quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Morro dos Ventos Uivantes: A Ela e Ao Seu Fantasma

Teremos balões e confettis à hora da morte,
Venham e tragam um bom amigo também,
Ela lívida e serena me há deixado a tal sorte
Que por instantes olvidei que ela era quem

Outrora se banhava leve nestes rectos ombros
Sorria, chamando-lhes o que sentia ser o lar,
Hoje ao monte dos vendavais seus assombros
Com seu níveo espectro a vidraça a arranhar,

Seus ecos reverberados nestes corredores vazios
Amaldiçoo-os a todos por esta insanável ferida
Enlouquecei-me mas deixai-me não restos sombrios

De toda uma viagem onde sóis o fado nesta palma
Aonde e onde não posso viver sem a minha Vida
Que sentido sequer faria viver sem a minha alma?

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Do Baile Dos Olhos Cansados: Ao Morro dos Ventos Uivantes

Conto relógios e ampulhetas até vós,
Sou os que esperam um dia aguardar,
Conto as luas, as estrelas e a vossa voz
É o único som capaz de nos despertar

Pois trago em mim os que me precederam:
Os sonhadores, os trovadores e os insanos
Que noutro dia por cá luziram e choveram
E também foram e vieram no passar dos anos,

Perdoai-me esta alma assente no pé-coxinho
Neste ósculo ao baile dos olhos cansados
Vamos indo e não indo doce e devagarinho

Com meias de lã, sapatos de chumbo e esta fome
Por nossa dança tão delicada, tão sem cuidados
Onde todos dançam e ninguém sabe nosso nome.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Aquela Valsa: Ao Pé-Coxinho

A valsa ao pé-coxinho é na vida
De salto em salto a pé descalço
Mal alcançámos somos a partida
Onde o presente é um meio passo

Entre o petiz menino e a menina
De pestanas cobertas de estrelas
Que avivam a luz da lamparina
Luzindo através das tristes ruelas,

Bordado nos vultos da noite passada
O viandante é o seu próprio caminho,
A tela daquele tudo e do outro nada

Lado a lado vai ele e o passarinho
Sendo ele em cada beijo à estrada
Tão e tão só ao olho do torvelinho.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Entre Aspas: O Ponto e as Reticências

Acabámos antes de começar,
Descontínuos no tão completo
Que terminámos antes de acabar
Na entrelinha maior do axioma incerto,

Do finito ponto as eternas reticências
O entretanto entre o plural e o singular
A linha comum em perfeitas tangências
Entre o respirar fundo até à falta de ar,

Além do escuro, através do terno Amor
Os gradientes da luz no oblíquo aguaceiro
Onde ambos são contidos em prazer e dor

Tal a mais formosa flor cultivada num cinzeiro
Ornado gentilmente pelo Sol cujo nascer e pôr
O dois nunca e sempre relembra - do um ao Inteiro.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Um Pouquinho Mais Pt. III: Imagina

Imagina um pouco mais e muito mais pode ser…
Preenchido de coisas que ocupam o espaço,
Socorríamos o luar guardando-o em nosso ver
No espaço do fundo da algibeira e ao pedaço

Que é espaço, que é o tempo entre nós os dois
Porém se é tempo é reunião de outros segundos,
Será ele espaço de tudo o que foi e no depois
Indo e vindo no rodopio ao périplo dos mundos?

Tantas páginas que foram ou não aconteceram,
Hoje a lua é seu reflexo na rua e no firmamento,
O que as estrelas dos trovadores cá enalteceram

Revelando sete mil amores rumo àquele belo luar,
Imagina-os nas linhas do caderninho e o cinzento
Torna-se o pouquinho de cor que é boa de se dar. 

domingo, 19 de maio de 2013

Um Pouquinho Mais Pt. II e Menos: Sempre É

Um pouco mais e muito mais e menos seria
Todo esse imenso nada envolto no bocado
Onde pacientemente aguardo aquele dia,
O dia quando enfim voltaremos ao prado,

A vida é louca correria, a vida é terna espera,
Eu à indentação desta breve viagem deixado
Com fulgor obtemos cautelas para a primavera
Do dia quando enfim voltaremos ao prado,

Um muito menos e pouco menos e mais seria,
Nada desse parco todo envolto no fragmento
Que sou e ao qual pertenço em subtil harmonia

