segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Viandante Viaja: Eu, Os Segundos e a Sua Ponte

Viajo até não haver mais horizonte
Entre margens pelo meio de nada,
Por mim são uns poucos pela ponte
Desta viagem ora leve, ora pesada,

Por muito que tenhamos esperado
Ou por tanto que tenhamos ido
Somos por vezes o tempo parado
De um qualquer parágrafo não lido,

E aquilo que perdi e achei na estrada
É em mim mesmo quando não sou,
As suas partidas e a minha chegada

E o visto que o esquecimento já levou,
São essas os tons que ecoam aqui
Concedendo fôlego e asa ao colibri.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Entre Dois Pt. II: Estamos Quase Lado a Lado

Estamos quase lado a lado,
Aqui quase não estamos sós,
Por muito que tenhamos falado,
Há vezes em que muda fica a voz,

Estamos quase lado a lado
E deste prado somos os pastores,
Nosso rebanho em alvoroço calado,
Suas margens afastadas entre dois amores,

Onde um rio corre entre os dois,
Algures ambos encontram abrigo,
Mesmo ignorando o que virá depois

E quão esse não saber mexe na ferida
Porque por vezes até um beijo é castigo
Seja num abraço acolhedor ou na despedida.

domingo, 16 de novembro de 2014

Ía o Poeta Pt. II: Vendendo Ouro de Tolos

Alguns, poucos, fios de alumínio a ouro pintados,
Essa é a vaidade do poeta - o falso sentimento,
Forjando Primaveras de Invernos idealizados,
Então é o fingir viver, não a Vida seu testamento,

Mesmo que apenas e só trevas ele seja,
Que sorrisos disfarcem a sua tristeza
E relembre ou inspire quem já não beija,
Que no papel lhe dêem um nome: Beleza

Será ela sempre o sonho e a mentira sincera
Que ele creia tanto que do mundano esqueça,
Celebre o martírio do belo, aquele exagero

Que separa o poeta dos simples, meros mortais
Pois a dor do saber fingir é a sua pertença
E os poemas só as vezes em que a dor é de mais.

Entre Dois: Palavras Deixadas ao Que Vai Passando

Palavras deixadas a ventos d’outrora,
A menina não escuta, ela mal ouve,
Vem a manhã e nem parece a aurora,
Esquecem-se restos do que não coube,

Restos sempre de porções e pedaços,
Do que parece bom ou mau passageiro,
Deveriam ser os mais bem preenchidos espaços
E deles eu o seu melhor amigo e companheiro,

Só chuva e frio sob todo um tecto de relento,
Caneta e caderninho e potencial beleza,
Largados ao ermo do desleixo do vento,

Levados algures no ombro da incerteza,
Calma tê-la-ia se de nada fosse sedento,
Mas sede dela sempre terei (em mão com esta tristeza).

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Às Três Cores Pt. III: A Encruzilhada de Todos os Dias

Vi um homem numa encruzilhada,
Três faces possíveis ao tão iminente,
Das três só uma era viável calçada
Para poder ser dentro do recipiente,

Um arredou caminho, voltou atrás,
Adiante tudo era sombria incerteza,
Temia os segundos pelas horas más
E desdizia-os não vendo a sua beleza,

Outro foi em frente sem qualquer medo,
Não se arrependia do ontem eclipsado,
Para ele nunca era tarde ou sequer cedo,
Ia sempre em frente mesmo estando errado,

Outro porém escolhia e depois caminhava
Ora então escutava o vento ou a sua voz,
Cada instante seguia ou se desviava,
Sim, era ele o mais sábio de todos nós,

Era eu quem de longe ao perto os era,
Vestindo todos nesta rasgada pele,
A inocente presa, a maculada fera
Passageiro e barco para todos eles.

