quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Cicatrizes Duradouras

Entre as margens e marés, a insegurança da respiração,
É a razão para a cedência, para a gaiola da debutante,
Este fado da não pertença é um cântico para a desilusão,
Os murmúrios entre dentes rangidos, venha o restante,

Pois anseio por beijos eternos apesar da sua efemeridade,
O desgaste da alma, os sonhos enterrados em vala comum,
É esta imanência que condena o vulto desta nebulosidade
Preenche de cicatrizes estas feridas delicadas, sou mais um,

Vamos indo no trilho, almejando a chegada, sem ser em partida,
Não percebes que fui capturado pelas linhas dessa beldade,
Entendei que entre essas margens e marés fiz toda uma vida,

Esta odisseia melancólica provém de um coração quebrado,
A natureza reflectiva do poema é indelével em curiosidade,
Então quando morrer, enviem flores bonitas ao meu cuidado.

Voo Interrompido

Linhas definidas nas plumas destas asas quebradas,
Por onde outrora esvoaçamos vou e latejo ofegante
Por onde vamos percorro com veias ensanguentadas,
Estado de mente onde nem sequer basta o bastante,

Olhar cansado, alma conturbada, falta-me o restante,
Escavado o buraco onde fiz ninho com estas unhas,
Estas paredes tornam-se numa cinza gaiola do adiante,
Delicadas feridas são as trazidas ao olhar das testemunhas

Que me vão apontando o dedo, acenando a mão ao caixão,
Uma vida ligada a um fado não nosso, vai-se o sonhado,
A não pertença é a sentença desta ânsia e preocupação,

O que me carece, o que me escasseia para além do almejado,
A droga da esperança, a agulha da crença bate no coração
E eu, entre margens, sou deixado à maré e o seu cuidado.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Há Que Partir Para Conseguir Chegar

Se ela visse os pássaros azuis neste olhar trazidos,
A boca aberta onde caem as gotas de água matutinas, 
A respiração ofegante por estes poemas imbuídos,
Este sorriso mantido somente pelas horas libertinas, 

Os seus cachos de cabelo pelos ombros colhidos, 
É diferente, assim de repente, o ver entre as cortinas,
Ela é toda a beleza que me vai agravando os sentidos, 
Ela é fado, destino, e chegada derramada nestas páginas, 

Pois se um dia não for partida e enfim conhecer a morte, 
Terei tido na palma da mão a sua, dar-me-ei por contente, 
O prisioneiro de si então por fim rendido à sua própria sorte, 

Não sou estranho à preocupação, à subtileza do apelo do caixão, 
Contudo ainda há potenciais caminhos para ir em frente, 
Há que colocar em prática o aprendido pelo coração. 

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Primavera dos Sentidos

Numa moldura escrevemos o som de uma canção,
Em papel pintado a esdrúxulas, num doce suspiro,
Entrelaçados, o seu corpo, os meus braços, um coração,
E vem a aurora, ofegantes nos damos em apartado retiro,

Vestígios de perfume por um beijo encantado deixados,
É o labirinto inefável de um silêncio que vai perdurando,
Resplandecente, no olhar brilhante por uma brisa afagados,
Há flores no seu sorriso e por onde formos enfim caminhando,

Encanto, calma e harmonia, para trás vai ficando a preocupação,
É um reflexo de refractado, é equivocado é comboio sem estação,
Anseio a silhueta que é sombra e vulto na noite e sua passagem,

Chegada enfim e finalmente a terna primavera e a sua paisagem,
Nunca esquecerei de que há vislumbres de nós em nossos lugares,
Divagados ao esmo da poesia, debaixo do Sol e dos nossos madrugares.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Aprendizes na Arte do Amor

Circundo a noite de outrora com as luzes apagadas,
Vem a poeira de um tapete persa dentro dos pulmões,
Dentro deles o mar move-se por entre terras onduladas
Onde sou esquecimento sem culpa de mil e um apagões,