A procura do meio do pouco e do muito é eldorado
E nesse mais e menos somos todos o eterno momento
Onde ainda virá o dia quando enfim voltaremos ao prado.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Um Pouquinho Mais: Então Muito Mais Seria

Um pouquinho mais e então muito mais seria
Algo diferente que jamais algures tenha sido,
Um píncaro de estrelas, uma pitada de magia
Eis a poção que nutre o homem recém-nascido

Cheio de coisas que são o espaço na algibeira,
Espaço esse que agora é este relógio entre nós,
Errámos para onde a casa não é em tal canseira
Que da ária que era nossa se apartou a una voz,

Destes lábios juntos, toda a embriaguez e perdição
Do olhar do poeta e de sua esperança e almejo,
Quão ansiava desejar, quão queria o sim e o não

Para reter no frasco que tragava a cada lampejo,
Aspirando e respirando para o poder dar a mão,
Resfolgado e viandado neste tão breve versejo.

domingo, 12 de maio de 2013

Sobre o Inteiro: E o Destino no Caderninho (Entre Luares e Dias de Verão)

As suas lágrimas caiam mais do que páginas havia,
Eu - as frágeis letras delicadamente escritas a azulino,
Sem fim, embaladas por ela que era a Lua desse dia,
Esbranquiçadas a azul onde imperava o sonho coralino

Nocturno e submerso, impelido através dos abrolhos
Linha a linha através da entrelinha de um dia de verão
Por onde já havia alguma poeira a cansar estes olhos
E a fatiga da viagem esmorecia o ânimo de dar a mão,

Contudo não desistíamos não, várias páginas faltavam,
Talvez alguns sorrisos algures a serem impressos também
Aí sabia que por vós em mim as brumas cerradas recuavam

Para ver o esbelto semblante desse cativante alguém,
Que me há cativado no escrito que os passos ansiavam:
Entre nebulosas e buracos negros por onde o Inteiro é além.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

... E O Rapaz Pt. V: Que Olhava Por Estes Olhos

Através do rio onde se espelhou outrora
O olhar reflectido era diferente mas igual
Na íris trazia os pincéis das cores da aurora
Iluminando nas mãos abertas um coração tal

Que o mundo ao vê-lo parava na precisa hora
E o velhote enrugado ficava catraio pequeno
A brincar com bola colorida no que era lá fora,
Sorrindo não pelo olhar mas pelo Ver enfim sereno,

Ssh! O mundo sempre discursa nos pequenos nadas,
Para o escutar é preciso parar e nosso ruído silenciar,
E… aceitar cada brisa suave e as tormentas danadas

Como prémios e ornamentos a este breve caminhar
Até mesmo as cicatrizes nas pegadas atrás deixadas
As aconchego bem perto do peito num irrestrito amar.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

... E O Rapaz Pt. IV: Que Deixava o Colibri Acontecer

Era a melodia da caixa de música entoada
Pelas persianas entreabertas um pouquinho
De nada mais e seria um pouco mais que nada
Pois no que aqui é enfim deixarei voar o passarinho,

Que sou eu e é de todos por isso a ninguém pertence,
Por vós e eu esvoaça ele através da brisa e tormenta,
Que ele aconteça planeado há quem ainda tal pense
Não percebem que o ruído deste mundo o afugenta,

Que ele detém a única vera politica, religião e filosofia
Aquela de quem é nos braços da brisa e a bem aceita,
Por vezes é a Lua invernal mas há vezes em que é dia

Então é a pluma no ar do colibri, a melodia que a enfeita
O sorriso do Sol, o beijo e o anzol numa sublime sinfonia,
E aí sim, é Magia... Nesta união que vai para lá de perfeita.

terça-feira, 7 de maio de 2013

... E O Rapaz Pt. III: Que Viandava Através da Estrada Branca

Se em vez de Lua fosse aquele outro dia
Colorido a crayons e embebido em poesia
Se em vez de pouco fosse só o bocadinho
Que juntava duas almas num só caminho,

Se em vez de lágrima fosse o azul do céu
E lá em vez da nuvem parda fosse só eu
Envolto pela noite alta na voz do trovador
Através do silêncio que é Sol e resto de cor,

