domingo, 9 de setembro de 2018

A Leveza Insustentável do Horizonte

Nascendo do sonho e morrendo na sepultura,
Entre o nada e o nada há uma vida inteira,
Partindo e amando com o fogo que dura
E doura, tudo o resto é somente canseira,

Sorriso para o cerúleo de coração quebrado,
Todos os segundos enfim passados são ponte
Para o momento justamente agora eclipsado
Macerado pela leveza insustentável do horizonte,

Tirando as pétalas que vão adornando o caminho,
Aceno em despedida aos rostos então adjacentes,
Chama-me o vento, sussurra-me a brisa, e sozinho

Vou indo por onde a bruma é senhora e rainha,
Enquanto o destino vem-me cerrando os dentes,
Afastado do sol sou eu a indubitável sombra sozinha.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Trocando Sonhos Por Copos

Um copo de silêncio, descanso para quem escuta,
Agora já sabes que estou no barco dos perdidos,
Entre o gelo e as dunas, é a vida que aqui nos enluta,
Mal chegamos ao objectivo e já estamos vencidos,

Vejo o tempo enrugado a beijar-me levemente o rosto
E eu procurando no escuro por uma lamparina
Que alumie o vazio de um coração e seu desgosto,
Assim troco sonhos por copos, eu sou a neblina,

O farol e o nevoeiro, a viagem sozinha e o companheiro,
Frio sob estes lençóis feitos de pedaços de lembranças,
Respirando ofegante sei que sou meio, quase inteiro

Mesmo na falta, na carência, na fraqueza das pernas,
Perguntando como é possível ser o velho e as crianças
Assim passo o tempo sem o passar por estas horas eternas.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Homenagem a Um Amigo Ido

Quando a peça termina e os aplausos se esvaem,
Quando as luzes se apagam, resta apenas a pessoa,
O tempo é brevidade quando despida a personagem,
Que assim nunca terminem os aplausos – voa, voa, voa!

Agora que partes amigo e deixas uma vaga neste coração,
Vai em paz pelo firmamento que tenhas encontrado a ponte,
Lembrar-me-ei do toque fantasma, da beleza e nessa canção,
Ascenderás aos céus, serás parte do nosso eterno horizonte,

Em memória ter-te-ei, respeitando esta curta condolência,
Num ínfimo gesto tentando imortalizar essa tua ausência,
Assim celebrarei a tua Vida e esse bem tão bem praticado,

Espero por convivência algo ter percebido, recebido o recado,
Até breve meu amigo, agora que ganhas asas e leves plumas
Que continues a emanar luz suficiente para esvaecer estas brumas.

para o Toni

sábado, 25 de agosto de 2018

Um Quarto Estofado

Fiquemos em silêncio, ao passo do fantasma, o abrigo, 
A rédea do cavalo branco, o mastro e o marinheiro,
Por vezes vem tal como uma benção outras castigo,
Sou irmão da brisa e o vento é o único companheiro,

De mãos atadas, o liame entre eu e os meus amores,
Esbracejando em insanidade entre quatro paredes
Brancas e eu medicado contra as polémicas dores
Este corpo sem mente peso morto nestas redes, 

Tal lugar mal situado, caminho barricado por mim
E em mim sem conseguir ser localizado e amado,
Quisera o destino que o mundo fosse só assim, 

Confuso, distorcido e entorpecido tal estático,
Eu projectado bem, bem alto no céu estrelado,
Do medíocre estou farto, dêem-me o fantástico.


