos risos das crianças,
E desse recitar ver-me-eis desde aqui esvoaçando,

O noturno torna-se diurno, a memória torna-se promessa,
Eu dormindo no ombro das constelações e suas danças
Assim o mundo lentamente se vai e tudo o resto cessa.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Para Lá Dos Portões Há Sonho

Espera-me acolá a voz do beijo negro outrora concedido,
Tal desabafos deitados sobre esta neve incandescente,
Pintados na alma, gravados no peito, no descomedido,
Fechado entre quatro paredes por mão do tornado crente,

Dedos cuidados procurando descalços um sonho, a paisagem,
De lábios vertidos, os sentidos humedecidos pela enxurrada, 
Viverei de sonhos pois para sonhar somente é preciso coragem, 
Nossos segredos cantados desse precipício da berma da estrada, 

Ensombrados pelo esquecimento da criança em velho tornada,  
Esperamos a manhã, a aurora cobrindo um jardim prazeroso,
Onde nos beijemos com amor numa quimera assim encontrada,

Inexactos, mas certos do brilho da vida, altivos e enfatuados, 
Segurando os meus sonhos dentro deste embalar generoso,
Para lá dos portões da morte, eternamente seremos serenados.  



terça-feira, 29 de novembro de 2022

Saudades De Quem Não Fui

Estas saudades que tenho dos momentos em que não fui,
E dos outros que não tive a oportunidade de por fim ser,
O potencial edifício com mais andares que no peito alui, 
Por não ter sido erguido para além do horizonte do ver,

Há estrelas no então longínquo brilhando eternamente sozinhas, 
Onde os mortos nos ajudam a contar os segundos não vividos,
Afagando nosso peito vamos percorrendo o trilho destas linhas, 
E nesses números vemos no ar os fôlegos até agora dispendidos, 

Que tal chuvas cadentes se mostram em instantes e momentos,
E ao ouvido as aspirações e medos tentando culpar o caminho,
Mercê, mercê perante a sepultura de quem foi só fragmentos,

Pois se há ainda a viver, ainda não chegou o tempo da partida, 
Por isso iremos indo, encarando-o acompanhado ou sozinho,
Nascidos para ser, vivendo para ver para lá da noite contida.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Sou Todos Aqueles Que Permiti Me Tocar

A chegada do instante é um voo inominado,
Tal verdade contida de uma lágrima invertida,
Um carta enfim deixada  ao mais doce cuidado,
De um amor incandescente, a maré tanto querida,

Não obstante do pai ou do filho, o Universal,
É sonho cá em baixo tornado, fôlego achado,
E nós de olhar embaciado definidos no real
Somos os suficiente para desculpar o obrigado,

Por altos momentos de asas soltas a volutear ,
Envoltas pela nostalgia do que está por vir,
Completadas pelo sol a cair e a se enxaguar,

Por aquilo que me há-de a mim, enfim, importar,
Com saudades daqueles que não fui, do elixir,
Por todos os simples detalhes que escolhi amar!

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

A Beleza No Imperfeito

Por favor traz porções de maresia para eu suspirar,
Procurando momentos semi-perfeitos aos bocados,
Chegou a altura, chegou o momento de tudo arriscar,
Pois há vezes em que é preciso mudar nossos fados,

O destino do homem inteiro tornado quase porção,
É a verdade inaudita, o caderno ainda por escrever,
Não busca assim o mistério do ser ou a sua resolução,
Somente instante melhor que antes, instante para ser,

Então refastela-se no sangue e lágrimas concedidas
Para o pulsar do coração e o olhar além do horizonte,
Neste caminho onde se vêem as cores mais coloridas,

Que são necessárias para pincelar os montes e colinas,
Aquelas que vai ultrapassando e criando em sua ponte,
Há beleza no imperfeito, belezas infinitamente divinas.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Entre o Sonho e o Real

Percorrendo os aros da pele como o paraíso,
A fragrância do cabedal de notas de suicídio,
Camas feitas e barbas desfeitas num sorriso,
A estrela da manhã e a sua queda o subsídio

De homens que foram esquecendo o que é ver,
As camisas passadas por trilhos desconhecidos,
Tipos de contos de fadas, será isto o que é viver?
Tentando apagar vestígios de sonhos coloridos,

Estranhando este respirar, esta procura incessante,
Apesar de tudo, pergunto-me "Quando aprenderei?"
Fechando os olhos e o ver num fôlego inebriante,

Aproximo-me do fim, deste uno momento final
Esperando a sua deixa deixada pois por fim sanei
No aprender a distinguir entre o sonho e o real.
 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Vertem-se Aguarelas

