domingo, 25 de fevereiro de 2018

Sou a Noite Alastrando-se Pela Luz

Este rio flui para a foz mesmo estagnado,
Sou o desencontro da margem querida,
A troca de alma por um beijo silenciado,
O embate das ondas numa costa perdida,

Preparem-se, o poeta não sabe o sentimento
Ou como o gerir pois ele é só vidraça anil,
A enxurrada cobertura para o sofrimento
Do homem que rápido vai de zero a mil,

Não pertenço ao trilho, ao sonho primaveril,
Hoje sou negro, morto, vulto pela treva fora,
Sou o monstro da noite, a emboscada, o covil

De onde vimos que enfim vamos todos embora,
Lanço-me na corrente, acorrentado, tão febril,
Que sinto falta de quem fui em esquecida hora.

De Todas As Vezes Ela É A Única Vez

Não sei se será boa sorte ou eternos trezes,
Tento não ir pelas rachas no pavimento,
Pois todos nos apaixonamos por vezes,
Há vezes em que somos só sentimento,

A lua cheia, o trilho alumiado por estrelas,
Sou soturno Domingo, é à sua memória,
Pois todos nos apaixonamos por donzelas
Que não têm espaço para outra estória,

Abrigo-me sob estes lençóis amarrotados,
Fugindo de quem preenche este coração,
Entre os seus braços, entre postais rasgados,

Meu amor, és a minha dor, és a minha oração,
Até esqueço dos passos outrora já trilhados,
Porém és de todas a única vez, a única estação.

Como Perdurar No Momento Se O Momento Passa?

As cruzes sobre a cabeceira destes berços,
Os lençóis amarrotados, leitos do passado,
O silêncio onde nossos corpos eram versos,
De um toque dado, de um lume já crepitado,

Entrelaçados, vulneráveis, as ruas transbordando,
Sombras e semblantes pela janela entreaberta,
O peso do eclipsado aos ombros aqui suspirando:
Era eu e ela numa mescla divina pela hora incerta,

O seu rosto labirinto decorado nas vielas da mente,
O seu toque moldura para um eterno sentimento,
Cada forasteiro acobardava-se no beijo ausente,

As quebras do passeio, o acenar a cada momento,
Como posso ser se sou ao instante pertencente?
“Olá, adeus…” eu sou da brisa, eu sou do vento.


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Enquanto Olho Para o Lado O Mundo Passa-me (Ao Lado)

O cansado do cansaço intrínseco à viagem,
Nostalgia de vida longe do caos da cidade,
Olhos calejados e atirados enfim à margem,
Sou a parte deixada ao cuidado da saudade,

Por onde vou cada passo é tornado passado,
Amadas desvanecem no ardor do coração,
Para quê procurar consolo num retiro apartado
Se os semblantes e rostos são para o beijo monção,

Esta é a estória de um viandante de costas para o sol,
Do menino feliz, tornando um dia, outrora, senhor,
Seria este crescimento para a sua alegria o anzol?

Ficando as rugas grisalhas e indo a manhã serena,
Eu sei, há beleza na falha, na degradação, oh amor
Há tanta estação e eu contido por esta minha pena.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Beleza É O Ângulo do Olhar Aqui

Beleza é aqui, meu amor, minha amada,
Passo eu no desencontro, inteiro e vertical,
Sim, sou assim por cada passo na enxurrada,
Deixem-me por aí em qualquer aurora boreal,

Este sorriso bendito pela arte da pele agrafada,
Se me cobrisses eu seria maior que o poente,
Perdoa, estou sob o cerúleo, perdido na estrada,
Estou algures onde só quem sabe é quem sente,

Que é do beijo, que é do segundo inesquecível,
Intenso, apaixonado, maior que este mundo,
Dá-me a não, cada instante deve ser imperdível,

Assim dita a alma do viajante, o céu profundo,
Calo-me no olhar das estrelas, eis o impreterível,
Este beijo inteiro através da pintura do segundo.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Poema do Perdão (Por Aqueles Que Não Fui) Pt. II

