sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Boa Noite Doce Príncipe

Questiono estas revelações à luz das velas,
Semanas passam e este pedinte pede seu enterro,
Pois são elas, as princesas, as mais que belas,
Que lhe atiram terra para o caixão, assim me soterro,

Sinto-as respirar, atrás de um sorriso estranho,
A quem me viu buscar, a procura é eterna meus amores,
Os lobos vêm jantar hoje e eu sou parte do rebanho,
Dormindo no frio dos nossos corpos mutilados por flores,

O poeta é somente mártir para o coração clandestino,
Por vezes partindo antes da salvação, antes do não,
Pode parecer uma partida rápida, um ir repentino,

Vem o chão, a crença esmorece pois o berço arrefece,
Que é queda, que é monção pois sabia de antemão
De que esta dor é só lembrança de quem não esquece...

domingo, 11 de novembro de 2018

Por Janelas de Vidros Azuis - Enxurrada

Por janelas de vidros azuis - enxurrada,
Tempestade em cada beijo ao pavimento,
Recaímos do berço do Sol, na calçada,
Pisamos o aguado em tons de cinzento,

Alguém diz: “Solidão és a companheira”,
Remetendo às rugas finas atentas no olhar,
Degraus e degraus até ao final da ribanceira,
Descalço e leve, um empurrão e a esvoaçar,

A tristeza de ir e nunca conseguir mesmo chegar,
Alvoroço no coração, cataratas para a visão,
E eu então? E eu?! Sem poiso para sequer poisar,

Por vezes faz tanta falta um toque, um carinho,
Escondido num quarto escuro, oiçam a oração
De quem perdeu a crença e vai indo tão sozinho.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Imagina o Céu...

... e estes pedaços de versos são oferendas
Para quem os colocar bem no coração
São até confetes, buquês e prendas,
Por amor, asas em busca de uma mão,

Por onde eu tenho andado a paisagem
Sussurra, deixo-ta tal lábios, perdida,
Que te afague e leve sejas a mensagem
Até que por força do destino a despedida,

Até lá indelével e docemente que esse olhar
Retenha a força para dizer não, a recusar
E então capitulo a capitulo te tornes inteiro

E cada novo beijo saiba para sempre a primeiro,
Pois somos estrelas cadentes por e em sentimento,
Esse é o rasto que deixamos no mundo tal fragmento.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Trago Sonhos Para Os Insones

Pé esvoaçante na estrada secundária, perdido,
Visando juramentos eternos, vagueando sozinho,
Preciso de sentir vida para me sentir vivido,
Há poeira nesta alma, há poeira no caminho,

Longe está o meu belo horizonte, o firmamento,
Procurando a busca, a arte do desencontro,
Pois o que é instante passa, é somente momento,
Dança e o mundo vira universo, esse reencontro

É tudo o que trago escondido neste coração,
Através dum véu nocturno acordo desperto,
Homens vejam, trago sonhos nesta mão

Para quem não dorme ou não os tem por perto,
E é assim que vou passando estação a estação
Com a certeza de antemão de que tudo é incerto.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Voltaremos a Brilhar

Luzes dependuradas das abóbodas celestes,
Invadimos o cerúleo, frágeis e tão delicados,
O pedaço do Sol erguendo-se enfim a oeste,
Aí vem a madrugada silente nestes bocados

Que são de quem não tem pertença, o beijo,
É céu repleto de estrelas, a imensidão é bela
Pois é rede para o sonhador e o seu almejo
Fica, fica connosco foge daquela escapadela,

Apesar de para já ser escuro e haver nevoeiro,
Um dia seremos as luzes que fomos um dia,
Teremos enfim um lar, por fim o verdadeiro!