Este olhar brilhante repleto de estrelas esvai o firmamento,
Procuro um novo dia sob a forma da mão que traga a eternidade,
Da escuridão estou ofegante, passa-me a voracidade do momento,
E ela assim respira profundamente numa terna e sublime beldade,

E casa não é sinónimo de lar, por isso fantasmas se deitam nesta cama,
Há alívio perante o espaço que não é meu, milhões de pontos reluzentes,
Onde eu já fui adjacente ao instante que se instalava ao lado desta lama,

Insónias e ausência de sonhos não pode ser existência para o trovador,
Porque tenho uma certeza, este Amor é a outros tempos pertencentes,
Consequente esta é a verdade, em cada um de nós existe um amador.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Parece

Parece que levemente a palavra da página foi virada,
Não regressou enfim aquele beijo outrora retornado,
E eu fiquei triste e apeado no meio da cinza estrada,
Sem sítio para ir ou ficar, tão perdido e transtornado,

Parece que lentamente foi o dom da expressão escondido,
Num momento lúgubre detido pela falta de um coração,
Encalhado na nostalgia do passado, a quimera ferida
É sonho sonhado feito de estrelas, feito de oração,

Parece que sou homem realizado somente por metade,
De garganta seca com sede por um tempo sempre vindoiro
Que aparenta não vir e que despoleta toda esta saudade,

Parece que o comboio veio e já foi, e eu nem na estação,
Sem chegada ou partida, neste caixão acabado em oiro,
Eu sou só mais um poeta, esta é a minha bênção e maldição.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Infinita Monção

Preenchidas algibeiras de ossos recheados de nada,
Não voltaremos aquele singelo sítio chamado de lar, 
Sustemos o fôlego por um momento sem chegada,
Dizemos obrigada e regressamos ao não lugar, 

Pois já fomos passageiros do comboio sem vagões, 
Levanto o braço e não sinto entre ele a brisa, 
São as meninas bonitas que escavam os mais belos caixões,
E costuma ser o poeta que se perde aonde pisa,

Precisamos de balanço, ainda estamos longe da distância, 
O quebranto da água a bater no soalho é apelido
Da lágrima estalada, da madrugada e da sua instância,

Próximo do fim, sem ver a eternidade, parte-me o coração,
De dedos cruzados, esqueci das estrelas que havia vestido, 
Somente há funis sem fundo, assim vem a infinita monção. 

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Melancolia Outonal

Estes passeios repletos de folhas caídas em noites contadas,
Devagar inundam as artérias inóspitas, as ruelas sem lugar,
Parecem mais longas do que são, contêm outras passadas,
E sobre a terra húmida sinto-a a descer, quase a solavancar,

É a melancolia própria do Outono, de uma quase não estação,
Entre lábios murmúrios de palavras há muito tempo silentes,
Onde nos perdemos dentre o trilho, perdemos o nosso vagão,
E nos preenchemos em restos de chuva num abraço latente,

Embalo a enxurrada como se ela fosse uma filha, um familiar,
E parece nunca acabar, mesmo quando a pouso neste chão,
A sombra que vem e vai da qual pareço não conseguir escapar,

O espaço que vai daqui ao horizonte, o pulsar deste coração,
Que bate, como não, a dançar e com o aguaceiro a se enrolar
Basta-me ficar, só mais um instante e estarei pronto para o caixão.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Jornada do Homem em Busca de Si Mesmo

Quando vier a tarde e cair a noite, vou-me embora,
Para um sítio solitário para onde vão os perdidos,
Independentemente do momento ou sequer da hora,
Abrirei um sepulcro para sepultar os em batalha feridos,

Quem haverá que me defenda ou, em boa fé, resguarde?
Num doce e gentil gesto de imaculada e delicada brancura,
Quando vier a tarde, quem haverá que no seu peito me guarde
Ou diga por belas palavras o quão foi muito nobre a aventura?

