sexta-feira, 30 de agosto de 2019

O Coração é a Única Melodia Para O Caminho

Sustenta o fôlego, vêm as folgas entre o pavimento
São aprendizagem feita pelo instante, o momento
É aqui, não o deixes passar, só assim existe amor
E com partilhado pincel e tela pintamos com vera cor,

O suspiro de uma criança pode ser a infinita dança,
A única forma de manter a inocente esperança,
Por isso beijo o chão após por fim nele aterrar,
A distância entre todos nós assim há-de encurtar,

Pois esta serenata é perfeita, tal beijo dado na testa
Da criança que lá fora brinca insciente ao mundo,
Sou ela em milhares de vozes que o tempo empresta,

Entretanto alfim percebo, sou o encontro e a perdição,
Ouço-vos melhor do que vós vos ouvis a vós no fundo,
Porém sou só um instante: aquele que pulsa no coração.

(Trago-o na mão)

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Ainda Há Lua Sobre o Orvalho

Jazz nos bares da sub-cave, a lua flutua sobre o orvalho,
E eu bebi demasiado, gastei demasiado, de novo pobre,
Amor... por onde andas esta noite, qual é o espantalho
Que amedronta quando penso quem agora te encobre?

Por trilhos parecidos na memória imagens por ti assinadas,
O toque sob o cerúleo suplementado por vistas inocentes,
Hoje escondidas no meu bolso e pelo tempo esfarrapadas,
Na margem do rio as luzes do talude tal jóias em correntes,

Pergunto-me por onde caminharás e quem contigo irá de mão dada?
Colocou-te uma coroa de luzes no coração e te faz sentir amada?
Pois na algibeira não tenho moedas, e o dia começa enfim a clarear,

Eu espero que ele faça tudo pela tua felicidade e te saiba abraçar,
Pois eu bebi demasiado, gastei demasiado e dói-me o coração
Por um momento perdido no tempo, pois que a lua oiça esta oração...

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Sonhos de Algodão em Sapatos de Chumbo

São sonhos de algodão trazidos nesta algibeira,
Arrombando a alma do pecador que os vê partir,
Enlevando-me mesmo quando perto da ribanceira,
É o veludo e o cetim que revestem este pesado sentir,

Mãos de papel e papel de dedos, este é o recanto,
Assim iluminam o espírito, pulsa forte a viagem,
Olhos cor do mar, tantas flores traz no seu canto,
Mar adentro, bem rápido, o resto é nutrir a miragem

De só sono sem despertar, tocado por esta voz,
Sentindo o sol queimando este peito, insano!
E eu juro que quando não sou eu só quero ser nós,

Por isso grito sob a água, prometo de dedos cruzados,
E vem um velho tomando meu lugar ano após ano,
Sendo que só pretendemos por um sítio ser abraçados.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

A Vida é Percurso e Dimensão

Por onde não passa viva alma, eu vou sim derramado,
Pela curva sôfrega da estrada, olhando para o querido,
As vozes de ontem subsistem e rumo ao então procurado,
Sou um pouco mais inteiro, mesmo quando subtraído,

São as quatro estações aprendidas somente num dia,
A tentativa de ver cor onde só monocromático existe,
Pois assim chega a maior tempestade e a sua acalmia
Torna-se revestimento para este sonho feliz ou triste,

Amigo, nada mais existe para lá do retido no real,
E o concreto exige foco por ser demasiado banal,
Portanto retorno quimeras onde apenas vejo nevoeiro

E vos sussurro ao ouvido: "a vida não é um cinzeiro",
É sim atenção ao percurso e às curvas da estrada,
Amigo, a vida é só a dimensão entre o tudo e o nada.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Através da Noite

Através da noite, encontrei a lua e a sonolência,
Para além do beijo perdido, o eu suprimido, aqui,
Eternidade num momento, o oposto da ausência,
Acordado e despertado, para além do ponto em si,

Que não chore quem hoje ainda corre pelo nocturno,
É absurdo correr quando a andar se chega lá também,
Quando regressarmos e nas mesmas ruas correr o diurno
Talvez do Sol, talvez da lua, desde que venha tudo a bem,

Ninguém quer estar sozinho, mas eu quero estar sozinho
E correr descalço por campos abertos, por verde pintados,
Mesmo que nos pés haja pedaços de vidros, este é o trilho,

Como é que rejuvenesço este jardim que destruí aos poucos?
Como é que regresso ao ponto de onde me parti aos bocados?
Este espaço é tempo de ir, tempo dos poetas, viandantes, loucos!

sábado, 27 de julho de 2019

Escuta, Daqui Deuses Erguem-se!