Ía o Poeta: A Covardia da Falta de Chão

Era ver a canção sem o cancioneiro,
Já nem me lembrava tal história,
Parecia barco sem timoneiro
Ou lembrança sem memória,

“Não há sitio pois caibo em todos”
Lamuriava então o poeta à parede
“Perdi o pé, olvidei-me dos modos,
De tanto beber esqueci qual minha sede”

Errante, sobre as areias descalço,
Sob o peito suas mãos tão frias,
Havia ecoado o conto do poeta falso
Por isso descia por infernais escadarias…

Sem crer nas palavras que proferia,
Sem acreditar na beleza que vira:
Outrora fora, hoje era noite sem dia,
Era o caminhar que ele próprio traíra,

Restos de estrelas caiam-lhe entre os dedos,
Havia toda uma viagem sido em vão?
Perguntava-se para onde foi a coragem por medos
E onde é que foi que o mundo lhe partira o coração…

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O Dia: Hoje

É o dia em que irei alcançar a aurora,
Espero ser a ave que voará mais perto,
Hoje é o dia em que irei enfim embora
Algures onde o páramo for bem aberto,

Por esse esvoaçar voo e vou pensando
No instante em que parti e na chegada,
Até me pergunto desde e até quando
Será este voo o colibri ou só sua fachada?

Deixo-me ir, vou-me e deixo-me um pouco,
No olho do torvelinho ao desenlace da asa,
Então berro e grito bem alto até ficar rouco

Deixando a terra atrás pois o mundo só atrasa,
Ainda e vejo, num beijo ao insano, ao louco,
Deixo-me pois caminho sobre o ar, em casa.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Às Três Cores Pt. II: A Vertigem do Carrossel

Na vertigem indomável do carrossel
Que sanem as cicatrizes d'ontem acolá,
Aceitando o beijo efémero da Babel,
Serão elas as medalhas de amanhã,

Relembrem o rouxinol que perdeu o canto
E que por vezes é tão bom sentir saudade,
Há vezes em que “plim!”, vai-se o encanto,
Mas fará isso das ocasiões boas menos verdade?

Não foi, é e será a todos difícil obter o permanente,
Ou sequer olhar mais longe que o próprio umbigo?
Há quem esqueça que o corpo pode ir de repente

Mas é isso o que faz de todos nós o viajante,
Então vá, vem comigo que eu rirei contigo,
Passo a passo rumo ao longínquo distante.

Às Três Cores Pt. I: E Todas as Cores Entre Si

Às três cores – ao negro, branco e eu
Que estejam sempre lado a lado,
Um brinde a vós, tiro-vos o chapéu
Mesmo quando vos hei desprezado,

Não é o caminho feito de caminho,
Ou será ele o acto de caminhar?
Vá-se acompanhado ou sozinho,
O importante é nunca querer parar

E saber adormecer nos braços da Lua,
Sorrir e suspirar por acalmia e boa maré,
E ao seu belo toque leitoso na pele nua...

Saber quando a estrofe anterior for cliché,
Aí aceitar a porção sem tinta no pincel,
Permitir ser aquilo que é o que não é.

Amor: Abri-me a Porta!

Amor, fantasmas de mortos vivos lá fora,
Arranhando os vidros azuis sem parar,
Não dormirei bem, tão tardia vai a hora,
Quanto tempo sem tempo virá sem passar?

Amor, deixei a minha porta entreaberta
E cá fora apenas solidão, frio e tristeza,
Sim vim de cantos obtusos pela rua incerta
Mas só prova a Vida quem morre por beleza,

Assim honro-a ao morrer, morrer, morrer…
Porém abri a porta raia a madrugada,
Se não a abrirdes então deveis saber

Que jamais saberei o que é a chegada,
Fui à Guerra das Rosas para me render
A vós Amor, a mais sublime emboscada…

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Aos Embriagados: Bem Acompanhados

Ilustre e querido estranho - melhor amigo,
Esta noite, ombro a ombro, lado a lado,
Grato por aguentares tão bem comigo,
... agora que bebamos mais um bocado!