Pois por vezes perco a formosura, a vontade de ir e ser adiante,
O crente perde a crença, o olhar bem focado no seu horizonte,
Mesmo quando esse horizonte não aparenta ser tão distante,

Apesar do medo do escuro quando sol nem sequer é soalheiro,
Procuro a fé, procuro a força para, sem temer, passar a ponte,
Lá no fundo dói, e por dentro me rói, esta busca do homem inteiro!

Tão Longe, Tão Perto: O Lar do Coração

Incessante procuro o sítio a que possa chamar de lar,
E ela pode-me dar a mão, pode-me ensinar a amar,
Supondo que o tempo passa e não volta para trás,
Sabendo que por vezes é difícil passar por horas más,

E tenho saudades de tocar singelamente no seu rosto,
Andarmos de mão dada e no seu ombro sentir o recosto
De uma alma concedida a um amanhã ainda por ter vinda,
Relembro e celebro o seu semblante numa só moção ainda,

Mesmo quando não durmo e os maus pensamentos afloram,
O meu coração bate mais forte a pensar nela, a si se decoram,
Ensinam-me que podemos ser maiores do que o que existe na Vida,

Vejo-a e num frondoso retoque então sei que ela é a minha querida,
Por um sonho beijado que um dia espero que seja enfim realizado,
Trago-te na algibeira do peito, perto de mim e do que tenho sonhado.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Quem Tem Terra

A subtileza da sua voz, uma proporção de encantamento,
Pergunto se haverá porções que poderei levar no caixão,
Enquanto vou retendo a terra da passagem do momento,
Lembro-vos, suponho que o passado tem sido por estação,

E estas mãos têm criado logo tenho sido Deus na terra,
Que vem e me enterra, cada vez mais profundamente,
E cada fragmento que inalo torna paz o que era guerra,
A aceitação do sonho de outrora e vindouro faz o crente,

Entrementes, recordo as asas no limbo entretanto perdidas,
A busca incessante por significado, por sítio, por lugar e lar,
Sentir tantas vezes estas estocadas pelo tempo investidas,

Tantas vezes que por vezes até desconhecia onde ficar,
Por isso passava além do que eram as margens queridas,
Fazendo por esquecer o que era permitir ser ou mesmo amar.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Sonho Matinal

Almejo acordar ao lado daquela esbelta donzela
Que me faz o coração saltitar sempre tão ofegante,
Olhá-la nos olhos, permitir ser osculado só por ela,
E nesse momento em que tudo parece menos distante,

Aguardar as suas pálpebras abrirem para este mundo,
Naquele instante abençoado por dois olhares atentos,
Sacudir de seus lábios o tom do silêncio mais profundo,
Entrar com a luz pelas janelas tal o renascer de rebentos

Que florescem libertos numa somente sua doce cantiga,
Numa melodia soalheira, revelando assim o seu despertar,
As brisas passageiras, o vento refrescante e a manhã amiga,

Escancarar a porta e permitir o som dos encontros reentrar,
Deixar o pássaro azul encantar numa canção que nos bendiga,
Sim, de entre todos estes sonhos tidos posso ainda estar a sonhar.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

A Queda de Uma Folha de Outono

Cai oblíqua, incidente sobre o desnudado pavimento,
E eu, de boca aberta, aproveito para a poder saborear,
É esta propensão para a queda, a intuição do momento
Que permite ser num breve instante no céu, no esvoaçar,

Cai silente, subsiste um ruído nulo e vem num sossego
Que é o pisar sobre folhas outonais num lene murmúrio,
Tão doce e tépida, numa doce enxurrada, num aconchego,
Vai rebatendo na moldura da janela azul que em infortúnio

Relembra-me a passagem do tempo em doce melancolia,
Sobre o berço as suaves boas-vindas que vêm sem demora
Quando nos despedimos sobre a pernoita de mais um dia,

Cai branda, cai ténue retraçando os passos dados outrora,
Vejo-a pelo canto do olhar procurando a sua única magia,
Esperando assim o tique e o taque de uma forasteira hora. 