Abro a boca e em cascatas se vertem aguarelas,
Em palavras inexistentes e silêncios entre nós,
Onde vão ressoando os ecos através das janelas,
E onde as paredes repousam nos nódulos da voz,

A passagem é ligeira, a fronteira de uma ampulheta,
Hora de ponta onde passos se escoam na calçada,
Pela estreiteza das ruelas, pela vileza da sarjeta,
Tudo passa e nada passa, é o poder da estrada,

E ainda tem sinais vitais a verdade deste fado
Cantado na orla da maré, trauteando ao vento!
Tenho-nos ausentes no presente, futuro e passado,

Numa terna balada hás-me cativado tal flor estrelada
Do mais brioso páramo, o brilhante de que sedento
Estou, sou culpado de as seguir até à doce alvorada! 


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

A Asa Latente

Tenho o interior por teias de aranha ornado,
Sombras dançando noite dentro neste quarto,
Com sonhos lúcidos e por eles sendo inebriado
Neste uno fôlego nu e desnudado enquanto parto

Para outras planícies e margens, fragmentos
De mim vagueando entre os dias do outrora,
Ouvindo mil corações quebrar nos aposentos
Da solidão, da confusão, da contusão do agora,

Dedos esguios percorrendo o cabelo da noite,
E eu beijando-a entre mil vultos e semblantes
Então conhecia o o sonho e o seu terno açoite,

Perseguindo a aurora, construindo uma casa,
Um lugar para descansar os ossos como dantes,
Erguendo um bastião, latente ao coração e sua asa.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Aonde Estás?

Trago o olhar ao peito numa alcova perdida, 
Desabafo-o às ruas e às pedras ladrilhadas,
Procurando onde sonhar - a margem querida, 
O resto - naufrágio dos seres, almas encalhadas,

Um lugar então esquecido, o sonho que não vem,
Quando apetece levantar voo, plantar o turbilhão,
E que desse erguer então mil e uma ideias viessem
Para criar escadas para o céu, para levantar em mão

O que não é dado, mas ganho na aventura da Vida,
Aquela cuja vela vai ardendo demasiado brilhante,
Parece, mas não é, traço brunido da vista envolvida,

Sustentando o peso dos querubins num desfile vistoso,
Quando o tema é o Amor, quando a verdade é semblante
Esguio pergunto – “Aonde estás?” - porém ainda inexitoso.

O Poema Que Trago Entre Os Lábios

Escreve-me na certeza abrupta de dois lábios,
Descontinuados à cintura, somos só fantasmas,
Outrora por nós cravaram nas estrelas provérbios,
Longe das ruelas e vielas que conferem miasmas,

Esta ausência é capaz de lentamente matar o vazio,
Temos silêncio de onde duas vozes eram erguidas,
Por isso das primaveras e verões se fez enfim frio,
E a ampulheta proporciona estas estações perseguidas

Por fumo e nevoeiro, por um eterno e solitário luaceiro, 
E assim perdíamos os cabelos do vento, o calor do Sol,
E do próximo se fazia o longínquo e da abóboda o aguaceiro,

A verdade é que trago essas gotas num sonho envolvente,
A ela em cada dádiva, só a ela em cada ínfimo anzol,
Num coração em prato decorado a luz ainda reluzente.

 

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Debaixo dos Lençóis

Por vezes escondo-me por baixo dos lençóis,
Procurando a luz da qual me vou escondendo,
Por lá vou deparando-me com mil e um anzóis,
Quase escapando do moto do "quase fui vivendo",

Esta é a viagem nunca feita, a verdade por existir,
A realidade inacabada, o real por mim esquivado
Pois se viver apenas no real acabo por me reflectir,
Do pedaço de um inteiro me tornando num bocado,

E pretendia encontrar-me onde por fim me escondo,
Num terrível meio termo que não é de todo viver,
É adiamento da alma, reunião com algo hediondo,

A vontade de não sorrir, a necessidade de não ser,
O escape por dentro de um quadrado redondo,
Para encontrar assim a chama do meu querer.

domingo, 2 de outubro de 2022

O Escape

A escapatória é a fuga entre braços esquivos,
Relutante e petulante, vou procurando o amar,
Parece que por vezes encontramos os fugitivos
Que um dia deixamos de querer encontrar, 

Escasseia o que falta, um pouco mais de coração, 
Então, um sorriso rasgado propelido pelo ar,
Pretendo que saibam que vai de mão em mão,
E que nunca o pretendi alguma vez abandonar,

E hei-de refutar quem o contrário me disser,
Sobre o voo na rosas entre diversos cantos,
Não obstante do que houver ou ainda vier, 