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Soltem-me

Esfolando os joelhos, seguindo rastos de cadentes,
Sozinhos no mundo, lembra-te quando me esqueceres,
Trago-te na algibeira do peito, na ânsia entre os dentes,
Sob o soalho da sub-cave acreditando na força dos quereres,

Que são só e somente palpitações subentendidas
De luas perdidas, rostos desconhecidos, desejos ao ar,
Luz e eu onde me fui sobre redes estendidas,
Aguardando quem não me procura ou soube esperar

Com olhos de quem não sabe ver, tanta e tanta sede,
Deixem-me adormecer em meus espaços, seus traços
São as linhas destas mão, sendo eu a única parede,

Entretanto almejo seus semblantes e seus regaços,
A eternidade é mais do que uma vida que me impede
É cruzar-me onde o sempre mora e tê-lo nestes braços.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Novamente Colocamos o Pé na Estrada

Do topo do seu farol quase não via a sua luzência,
Negro era o céu donde se atirava para os abrolhos,
Esse escape no breu da noite era esta triste ausência
Que não permitia ver a vista, que a escondia dos olhos,

Procuramos intensamente por seu corpo nos rochedos,
Imóvel e quebrado, a sombra do sol era o firmamento,
Doce e lentamente passava por seu cabelo estes dedos
Esperando que ela retornasse e visse o que estava dentro

Do peito, era coração palpitante aguardando ser Vivido,
O sonho era maldição porém a única oração dignificante,
Assim se separavam as estrelas do céu e no beijo querido

Reparávamos que a margem era cada vez menos distante,
Novamente o poeta era por briosas constelações vestido,
E novamente colocava o pé na estrada como sendo viajante.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Quando Imergimos em Nós

Imerso na enxurrada, triste e sozinho sem caminho,
Finda-se o que era repleto de estrelas para contar,
Na algibeira poeira de um sonho bonito, o moinho
Lavra águas de um dia passado que pude albergar,

Entretanto saudades de um beijo que dure uma vida,
A predileção do cerúleo por um único momento,
Que me embeba nos braços de uma costa querida
Pois todos procuramos abrigo, aqui, no firmamento,

O resto é morte, o resto passa quase sem deixar traço,
O trecho é ensejo, lágrima por acordar, o latente
Vem do nada e é imensidão, mais que tempo e espaço

Pois quando nos alheamos do que em nós é
É perdida a ambição, a fruição e de repente
Somos sombra de esqueletos, esquecendo a fé.

Por Onde Ia o Poeta, Por Onde Ia o Amor

Para o mundo era a ausência do poeta,
Divagando aqui docemente tal um pintor,
Apaziguando o passar da hora incerta
Serenando o palpitar do peito, a sua dor,

Por onde ia o amor, ele tal sombra seguia,
Era suficiente para se acalmar o romance
Que era do seu coração enquanto morria
Por ela e por ele, quando estava ao alcance

De um anseio, de um almejo quase trocado,
Ia por onde não se via nem por um bocado,
E, esvaecido, era lamento do não acontecido,

Da lágrima desbotada atrás do seu sorriso
Da mão fiel de amor imparcial, o preciso
Era o beijo eterno por um instante querido.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Encurralado

Encurralado entre os bares destas ruas,
Mais um copo e menos uma memória,
Assim vão passando estas pálidas luas,
Assim se vai tecendo esta minha história,

Por onde não vou, há sombras e vielas,
Esquecimento da noite outrora perdida,
Que são pertença de quem já foi nelas
Todo o beijo e o sabor de toda uma vida,

Envolvido pela neblina, vem a absolvição
De uma doce menina que mora no coração
De quem ousa soar alto e que não tem medo

Pois o silêncio é uma arte, tal manter o segredo
Que é de quem esvoaçou e quis um dia regressar
Ao destino a que já deixou mas porém ainda soa a lar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A História do Poema

Algures num poema há aquela ínfima beleza,
Repousando enfim longe em recôndito lugar,
Cedemos versos e pintando vai-se a tristeza,
Novamente sabemos, já não é preciso procurar,

Seremos estrelas cadentes arranhando o céu,
Essa cúpula permitindo um instante de Vida,
Ou fantasmas antigos arrancando este véu
Quando tudo o que conhecem é a partida?