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Esperança e Ciclo da Vida

Reavivemos a imensidão do homem outrora morto,
Preenchendo o vazio com memórias e esperanças,
Navegando e trazendo a maré enfim a bom porto,
Esperando por boas sinas, bom fado e bonanças,

Trago areia entre os pulsos, entre a palma da mão,
Os segundos que fui, as sombras no que é destinado,
Ao destino, não a chegada, o bater atento do coração,
A vontade de ir além do e pelo horizonte açambarcado,

Há crianças brincando entre a face de um velho enrugado,
Encharcado por momentos, ensoleirado por aceitação,
Tentando ser um homem melhor por cada seu bocado,

Cativando com ênfase num beijo pelo Universo libertado,
Por cada queda da folha, por cada passar de cada estação,
Almejando de que pelo menos cada Amor tenhamos amado.


sexta-feira, 13 de outubro de 2023

A Vida é o Que Acontece Nas Encruzilhadas

Há suspiros a aguardar a sua altura para serem libertados,
Marinheiros naufragados abaixo de cruzes em cruzamentos,
Guiam-me as falésias do coração, esses instantes eclipsados,
Por onde as sirenes são o pelejo escurecendo destes momentos,

Se apanhar as fagulhas nas palmas das mãos, tudo melhora,
Estas avenidas são para os mortos que a mim antecederam,
Ao longo do tempo tenho sido só o passageiro da fugaz hora?
O segundo entre muitos, o sono acordado nos que remeteram

Os seus sonhos ao zénite mais alto, à noite de magia encostado,
Promessas sussurradas, suas mãos nas minhas, por fim em paz,
Paz para este olhar triste, para esta ânsia louca, o ser encurralado,

Por isso albergo as estrelas nestas lágrimas, as gotas dos mares
São pertença, sentença para a passagem das horas que o vento traz,
Vindoiro o para sempre, trocarei esta alma se tu por enquanto ficares.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

A Seta Quebrada

Repleto de estrelas são os horizontes distantes,
Que esta vara se levante, que conte seus contos,
A paixão de outrora, a estocada viril de um antes,
A recta rascunhada entre a certeza de dois pontos,

Esta quietude é aparente, difusa, muda e impotente,
Sem conseguir entrar, o cego por quem vê ladeado,
Ele bem quer, ele bem tenta ir e tenta ir em frente,
Porém não consegue, é velho, é de homem bocado,

Rasgado o silêncio, as noites por dias então passados,
Escrito no grito silente de quem vê a mocidade passar,
A angústia é perscrutada por vários corpos definhados,

Cicatrizes negras e profundas, o eco à serenidade destinada,
Revoltado por uma sina não esperada, a necessidade de arfar
O ar que não entra, não pujante, não libidinoso, a seta quebrada.

sábado, 7 de outubro de 2023

Árvore dos Sonhos

Por onde andei, havia uma árvore sonhada,
Um instante onde sentia por fim a pertença,
Eu era uma criança com a alma lá cravada,
Numa quimera grandiosa, sem cruel sentença,

Dessa árvore caíam folhas na altura do Outono,
Revestindo o soalho a amarelo, as cores de então,
Onde fechava os olhos e entrava num eterno sono,
Permitindo ao momento vir e ser dentro do coração,

Chorava dentre o riso, entre o vento e a rama, perdido,
Suspirando o desabafo enquanto o beijo era libertado,
Quem é que disse que a chuva nos lavaria num dia ido?