Até se tornam mais toleráveis as pessoas
E as luzes citadinas em minha maravilha,
Enfim, aí todas se tornam tão boas,
Vem o brilho donde nenhum sol brilha,

Vomito na rua, no passeio e pelo beco,
Nesta nossa bela ebriedade ligeira
E se um dia julgar estar desperto

Que me torne novamente na bebedeira,
Pois por duas sombras estou coberto
São elas a loucura!!!... e a minha canseira....

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Silêncio: Entre Mim e o Seu Quarto

Silêncio - entre mim e o seu quarto,
Conto segundos através de suspiros
E certas palavras gastas, assim parto,
Ela é em mim e eu seu apartado retiro

De sua voz e seu sorriso, o leve almejo
- Aquele regaço, vertendo tal comorebe,
Frágil sonha, tão delicado tal último beijo
O único anseio que esta boca ainda bebe…

É assim que os anjos caem do paraíso,
Desse seu pedestal um arco-íris de cor
Pois do negro ao branco tudo é preciso

Então que ela seja o carrasco e a flor:
Goya, Yagan, foscos berços, o sorriso...
E a lágrima… queda-se a chama… Amor?

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Este País: Não É Bem Morte, É Não Vida

Não é bem a morte mas sim a não Vida,
Essa sabe tão, tão bem o que é Portugal
O não abrir ou sequer fechar da ferida,
Essa presença sem vida será meu funeral,

Portanto nem é bem o frio, é a falta de calor,
É uma toda possibilidade não concretizada,
Ter dívida para com ninguém e ser devedor
Por todo um país que mais parece uma cilada

Para quem pôde ou poderia noutra situação,
Posto de parte mas não a parte da equação
E para os inocentes, esqueçam a absolvição,

Aos olhos de todos somos todos um culpado
Será este o fado dos grandes filhos da Nação?
Enquanto o Viver é um não - tal sonho adiado.


domingo, 14 de setembro de 2014

Por Janelas de Vidros Azuis Pt. X: Deixando-se Entre Margens

Restos e ecos de suspiros enviados lá p’ra fora,
Hão-se ouvir violoncelos em marca d’água
Onde somente a sombra de ninguém mora
Para além da desolação, a tristeza e a frágua,

Um dia quando a meia-luz da morte pairar,
Esquecei que alguma vez fui nestas ruas,
Até quando o chão ruir e o céu desabar
Olvidai de quando minhas foram idas luas

Brincando com raios de luz nos nós dos dedos
E o mundo era lar logo não tinha segredos,
Havia sempre uma bela canção para partilhar

E por cada novo passo deixado - um todo vaguear,
Mesmo sem chegar, há chegada, mil e um medos
Há que o saber! esquecer... há que o relembrar e o deixar…

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Entre Margens Pt. IV: Pouco Importa o Fim

Vamos sem medo, um dia seremos lembranças,
Restam ecos de suspiros enviados lá p’ra fora
Quando o frio pára o andar destas andanças
E então somente a sombra de ninguém mora

Cantai-me por favor uma canção de embalar,
Não pretendo enganar a passagem do tempo
E quando este meu olhar deixar de pestanejar
Sabei que Amor irrestrito sempre foi o intento...

As paredes dos labirintos criados então cairão,
Umas últimas palpitações e um pouco de mim
Não mais toda essa preocupação e confusão,

Erguendo escadas para o Céu - vem o querubim,
Tão brando finalmente oferecendo a sua mão...
Se o entre margens foi bom pouco importa o fim.