Seguindo o segundo e por ele no instante abdicado,
Sou o homem presente por ele próprio deixado,
E nesse bocado, há vida, há moção, há energia
Para revisitar o nunca visitado, como a mim queria

Permitir-me ser no infinitesimal, no trono emoldurado,
A eterna criação, desde o berço ao já sepultado,
Na mente que é sorriso e beijo para o infinito
E propaga a voz de Deus num silencioso grito,

Há espaço, há momentum e suspiro resoluto,
Ao homem que é seu, a cerúlea herança divina,
E a quem a si se esqueceu de procurar o meu luto,

Pois procuro de mão aberta, de coração cheio de amor,
Acredito que o sol pode espreitar a cada esquina
E que o mundo só é monocromático para quem não quer ver cor.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Sozinho, Irremediavelmente Sozinho, Convéns Todo o Universo

Sozinho, tão sós e irremediavelmente sozinhos,⁠
Nostalgia por quem não vem, a cama é o vazio⁠
Do coração que já não sabe quem foi nos caminhos⁠
E que pretende encontrar poiso, deixar de ser vadio,⁠

Somos apenas estranhos face a face desencontrados,⁠
A miragem para a afeição, mercê para os desvalidos,⁠
O rei sem trono é o sepulcro para os outrora coroados,⁠
Gritos silentes, rompidos e ténues sob beijos indeferidos,⁠

Contudo sei que há espaço para excelência, para o amor,⁠
Pois sou espera e procura, a corrida desenfreada no escuro,⁠
Cantando tal escravo fugido, insano varrido, tal resto de cor,⁠

Errante é a crença na berma da estrada, o resto é pouco ou nada,⁠
E me separa do horizonte, da eterna ponte, o inultrapassável muro,⁠
Por isso acredito no acontecer e no infindável Universo nesta alçada. ⁠

(Eu acredito que um dia voltará a Alvorada).

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A Herança É Viver Nos Ombros de Gigantes

Sim, havia gigantes donde se ergueram as estrelas,
Colossos alcançando a abóbada retida no celeste,
Submergidos pelo firmamento em mil aguarelas
Mesclando-se no que o semblante ainda reveste,

Eu, insciente ao vestido cerúleo de tronos abdicava,
Olvidando a herança de uma coroa então soalheira,
Eu era essa criança, eu nesse voo enfim embarcava
Rumo à imaginação em tom sério mas de brincadeira,

Fugindo até me tornar perdido e então esquecer
Que escalávamos montanhas de uma assentada
Pois trazíamos ao peito o que conseguimos reter

E esse peito era trago para este tudo, esta estrada,
Dependendo da perspectiva e da inclinação do Ver
Enquanto nos erguíamos rumo ao beijo da alvorada.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Para Quem Tem Sede de Infinito

Milhões de centelhas de luz pelo olhar reivindicadas,
Somos os filhos do Sol procurando por onde alcançar
O voo que prolifere alado por estas asas alvoraçadas
Que sabem e tudo pretendem menos o deixar de voar,

E remetemos cartas para o cerúleo tal amantes lunares,
Com o peito preenchido de segundos e a sua bela canção
Que vai ecoando eternamente através de sonhos díspares
Assim pavimentando o trilho para o horizonte deste coração,

E talvez venha o ruído um dia ou talvez o silêncio nos afague,
Não obstante do brilho recambiado, nada disto nos pertence,
Portanto que esse brilho para o Universo volte e se propague

Pois somente é poeta quem por aqui caminha e por aqui sente,
Percebendo o sentido que para o transeunte sacie ou embriague
Porque alguns de nós temos sede de infinito e esse trilho é em frente.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Insatisfeito

Preenchido por campos de centeio e mariposas,
Lançando longamente os braços e pulsos ao Sol,
Unem-se os astros tal amantes, noivas e esposas
Se isto for outra armadilha, cairei nesse belo anzol...