Fica, fica connosco e sê novamente a magia
Daquele belo tempo iluminado pelo candeeiro
Que erguíamos pela mão afastando a melancolia.


terça-feira, 23 de outubro de 2018

Elegia do Filho do Sol ao Pai

Igual ao meu coração, jorra sangue pelo olhar
O ócio matou o sol, a nascença se há derramado
No filho do sol, enfim o abismo abrirá a cancela do ar
E o esqueleto moribundo do presente será passado,

Quem dera ouvir a sua voz com um abraço sentido,
Porém só há uma nuvem de fumo nesses pulmões,
Que me deixa a meio percurso e eu tão perdido,
Não há conforto para esse corpo nestes colchões,

Pai, lembro-me dum sorriso próprio somente teu,
Que não te esqueças de despertar, é hora de acordar,
Não te dissolvas numa memória de quem creu 

Que era só beijo para se afagar e permitir sonhar,
Apesar de ter nas pernas a eterna lira de Orfeu
Tenho um longo caminho para ainda mais me afastar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O Poeta e a Prostituta

O poeta oferecia prados e céus num só almejo,
Ela neles corria sem tréguas, paixão ou desejo,
Ele conferia-lhe pérolas e no olhar a imensidão,
Ela engolia-as uma a uma sem amor ou perdão,

Ela era breu da noite, bruma e olhar bem cerrado,
Ele de tanto dar era só em seu brinde entornado,
Ela, tropelia em atropelamento sem sentir nada,
Ele com o coração ao vento e de vista tão ornada

Reparava que ela era partida, pela viela absolvida,
Sem querer saber de si, quanto mais desta poesia,
Era ele e ela numa estrada dentro de si já perdida,

Onde ambos deambulavam não indo mais em frente,
Assim escasseava o beijo, assim morria a magia
E enfim ele chorava e ela ocupada fodia toda a gente!

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Para Quem Quiser Viajar Comigo

Eu era o grito de pés descalços no chão,
Deitado numa mesa, esbracejando só,
Querendo ir onde me levasse o coração,
Num círculo eterno coberto por este pó,

Que nos pulmões era um furor contagiante,
Em delírio enlousante, quase sem querer,
Ouçam o eco da sombra em mim distante,
O custo será o continuar a olhar sem ver

E não obstante, sentir as raízes em colapso,
As folhas na estrada estalando sob os pés,
Em meu olhar traçar-te-ia em fino traço,

Permite então que te mostre a verdadeira dor
Pois vamos e recuamos em marcha a rés,
Reconhece a minha doença - falta de amor.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Beija-me e Sente o Universo

Beija-me e compreende as galáxias do firmamento,
Abraça-me e sente o calor de cem supernovas,
Este é o único instante, é o único momento
Para mostrar que em nosso peito batem trovas

Pertencentes aos poetas que nos antecederam,
A quem jorrou sangue por um puro sentimento,
Que foram joguetes todavia aqui aconteceram,
Este é o rosto do éter e este trilho seu testamento,

Cadente entre o cerúleo, o palpitar do coração
É magma escaldante, os mais leves passageiros,
Este é o descanso que vem com a nova estação

Solta as amarras e liberta os teus prisioneiros,
Vem para o vendaval, agarra-te e dá-me a mão,
Não é tempo para os náufragos, este tempo é dos inteiros.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Sou Uma Nuvem

Sou uma nuvem passeando lá no céu adiante,
Ligeira e leve, tão próxima do sol e horizonte,
Navegando pelo vento ora perto ora distante
Para no final do arco-íris encontrar a ponte,

Por vezes sorrio, outras sei bem o que é lacrimejar,
Por onde a brisa me levar, sobre desertos e prados,
Há até alturas de onde ouço o coração quebrar,
Momentos soturnos por silêncio impregnados,

Procuro o que fui deixando pelo caminho
E que nele ainda não apareceu, oh Deus meu,
Por isso deixei o rebanho, por isso vou sozinho

Onde o sol nasce e a lua se põe, este é o fado,
Sou uma nuvem dando o beijo, aquele só teu,
Sim, amor é tudo o que nesta terra tenho deixado.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Procurando-a Tal Mariposa (Para O Candeeiro)