Sou a bruma e a lamparina, a nebulosa da criação,
Onde se criam as maravilhas e se escuta o coração,
Separo-me dos transeuntes, daqueles sem alma

Distante do ponto inicial, só isso sossega e acalma
Pois do olho do vendaval sou oriundo, minha glória
De perto de mim rascunharei nesta história.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Através de Meandros Já Passados

Suplicava então por quem lhe desse a mão,
Por um instante único de perfeita sintonia,
Quem lhe preenchesse o resto do coração
E lhe reensinasse por fim o que é magia,

Eram cavalos selvagens percorrendo o leito,
Enfeitiçando tumultuosos o olhar procurado,
E em silêncio esperava ouvir enfim o peito
Dela sob o meu num momento já elapsado,

Esquecia o beijo que tardava, a tarde morria,
Em breves traços recuava numa noite vazia
Repleta de sonhos e almejos não alcançados,

Por mim o cerúleo era todo o seu belo olhar,
O coração que não devia mas acabei por dar
Através dos meandros de tempos já passados.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Por Pequenos Instantes Quase Sorrio

Escutando o não observado, o alheio impermanente,
É semblante para o não envolvido, o beijo indiferente,
Por onde vamos não nos vemos tal aventesmas pálidas,
Somos tal oceano ou deserto de superfícies esquálidas,

Refugiar-me-ei em casa quando o sol enfim despontar,
Quando o peito se encher e por fim conseguir respirar,
Pois por metade de uma alma não se alcança o horizonte,
Serão horas tumultuosas que não conferem uma ponte

Para lá do instante, eterno finito que proporcione lugar,
Amor qual será o meu sítio quando não sei sequer ficar?
Dormitando no ombro da Lua a sentir o seu doce abraço,

Enfim ouço a terna voz do Universo conferindo regaço
Que é maior do que aquilo que sou neste breve instante,
É quase suficiente para por segundos sorrir, é o bastante.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Demasiado Próximo do Sol

Conferido o beijo através duma oblonga passeata,
Por onde nos perdíamos em doces constelações,
No dia presente aqui preencho a minha errata
Pois o meu todo não é suficiente para dois corações,

E alongamo-nos em esperas que não sabem a Vida,
Respirando fumo, esbracejando e rogando por ela,
Lágrimas pela Beleza de uma quimera tão querida
Que não é o bastante para afogar esta triste estrela

Que trago abrasando e cegando tal um candeeiro,
Por onde vou à noite, perco-me na falta de luzência,
Tão sozinho tornando-me cinza caindo num cinzeiro

Por onde vou vai-se fenecendo a palpitante fulgência,
Amor, amante, amiga, conhecida, estranha, o aguaceiro
É todo o meu sentimento que não suporta esta ausência.

domingo, 5 de agosto de 2018

O Suspiro do Poeta

Passaram as enxurradas vindas de Abril,
Sonhando todos os sonhos deste mundo,
Onde vamos aguardando a brisa primaveril,
Percorrendo todos os trilhos do vagabundo,

São o homem afastado da margem querida,
Cura a sua dor, dá-lhe a mão e sê no caminho,
Apressa-te, quando chegares ele será em partida,
Esse é o fardo do poeta colocado no escaninho

Que é o seu peito arremessado ao prado infinito,
Frágil e delicado, Amor, frágil e tão delicado,
Somente este silêncio para conter o seu grito,

O refúgio torna-se escape de um medo tão real,
É xeque-mate ao coração por vertigens trucidado,
Esse seu suspiro demarcado pelas estrelas do astral.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Até as Estrelas Morrem

Escapa-se-me o coração, cantando a sua canção,
Quase a encontro entre escombros e penhascos,
Poderia ter sido amor mas era um simples não
Remetido dentre o golpe eficiente de mil carrascos,

Perdido em incerteza, o lar que nunca mais chega,
Perdido num novo trago onde me enterro sozinho
Pois quando o bom dia deste lugar se desapega
Enfim trajamos as sombras de passado caminho