Pois chamam-se vozes partidas há muito, esquecido,
Por quem me quer bem, por quem não olha para trás,
Escasseia o beijo na curva sôfrega do lábio humedecido
Por onde passam os passageiros destas horas vis e más,

A ampulheta tornada compasso dirige o passo da concertina,
A Vida desponta para além do monte retido no final do peito,
E eu, contrafeito, viro quase borboleta ao encerrar da cortina

Pois o que de facto almejo é mais do que me podem oferecer,
Por isso procuro e busco, insano, incontrolado e insatisfeito,
Nada material, nada banal, só o simples, o simples acontecer.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

A Quem Não Larga O Ontem

Entoo o som do mar nesta voz suspirada,
Nos olhos o azul de cada onda vindoura,
Os pulmões preenchidos de água salgada,
Trarei nos cabelos o brilho que o sol doura,

Mergulhando no oceano de sorriso aberto,
Lembro como o mundo vai sendo passado
Entre mãos de uma criança o trilho é incerto,
Importa é que vá passando um bom bocado,

Por isso mergulho mais do que consigo respirar,
Por isso caminho como se não soubesse parar,
E por cada ilha cativa de mim vou trazendo flores

Que me conciliam e separam de mil e um amores,
O vindouro é simplesmente o que ainda está para vir,
Deste passado não somos reféns, saibamos quando partir.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Soneto Para O Homem Que Vai

É a subtileza de um toque na pele da sua amada,
É Deus nos detalhes a sorrir em eterna centelha,
É resfolego, suspiro e murmúrio perante a estrada
Que enfim ao final do dia o viandante assim espelha,

Por vezes sentimos a falta do lar, do prometido abrigo,
Porém sabemos que enquanto esse mesmo não chegar
Que de nós próprios devemos sempre ser o melhor amigo
E que o fim da pista só é real quando o fim da estrada voltar,

Despontam os sóis vindouros em quem intencionalmente vai,
Procurando por um lugar à luz solar longe do poço onde se cai,
Eu? Eu somente pretendo um beijo, por um instante eternizado,

Ofereço a alma a quem dela precisa, por um fragmento, um bocado,
De resto venham os quilómetros e as léguas, eu serei toda a distância
Para por ter e conter em mim esse momento eterno e sua abundância.

sábado, 6 de julho de 2019

Ode a Quem Caminha Fora do Rebanho

Esta é uma Ode a quem caminha fora do rebanho,
A quem evita a vida entre as nove e dezasseis,
A quem não se mede pela altura, pelo tamanho,
A quem caminha entre o povo, aos magos, aos reis,

Prometo fazer uma vénia a quem for passageiro
Deste instante cativo, a quem é poeira estelar,
Ao homem que apesar de ainda não ser será inteiro
Pois de si não se cansou pois ainda se vai buscar,

Pois almeja após as migalhas que são a normalidade,
Que o sonho consegue recriar nesta realidade,
Que beija sem exigência sementando a partilha,

Que sabe que o instante passa e deixa armadilha,
Que é rugas no rosto e artérias vincadas no coração
Porém isso é o suficiente para ir, voltar e conter na mão.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Ode a Quem Vai

Esta é uma Ode ao transeunte e ao seu destino,
 Ao vagabundo que segue o seu rumo por fim,
Que entre voos é o prisioneiro e o clandestino
Que vai por onde não se vê, que é em mim,

Há naufrágios e aleijados de braço ao peito,
Assim dita a bruma da tempestade do porão,
Pois quando vão dão o próprio ir por desfeito
E assim ficam, não preenchendo o seu coração,

De súbito, acostumo-me à solidão deste olhar
Porque pincela o mundo, até reaprendo a amar,
Mesmo que apenas vá parecendo o escuro do dia

Por onde um dia foi passagem houve vera magia,
Não se esqueçam que a morte espreita à esquina,
Portanto cada passo é vida e a Vida quer-se libertina!

terça-feira, 2 de julho de 2019

Um Brinde Aos Perdidos

É o trilho e o passo, tenho sede, sede de infinito,
É o pincel e o traço, abreviado e quase emudecido,
Vou segurando um bouquê de flores neste uno grito,
Que em sua ausência não alcança o horizonte preterido,