Salas vazias, crivadas de mim através de reféns sussurrados,
Sou um estranho familiar, um pedaço ao longo do caminho,
Cada instante ventre para a Vida, espectro para o passado,
Beijo no céu e na calçada, a vereda com todos indo sozinho,

Não alcançando o fim, a salvação é a perdição do buscador,
A combinação do cofre é a ausência de chave, é este perdão,
Não pelo que fui mas por todos aqueles que não fui, oh Amor,
És tu que me ergues pelas profundezas e cumes deste chão,

Sim, não! Talvez, nunca sem nunca o dizer, os olhos entreabertos,
As janelas para o infinito, visto-me de roupas semi-retalhadas
Como aprecio a luz destas horas ora paradas ora irrequietas,

Sim, não! Talvez, o êxtase está no sorver o dia, a noite, a beleza,
Só assim sou passageiro no carrossel e as correntes quebradas,
Um dia serei pó, um dia voltarei, apenas assim vejo com clareza. 

Poema do Perdão (Por Aqueles Que Não Fui)

Ele costumava chamar lar às ruínas da cidade,
À memória esvoaçante celebrando o sentimento,
Ao precioso momento afastado da ansiedade,
Ao beijo sem rédea, à beleza de cada momento,

Estremecendo na cama dentre lençóis rasgados,
O homem cujo amanhã era cinzeiro para o sonho,
Esperando por um nascente por dedos apontados,
Assim era a passagem de quem ia indo suponho,

Eu - o poeta incitando o universo aqui mesmo contido,
A palavra de um mundo silenciado entre as margens
De um poema que desviveu antes de ser proferido,

Sou um som forasteiro na boca de mil e uma viagens,
Hoje um velho sentado na reiteração do que tem sido,
Um semblante familiar carregado das minhas bagagens.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Amor Pelo Instante, Paixão Pelo Momento

Apresso o que não pressinto em sentimento,
Tiquetaque vem o vento, inglório passageiro,
Assim embarco e me endereço no momento,
Sou refém deste belo instante forasteiro,

Vou por onde sou desencontrado, tão sozinho
Porém assim dita a brisa que passa pelo rosto,
Nasço, vivo e morro nas réstias do caminho,
Sou de mim a fuga e em mim o único encosto,

Ninguém percebe este sorriso de sonhador
Pois ninguém é lágrima enxugada no mar,
É esta a batalha que confere ao pincel cor

E por vezes sussurra ao barco como encalhar,
Não obstante, sou fragmentos de eterno amor
E para tal basta-me querer ou não voar.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Àquela Que Outrora Foi

Ao ombro aventesmas de um dia passado,
De costas para o sol, o olhar entreaberto,
Sua mão na minha era o beijo silenciado,
A berma marginal de um amanhã incerto,

Corações apressados, o esvoaçar de marés,
As rosas no estômago, borboletas no mural,
As pegadas na areia por descalços pés
Diziam-me que éramos mais, que eras a tal,

O sorriso fulgente de um favor esplendoroso,
Seu olhar continha do céu as constelações,
Traçadas nitidamente por um olhar gracioso,

Bela donzela és a minha agonia, as negações,
A queda, a tristeza e a morte em tom ruidoso,
Amor, amor, ainda és todas as minhas perdições


domingo, 28 de janeiro de 2018

Proclamação ao Amor pelo Instante

Estes são os ecos dos meus passos na viagem,
Eu sou a tela e o pincel, o sonho do sonhador,
Sou ânsia e desejo, beijo na e pela aragem,
A parte e porção do inteiro, somente amor,

Permaneço cativo do instante que é passageiro,
Apaixonado e intenso, esta é a passeata,
Sou corola, raiz e pétala, barco e timoneiro,
Escrevinhando molduras e redigindo minha errata,

Porém ainda és tu amor a luz e o horizonte,
És segundo em mim, fragmento e fragmento,
O espaço entre margens em mim - a ponte,

Esta é a saudade do amanhã, a ânsia do passado,
És sombra e semblante dum agora, o momento,
Aqui és a única coisa que no peito tenho cravado.