E vamos indo entre as poeiras e brisas partidas
Por onde não fomos, juntos, verte-se a morte,
Trazemos bruma, noite e nevoeiro aqui vestidas,

Valeu a pena, pelo menos dei-lhe a minha mão,
Não obstante de qual era o poente ou a sorte,
Amor, somos os restos de uma moribunda constelação.

domingo, 29 de julho de 2018

Procurando Por Deus... Aqui e Agora

O dia de verão passou outrora, um dia,
Recolhido ao silêncio dessa primavera
Onde tudo era possível pois havia magia
Embutida na moldura, a bela quimera,

Era quem eu era, a crença no firmamento
E naquele dia em que o dia foi passando
Percebi que o dia não passa de momento
Mas que cada momento se vai acumulando

E assim nos libertamos no vazio do horizonte,
Não como crianças mas tigres feitos de plumas,
Alcançando Deus e erigindo uma eterna ponte,

Sorri meu irmão, acorda e sê num sonho bonito,
Há luzências, há fulgências para lá destas brumas,
A procura é em nós, aqui rumando para o infinito.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Aos Que Almejam Ninharias

Certamente há gente que vai passando
Pela berma da rua sempre procurando
O que é fácil, o que é pouco importante
Pois ficam-se por ninharias, não obstante

Do que procuram, ambicionam o nada,
Colocam o pé na rua mas não na estrada
E então vendem a alma por meio tostão
Que não preenche a alma nem o coração,

Prego-vos aqui sem pregar a canção do amor
Aquele que fecunda a mente e retrai a dor,
Pois quando tudo passar querer-vos-eis lembrar

Que por cá passaram, que foram Deus a andar,
Então ambicionem estrelas, longe do humano
Pois o tempo passa e nos ceifa ano após ano.

Este Caminho é Fealdade e Beleza

O homem envelhece e torna-se poeira,
Vai passando a linha continua ao vento,
Aquilo que gosta coloca na sua algibeira
E o que não fica deixa ficar ao relento,

Entretanto renascem dias no horizonte,
A cinza é no cinzeiro feito de passado,
Entre eles há amor, a sua única ponte
Que é o que há mesmo que eclipsado,

Nasceu para amar magia, a ela conhecer,
Mesmo que por vezes só haja tristeza
Ela também é precisa, é preciso a conter,

Até ser levado e tudo se tonar clareza,
Entre essas margens é necessário o ser
Pois este caminho é fealdade e beleza.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Reparei e Gostei dos Traços

Adaptamos-nos ao estático de uma ausência, 
Pernoitando num instante já cá eclipsado, 
Deixo por mim um beijo, uma condolência
Assim escrevinha no caderno o passado,

Folhas caindo, vivendo ao sabor do vento,
A sombra do sol é num ensejo de gratidão,
É suficiente para buscar a Lua do firmamento
E para preencher de Amor um solitário coração,

O cruzamento pela Vida é dádiva descomunal, 
É partilha da vista da viagem indo lado a lado,
Bela envoltura, envolvência e abraço sem igual

Portanto há a agradecer, há a dizer obrigado,
Pois aprendi a caminhar, a voar pelo astral
Quando por quem partiu outrora fui albergado.

De Costas Dadas

Amor meu, ensina-me o caminho da terra,
O grito indómito que revela toda a certeza,
Este é o trilho dos que se levaram na guerra
Uma batalha onde se aprende o que é beleza,

Pois Amor, amar é fácil, simples é sim amar,
Reavive a alma, a espera é enfim culminada,
Deixam-se os botecos, deixa-se de procurar
O passo ladeado que vem ao pé da estrada,

A lágrima sobre o peito é um beijo perdido,
Dois a teimarem em não ser num coração,
Então se deita fora o que já foi recebido,