Por isso engulo as ruelas enegrecidas pela noite calada,
Em cada desfilada, sou um pouco menos do que outrora,
É a única maneira de ser um pouco igual no beijo da estrada,
E assim enfim me ver ao espelho tentando reflectir a aurora,

Há máscaras atrás de máscaras nesta verdade inaudita,
Por isso só a ouve bem quem em si vai e em mim grita,
Porém parece que somos filhos de deuses tão menores,

Trazendo as maleitas dos condenados nestes clamores,
Não obstante da magia que trouxemos sem exigência
Por todas as vezes em que nos perdemos em ausência.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Eu Por Mim

Refolgando e respirando de novo e finalmente,
Defronte o sobrevoo de quem em si é perdão,
A revelação é inteira e acontece no presente
E é suficiente para preencher o resto do coração,

Repreendo os mortos-vivos, desatentos à alegria
Que é Vida para quem se espera um dia encontrar,
Para os transeuntes essa é a fonte de toda a magia,
É revinda a infância, beijo no céu, o enfim acreditar,

Hoje erguer-nos-emos tal fénix pulsando nas veias,
Com a mão de Deus e a voz do trovador relembrado,
Por cada pestanejar, por cada passo nossas epopeias,

Não obstante do que já foi outrora e agora já é passado,
Eu por mim dividido, entre o ontem e o amanhã a meias
- Beijei-as! Não mais me verão, por mim fui reivindicado!

quinta-feira, 20 de junho de 2019

E Os Outros Chamam

No olhar a tempestade ainda vindoura,
Trazendo nos passos o raio e o trovão,
Cobrindo a cara do sol, a luz que doura
É parceria com o rasgo do beijo no coração,

O que jaz na noite por fim é assim revelado,
O menino dormirá no regaço do presente,
Abraçando o seu escuro, aqui sangue estancado
Ele será o velho um dia partido, o ser  ausente,

Retraçando os passos que aqui foram guarida,
Serei respiração em celofane, velório esquecido,
Este rosto poeira estelar, a asfixia querida,

Pintado por dedos de crianças, o destino merecido,
Vêm os Outros, os cadáveres da estrada escolhida
E eu apenas intervalo entre o silêncio e ruído.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

O Regresso do Verão

O verão acenado volta a transbordar em mim,
Vai-se o dia e fica a alegria de ser no mundo,
É neste breve espaço entre o princípio e o fim
Que há tempo para ser em terno beijo profundo,

Apelado pela noite e as suas ruelas sem regresso,
A inflexão é a poesia e a prosa inaudita pelo poeta,
Nas pontas do dedos e num livro eterno impresso
Todos aqueles momentos idos pela hora incerta,

Fecho os olhos e vem o Sonho tido em perfeição,
Preenchendo a tela de cores, de amor o coração,
É o sorriso do trovador, deixando em si um rasto

De luz para quem o seguir pelo horizonte vasto,
Há quem procure a resposta onde não aconteceu,
A esses sempre direi: "Ir é ir em frente de eu em eu".

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Idolatrando O Lugar Entre o Principio e o Fim

Praticamente cercado, livre entre quatro paredes,
Em algum lugar entre o principio e o fim, a beleza,
Ainda há tempo e espaço para estas mil e uma sedes
Porém há quem idolatre a morte, a bruma, a tristeza,

Cantemos com voz de quem está presente no momento,
Pois um dia quando partirmos poderá não haver chegar,
É neste solfejo que por vezes se atende o indeferimento
E que há quem idolatre os mortos e seus epitáfios, o azar,

Nós aprumados no sonho com o nascer de um simples beijo,
É melodia para os ouvidos, tacto para o coração, o desejo,
Afasta a melancolia da escuridão, o rarear da humanidade,

Pois então que consigamos encarar a luz, enfrentar a verdade
E que a partir do primeiro dia saibamos que foi um bom dia
E quando partirmos que o seja também nesta vida fugidia.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

A Morte, Companheira

Sentado de uma lápide enquanto passa uma criança,
O berço foi abandonado para o trilho e o regresso,
Para além da vida um cemitério sem saída ou fiança
Que confira sentido a esta passagem, ao ingresso,