Procuramos o candeeiro quando se revela,
Abrimos então a janela esticando a corda
Pois quando pensar é somente pensar nela,
Até o mais sonolento sonhador enfim acorda,

Então confesso de joelhos o quanto a quero,
E do antro da estranheza não sou estranho,
Esbracejo, grito e da insanidade do desespero
Separo-me atrozmente do tido como rebanho,

Na lápide escrito "... de um coração apaixonado"
Fecho os olhos não duvidando dessa certeza,
Enquanto o sonho não vem estando eu ensonado

Tocarei de leve o que nomear como beleza,
Num tecto derelicto, num trilho abandonado,
Onde flor a flor darei passos com toda a delicadeza.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Aquele Lugar Em Mim

Sinto anjos na língua arrebatando-me para cima,
Abraçam-me enquanto dormito, envolve-me o beijo,
E logo deixamos o terrestre, somos obra-prima,
O resto passa em silêncio, sem gesto ou desejo,

Frios e quentes, sou nu, sou a última despedida,
Que importa o vindouro? Morri antes de nascer
Pois nada importa e eu sou tudo, a bem-vinda
Parte que quase falta, que não pára de acontecer,

Logo impludo em possibilidades, expugnado,
Procurando sem descanso aquele lugar em mim, 
Deixai-me voltar sem duvidar do coração quebrado,

Passar pelo tempo traçando percursos sem fim,
Sou culpado por todos estes segundos ter amado
E a sentença é viver que nem um danado, ámen, plim!

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Beija-me Os Lábios

Beija-me os lábios e sente esta enxurrada,
Traz-me à vida, reavive este meu coração,
Pois por vezes quando vai o pé à estrada
Esquecemos o quão este trilho é benção,

Beija-me os lábios e amortece esta queda,
A morte é transeunte no passo trilhado,
Olvida o ontem que outrora era alameda
Hoje é o presente que se torna passado,

Beija-me os lábios e enfim faz-me feliz,
A felicidade é passageira na nebulosa,
Ergue tal manancial o pequeno petiz

Apesar de um beijo ser apenas um beijo
Ele tem a energia e a força miraculosa
De se tornar no poeta em seu almejo.

sábado, 15 de setembro de 2018

De Sorriso Ladeado Com O Esquecimento

Atrás do sorriso de menino de pés descalços,
Há estrelas e nebulosas para quem ousa sonhar,
Mesmo vindo a morte e a bruma e seus percalços
É preciso urgentemente permitir ser e aí então amar

Com o coração de mil supernovas, ser a explosão,
A brisa e a tempestade, o último catalisador
E então haverá paz, serenidade e enfim a solidão
Do homem tornado velho tendo em si todo o amor

Que é deste mundo, que é de quem partiu há instantes,
Somos vagabundos sem pertença, somos párias
De uma época há muito partida, agora  distantes

De quem nos deu a mão e nos trouxe ao caminho,
Foste tu amor, a saudade de um passado, uma ária
À ausência de futuro, morrerei um dia sozinho.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Quando Viver é Morrer Um Pouco Mais No Caminho

Nesta montanha-russa, a noite é o único guia,
Beber até acreditar no impossível, beijos molhados
Por chagas e chamas, desejos sujos e perde-se o dia,
Tenho Deus e o Diabo ambos no peito cravados,

Acredito neste doce sofrimento, vim para a doença,
Esta crosta pungente de sentimentos perdidos,
Autoproclamo-me de maior que a vida e a sentença
É quando vem a morte e nos damos por vencidos

Afónicos, por favor, oferecei-me o esquecimento,
Andemos sobre a água e afoguemo-nos mais além,
Percebeis agora toda a minha tristeza, este lamento?