Assim se esconde o Sol nesta triste estação,
Quando o amor entre dois é mal-querido
Só resta velar o peito como se fosse caixão.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Quando a Vida é Quase, Quase Vivida

Saudade é aquele envolvimento golpeado,
O coração é estrado para um sentimento,
Abrem-se fagulhas dentre o lume apagado
E a emoção é bocado de um ido momento,

O esquecimento que não vem, amor é sabor
A terra na boca, língua saboreando o esgoto,
E eu, insonso, desgosto-me deste meu odor
Somos os filhos bastardos, o bastardo ignoto,

Estranhando porque o sol cai aos quadrados,
Porque a lua sempre é esta única companhia,
Enquanto nossos corações forem quebrados

Não haverá luz alguma que se lixe a maioria,
Sou parte de quem não tem todo, retornados
À manhã que foi deixada de um outrora dia.

terça-feira, 10 de julho de 2018

A Vida Sê

A Vida aqui tem passado e de antebraços sorrido,
Em bondade e maldade no segundo passageiro,
Por trilhos e veredas pelo horizonte tem corrido
Tem havido beleza no escuro, a luz do candeeiro

Que é Vista e luar para quem passa e quase vê
A noite prescrevendo o ditado do outrora dia,
É a súmula do homem ausente que em si é e sê
Não esquecendo a senda para o beijo, da magia, 

Raios de Sol e faz-se fulgente a letra do caderno,
Somos quase Deuses erguendo-se no forasteiro,
Passa o Outono, o Verão, a Primavera e o Inverno

Quase se toca à tangente a sombra do verdadeiro
Que é eu e tu, eles e nós num abraço fraterno
Num instante infinitésimo que se torna inteiro.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Quando Somos Todos Os Pores do Sol

Cobrindo a face do sol, de rostos encobertos,
A vontade de viver, a ânsia para aqui morrer,
Parece que furtaram a revelação dos tectos,
Sou apenas um homem, permitam-me ser,

Através da noite, a miséria é sombra emprestada,
Eu peço, eu rogo, eu pilho e sou submerso
Pela vontade de viver, a ânsia de morrer é dada,
Abro as feridas do lado da cama, o inverso

É alimentarmo-nos de passados, sois já idos,
Tentação, doce coração, albergues para o beijo,
A procura de fantasia, por sonhos coloridos,

Deitamo-nos no mar e permitimos a Vida ser,
Mais do que a verdade, a vontade, o almejo
Sou os pores do sol, soa a vista, sou o Ver.

domingo, 1 de julho de 2018

Tenho

Aqui, de olhos cerrados somos pecadores,
Os lençóis usados entre caminhos perdidos,
Cruzes e lajes são o silêncio destas dores,
Através de corpos convulsos, estremecidos!

O êxtase da noite, o toque da mão dada,
Um rio fluindo e nós enfim entrelaçados,
Quase amor, nossa cor era vida recriada
De momentos ausentes aqui procurados,

Beijando a chuva, a lágrima em labaredas,
A seta quebrada, eu sou o tolo de Cupido,
Por onde o passo é essa ida nas alamedas,

Indo aonde o pedido do coração é indeferido,
Ante ruelas e vielas, sendas virando veredas,
As saudades de sussurrar amor ao seu ouvido.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

E Plantamos Uma Semente

De ouvidos nesta estática, no ruído de fundo,
Vivendo em vinda, rasgando as costuras,
De joelhos arranhados, a sombra deste mundo
É enfiar a cabeça nas nuvens e ter aventuras,

Pertencentes a Ema, ao soneto de um poeta,
Esta voz gasta sob estas luzes resplandecentes,
A dor do não saber quando termina a ampulheta,
Partimos breve, somos os incrédulos, os crentes,

A noção de que o amor jaz debaixo de lençóis,
Em praias desertas, prados esverdeados, não!
Ele é mais das roxas sarjetas onde constróis

