Blog de um músico e poeta português onde este vai escrevendo e reunindo escritos poéticos.Tal como as músicas são compostos de forma única a partir do mais sublime reflexo, em retoque, do seu sentimento e poesia. Alguns poemas já pertencentes a livros, outros ainda "frescos" e originais no website...
sábado, 14 de maio de 2016
Entre o Sonho e a Madrugada
A maré trazendo ondas de vagar revolto,
Espera-se, imóvel, pela própria chegada
E de um beijo de um dia outrora envolto,
A noite traz sonhos feitos de desprazer
E a fatiga de um instante transiente
Vejo-me perguntando o que fazer
Para ser um pouco mais paciente,
Eis-me debruçado sobre o céu estelar,
A mais bela noite passando sozinha
Esperando que ela nunca vá acabar
E venha comigo onde não há morrinha,
Me relembrando enfim o que é amar
No lugar que o sol e a luz sublinha.
Ladeado Por Semblantes
Coloco a mão na algibeira e tiro um lenço
Para limpar a lembrança de outro momento
E o sentir de um amor mais que imenso,
Algures encontrado numa casa perdida,
Iria ela em meu encontro pela metade?
Cansa-me o adeus, cansa-me a despedida,
Acreditai em mim, digo apenas a verdade,
Nesta vida só procuro um pouco de sossego
E que este seja mais do que um instante,
Preciso de abraços, preciso de aconchego
E daquele beijo que leva apenas adiante,
Sei que é difícil praticar a lei do desapego
Porém sei que algures há o horizonte distante.
A Algibeira Vazia
Tem espaço para outro homem,
Perde-se o sul, perde-se o norte,
E os sentidos em si enfim somem,
Vendo subtis reflexos à flor da água
Será a vida a sombra da servidão?
Espero que não, isso traz mágoa
E remove as asas deste coração.
Que vida esta de ombros curvados,
Silêncio impregne é o meu nome,
De joelhos rotos e sonhos adiados
Será feita de quê esta vida, esta fome?
Um outro tom de cinzento bastardos
Que todos viola e que a todos carcome...
quarta-feira, 11 de maio de 2016
Amor...
Amor… vai e deixa a porta bem aberta
Quando partires deixando-me sozinho,
A luz da vela agita-se tão e tão incerta
E pouca claridade traz a este escaninho,
Amor… vem e deixa a porta bem fechada,
Quando voltares e me trouxeres alegria,
Então passarás entre a bruma cerrada
E eu saberei de novo o que é magia,
Amor… vem e toca-me... Traz-me paz,
Preciso do teu toque e desse enlace,
O resto então que vá pelas horas más,
O tempo que vá e o mundo que passe
Pois serás tu o que a alvorada trás
Espelhada no sorriso da minha face.
A Sombra Obscurecida
Por vales fundos e altas montanhas
Terá tropeçado em seu próprio anzol,
Olvidando assim suas próprias façanhas,
Ia por entre trilhos ladeados pela lua,
Mesmo dentro de si luz não encontrava,
Faltava-lhe a alegria que antes era sua,
Sozinha e solitária em torpor profundo,
Poucos sabiam de si, ela não tinha amor
Era a sombra, sombra em seu redor,
Tudo bem negro até ao seu fundo.
Hão-de Haver
Espraiadas em paredes feitas de algodão,
E por esses recantos haverá enfim beleza
Como almejo tocar-lhes com esta mão,
Desenfreado bate no peito o coração,
Ignorante quanto para onde pode ir
Mas aberto como asas de um gavião,
Como o consigo plenamente sentir,
Aquele pescoço e peito é minha perdição,
Lugar onde alegremente faria guarida,
Ouçam pois este pedido, esta canção,
Há instantes em que ela não é ouvida,
Porém em seu olhar tenho a razão
Para continuar a viver nesta vida.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Prisioneiro Arrastado
Coberto por cinza de uma ida alvorada
Que ouçam os demónios este lamento,
Suplico apenas por um pouco de estrada,
Por onde vou o dia é noite bem escura,
Eu inconsciente perante o seu perigo
Sei pouco pois nem nenhuma luz dura,
Será que em mim encontro o inimigo?