Se em vez do destino fosse apenas a estrada
E de tudo um pouco quisesse pouco ou nada,
Sempre tão perto e longe à berma da viagem

Sem origem ou destino e sendo tão só à passagem,
Por aqui vou viandando sempre e sempre adiante
Até que o que era fica aqui enfim em mim distante.

sábado, 4 de maio de 2013

… E O Rapaz Pt. II: Que Colhia Faúlhas Uma a Uma... Uma... A Uma

Em admiração ele observava atento o firmamento
Algures por lá Ema bailava insciente à desfolhada,
Pequenas faúlhas caiam em oscilante movimento
Colhidas pelo rapaz deitado à berma da estrada,

Cada rodopio era rascunhado a régua e esquadro
Sendo em papel de marca de água por ele pendurado,
Suas mãos tinham nascido para pintar o seu quadro
E o seu olhar para verter em memórias o tão ansiado:

A melodia que era dela e que era sua pertença também,
Às vezes lamentava cada pestanejar pelo então perdido,
Ela era a visão estranha tão familiar, seu tudo e seu ninguém

Onde o resto passava e raramente ficava após ter partido,
Porém ele era enamorado por ela e por ela cativo e refém
E era ela a ocasião nele emoldurado e no seu olhar retido.

... E O Rapaz: Que Vivia Sob as Estrelas Cadentes

Encontrai-o em sítios abertos e arejados
Onde se ouça o cicio do ribeiro aligeirado,
Das estrelas revendo em si mil bocados
Aqui por fim e finalmente reencontrado

De pés descalços a beijar a relva verde,
O rosto delineado pela brisa da viagem,
O sedento de tudo enfim de saciada sede
Prostrado à lua nova pela breve passagem

Agora ele vive, finalmente ele é na Vida!
Não há tormenta ou sequer bruma no olhar,
Há um brilhozinho tornando a viagem sentida

Aqui finalmente, por fim e enfim basta o bastar
E quando a brisa o beijar em terna despedida
Que se lembre que um dia soube... ele soube ficar.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Eu, Tal Orfeu Pt.III: Saltitava, Submerso no Viandante

Aquelas eram as noites dos três murmúrios distantes.
Esboçando sorrisos suspirava através da branda brisa
Que rodopiava em espirais por escadarias ondulantes,
De mãos e braços esticados à Lua estava Rosa - a poetisa.

Ema espreitava, porém raramente olhava para baixo,
Saltitava de nuvem em nuvem sempre amorosa e ligeira
Confundindo-a com Orfeu apenas algumas pegadas abaixo,
Esse viajando dentre avantesmas largando o trilho à poeira,

Por vezes tomava Rosa por Eurídice e invitava-se ao escape,
Essa fuga era para o Sonho de Ema ou para o sono de Rosa,
Que nem Ícaro esvoaçava desenfreado entre Vénus e Marte,

Arrebatado ele era o pouco demasiado, o poema em prosa
Em vagão destravado, o caldo entornado no que é à parte
Nesta propensão à grande ascensão e à queda buliçosa.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

À Brisa e ao Mar Pt. II: A Aldeia da Criança e do Velho.

Hoje não, não haverá o vulgar alarido da mente,
Ela é aldeia e sossego situada em lugar incógnito,
Envolvida por água cristalina iria contra a corrente
Porém não hoje, hoje não há lugar para tal frémito,

Hoje são, são passarinhos a bailar e flores a crescer,
É hora de apanhar e soltar borboletas após o beijo,
Até quase caio na tonta ousadia de voltar a crer
Que o Universo é tão sublime tal e qual como o vejo,

Tudo é maravilha quando envolvido em mãos de criança,
Este olhar torna-se pólen voador, sorriso e bola de sabão
De lado para lado nessa tão esporádica e delicada dança,

Tão sincera como a lágrima que lhe delineia o semblante
Que embala o velho para o sonho nesta bonita canção
E que à chegada ambos acomoda dentro do viandante.