Era somente um criança brincando numa infância nostálgica,
Tantas lágrimas e começo a afogar-me nesse tempo amado,
Mesmo que me tenha desviado do caminho, há a eterna mágica!



quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Entre Dois Corações Através do Tempo e da Distância

Nesta praia vejo porções de passos emparelhados,
E a sua mão na minha atravessam o lesto oceano,
Onde se aventuraram alguns marinheiros encalhados,
Por onde fomos adiante perante as ondas e o insano,

Nostalgia do que passou e dos instantes ainda por vir,
Saudade de momentos em que em um nos fundíamos,
Num terno e eterno sonho sonhado a chorar ou sorrir,
Contornados a corações de papel, onde belos urdíamos

Firmamentos repletos de estrelas entre horizontes distantes,
Apesar da distância, trago o seu coração neste coração,
Ondulando de onda em onda em doces beijos mareantes,

Trago-a no espaço que corre atrás do tempo, nestes ventos
Que afastam e unem duas almas solitárias juntas pelo vagão
De uma Vida e seus caminhares e seu inabituais cruzamentos.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Até o Amor Dói

Que abismo abrirá este cárcere para matar esta dor?
Cairei tal estrela cadente entre as nuvens adjacentes,
À sepultura de uma vida, entre os dentes de uma flor,
Até o amor dói para os crentes ou mesmo descrentes,

Preciso de oxigénio e que me ensinem enfim a respirar,
Pois de olhos fechados perco o meu sítio, perco o lugar
Que me mostra o além do horizonte, o doce nascente,
Até o amor eleva o doce crente ou até para o descrente,

Esquecemos os votos, ficando apenas com a nostalgia,
Que é ilusória, que é fictícia, um pé para trás da berma,
Amor, percebe-me, só pretendo aquele pouco de magia,

Não as migalhas que semeias nesta fonte de água sedenta,
Não as côdeas que plantas nesta ria com esta tristeza enferma
Que me prende, que me amarra, que em mim vem e rebenta.


quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Beijo Dado no Pavimento

Estorva-me este beijo dado no pavimento,
Serei substrato sob o solo enfim deixado,
Por cada passagem do instante, do momento,
Parece que por mim jamais fui ainda perdoado,

E apega-se na vista um lenço tecido de poeira,
Vejo menos com cada passado aqui conferido,
E logo se me quedo, recaio, me dá a canseira,
Da estrela cadente através de um céu querido,

Vou escutando uma voz dentro de uma cave fechada,
Questionando se pretendo tudo ou se quero nada,
Eu, a sombra de um vulto, o vulto tornado semblante

À distância de um além do horizonte, o petiz infante
Em que cujo olhar cabia o céu, esquecido à orfandade
De um beijo dado no pavimento numa eterna beldade.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

E Esmorece-me o Chão

Estas antigas feridas tornam-se numa prisão,
Respiro restos de ar de um sítio sem pertença,
Agora que dois se afastam do bater do coração,
Baixo o olhar, esmorece o ânimo, vem a sentença

Onde sou juiz, júri e carrasco de um olhar penante,
Despeço-me da alegria de viver, revolvo as costas,
Bebo da fonte desta sede e esta água é estagnante,
A morte do sonho, o largar da mão, a cair das encostas,

E falta-me corrimão tal é a ausência de um porto de abrigo,
É óbito da quimera, as mentiras adjacentes, a bater no fundo, 
Transformando Éden no Inferno, de amor sou ainda mendigo,

E estou cansado de não dormir, este é um dia moribundo, 
De que me serve sonhar se depois acordo? É este perigo
De amar de que ninguém fala, a dor de acabar em segundo.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Em Busca do Lar Interior

Nos olhos trago o mar, um oceano e um deserto,
A ti, envolvida por lençóis, pela brisa envolvente,
Vou ouvindo o trautear do relógio sempre incerto,
Porém, desta vez, nesse tiquetaque há algo diferente,

Parece bater mais próximo do ventrículo esquerdo,
Permitindo o sonho erguer-se para lá deste horizonte,
E sentindo na sua plenitude e ser na ausência do medo,
O deixar de ter sede da própria sede, enfim beber da fonte!