domingo, 21 de janeiro de 2018

As Crianças Aladas do Nosso Peito

Observemos as estrelas enfim a colidir,
Por instantes somos irmãos verdadeiros,
Há pontes a erguer, horizontes a atingir,
Isso é muito maior que todos os cinzeiros,

Ser preenchido de confetes e lembranças,
Encobertos por toques tão fofos e leves,
Há que conceder asas a essas crianças
Pois estes tempos são rápidos e breves,

Amor é este instante neste precioso aqui,
Haja memórias e aspirações para a estrada,
São estas as cores para pintar o nosso colibri,

As luas passadas, o sois vindoiros, a esperança
De quem é suspiro ecoado entre tudo e nada,
Pouco mais sou que a poeira dessa lembrança.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Cantarolamos Constelações Aqui

Abram os olhos há notas nas constelações,
Melodias vão nas espumas das nebulosas,
Há alma, há moção e infinidades de corações
Dentre essas galáxias tão belas e formosas,

Trago beijos sob um olhar atento e preciso,
Pincéis sob dedos esticados para o firmamento,
Traçando estrelas cadentes a gesto indeciso
Pois a dádiva é permitir o agora, o momento,

Deixando um rasto cadente de quem é tocado
E toca na alvorada assistida pela cantiga
Que é vida nas mãos de quem há entoado

As supernovas e buracos negros - a intriga
Do corpo celeste a doce toques pintado
É o suficiente para colocar de lado a fadiga.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Ósculo ao Segundo

Reclinando-se sobre a poltrona ele é enfim vida,
A intempérie havia as nebulosas reclamado,
Por onde olhava não se via a costa querida
Nem os outroras que havia outrora conquistado,

Hoje sou fragmento de pé assente na estrada,
Pele enrubescida pela ambição deste poeta,
Amor não, não te esqueci, ainda és a amada
Mas amanhã já será tarde para fugir da valeta,

Amanhã é tarde demais quando passam segundos,
Eles são para mim o único sítio onde quero ficar,
Eles são para mim todo o amor, todos os mundos,

Mesmo quando para mim já não há sítio nem lugar
Terei sempre espaço nos passos dos vagabundos
Que em mim moram e me vão ensinando a andar.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Ao Beijo do Fundo do Poço

Beija-me do fundo do poço, desta ravina,
Sou toda uma sede e anseio por vida e cor,
Serei pluma a descer brevemente a colina,
Num devaneio alífero, num perpétuo ardor,

O céu e o mar retratam tão bem esse rosto,
Nos detalhes deste sorriso que os esboçam,
São nesta memória, a lembrança, o recosto
E o consolo nas ondas que as nuvens traçam,

Espero onde me deixei, num instante eterno,
Num barquinho à vela sem vento a o beijar,
Enquanto não vem a Primavera sou o Inverno

Mas pouco me importa pois aprendi a amar,
Nesse momento imanente o abraço fraterno
Ao beijo do fundo do poço que hei-de soltar.


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Há Beleza na Simplicidade

Ouvia enfim: há beleza na simplicidade,
Nas formas, nas cores, no próprio olhar,
E esse ver não olha a credo nem idade,
E ensina a quem é só aprendiz a amar,

Encontram-se por fim porções de vida,
Evita-se a mentira e até a miragem,
Beijando-a na boca ela sente-se sentida
E cada segundo torna-se nesta viagem,

A idoneidade do simples tem aqui lugar,
Há tempo e espaço no espelho a reflectir,
É até recipiente para quem a si se procurar,

O importante é o permitir, é o consentir e o ir,
Pois ao longo do caminho perde-se o caminhar,
Portanto é indispensável deixar o simples existir.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Saudade do Nunca Vivido

Tenho tanta saudade do que nunca foi vivido,
Do instante aqui ou ali enfim não cativado,
Do momento que se deu então por sumido
Quando de mim próprio me dei por abdicado,

Passageiro do além com a alegria e tristeza
Que é de quem passa sem saber bem porquê,
Cada segundo fonte imutável de terna beleza,
Nos rostos quase esquecidos deste eterno buquê,