À Brisa e ao Mar: (Em Maresia) Pintando Escadarias para o Céu

Aqueles eram os tempos do não olhar para trás
Deslizávamos distraídos atrás do candor da maré,
Nossos lábios entre o azul e o vermelho eram lilás
Tolhidos pelas suaves ondas contudo em tal banzé

Que Deus era através de nós e nós éramos através dele,
Seguindo o Sol fazendo escadarias para o horizonte
Poucos percebiam o precioso sorriso que era daquele
Instante cativo e que de resto era a nascença da fonte,

Vinham as planícies, os vales, as montanhas e os penhascos
O viandante apenas era quando a brisa se reflectia no rosto
Cujo melífluo sabor preservava num multicolorido frasco…

Para tragar pela viagem e para beber o outrora eclipsado,
A berma da estrada para a cabeça era aprazível encosto,
Para sorrir e chorar às pegadas, para sustentar o ansiado.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Ao Sono: Pois Permite a Concretização do Sonhado

O recosto da almofada dá este dia por acabado...
Assim cedi, eventualmente sendo pela alvorada
Entre o despertar e o acordar então retratado
A pinceis suaves e borrões de sulcos da estrada

Que tudo me dão e que neste ir nunca dão nada,
Há portanto de aproveitar a brisa desta paisagem,
Respirá-la, senti-la e sê-la por onde ela for levada,
Da alta e baixa sou e faço parte tal como a folhagem

Que esvoaça e é pisada porém de vista no horizonte
Vale sempre a pena, vale sempre a pena quando se é
Pois o tudo e nada são irmãos que precisam de ponte

Para tudo o que é e certamente foi e talvez um dia seja
Em mim… sempre enfrentando o céu e o abismo até
Que durma… Perceba o porquê… e que enfim Veja.

Truz-truz-truz: ... Assentado

Este sono é pertença entre pálpebras semicerradas
Onde os cantos das paredes escutam as confidências
Feitas ao rosto da lua quando só a lua nova é escada
Para o sublime pincelado onde se esboçam as ausências

De quem por lá passou e ora as desceu ou então as subiu,
Deixado para trás ficou o aqui neste ténue almejo suspirado,
O sonhado concretizado que este olhar um belo outrora viu,
Gentil e suave, como batidas sobre o caixão levemente baixado

Truz… truz… truz… seu semblante é neste tão formoso sorriso
Chorado por diferentes segundos alguém num dia já percorrido
E tornado passado em tal rapidez através do meandro indeciso   

Que por vezes até duvido que a Vida tenha realmente acontecido…
Vem sono, traz-me o Sonho, da sua concretização ainda preciso
Pois o ser na Vida para um dia beijar bem a morte assim faz sentido.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Por Mundos e Mundos Pt. II: Aonde a Brisa ou a Tormenta o Levar

Através da vista onde ainda a trago, revisto a vida,
Seu reflexo é óbvio no sincero beijar do beija-flor
Que traz o coração à flor, dá-lhe cor e à despedida
Não pergunta se deu ou recebeu pois ambos são amor,

A brisa é a passageira por onde ele esvoaça alado,
Há mundos e mundos todavia apenas um beijar,
Ao vê-lo no ar dá para apontar o rasto deixado
Onde rodopia e parte pois ainda não aprendeu a ficar,

De instantes vem a espera, o esvoaçar e a nova partida,
Para esquecer as gotas do tempo que bebia outrora
Fazia por deslembrar aquelas três palavras na Vida,

Tentava e estrebuchava, tentava e cambaleava torto,
Ferido, compreendia tudo, percebia todos e à demora
Do tempo o mundo não passava e ele tombava morto.

Há Mundos e Mundos: Porém Apenas Um Beijo do Petiz Beija-Flor

“Olá, Eu Amo-Vos, Adeus”: quando o dia termina
Soluços pendem aquelas palavras e frases inauditas,
São nos restos fragmentados que ofuscam a lamparina
Que se prostra de joelhos a vida face às horas malditas,

Já nem apetece respirar ou escutar o bater do coração,
A criança que catraiava jaz neste seu vil silêncio interior,
Visito-a por vezes nos riachos onde tento dar-lhe a mão
Onde raramente sei se a deixo ir ou a embalo num cobertor,

O beija-flor raramente repara no que é na sua proximidade
Contudo quando beija uma, ela torna-se no seu amor, seu tudo,
A sua saúde por aquele sorriso, das suas lágrimas - a enfermidade

Porém nada, nem este céu em redor delas ou a sua cor são meus
Tenho sempre em mente que a brisa passa por aqui sobretudo
Por isso ao vê-la sempre digo: “Olá, Eu Amo-Vos e Adeus”.