Por isso vou pregando a minha vida tal poema,
Ressoando no eco do "eu o homem entre tantos",
E que a resposta não tem nem solução ou problema.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Resquícios do Verão

Entre os resquícios do Verão e da sua melodia, 
Vem o impulso para partir, fugir destes braços,
Então caminhando sobre pontes e nesta rebeldia
Olhava directamente para o sol e os seus traços

Confinados entre as paredes de um coração,
Sem pranto, num instante que nem é partida,
Apenas com tempo para uma última oração,
Cravado um nome numa estrada inadvertida,

Outrora já foi, agora ausência do seu semblante, 
Os dias em parada passeando-se diante mim
Tal grito ecoado ao longe e hoje tão distante,

Parece que já não há espaço para ser mais assim, 
Cantava com gritos ainda na garganta inobstante, 
Círculos ao contrário e a Vida mantida em frenesim.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Entre Cubículos

Sem respostas, pelo peso de cubículos esmagados,
Por um pouco mais deixamos um trilho de migalhas,
O silêncio tem olhos, mantenham-se das janelas afastados,
Essas órbitas trazem o lutar ou fugir portanto tragam as tralhas,

Arrastado por entre as vielas da cidade, por entre o azul aguaceiro,
É apenas água, somente chuva, só lágrimas, a sempre presente dor,
Tiraram-me as sementes mas ainda guardo uma flor de um luaceiro,
Paranóico de amor e morte, não temais o facto de sermos simples amador,

E agora que todos ouvem os pregadores do vazio, beijo-vos as mãos,
As palavras gotejando através do seu queixo, as sarnas removendo,
Onde ia suspirando: "Quase que me perdia aqui entre as multidões",

Ninguém aqui é ouvido, ofegante num conforto da reflexão de um espelho
"Há alguém ai fora?" - estes passos continuam a descer e descer, moendo,
Um respirador de uma cave, e eu a ir indo entre cubículos - o jovem velho.

domingo, 11 de setembro de 2022

Desbridado

Vou, desbridado, com os olhos a dançar, cintilantes,
Pincelando nas telas orbitais cores vivas, aprendizes
Do que pode acontecer enfeitado por flores flamejantes, 
Aqui sinto a mão divina na minha mão, somos felizes, 

Envolto no suspiro de uma vida, num tom esperançoso, 
Sinto a passagem luzidia perfumada a tons multicolores,
Inebriados ao tacto, no corpo tornado sorriso solaçoso
Pois estanca a lágrima, inconfessável nas suas indolores,

Trago este olhar repleto de querubins altivos do paraíso,
Assim a vigília, entre escarpas aguçadas, meu caminho, 
Indo passo a passo em frente mesmo quando indeciso,

Desejando sob estrelas cadentes, ecoando a eternidade
De mão na mão, um mapa com estradas quase quietinho,
Fechando os olhos serei parte transcendente da efemeridade.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Um Poema Para Quem Ecoa As Constelações

Este solitário poema é para mostrar ao mundo
O traço imperfeito da mão do poeta, o esboço,
O passo deambulante prostrado do vagabundo,
É um presente misterioso entre o velho e o moço,

Os assentos com lixívia são a charada em verso,
Acordando perdido num quarto outrora sonhado,
Perseguindo sombras na parede assumo-me imerso
No luar pejado através de mil noites no chão enlaçado,

De onde venho não é para onde vou, é refeito sentimento, 
A vida por lunetas rítmicas de compassos perfeitos e canções
Duma caixa de música a tocar assim reflectindo o momento,

Sonhamos e acordamos e assim seremos todas as multidões,
A ideia de um destino rasgado, de roupas usadas, fragmento
Ecoado em lembranças de um sítio chamado casa - as constelações.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Pelo Oceano Tolhido

Braços vazios e promessas levadas com a manhã, 
Caminhamos pela água sonegando-a por estrelas,
Têm as escadas para o céu ontem, hoje e amanhã,
Sentindo-as nas mãos vamos colocando-as em trelas,

Estas cicatrizes são memórias que nunca esqueceremos, 
Instantes hoje sem voz, coloridos pelo pincel do tempo,
Parece que estes dias são apenas para contemplarmos,
A vida é termo cinza, árvore cujo fruto vai com o vento, 

É a tempestade e a calamidade do embate do coração,
Ondas de esperança e o rosto por lagrimas preenchido,
O conforto não virá e invés virá a chuva, virá a moção,

Adormecemos com fôlegos curtos em oxigénio enrustido,
Num mapa arterial delineado nas veias, no galope da canção, 
E nessa narrativa, nossos beijos vêm e vão - pelo oceano tolhido.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Para de Mim Ser Menos Distante