Não há maneira de ir em frente, penso no nada,
Juro e prometo, rogo e suplico, somos sozinhos e sem
Casa procuramos lugar entre os cantos vis da estrada!

domingo, 9 de setembro de 2018

A Leveza Insustentável do Horizonte

Nascendo do sonho e morrendo na sepultura,
Entre o nada e o nada há uma vida inteira,
Partindo e amando com o fogo que dura
E doura, tudo o resto é somente canseira,

Sorriso para o cerúleo de coração quebrado,
Todos os segundos enfim passados são ponte
Para o momento justamente agora eclipsado
Macerado pela leveza insustentável do horizonte,

Tirando as pétalas que vão adornando o caminho,
Aceno em despedida aos rostos então adjacentes,
Chama-me o vento, sussurra-me a brisa, e sozinho

Vou indo por onde a bruma é senhora e rainha,
Enquanto o destino vem-me cerrando os dentes,
Afastado do sol sou eu a indubitável sombra sozinha.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Trocando Sonhos Por Copos

Um copo de silêncio, descanso para quem escuta,
Agora já sabes que estou no barco dos perdidos,
Entre o gelo e as dunas, é a vida que aqui nos enluta,
Mal chegamos ao objectivo e já estamos vencidos,

Vejo o tempo enrugado a beijar-me levemente o rosto
E eu procurando no escuro por uma lamparina
Que alumie o vazio de um coração e seu desgosto,
Assim troco sonhos por copos, eu sou a neblina,

O farol e o nevoeiro, a viagem sozinha e o companheiro,
Frio sob estes lençóis feitos de pedaços de lembranças,
Respirando ofegante sei que sou meio, quase inteiro

Mesmo na falta, na carência, na fraqueza das pernas,
Perguntando como é possível ser o velho e as crianças
Assim passo o tempo sem o passar por estas horas eternas.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Homenagem a Um Amigo Ido

Quando a peça termina e os aplausos se esvaem,
Quando as luzes se apagam, resta apenas a pessoa,
O tempo é brevidade quando despida a personagem,
Que assim nunca terminem os aplausos – voa, voa, voa!

Agora que partes amigo e deixas uma vaga neste coração,
Vai em paz pelo firmamento que tenhas encontrado a ponte,
Lembrar-me-ei do toque fantasma, da beleza e nessa canção,
Ascenderás aos céus, serás parte do nosso eterno horizonte,

Em memória ter-te-ei, respeitando esta curta condolência,
Num ínfimo gesto tentando imortalizar essa tua ausência,
Assim celebrarei a tua Vida e esse bem tão bem praticado,

Espero por convivência algo ter percebido, recebido o recado,
Até breve meu amigo, agora que ganhas asas e leves plumas
Que continues a emanar luz suficiente para esvaecer estas brumas.

para o Toni

sábado, 25 de agosto de 2018

Um Quarto Estofado

Fiquemos em silêncio, ao passo do fantasma, o abrigo, 
A rédea do cavalo branco, o mastro e o marinheiro,
Por vezes vem tal como uma benção outras castigo,
Sou irmão da brisa e o vento é o único companheiro,

De mãos atadas, o liame entre eu e os meus amores,
Esbracejando em insanidade entre quatro paredes
Brancas e eu medicado contra as polémicas dores
Este corpo sem mente peso morto nestas redes, 

Tal lugar mal situado, caminho barricado por mim
E em mim sem conseguir ser localizado e amado,
Quisera o destino que o mundo fosse só assim, 

Confuso, distorcido e entorpecido tal estático,
Eu projectado bem, bem alto no céu estrelado,
Do medíocre estou farto, dêem-me o fantástico.


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Soltem-me

Esfolando os joelhos, seguindo rastos de cadentes,
Sozinhos no mundo, lembra-te quando me esqueceres,
Trago-te na algibeira do peito, na ânsia entre os dentes,
Sob o soalho da sub-cave acreditando na força dos quereres,

Que são só e somente palpitações subentendidas
De luas perdidas, rostos desconhecidos, desejos ao ar,
Luz e eu onde me fui sobre redes estendidas,
Aguardando quem não me procura ou soube esperar

Com olhos de quem não sabe ver, tanta e tanta sede,
Deixem-me adormecer em meus espaços, seus traços
São as linhas destas mão, sendo eu a única parede,