Oressa: O Soneto Que Era Demasiado Longo Para Ser Soneto

Há ruas, ruas fugidias que se dobram às esquinas
Através de sombras de semblantes hoje ausentes,
Onde o riso das crianças se misturava com buzinas
E passava ela, de olhar baixo e caminhar penitente,

Partia por onde passava, procurando sua estrela,
Era amor não capitalizado, deixada à incerteza
De quem certeza de nada tinha e era enfim vê-la
Então passando de sorriso ido, ao abraço da tristeza,

Os mortos eram então reais e as cores proibidas,
De mão no varão da escada, usada e deixada
Entre pássaros e mineiros, eram tantas as descidas

E passava ela, de cabelo solto pelo varão de escada,
Um breve encontro à chuva e à luz de algumas bebidas,
Onde recompondo seu vestido, ia tão longa essa noitada...

(E passava ela por si mesma, sem sequer se encontrar,
Os seus passos esvaeciam ao ruído dessa cidade
E eu já mal a ouvia… e eu já mal a conseguia olhar….)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Homem Inteiro: Entre Pássaros e Mineiros

Enquanto outro dia vai lentamente fugindo,
Todos - Todos sonham e tão poucos o são,
Tal fim de semana parado que se vai esvaindo,
Alguns já nem sabem qual o feitio do seu coração,

Há quem diga que as pessoas felizes levitam
E que ninguém aspira à profissão de mineiro,
Pelo trilho que alguns andam outros hesitam
E que donde uns vêem luz outros são nevoeiro,

Uns ficam à espera e outros são toda uma busca
Quando até o espelho para uns é um estranho
Até o que ilumina a alguns a outros ofusca

E há homens que não nasceram para o rebanho,
Que o quentinho para alguns a outros chamusca
Enfim quem é inteiro não se mede pelo tamanho.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O Barquito Pt. III: Se Um Dia Naufragar

Se um dia ele se perder, se um dia naufragar,
Não faz mal, pertenceremos ao infindo azul,
Sob o horizonte não imagino melhor lugar
Para dormitar e ser silêncio a Norte ou a Sul,

Sabei que tal leve andorinha navegámos este mar
E se velejar causa ruído, remar mais ruído causa,
Não temerei a tormenta e quando ela for e passar
Será uma honra descansar, ter e ser na eterna pausa,

Sorrirei se naufragarmos pois não seremos só dois,
Levaremos todo o espaço trilhado entre as margens
Os instantes - vós! Sim amigos vivereis em nós pois

E que no porão sejam sempre a mais leve das bagagens,
Perguntai-me o que espero deste resto ou do depois…
Apenas navegar e ter segundos dignos das viagens.

O Barquito Pt. II: Foi Feito Para Navegar

O barquito foi feito para navegar e navegar
Por sítios povoados e até por desertos ermos,
Por vezes nem ele nem eu precisamos de mar,
Só de linha do horizonte e uma viagem sem termo,

Eu quase nem falo, pouco sei, um pouco de nada,
Aí um nada de trono, um pouco de Rei nos espera,
Aquele vista que foi nossa e nós às estações deixada,
Beijo no Outono pelo Inverno, ao Verão à Primavera

Sou pássaro e asa passageira quando a noite aqui cai,
De olhar e toque faminto, aprendiz sendo à admiração
Escorregando e mergulhando por onde o vento se vai,

Polén e mel de toda a flôr, por tudo que couber na mão
Esperando a procura tal abraço de filho ante ausente pai,
Pretendo toda a poesia desde que rime com este coração.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O Barquito: Faz-se Ao Mar

Suspirávamos ainda mais calmos que todo o mar,
Acordai! Segundos pouco mais que ponteiros...
Tiquetaques mudos nas ondas a passar, a passar
De relógio desfilando mais ou menos ligeiros,

Daqui vemos quem fomos através dos segundos,
O espaço entre as margens, a zona fronteiriça,
Domicílio para aqueles de nenhures oriundos
E casados com a Vida - essa esposa insubmissa

Que aconchega e atormenta pela luz e treva,
Deus é aquele que se levanta e vai sem saber
E aos cruzamentos se encontra e se enleva,

Por vezes até parando um pouco para se aprender,
Enquanto rápido e devagarinho o barquito o leva
E na orla do mundo se arrisca a um dia se perder.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A Ema XIII: Sorrisos, Sorrisos, Sorrisos...