Percorrendo a noite e vejo-a sem fim,
Quando um beijo de amor verdadeiro,
Será que esse só o encontrarei em mim
Pois sabei que em mim sou forasteiro,
Com todos os sonhos sei que assim
Até quando durará este aguaceiro?
quinta-feira, 5 de maio de 2016
Suspiro sua Ausência
Entremeado entre margens e cantos
De quando é que ir se torna solução,
Fico à mercê da queda nos recantos,
Nos botecos, nos alguidares perdidos
Entre as vielas da perdição dos fracos,
Vou por onde a lua se dá aos desvalidos
De passo a passo, buracos e buracos,
Chega o sono de toda uma passagem,
A queda é breve e de olhos fechados,
Que melhor forma de concluir a viagem,
De andar por cá já estamos nós fartos,
Deste passar disléxico de veres abismados
Onde nem a luz entra neste negro quarto.
Vou Cantado o Choro
O fado de quem é astro incandescente,
Repleto de passado e de futuro vazio
Ao abrigo de um quarto decrescente,
Eu sou ainda a essa donzela cativo,
Ninguém tem lugar neste triste trilho,
Vociferam as horas ao morto vivo,
Mãe porque olvidaste teu filho?
Pensando nela choro contra o tempo,
Trauteando a melodia feita de solidão
Enquanto a chuva cai contra o vento
E viver a vida mais parece maldição,
Que venha o cais não o encarceramento,
Alguém cante comigo a dois esta canção.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Olhos Cravados
Vejo semblantes sem terem contorno
E onde vai a minha já não está a sua mão,
Será este enfim o ponto sem retorno?
Só mais um beijo e a partida então virá,
Por favor não me deixes para trás,
Por onde irei, o que de mim será
Ao tiquetaque das horas más?
De quem a sombra já não o segue,
Ela já não está cá, já não me quer,
Que nas ruas escuras encontre albergue,
Santuário para os perdidos da vida
Quando já não há quase nada a dizer,
Amor, desejo-te bem à nossa despedida...
sábado, 30 de abril de 2016
Por Onde Fomos
Nesta caminhada fomos juntos em seco leito,
Por onde fomos na lua, perdemos a aurora
Indo de asa quebrada e de sonho desfeito,
Por onde fomos, hoje vou triste e sozinho,
Numa noitada ébria repleta de saudade,
Por onde fomos, passem-me o vinho,
Que diga fora de mim enfim a verdade,
Por onde fomos, irei de vaga em vaga,
Perdido ou encontrado sem descanso,
Que o rio os destroços do que foi traga
Serei a morte de quem almeja por vida
Enquanto a outra margem não alcanço
Que aprenda a ser pela aberta ferida...
Sexta-Feira
Ocorrência de pequenos períodos de sol,
Enquanto encosto a cabeça no travesseiro
Encobrindo a primavera com um lençol,
Estão previstos períodos de chuva e morte,
Com temperaturas oscilando para o frio,
Para quem deixa passar o mundo a sorte
Sob a bruma de um período tão sombrio,
Sede de Vida, fome de vida a ser vivida,
Não lágrimas caindo de um precipício,
Afogando um coração que à partida
Deveria ser um beijo a toda a paisagem,
Apesar de não ser fácil encontrar indicio
Para dar o primeiro passo desta viagem.
Há Vezes
Olhando para o céu sinto-a embalada,
Tal criança a adormecer em mil pedaços,
Guardados em mim ao passar da noitada,
Há sorrisos que são indescritíveis ao toque,
Vislumbro de uma cadeira um canto familiar,
Que o dia venha, que a noite o invoque,
Para um último leve beijo, um doce amar,
Lembro-a mesmo que passe o mundo,
A saudade de quem quebrou o coração,
Num sítio sensível, em lugar profundo,
Quando já não vamos de mão em mão,
Tornar-me-ei novamente no vagabundo
Entre a difusão do céu e uma prisão.
A Cela Fechada
Vem então a loucura do homem insano,
Numa casa vazia de olhar semicerrado
Aí onde percebe o que é ser humano,
Os medos e anseios de quem pensa demais,
As nuvens e a bruma chovendo pelo céu,
A donzela há partido de nosso belo cais
E nosso amor partilhado enfim morreu,
Não há poesia que chegue para falar
Da perda do sol e da queda da lua,
Como se há-de proceder, como estar,
Se a minha mão já não está na sua,
E o nosso regaço deixou de ser lar,
Quando a verdade é tão nua e crua?...
quarta-feira, 27 de abril de 2016
De Olhos Secos
Vem a primavera cheia de flores
E eu não a vejo de costas voltado,
Falho em capturar as suas cores,
Assim se escapa o bater do coração,
Sem ter porto de abrigo onde amarrar,
Parece esbanjar sua própria pulsação
Por não saber para onde navegar,
Choro por todas as primaveras perdidas
E os verões que veremos jamais,
Sei-as idas porém tenho-as queridas,
Remo e remo sem encontrar cais,
Morto nas sarjetas destas vidas,
Por ela já não me amar mais.