Um sonho para um insomníaco e por fim há sono, 
Despachai-vos e esperem, este é de loucos o barco, 
Pois esta tentativa de sonhar é pé sobre folha de outono,
Sem outras estações, neste rosto encontrareis um charco, 

Para além do horizonte, o caminho estreito torna-se casa, 
Vivendo a Vida como se não houvesse algum amanhã,
Vamos beijando a abóbada celeste fluindo de asa em asa,
Assim alimentando uma esperança que é tudo menos vã,

Pintando segundos refractados por espelhos poeirentos, 
Lembrando a criança de uma vida regressada, a estória,
Como bolas multicolores dissipando-se na rosa dos ventos,

Por vezes esta mascarada cansa-me, e eu somente semblante
Vou procurando qual o lugar, qual a casa, qual a escapatória
Para fugir, para reencontrar, para de mim ser menos distante.




domingo, 14 de agosto de 2022

Esquecendo a Eternidade

Sim, amanhã se me afogar nas águas rasas, 
Dar-me-ias a mão, puxar-me-ias para cima?
Custa-me a voar com estas quebradas asas,
Vasculho o páramo para a estrela mais ínfima,

Preciso de brilhar, ser a constelação mais brilhante
Que concede esperança ao triste e lúgubre sonhador,
Imortalizado ao passear, deixando um rasto fulgurante,
Numa infinitésima dança como para sempre amador,

Lancem-me no mais alto dos devaneios, o sonho alado, 
Caminho tal os pássaros pelo azul celeste então estirado,
E então ar fresco acorda-me, cessam as vozes dos malditos,

Perdido trago mapas colados nas sobrancelhas em gritos inauditos,
E amor em pulsos cortados e largado à indiferença de um olhar,
Vos apresento o viandante que lentamente vai esquecendo o voar.

(E cuja eternidade vai deixando de o ecoar...)

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Não Abstido de Amar

As ondas eram na mão então docemente trazidas,
Uma lágrima no oceano para o ver a transbordar,
Hasteávamos a vela e deixávamos a costa querida
Pois não é possível para sempre no dia pernoitar,

A janela do vidro azul sabia também o nosso apelido,
Entretanto prostrado atrás por nunca ter cicatrizado,
De tantas vezes ser translúcida num olhar esquecido,
Chamava-lhe de irmã pois no fim nos ter encontrado,

E aqueles que nos fizeram esquecer esse cantarolar,
O murmúrio que ecoamos pela vizinhança do sonho,
Mais tarde ou mais cedo iremos por fim reencontrar

A verdade que é nossa e de um caminhar mais risonho,
Ao destino desvendado por um Deus não abstido de amar
E um Amar altivo iluminando o escuro e o medronho.

terça-feira, 26 de julho de 2022

A Contemplação do Poeta

Escuta-se uma voz ao longe, pequena e esvaecendo,
Por segredos tornados cicatrizes e lábios então rachados,
Alcançando o precipício pondo as montanhas tremendo,
Que não falte a sorte de uma vida com todos os seus bocados,

Desde a manhã em que acordo até à noite em que adormeço,
Aí vem o anoitecer num despertar de um céu deveras estrelado,
E ela com uma grinalda feita de astros na cabeça que teço
Em poesia cuja reflexão é nos lagos um amor enovelado

Por milénios passados, silenciosamente tecidos pela atenta mão
Do trovador, que com ou sem dor, vai mostrando a face de Deus,
E assim caminhando para a montanha, condecorando o coração, 
 
Emudecido, calado, com vultos aos seus pés, no céu só um semblante,
Que num momento, num instante, tanto nos acena como nos diz adeus!
E o desejo do poeta é esse meio que ele completa num único olhar vigilante.
 

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Prisioneiro De Um Abraço e Beijo

Há um escape entre os nós das nossas mãos, 
As pontas dos dedos enrugadas por fim dadas, 
Elas vão até aos ventríloquos de um coração
Dividido entre dois e as suas águas furtadas,

Há pontes para o além no sorriso da donzela,
Navegando entre marés do ciano mais azulado,
Deixando flores desse brilho d'oiro numa tela
Lembrando que esse brilho é sempre partilhado,

E à distância entre os nossos lábios assim enlevados,
Nesse breve instante somos da Vida companheiros,
Trazendo indentações de asas, de céus esvoaçados,

Que nesta visão são maiores que quaisquer aguaceiros
Que diagonalmente caindo nesta boca tão imaculados
Me tornam o vosso abraço e beijo, sou eu vosso prisioneiro.