Por onde somos filhos sem pais, órfãos à nascença,
Assim por cada pluma largada vejo pássaros sem asas
Que se lançam no precipício sem donos ou pertença,
Tal mártires ou párias indesejados, paredes sem casas,

É o tiquetaque da ampulheta que é compasso para a Vida,
O segundo passageiro, o eterno bueiro de uma viagem...
Que passa, entardecendo tal murmúrio pela noite lida,

É a arte cipreste, o saber passar e o que é a única miragem
O pensar reter sem o conseguir ser, que seja precavida
Esta vontade, esta saudade sobre a negra paisagem.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Somos Os Eternos Amadores

Sentado observando a cascata do fim do mundo,
Lembro-me de tempos que hoje são o passado,
São essas memórias e um sentimento profundo
Que me beijam o rosto me dando por afortunado,

Falta pouco para esta vida culminar e enfim entardecer,
Chegamos a meio percurso vendo a linha do horizonte,
É caso para lembrar das vezes em que não foi possível ver
E para verificar que de muitas situações somos insonte,

Enxugamos a roupa após termos vindo desta enxurrada,
E quanto a nós? Somos ainda os poetas e trovadores,
Assim confessando os ais de uma vida outrora passada

Não obstante do que pinta a aragem ou nossas dores
Para o salva-vidas de  uma viela entretanto abandonada
Por cada instante e para sempre somos os eternos amadores.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Abre A Janela Quando Se Fecha A Porta

De uma janela fechada vem a porta aberta,
Um gesto para a abrir, um gesto para a fechar,
Acredito na mudança, na hora sempre incerta
Pois é nessa hora mutável que devo procurar

Deus nos detalhes, na beleza dos fragmentos,
A porta sem fechadura com chave para a abrir,
Sou metade por tocar, por diagonais segmentos,
Os quais a todos irei um dia ou outrora vestir,

Ouvi! Este é o beijo que cobre toda a paisagem,
A brisa fresca que enleva o rosto e a aragem,
De olhos deslumbrados hei-de em mim conter

Cedo ou tarde no peito essa imensidão enfim ser
Pois esta é uma tão delicada e esbelta contradança,
Pois relembra o que será que a vida não alcança.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Ao Que Em Mim Foi Passageiro

Trago nas mãos o que em mim foi passageiro,
A beleza e a melancolia do momento tocado,
Até ao rosto do horizonte serei eu o primeiro
Ou apenas outro forasteiro nunca chegado?

Por onde passo deixo um trilho de segundos,
Eu sou quem por eles um dia foi passando,
Perdido no ruído do caminho e seus mundos
Tanto correndo impaciente como esperando,

O meu coração trago em baú de tesouro,
Para quem o encontrar num dia d'ouro,
Partilhei tudo o que me pareceu bem partilhar,

Assim como beijei quem me pareceu bem beijar,
Agora que o passo anterior já se torna passado,
Espero por cá ter sido, ter existido, ter estado.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Na Vista de Uma Criança (Antes de Ela Partir)

Deitado no colo da primavera tal criança,
Pela encosta a Vista de um longo prado,
É o instante que vem e que com ela dança
Embebido pela Lua, atento e deslumbrado,

Assim encontro galáxias e suas constelações,
No céu tudo é verdadeiro gritam as estrelas,
E eu, sou trovador e explorador das estações
Apenas pretendendo ser irmão de todas elas,

Serei com a criança revestido por momentos
Onde o olhar é encoberto pela abóbada celeste,
Alcançando o toque a milhares de firmamentos

Em inocência, um dia dando ao velho este lugar,
Que vá enlevada, encantada e a sorrir ao cipreste,
Que nós saibamos partir pois nunca lá iremos voltar.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

A Recompensa Para Quem É Ao Segundo

Pretendendo ser tudo vou aqui sendo ninguém,
Observando-me indo entre esta rua e a vereda,
Ao mero transeunte não deixo o meu desdém
Pois todos merecemos luz, a divina labareda,

Então aconchegado na Lua e o seu eterno embalar,
A aprendizagem de quem há pouco tempo chegou,
Esta necessidade de ir além, de ser e de esvoaçar
Que separa o que ainda há-de vir do que já passou,

Encosto-me ao ombro de quem é passageiro silencioso,
Esta voz só ouvirá quem aproveitar o segundo precioso,
A fonte e o manancial da criação, do sonho e da poesia