Prisioneiro ou Refém
O viandante finalmente encontrou paragem,
Pois hoje caminha de passos bem parados
E o horizonte parece mais uma miragem,
Pontes passadas são piras incandescentes
Onde só ninguém tem passagem aberta,
A sonolência por rios lunares crescentes
Donde vêm veredas de luz incerta,
Saudades do porto que nos deu abrigo,
Da dança imortal de duas numa alma,
Até de ser o poeta, de sê-lo contigo,
Independentemente de qual o perfume,
Aquele que me atormenta e acalma,
Na fogueira que me cobre de negrume
terça-feira, 26 de abril de 2016
Ninguém se Passeia
E eu de vista cheia de firmamento
Pergunto qual o passo desta encruzilhada
Onde o trilho não se dá por cinzento,
Passam as manhãs e não vem o dia,
Ouço sua ausência na escassez de voz,
Sussurrando estrofes com falta de poesia,
Desta frieza imponente terei meu algoz,
E estas mãos frias sem linhas nos dedos,
Não há espaço algum para esta meia falta
Que vem de mansinho, quase sem medos
Onde até me esqueço donde é o doce lar,
Vai a última estrela cadente na noite alta
E eu sem saber bem onde me encontrar.
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Dois Estranhos Ontem
Lembranças partidas de um passado
Comum entre dois corações hoje distantes
Não há fim do arco-íris, não há Eldorado
Que enleve o ânimo deste pobre diabo,
Perdido à ausência daquela sua mão,
Onde será que começo, onde acabo?
Vagueio ora sozinho em meio caixão,
Passarinho leva-me para a outra margem,
Algures onde nunca tenha trilhado,
Uma última aventura, a última viagem
Que não seja esta a sentença de quem há amado
A agridoce beleza mutável de uma miragem,
E nessa certeza ainda se dar por apaixonado.
terça-feira, 19 de abril de 2016
Sono Tenho
A neblina do olhar semicerrado,
Ouvida no lento fluir da pulsação,
Desse feitiço ainda não estou curado...
Esfrego os pulsos e espero chuva
Num silêncio dentro deste abraço
Pedaços de naftalina, sou viúva,
Ao abrigo desta falta de espaço,
As giestas murcham à passagem
Dos vagões que ladeiam esquinas,
Lá por irmos, será isto a viagem
Ou outra forma de limpar latrinas
Pois tatuado em cicatriz a miragem
De quem partiu e levou a lamparina.
Perdida Então
No olhar côncavo da menina donzela,
Será esta vida tão e tão incerta
Cerrada entre as paredes desta cela?
Respiro a sua lembrança enlouquecido
Que traz a morte de mão em não,
Neste instante sei-me perdido
Pois já não conto com a sua bênção,
De que vale este coração sem seu beijo?
Pergunto sozinho às sombras da estrada,
Quando ainda restos de seu perfume vejo
Que me resta para além deste nada?
Amor, já não estás perto, lacrimejo,
Aproxima-se uma dura temporada.
domingo, 17 de abril de 2016
Tal Madrugada
Ela vai longe e longe vai o passado
E eu sou a sombra que cobre o dia,
O sol por um buraco negro eclipsado,
Não me falem de Amor, não me falem!!!
O morto hoje não terá alguma alvorada
Que as vozes dos amantes de vez se calem,
Para mim não há Amor, não há cor, não há nada,
Sussurros espectrais indicam o fim do mundo,
O desvario sem sol, morrerei assim de alegrias
De tempo perdido num sofrimento profundo,
Sentimentos tremulam onde ela já não está
Não há versos ou estrofes para pôr em poesias
Para quando respirarei fora desta hora má?
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Amor... Deixaste-me
Estes olhos já não alcunham o horizonte,
As mãos tentam agarrar e trazem nada
Para além de terra batida deste monte
Que era onde fizemos casa e amor,
Agora no meio do mundo perdido
Encurralado entre garras de dissabor
Será este fado assim bem merecido?