Entretanto almejo seus semblantes e seus regaços,
A eternidade é mais do que uma vida que me impede
É cruzar-me onde o sempre mora e tê-lo nestes braços.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Novamente Colocamos o Pé na Estrada

Do topo do seu farol quase não via a sua luzência,
Negro era o céu donde se atirava para os abrolhos,
Esse escape no breu da noite era esta triste ausência
Que não permitia ver a vista, que a escondia dos olhos,

Procuramos intensamente por seu corpo nos rochedos,
Imóvel e quebrado, a sombra do sol era o firmamento,
Doce e lentamente passava por seu cabelo estes dedos
Esperando que ela retornasse e visse o que estava dentro

Do peito, era coração palpitante aguardando ser Vivido,
O sonho era maldição porém a única oração dignificante,
Assim se separavam as estrelas do céu e no beijo querido

Reparávamos que a margem era cada vez menos distante,
Novamente o poeta era por briosas constelações vestido,
E novamente colocava o pé na estrada como sendo viajante.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Quando Imergimos em Nós

Imerso na enxurrada, triste e sozinho sem caminho,
Finda-se o que era repleto de estrelas para contar,
Na algibeira poeira de um sonho bonito, o moinho
Lavra águas de um dia passado que pude albergar,

Entretanto saudades de um beijo que dure uma vida,
A predileção do cerúleo por um único momento,
Que me embeba nos braços de uma costa querida
Pois todos procuramos abrigo, aqui, no firmamento,

O resto é morte, o resto passa quase sem deixar traço,
O trecho é ensejo, lágrima por acordar, o latente
Vem do nada e é imensidão, mais que tempo e espaço

Pois quando nos alheamos do que em nós é
É perdida a ambição, a fruição e de repente
Somos sombra de esqueletos, esquecendo a fé.

Por Onde Ia o Poeta, Por Onde Ia o Amor

Para o mundo era a ausência do poeta,
Divagando aqui docemente tal um pintor,
Apaziguando o passar da hora incerta
Serenando o palpitar do peito, a sua dor,

Por onde ia o amor, ele tal sombra seguia,
Era suficiente para se acalmar o romance
Que era do seu coração enquanto morria
Por ela e por ele, quando estava ao alcance

De um anseio, de um almejo quase trocado,
Ia por onde não se via nem por um bocado,
E, esvaecido, era lamento do não acontecido,

Da lágrima desbotada atrás do seu sorriso
Da mão fiel de amor imparcial, o preciso
Era o beijo eterno por um instante querido.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Encurralado

Encurralado entre os bares destas ruas,
Mais um copo e menos uma memória,
Assim vão passando estas pálidas luas,
Assim se vai tecendo esta minha história,

Por onde não vou, há sombras e vielas,
Esquecimento da noite outrora perdida,
Que são pertença de quem já foi nelas
Todo o beijo e o sabor de toda uma vida,

Envolvido pela neblina, vem a absolvição
De uma doce menina que mora no coração
De quem ousa soar alto e que não tem medo

Pois o silêncio é uma arte, tal manter o segredo
Que é de quem esvoaçou e quis um dia regressar
Ao destino a que já deixou mas porém ainda soa a lar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A História do Poema

Algures num poema há aquela ínfima beleza,
Repousando enfim longe em recôndito lugar,
Cedemos versos e pintando vai-se a tristeza,
Novamente sabemos, já não é preciso procurar,

Seremos estrelas cadentes arranhando o céu,
Essa cúpula permitindo um instante de Vida,
Ou fantasmas antigos arrancando este véu
Quando tudo o que conhecem é a partida?