Era então em simples gestos através do areal
Onde chapinava os outros com água e sal,
A enseada feita para quem se tinha lembrado
Que o presente é feito de futuro e de passado,

Dançava alada num ponto entre as margens
Que ora passavam ou ficavam por si e nela,
Os instantes sempre eram mediante as aragens
Trazendo-lhe os adornos que a tornavam bela,

Até as cicatrizes refulgiam aos olhos da maré
Que ela reflectia onde o seu bailar incidia
Era então vê-la, delicada, em bicos de pé,

Entretanto um coração em uníssono batia e batia,
Sem saber do porquê alimentava-se de boa fé
Enquanto ela me percorria a alma e sorria, sorria, sorria...

Dois Passos: E a Viagem Torna-se Viagem

Após quantas viagens é uma viagem, viagem,
Quantos passos são precisos para enfim chegar,
O que faz do facto concreto ou da ideia miragem
Ou qual o ponto em que é inevitável descansar?

E a quem apetecer caminhar no céu pode?
E a quem só conseguir ficar sem partir?
Nem sempre são os passos ao trilho ode
E o andar nem todas as vezes significa ir,

Será o caminho alguma vez dado por terminado
E se o for, será esse fim no final da estrada?
Sei que o tempo passa para quem há passado

E há vezes em que só deixa um pouco de nada
Para a viagem sei o que há sempre precisado
Dois passos, o da partida e o da chegada...

(e tudo o que estiver pelo meio).

Soneto da Passagem: Para o Tio Virado Avô

Suspirou: “Estou do fim para o resto.”
Enquanto seus olhos ficavam azulados.
"Estou velho, para a viagem já não presto
Aqui é onde os passos se dão por acabados,

Fica com o sorriso de quem tanto há amado,
O olhar e a voz atenta que tão bem te escutou,
Lembra o homem que fui neste corpo hoje quebrado
E que o fim nunca é o fim para quem enfim se encontrou,

Leva ao mar, no barquinho, os conselhos já dados
Aqueles pequenos nadas só entre nós os dois,
Mesmo quando o mundo der voltas aos quadrados

E não faças ideia alguma do que vem depois,
Estarei, meu neto, sempre ao teu lado,
Melhores dias virão um dia pois…"

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Certas Palavras: Não se Dizem

Certas palavras escrevem-se apenas no coração
E por lá ficam silenciosas até ao final do tempo
Tal comboio passando de estação em estação
Sabendo quais passou mas deixando-as ao vento,

Títulos de capítulos de hoje viram rodapés amanhã
Como vestígios de um fotografia tornada rascunho,
Os dias tornam-se noites e os carris trazem-se cá
Numa perpetuidade que se verte neste testemunho,

Aprendo a viver soletrando a ponta de um beijo,
Enquanto os deuses dormirem terei um lugar
Para ser o colibri entre a paixão e o desejo

Inclinado a poente ansiando por fim encontrar
O espaço entre a multidão e aquele ensejo
Onde só vivo e morro ao brilhar! Ao brilhar...


terça-feira, 15 de julho de 2014

A Vida Pt. II: É o Renascimento

Então falavam sobre os pequenos fragmentos,
Aqueles que silenciosos pairavam na maresia,
Ouvi mortais! Haveis esquecido sua poesia
E hoje o bastardo é por trilhos poeirentos,

Tossindo e engasgando-se ante a fogueira
Enquanto o seu vizinho envelhece sorrindo,
Alcançando a luz, jaz o homem revindo
Que vai indo de mão aberta na algibeira,

Seu olhar é plena luz diurna, de Deus espelho,
Outros criam garras sob o solo macilento
Vomitando-se em sete tons de vermelho,

Eu? Eu só quero cor onde eles vêem cinzento,
Ser a criança mesmo quando fôr o velho
E um dia morrer mas até lá ser em renascimento.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A Ema XII: Sob o Oceano

Sob o azulado oceano jaz ela sossegada,
Daqueles que sonham com a horizonte
Por onde dormita a bela Ema recostada
Tornando-se entre o oceano e o céu a ponte...