Para trás um Inverno longo por gerações e épocas contado,
Entre lembranças difundidas por um eco entretanto disperso,
Esta é a ilusão de um tempo retornado finalmente em passado,

Essas sombras dançando nas paredes serão vultos na madrugada,
Alcançando o zénite, as roupas usadas deixam de servir, e eu absterso,
Procuro o sítio para chamar de Lar, deixar por fim de ser servente da estrada.

Reflexões Efémeras e Transcendentes

O silêncio destas palavras traz-me serenidade,
É efémero pensar que para sempre aqui estarei,
Será que deixarei aqui uma marca na eternidade,
Algum vestígio regular daquilo que fui ou serei?

A luminosidade que ao peito é brisa então trazida,
É um subtil beijo na aurora, sussurro na alvorada,
Lamparina entre a escuridão crepuscular aduzida,
Por vezes, sou os ecos entoados através da estrada,

Aconchegado no sonho, há ternura e esta encantação,
O céu fica mais estrelado, é a serenata aos sentidos,
E neste espelho vejo finalmente esta minha reflexão,

Esta é a altura para nos erguermos da silente sepultura,
Tomarmos novamente as rédeas destes fados enaltecidos,
Despertar a claridade para além do horizonte e sua envoltura!

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Resgatado

Resgatado, fui prisioneiro da adversa pluviosidade,
Refém maldito acorrentado entre quatro paredes,
Retratado por pincéis cinzentos, sem idoneidade,
Entre labirintos internos, capturado por mil redes,

Resgatado, outrora sem visão, o fumo era nos pulmões,
E as asas eram iguais às de Ícaro, nunca iria muito longe,
Almofadado por pensamentos negros, sem ter travões,
Onde as sombras eram lar, mas o hábito não faz o monge,

Resgatado, a madrugada aproxima-se e toda a sua maravilha,
Vou trilhando entre as bermas, vem-se o sorriso ao rosto,
Tenho sonhado, pois tenho dormido, tenho sido em partilha,

E eu, resgatado, frágil e delicado, deixando o medo para trás,
Finalmente preparado para Viver, penso que paguei o imposto
Do anteriormente devido, está na hora de postergar as horas más.

Renovação Almofadada

Abrindo as asas procuro finalmente por redenção,
As fracções de esperança que o mundo tem morto
Não foram o suficiente para desanimar o coração
Ou permitir as velas deste barco o levar a bom porto,

E pelos Outros, pela noite adentro, já não sou perseguido,
Disse adeus às preocupações, aos tumultos da alma,
Outrora era pela ausência de sono então inquirido,
Não encontrando descanso ou sequer em mim calma,

O sol raia lá fora, a chuva aparenta ter por fim acabado,
E eu, apesar de impaciente, sinto de novo este sorriso,
Os fantasmas vão escasseando, pois, o passado é passado,

Para todos os efeitos, clareia-se o dia, regressa a madrugada,
Enfim deciframos o essencial daquilo de que não é preciso,
Este é a minha crença e fé pela altura do precipício almofadada.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Renascimento nas Estações

Renuncio à obscuridade da noite, venha a aurora,
Esperei toda uma vida por este vindouro instante,
Regresso ao paraíso, lugar ao qual pertenci outrora,
Hoje percorro buscando o Inteiro, o factual inobstante

Dos caminhos já percorridos, dos beijos então concedidos,
Procuro pertença, não a vil sentença dada pelo soar do vento,
E eu, entre mil paredes labirínticas de desejos então atendidos,
Digo-vos, esta Vida tem sido num piscar de olhos, num momento,

Estas pegadas, silentes perante a perfídia de um tortuoso caminho,
Agora firmes e obstinadas, segurando o coração na palma da mão,
Revinda a Vida, acompanhado por anjos, não mais aqui sozinho,

Porém ainda tenho tanto a aprender e tanto pelo que pedir perdão,
Portanto, entre o sim e o não, sorriso no rosto, doce amorzinho,
Aqui farei o meu templo a Afrodite, erguido de estação a estação.