São parte de ninguém, são beijo para o trovador, a magia
Que trago dentro da passagem das horas não é pertença
É bênção Universal, compasso para o horizonte: a recompensa.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Olhando Para Trás

É a delicadeza ténue de um rosto tocado,
Frágil, sentado numa cadeira abandonada,
Vestindo as roupas de ontem e arrebatado
Vendo os sinais indicadores, a seta quebrada,

Então relembro, sem moção, outros instantes
Em que era quase poeta, trovador e até Orfeu,
Sim, passam rápido esses tempos ora distantes,
Como passam esses segundos através deste eu,

E Amor éramos nós de mãos dadas ao caminho,
O refúgio para a tempestade, para o eu sozinho,
Nem de olhos fechados me daria como perdido,

Nem o clamor de mil vozes removeria o proferido
Pois mesmo vindo o fim do mundo e a sua teia,
Teria no fundo do coração ainda a mesma ideia.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

O Sonho Por Trás Das Pestanas

Sim, há o sonho encerrado por trás das pestanas,
Beijo oblongo à passeata de uma Vida almejada,
O sorriso rasgado de uma qualquer hora insana,
Assim se erguem os deuses na sinuosidade da estrada,

Dormitando num fulgor de uma esquecida alvorada,
Vem o brilho da aurora, cúmplice deste único plano,
O conseguir abrangir o horizonte numa assentada
E alui-lo num mergulho vertical, tornar-me o oceano,

O imaginar é gota d'água caindo em miríade eterna,
Salva-vidas ou naufrágio para quem não sabe nadar,
Na escuridão o compasso é o fulgor da vossa lanterna,

Procurando o sono, fecho os olhos numa dança delicada,
De coração aberto, eventualmente saberei o que é sonhar
Pois este é o único momento para voar e a ter como amada.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Um Dia Será Hoje

Aqui espero a Vida, aproveitando o momento,
Pois cada dia é hoje, pretendo ser para ele tela,
No corpo tatuado a passagem, o acontecimento,
Porque fora os instantes de bruma, a Vida é bela,

Por isso dou a mão a quem por mim vai passando,
O sorriso assim é, mesmo quando a lágrima é vertida,
Um dia será hoje, amigos é preciso cada hoje ir amando,
É preciso ir e beijar esta passagem assim fazendo-a sentida,

Pois sim, sabemos que o tempo passa e as rugas se afloram,
Que então um dia a olhar para trás as mortes enfim morram,
Não nascemos para ser fantasmas de quem não soube passar,

Porque somos o Universo em beijo dourado, somos poeira estelar,
Não importa o buraco negro intermitente, a quebra do coração,
A pretensa é amar cada passo conferido de estação a estação.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

O Caminho Para a Minha Distância

Sim, este é o caminho para a minha distância,
O suspiro do instante que ainda não chegou,
Nessa forma encontro conteúdo, substância,
Para o segundo que em mim ainda não morou,

Pois se caminho sombra há em mim do passado,
Há mares e mares entre mim e a margem querida,
Se regresso vai-se o beijo que tenho partilhado,
Em abrigo ou naufrágio, na hipótese concedida,

Essa arte do desencontro que trago neste olhar,
Parte da terra que pisada, de mil e um regaços,
Se um dia escorregar e o trilho alfim for e passar,

Que entre mim e o horizonte haja poucos espaços,
Pois há tanto caminho e a distância para caminhar
Que por vezes parece não haver suficientes passos.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

O Poema da Solidão

O ermita sozinho rumando errante ante o trilho,
É a solidão sua amante, o presente sua ausência,
Da noite feita e caída ele é então o beijo e o filho
Para quem passa por ele, aí a sua eterna carência,

Escorre sim chuva sobre o seu rosto, isto posto,
É ele perdido após o que foi e o antes de o ser,
Apartado retiro, o escape para o inicio de Agosto,
É importante o passar para além da neblina e ver

Que no momento lúgubre há beleza, há imensidão,
Sem meandros, a clareira para quem pretende Vida,
Para quem se cansou de andar sem qualquer noção,

Para quem almeja ir e alcançar a margem querida,
Aos transeuntes passageiros mostro-vos esta solidão,
Perfilando ao que determinado instante a mim convida.