E que ela passe por mim em seu caminho,
O mundo não espera quem em si passa
E sim quem grita, grita mas grita baixinho,
Porém até essa tortura tem a sua graça...

Em alturas em que Rosa respira água salgada
Do rio onde nenhum barco tem passagem,
Por vezes até ela se esquece de sua amada

Que acorda feliz atrás do ar tal miragem
Enquanto o dia da Lua faz sua escapada
Na dança que do noite retorna a aragem.


A Vida: Não Basta

Não me bastam os dias que tenho de Vida,
Preciso do almejo que jaz no fim da linha,
Do pesado se faz leve e à viagem apetecida
Vai cheio o barquito de quem o vazio tinha,

Ele não será náufrago por muitos mais portos,
Por Deus vou eu e ele em mim em nascimento,
Assim, doce, se lançam ao mar os mortos
Que os levem numa maré de esquecimento,

Não há rebanho para quem fez do mar casa,
Quantos portos já passámos, já beijámos?
O Adeus é a palavra, é a vela, a leve asa,

Sê paciente não obstante do quão ansiámos
As ondas, as marés e quão o porto se atrasa,
Onde por vezes nem nós a nós nos bastámos




terça-feira, 8 de julho de 2014

Meia Luz: E o Resto nas Garrafas

Meia luz… e um resto nas garrafas de mim,
Corpos cansados e derramados pelo chão,
A vista semicerrada percebe que foi assim
Que outros poetas por tais lençóis já caíram...

Meia luz… e mais um trago sorvido a beijo,
Abraços de  veludo para esquecer o mundo,
Perdidos entre a paixão, a volúpia e o almejo
Nem que bebesse de uma vez veria seu fundo,

Meia luz… e o toque dos dedos da madrugada
Que calor oferta com uma porção do antes,
O pé na estrada, o coração que bate por nada,

Não há como despertar dos anseios distantes
Deixados ante a vigília de uma colcha gelada,
Meia luz... só tu és Mãe pelas horas errantes…


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Um: Aquele Que Foi Crescendo

Aquele que foi crescendo e de si se esqueceu,
Que aprendeu a pensar, a sentir, a discursar,
Deixou de ser Homem, parte de si perdeu
E é esse o espaço que é preciso recuperar,

Esse espelho coberto de pó dorme uma sesta,
É sorriso e é lágrima da criança lá atrás deixada,
Há que lembrar a alvorada e colhê-la numa cesta
E quando a noite vier vê-la no homem reclamada!

Sou a Vida, sou a Morte, sou dois ao mesmo tempo,
Ambos em moldura fluindo e a criança que a pinta
É o velho que a foi e hoje a traz em pensamento,

Como porção, sou o Universo e sou o seu resto,
Sou inteiro e ao seu complemento tenho a tinta
E o poder para me escrever ou  abster num gesto.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Entre Margens Pt. III: A Brevidade

Somos todos folhas caídas ao sabor do vento
Nesta colisão contra uma colina de lençóis,
Sim sei, vivo na brevidade do momento
Tempo esse aqui entre o antes e o depois,

Passageiros entre este espaço e o outro,
Em suspiros entre corredores de mármore
Lápides e pedaços largados noutro
Eco esquecido à sombra desta árvore,

Jamais pretendi parar ou sequer voltar atrás,
Sou a gota do rio que flui na pluma de Pégaso
Imbuída em meio canto entre horas boas e más

Nesta meia jornada esculpida ao quase acaso
Vamos dando tudo tendo o aqui como morada
Que de tanto darmos parece que não temos nada.