Vejo-os em vultos e semblantes, agora tão distante
Que parece que nunca vi, nunca tive, nunca beijei,
Amor quando partir lembrar-te-ás do teu viandante,

Ou serei outra cabeça na parede? Em mim escondido
Olvidem todos os caminhos que outrora trilhei,
Este é o momento, o sofrimento do aqui não vivido.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Esperando Onde Já Não Estou, Sobre as Nebulosas do Caderno

Recedo num instante intemporal, sou ponte
Entre o beijo concedido e o outrora não dado,
Pois de todas as vezes que alcanço o horizonte
O acontecido é sempre pendente do já eclipsado,

Assim teço trechos de poesia para o sonhador,
Desconhecendo se trago estrofes resplandecentes
Ou a travos  de agonia, ódio ou imperecível dor,
Mesmo escrevendo com mil olhares em estrelas cadentes,

Vão passando dias e vou beijando o concedido,
Passam noites retornando o homem sozinho
Que persiste porém não existe fora do querido,

A ansiedade é a espera da madrugada, do eterno
Que ilude porém é dádiva para todo o caminho,
Isto é sobre as nebulosas que escrevo no caderno!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Onde os Homens se Quedam, Deuses se Erguem

Olá, lembra-te de mim como uma altura do dia,
A negritude fulgura e lateja nesta dança lenta,
Sobre o céu a lua caindo sob os campos, a magia,
Que é somente nossa é nesta solidão tão sedenta,

As estrelas recolhem-se nas últimas aves passageiras,
Arcadas até onde os olhos alcançam, indeléveis beijos,
O vento senhor e mestre, arrancando raízes, as poeiras
São as mil vontades de ser árvore ondulante, os desejos

Do poeta extirpando asteriscos desta cúpula celestina,
Sou grito na voz de quem é silêncio desaguado na viela,
Por onde for que me acompanhe a cintilante lamparina,

Lua abjuro as tuas cópias, hoje estarei só entre mim e ela,
Evanescente sempre esvaecendo, subindo esta minha colina
Que se ergue onde sou queda, porém o único pintor desta tela.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Lembranças são os Sapatos Usados que Guardo no Armário

A lembrança sobre o tudo o que tenho nesta mente,
A certeza sobre o nada que tenho entre estes dedos,
Sapatos usados guardados no armário de quem sente,
Não há lixo, não há saída, somente coragem e medos,

Deixamos gavetas abertas repletas de roupas rasgadas,
Tristezas e alegrias de quem passou e em si se encontrou,
À mercê de cada momento a momento, cadeiras abdicadas,
Noites sem dormir do instante em que a maçaneta se largou,

As fragrâncias esmorecidas, as sombras de beijos ao sol-posto,
Manhãs que vêm e passam prisioneiras do segundo passageiro
De quem em si é refém e quando o adeus tem somente um rosto,

Não há nada para lembrar, nada para esquecer, a mente é só cinzeiro
Dos apóstatas que fui, das promessas quebradas sem nenhum encosto,
Sou solidão, sou lembrança largada no eterno aluindo tal um aguaceiro.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Vejo Deus ao Espelho

Recedo ao aposento de um rei destronado,
A noite vai densa na ausência de firmamento,
Parece que cá de baixo sou somente seu bocado
E que das estrelas cadentes alcanço só o fragmento,

Do quase eterno, imortalidade num breve pedaço,
No espelho o rosto de deus na mão beijada,
A subtil ligação entre uma cabeça e um regaço,
Tenho na alma ainda a intempérie cravada,

Sozinho caminho e sou caminho para o trilho,
Aonde nos perdemos vezes e vezes sem conta,
Em brincadeira agreste buscando o ruído, o sarilho,

Então toda a pluma se torna finalmente a asa,
Então até o maior cego a si se encontra,
E o mais triste e frio lugar se torna e arde em brasa!

domingo, 10 de dezembro de 2017

Sem Sol ou Luar

A inexistência do tom da canção é esta despedida,
Tanto percorrer e ser refém da impermanência,
Não ter regaço para colocar a cabeça ou guarida,
O silêncio deste suspiro é toda a minha ausência,

Os cruzamentos tão alheios a um homem perdido,
Caindo neve neste olhar por lágrimas emoldurado,
Esta paisagem aberta, o outrora verde sucumbido,
Vem pássaro negro, quando serei enfim levado?!