Escondo as pálpebras atrás da cabeça,
Nada daqui tem em mim pertença
Esperando que a aurora aconteça
Essa espera é em si também sentença
Que esta dor a ela felizmente enalteça
Enquanto cresce tal tumor, tal doença.
domingo, 10 de abril de 2016
Segundos Passeiam-se
Partem e chegam naquilo que sou
E de vista semicerrada vem o nada
Apesar deste caminho em que vou,
Não se coloca mais um lugar à mesa,
E sentando-se e não tirando o calçado
Fica especando com ares de frieza
Das brumas de uma estória parada
Que nessa paragem é tão veloz
Deixando a alma mal acompanhada
Neste meio não saber onde caber...
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Não Sei se Será
A trazer esta próxima passagem,
Ela será sempre onde colocar o pé
Nesta tão pequena e breve viagem,
O pé descalço é morada para o ar
Onde o mundo passa sem cuidado,
Que me leva quase a exclamar
Estarei a esta passeata condenado?!
Poentes mostram o fim do horizonte,
E as margens do sol a o engolir,
Não há estrada nem há ponte
Sou demasiado pequeno para o obstruir
Por isso esta sede nem sequer tem fonte
E o difícil é mesmo conseguir partir.
sábado, 2 de abril de 2016
Pelo Seu Amor
Mortos arranham as tábuas do chão,
Mil nomes sussurrados ao esmo da rua
E quando falta o alento, falta o coração,
O tempo é nas rugas e no cabelo grisalho,
Vai-se largando pele nas orlas do asfalto
Tal cais de abrigo pelas gotas de orvalho
Reflectido e até perdido no sobressalto,
Do seu vislumbre sou pertença e refém,
Prisioneiro do dormir sob seu perfume,
Sonho meu, diz-me onde, diz-me quem
Dormirá amanhã em teu prazenteiro leito,
Fecho os olhos, apago este meio ardume
E o inescapável adeus em despedida aceito.
quinta-feira, 31 de março de 2016
Crianças Brincam
Seus sorrisos a inveja dos cinzentos,
Eu passando como se não desse por nada,
Num mundo ao redor em fragmentos,
Por isso meus passos soam aos seus,
Será que fazem parte deste coração
Nesta caminhada destinada a deus,
Até da poesia que deixei para trás,
Já não há espaço para quem tente
Através do escalar das horas más
A rirem e a apontarem com seu dedo.
terça-feira, 29 de março de 2016
Cortinas Corridas
Uma janela azul vai fluindo ao vento,
Seu caixilho são noções quebradas,
Despegadas ao erodir do tempo,
Areias nos olhos enchem a ampulheta,
Ela ditando por pulsação a oferenda,
Pelo realçar indiscreto de uma caneta
Vou embalando o tingido tal uma prenda,
Traçam-se as minúcias despercebidas,
E um mero retoque apazigua sua pele
Em contornos a cores quase esquecidas,
E ao lustro de um resplandecente anel,
É vê-la partindo no horizonte abstraída
Enquanto este amor pranteava papel.
domingo, 27 de março de 2016
Solidão e Caixões
Vem o freio do mundo e ficamos
Meio perdidos na floresta da vida
Prisioneiros do sítio onde estamos,
Por onde passamos sombras e semblantes
De pessoas que já foram no entretanto
E quando respiram são tão distantes
Em porções largadas num recanto
De persianas fechadas e cortinas corridas,
O monstro do mundo vem-no buscar,
Para estas noites em si tão sofridas,
Arranhando as unhas pelo tecto,
Somos o caixilho deixado ao luar
Pelo mundo tão louco, tão abjecto.
sábado, 26 de março de 2016
A Velhice Vem
Vai lentamente arranhando a vidraça,
Arrastando estes devaneios sonhados
Tal pedras na algibeira pela praça
De uma memória recôndita e antiga
Com pássaro negro e as suas plumas
Trazendo ao corpo uma nova fatiga
Deixada ao sabor de idas brumas,
Prisioneiros destes cabelos grisalhos
Quando a areia se esvai na ampulheta
E no campo deste coração espantalhos
Semeiam sozinhos um tempo esquecido
Não conferindo tempo para ser poeta
No horizonte duma réstia de Amor ferido.
terça-feira, 15 de março de 2016
Procurando Leitos
Alguma sepultura largada nos ladrilhos
De uma qualquer incógnita alvorada,
Deixada na encruzilhada sem trilhos,
Através das janelas uma réstia de amor
Perdido entre os paralelos do alfazar,
É neste ruído de fundo, a falta de cor
E o fumo cerrado na neblina do bar,
No fundo do copo toda esta solidão,
Esconde-se entre os prédios distantes
E quando me perco, dá-me a mão
Por cada olhar, nestes passos errantes
Que mal andam ou tocam no chão
E mal fazem dos viajantes viajantes.