O colibri que esvoaça longe do mundo e vai alado
Por onde ninguém ousa ir, perto do coração,
Amor, para o simples amar basta estar enamorado.

sábado, 16 de junho de 2018

Escadarias

Há instantes em que somos toda a perdição,
Amor faz parte, a parte que foi ao acaso deixada,
Há instantes em que  esquecemos o coração,
Amor por vezes deixamos o passo na estrada,

E vamos indo sem desculpa ou sequer obrigado,
Tendo abrigo mas não tendo beijo ou noitada,
Amor, somos parte do resto deixado ao cuidado,
Oh amor, somos a seta de cupido quebrada,

Sentados em degraus, sem sítio para vindouro,
Procurando ruído como se um ceptro fosse,
Quando o caminho não é ruela feita de ouro,

Amor, perdidos - deixados ao acaso, ao nada
E o presente o que disse, o que foi que trouxe?
Amor, somos a alvorada um dia ida e atrasada.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Enquanto Fizer Parte de uma Estação

De dedos esticados alcançando o infinito,
Passeando onde deuses são espectadores,
Condensando estas estrofes num só grito
Que apazigua e clareia do céu suas cores,

Aos pintores do horizonte um aceno deixado,
Magias acontecem quando sem emboscadas,
Sois o pássaro azul do peito, do cá celebrado
Que é o pular dentre estas nebulosas amadas,

E somos o silêncio do segundo não acontecido,
O instante sem pertença, momento de indecisão
Onde por vida era quase encontrado e perdido

E o mundo vinha e se ia revirando este coração,
Ao vindoiro aceno e um dia quando for esquecido
Sorrirei desde que seja parte de qualquer estação.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Acorda, Acorda

Acorda, acorda, rasga as páginas doutro caminho,
És prisioneiro das salas traseiras, do teu vazio
Acorda, que importa ir acompanhado ou sozinho?
Desde que não tenhas medo de apanhar frio,

E estamos todos a meio gás, em meio sonho,
A benção, a maldição, somos donos de arrastados,
É engraçado como temos paciência, o eu risonho
Esquece-se que tudo passa, tudo é só bocados,

Quase nem sei o que é apanhar chuva, o beijo eterno
Do sono infindo, desta vez sou criança a sonhar
Com o que virá, a doença e cura em tom terno,

Acorda, acorda, a vida é ávida, passa depressa,
Levanta-te e vai por onde houver cores a pintar,
Que bom ser e passar, o que mais interessa?

Ante o Caminho Do Que Foi, Do Que Será

Aventesmas pairando ágeis entre corredores,
Sóis e Luas, confissões tornadas em sussurros,
Da envoltura dessas confidências vêm as cores
Pintando escadas para o céu e escalando muros,

Beijo-lhe o rosto, esperando pelo sono sem fim,
Vivendo e morrendo pelo tanto já aqui passado
Este é o olhar de quem aguarda o sonho enfim,
Este é o único sonho de quem se há enamorado

Por estrelas cadentes e aqui indo de mão em mão,
Isto é o suficiente para se ser aqui poeta em vida,
É o suficiente para preencher o resto do coração

De folhas caídas, contracenando com o horizonte,
Amor somos espectadores esperando pela partida
Para qualquer margem através de qualquer ponte.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Diferenciando o Procurar do Precisar

Pela noite infinda eu era apenas o viajante,
Sonhos doces eram as vozes do caminho,
O horizonte era a procura pelo distante
Que era em mim o caos deste torvelinho,

Jamais visto, próximo da margem querida,
Beleza incógnita era o singelo do abrigo,
Perecia por vielas enquanto era em vida
E a quem conferia a mão vinha comigo,

Na coroa do sol como uma sombra retorno
Ao toque de Ema, ao sussurro da alvorada,
Através do mundo vem o beijo que adorno

E eu, impreterivelmente, preso à leve pluma,
De que me importa enfim ter o lar, a amada,
Se só pretendo contar estrelas uma a uma?