Sou a bruma e a lamparina, a nebulosa da criação,
Onde se criam as maravilhas e se escuta o coração,
Separo-me dos transeuntes, daqueles sem alma

Distante do ponto inicial, só isso sossega e acalma
Pois do olho do vendaval sou oriundo, minha glória
De perto de mim rascunharei nesta história.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Através de Meandros Já Passados

Suplicava então por quem lhe desse a mão,
Por um instante único de perfeita sintonia,
Quem lhe preenchesse o resto do coração
E lhe reensinasse por fim o que é magia,

Eram cavalos selvagens percorrendo o leito,
Enfeitiçando tumultuosos o olhar procurado,
E em silêncio esperava ouvir enfim o peito
Dela sob o meu num momento já elapsado,

Esquecia o beijo que tardava, a tarde morria,
Em breves traços recuava numa noite vazia
Repleta de sonhos e almejos não alcançados,

Por mim o cerúleo era todo o seu belo olhar,
O coração que não devia mas acabei por dar
Através dos meandros de tempos já passados.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Por Pequenos Instantes Quase Sorrio

Escutando o não observado, o alheio impermanente,
É semblante para o não envolvido, o beijo indiferente,
Por onde vamos não nos vemos tal aventesmas pálidas,
Somos tal oceano ou deserto de superfícies esquálidas,

Refugiar-me-ei em casa quando o sol enfim despontar,
Quando o peito se encher e por fim conseguir respirar,
Pois por metade de uma alma não se alcança o horizonte,
Serão horas tumultuosas que não conferem uma ponte

Para lá do instante, eterno finito que proporcione lugar,
Amor qual será o meu sítio quando não sei sequer ficar?
Dormitando no ombro da Lua a sentir o seu doce abraço,

Enfim ouço a terna voz do Universo conferindo regaço
Que é maior do que aquilo que sou neste breve instante,
É quase suficiente para por segundos sorrir, é o bastante.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Demasiado Próximo do Sol

Conferido o beijo através duma oblonga passeata,
Por onde nos perdíamos em doces constelações,
No dia presente aqui preencho a minha errata
Pois o meu todo não é suficiente para dois corações,

E alongamo-nos em esperas que não sabem a Vida,
Respirando fumo, esbracejando e rogando por ela,
Lágrimas pela Beleza de uma quimera tão querida
Que não é o bastante para afogar esta triste estrela

Que trago abrasando e cegando tal um candeeiro,
Por onde vou à noite, perco-me na falta de luzência,
Tão sozinho tornando-me cinza caindo num cinzeiro

Por onde vou vai-se fenecendo a palpitante fulgência,
Amor, amante, amiga, conhecida, estranha, o aguaceiro
É todo o meu sentimento que não suporta esta ausência.

domingo, 5 de agosto de 2018

O Suspiro do Poeta

Passaram as enxurradas vindas de Abril,
Sonhando todos os sonhos deste mundo,
Onde vamos aguardando a brisa primaveril,
Percorrendo todos os trilhos do vagabundo,

São o homem afastado da margem querida,
Cura a sua dor, dá-lhe a mão e sê no caminho,
Apressa-te, quando chegares ele será em partida,
Esse é o fardo do poeta colocado no escaninho

Que é o seu peito arremessado ao prado infinito,
Frágil e delicado, Amor, frágil e tão delicado,
Somente este silêncio para conter o seu grito,

O refúgio torna-se escape de um medo tão real,
É xeque-mate ao coração por vertigens trucidado,
Esse seu suspiro demarcado pelas estrelas do astral.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Até as Estrelas Morrem

Escapa-se-me o coração, cantando a sua canção,
Quase a encontro entre escombros e penhascos,
Poderia ter sido amor mas era um simples não
Remetido dentre o golpe eficiente de mil carrascos,

Perdido em incerteza, o lar que nunca mais chega,
Perdido num novo trago onde me enterro sozinho
Pois quando o bom dia deste lugar se desapega
Enfim trajamos as sombras de passado caminho

E vamos indo entre as poeiras e brisas partidas
Por onde não fomos, juntos, verte-se a morte,
Trazemos bruma, noite e nevoeiro aqui vestidas,

Valeu a pena, pelo menos dei-lhe a minha mão,
Não obstante de qual era o poente ou a sorte,
Amor, somos os restos de uma moribunda constelação.