Sorrio quando o sol é poente, beijando o horizonte,
Que venha a noite longa, em mim terá aqui lugar,
Porção a porção que o céu finalmente desponte,

Adeus Amor, hoje serei o que não pode aguardar,
A queda de Ícaro, as chamas ardendo a ponte,
Até breve, até um dia, dia esse sem sol ou luar.

Deitado no Mar, À Noite Serei Constelação

Um dia, quando partires leva-me a mão como lembrança,
Ao ritmo da dança sem nome, nossos olhares entreabertos
Eram a estrada, os cavalos selvagens neste peito, a criança,
O único lugar parecido com lar pelos  instantes indiscretos, 

O nascente e poente, o epítome para as noites esquecidas,
Os beijos cálidos, imersos no tão belo segundo passageiro,
Entoo a enxurrada reflectida neste olhar sob folhas caídas,
Sou refração do homem perdido no tempo, sem timoneiro, 

As ruas tornam-se vielas escuras desprovidas de moção,
O tempo deixa-me para trás, sou ilha à mercê deste mar,
Fustigado e atormentado pelos caprichos de um coração,

As ondas esbatendo na proa em instantes impossíveis de amar,
Assim me projecto no espelho do céu, terei uma constelação,
Ou uma simples oração? Já não me basta o simples bastar.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Do Tempo Que Passa Eu Sou Fragmento

O silêncio das passadas no já passado ecoadas,
Não cabem na algibeira do transeunte passageiro
Não cabem no reflexo das palavras espelhadas,
Ditas quando o Homem se tornava enfim inteiro,

Somente não mais que suspiro deixado ao vento,
Origem para as baladas, música para os ouvidos,
Lábios ofegantes e desta escuridão o renascimento
Então só dos românticos os seus sabores coloridos,

Semblantes e vultos, portas e janelas entreabertas,
A eviterna servidão do menino feito quase homem,
Segundos passando vêm nas belas horas incertas,

Quando me for, deitem confetes e deixem chover
Onde o olhar e a vista partilhada enfim somem
Pois sou fragmento do tempo que consigo conter.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Vem Amor

Vem amor, verte em mim a negra enxurrada,
Vai o poente e suspiro eu a travos de poesia,
Sê lembrança de uma vida a dois partilhada,
A prova que num momento fomos toda a magia,

Vem amor, dá-me a mão e deixa-me no caminho,
O trilho é adiante e este instante é de partida,
Esquecendo o outrora de quando não era sozinho
E tu me preenchias todo o coração e toda uma vida,

Vem amor, separemos o trigo do joio, o cruzamento
Que se afasta à estirada por cada segundo passageiro,
A viagem assim é realmente tocada e vem o firmamento,

Vai amor, somente agora enfim terei amor verdadeiro,
Ao partir, o tormento desta vida, o eterno cinzento
É a tua ausência, a distância incrementada, o bueiro.



quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O Vendaval nas Pegadas do Viandante

O nascimento do sol traz assim nova esperança,
Vem e sê o meu cobertor minha doce madrugada,
Envolver-me-ei em repouso no teu leito tal criança
Que não teme o destinado dessa margem afastada,

Acenando a mil despedidas póstumas: é o caminho,
De asas nos tornozelos e vista numa longa paisagem,
Assim em mim sou partida, quase sempre sozinho
E em mim quem foi ou será, será em mim bagagem,

Este desassossego é esta ponte entre margens, o andar,
Que é quase voo e quase afogamento no quase acidental,
Sem saber bem o que nos espera ou pelo quê esperar,

Vai indo o vagabundo entre o supérfluo e o essencial,
Desde que as noites vindoiras ensinem o que é amar
Prometo-vos que por onde for comigo irá o vendaval!