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Reflexões de um Caminhante Solitário

Estes passos antecedem os tempos doutrora,
Ouço-os levemente pelos corredores entoados,
Esculpidos algures entre o crepúsculo e a aurora,
Doces pedaços vigilantes de facto de outros bocados,

Pássaros fugidios distintos somente pela sua coloração,
E eu encostado à berma da estrada, com mãos de velho,
E um corpo enxovalhado, batendo apenas parte do coração,
Esquecido pelos demais, de olhar baixo, sem reflexo no espelho,

Num breve silêncio, olhando para o interior da alma, envolvente,
Onde pontos abstractos lideram o caminho e eu quase sozinho
Quase vejo a origem deste caminhar, o olhar de uma nascente,

À passagem, à quase intenção de falar onde palavras eram perdidas,
Então sussurrava, indistinto, diferente do habitual, lá ia o rapazinho,
Feito velho por dentro, procurando por si onde sentenças eram urdidas.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Rendição ao Amor: Passado Dissipado, Presente Abraçado

Enfim sorrio perante uma silhueta quase erguida à perfeição
Pois encontrei finalmente o amor, à sua beleza sou rendido,
E estas brumas dissipam-se, é possível por fim dar a mão,
Sob estas passagens concretas, não mais estou rescindido,

Sim, somente por agora, libertarmo-nos deste fardo antigo,
O passado não significa futuro, deixemos a desesperança,
É preciso desamarrar as suas algemas, deixar esse castigo
Que nos enforca, que nos fustiga, que ladrilha a insegurança,

Por um pouco de tempo respirar bem fundo e permitir o ser,
Secretamente este instante é tudo alguma vez pretendido,
E esta passagem, barra, aragem, tudo o que anseio aqui ver,

Serei uno com o presente, a sorrir no sonho entretanto sonhado,
És assim a quimera, a seta de Cupido em mim e no céu difundido,
Com as constelações, galáxias e supernovas estou aqui alinhado.

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Reflexões do Isolamento Interior

A mente inquisitiva reconhece a fraternidade do frio,
O seu rio congela no declive da alma de si esquecida,
Qualquer sinal de sanidade dá espaço a um infindo vazio,
Sou eu então o tamanho para a pendência e a sua medida,

A ideia cabisbaixa, o sorriso lúgubre de um soturno toque,
Os pingentes de gelo que permitem a este caixão estar fechado,
Não são mais do que novas maneiras de ter uma visão e enfoque,
Pois dos passos retraçados, perseguimos um fantasma requebrado,

E eu, agoniado, partido sem ter chegado, será que algum dia chegarei?
Sorrio cansado, de lágrima no canto do olho, sendo o eterno fora da lei,
Até quando irei sem regressar, caindo em minhas próprias passadas,

Com este olhar penitente, fora da cabeça, contra estas cabeçadas,
E se eu eventualmente começar a chorar, deixem-me ir, deixem-me passar
Pois por vezes não encontro sítio, por vezes não encontro o meu próprio lugar.

Uma Jornada do Humano ao Divino

Se olhares bem, bem fundo nos meus olhos,
Consegues ver estrelas, abóbodas aos molhos,
Reflexos de constelações e partes do firmamento,
Píncaros do altivo, do esplendor do divino fragmento,

E este sentimento, finalmente o Humano ultrapassado,
Faz-me sentir como um Deus com o coração retocado,
Com razão e emoção lado a lado, o eterno pretexto,
Marquem, pois, a suor, lágrimas e sangue este texto,

Percorri o caminho, prisioneiro dos próprios passos,
Acorrentado ao passado, aguardo enfim a libertação,
Esquecer este peso no peito e aqueles tristes percalços,

Permitir vir o sono e o sonho com a Vida esperançada,
Sorriso no seu sorriso, conceder-lhe por fim esta mão,
E que um dia provenha a Terra, tão imensa e ansiada.