Entre O Sono e a Insónia Há Caminho

Querida insónia, impregna-me nesta subtil dança,
Entre nuvens e estrelas de outras constelações,
Brincarei dentre delas tal e qual briosa criança,
Espero que assim sejam preenchidos mil corações,

Entretanto vem o sono na ligeireza deste embalar,
A despedida ao real, aceno ao devaneio inebriado,
Exacerba-me e enfim concede-me asas para voar,
De sorriso no rosto através da terra e céu sonhado,

Diz o viandante "Os dias correm e soam só a vida,
Há caminho, sozinho ou acompanhado a resumir,
O mundo vai passando e dá-me finalmente guarida,

Mesmo sabendo que cada momento um dia irá partir,
Assim me fico entre o amanhã e ontem, nesta partida
Que na impermanência tanto me faz chorar como sorrir".

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Poema Para Quem Virá, Passa e Foi

Os seus gritos ainda presos nesta garganta,
Ainda são os Outros a puxarem-me pela mão,
Percebei eu sou o contrário então pouco adianta
Estas estórias de reis e rainhas ou da sua canção,

Vêm e vão os segundos inundados por este instante,
A tentar conter vida e o mundo a passar-me ao lado,
Em mim é a raiz, a flor, a pétala tão transbordante,
Longe de mim o ruído que me põe velho e cansado,

Embalamos este berço de sonhos num beijo almejado,
De corpo e alma, sangue e suor salteados a prantos,
A recusa a permitir este belo instante passar-me ao lado,

Assim irei pois neste caminho tenho sido tantos e tantos,
Procurando um lugar ao sol ou chuva também ao cuidado
De quem virá, passa e se foi neste peito ouvindo seus cantos.

Quando Eu Parti, Ela Ficou (Num Momento Eterno)

Aconteceu a noite caída em escura enxurrada,
Janelas sem persianas, cortinas bem abertas,
Lâmpadas a meia-luz alumiando quase nada
Para além do estranho sabor das horas incertas,

O coração palavra, nome e verbo adjectivados,
A preguiça dos dias na boémia nocturna,
Chuva negra sobre dois estranhos encontrados
Nas sombras na calçada, quase poesia soturna,

Estações de autocarros e comboios, estrada sem fim,
Até encontrar o ombro de um bom, bom amigo,
Por música, morreremos sozinhos, meio assim…

Porém hoje é tempo de viver num suspiro de vida,
Para quê tentar escolher se não há opção de abrigo,
Deixo-a num sorriso e num momento deixado à partida.

sábado, 4 de novembro de 2017

O Poeta Diz Adeus a Quem Lhe Partilhou a Mão Pt. II

Por uma fagulha de luar prometi esta mão,
Num instante passageiro beijos foram trocados,
Eu gostava dela, ela de mim, partilhávamos um coração,
E esses momentos eram sonhos muito mais que almejados,

A queda do poeta é a tênue fugacidade do amor,
Para quê ver além se tudo não passa de inútil paisagem?
Queda-se no martírio, no tormento, no próprio langor
Apaixonado por uma ilusão enfim tornada miragem,

Sozinho se faz o caminho, o semblante desencontrado,
Procurando no escuro uma fagulha de luar qualquer,
Novamente se queda o poeta por nada prostrado

Porém mesmo de joelhos vai em busca dessa mulher,
Para sempre perdido dentre o outrora sonhado
Em que um pedaço de tempo dita a linha entre a dor e o prazer.

O Poeta Diz Adeus a Quem Lhe Partilhou a Mão

Promessas de confidências ao instante passado,
Escuta-me bem, o tempo apenas substrato,
Para além do possível o beijo encantado,
Elegia vaiada por quem não vive, este relato

Somente o olhar de quem é dormida encoberta
Por nebulosas briosas, vontade de enfim respirar,
A carne sob as unhas arreganhada e desperta
Sentindo-se tocada por tudo menos a vontade de tocar,

Agora sabes que estou triste, que estou frio...
Preferes aqui o esquecimento à lembrança,
Assim te deixo ficar, tão triste, só e vazio

Por num momento nos termos deixado de cruzar,
Silenciou-se a música e a sua doce dança,
Desertaram-se as mãos, está na hora de caminhar.