Sobre o Reflexo: Através da Vista Onde a Trago e o Revisto

Aproximai-vos e espreitai para o espelho
Através do canto deste plácido olhar,
Dizei-me, vislumbrais o miúdo ou o velho
Que este rapaz foi e que um dia se irá tornar?

Ou vedes o instante neste actual presente
Por vezes invocado pela noite infinda
Outras onde é o abrir da aurora luzente?
Quando o partir tantas vezes soa a revinda

Ao sítio donde partimos naquele outrora
Polvilhado na vista, no reflexo inda vos vejo,
Trago-vos em cada olhar por cada arquejo

(…em cada agora…)

Seremos o reflectido ou aquilo que supomos (Ser reflectido?)
Ouvi! Parti todos os espelhos e nesse lampejo
Que eles nos mostrem por fim quem somos.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Sobre o Coreto Onírico: … E as Pegadas na Areia

Meia pegada deixada no rosto da areia,
Aqui somos o fragmento do dia incompleto
Pela noite dentro o avistar da luz encandeia
Vacilámos pois errantes na ausência do coreto,

Uma pegada dada, de pé em pé a salto
Aqui pulámos e andamos ao pé-coxinho,
O mundo precipita-se em imenso sobressalto
Hesitámos sim… mas vamos indo devagarinho,

Duas pegadas na areia e deslizámos enfim,
A viagem é a brisa no rosto e o vento o rasto
E que frescos ambos são ao passar por mim,

(Agora…) Quatro pegadas eventualmente serão uma,
Cobrirão então toda a porção deste areal tão vasto
Sim, ainda voaremos leves no adejar dessa pluma.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

As Suas Flores Pt. II: De Instantes Vem a Espera

Pensávamos no imaginar tanto e tanto maior,
Mesmo quando éramos tão e tão pequeninos,
Os pedaços que éramos também eram no beija-flor
E passavam por nós e pela aragem aos bocadinhos,

Silentes e pelo silêncio em tal alarido estapafúrdio
Além do que era, era o beijo de semente a semente,
Em nossos bocadinhos deste nada e naquele tudo
O que nele era, tanto e tanto ainda era no ausente,

Do coração enfim a parar, o saber não conseguir estar
Passava tudo, passava tudo, passava tudo e nada era
Como eu naquele momento e no seu instante ao luar…

Como o Sol eu a perseguia… tal como eles, eu à espera,
Ter esses instantes, altos e belos nesta parede a ornar
O mais do que tudo aquilo que ali parecia... oh quem dera!

As Suas Flores: Eram a Gota do Tempo

As suas flores eram as minhas horas
A gota num imenso oceano de sede
Onde os segundos esperavam auroras
Então encurraladas no quadro da parede,

E eras a água pelos desertos esfaimados
Onde jaziam os desejos feitos de tudo,
Para tocá-los faltavam beijos e bocados
Dos fragmentos feitos deste olhar mudo,

E o passar não passava obstinadamente
Então nada mais passava ou era passagem
Para além do que era para lá da mente,

Era assim o tempo em porção de aragem
Onde o sonho esquecia meu nome finalmente
Aonde suas flores eram estes beijos à viagem.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Eu, Tal Orfeu Pt. II: Deslembrámos As Três Palavras

Três palavras que completem esta trova
Que concedam descanso a esta insana lida,
Que sejam a terna almofada, manta e alcova
Que soem ao retorno ao lar, à costa querida,

Aqui não tem sido a Vida ou a Morte a pulsar
Tem sido o meio-termo de vista semicerrada,
De punhos fechados que esqueceram o abraçar
Da eternidade imensa do sonho na vista almejada,

Que eternidade terá então o instante esvoejante?
Tudo parece ósculo de colibri à chuva e ao sol
Encurralados por garrafas donde bebe o viandante,

Azuis, tal como as três palavras que ainda aguarda
De dedos esticados e braços abertos à luz do farol
Pois da névoa para ele... elas são o seu tudo... o seu nada.

sábado, 6 de abril de 2013

Eu, Tal Orfeu: Após Eurídice

Há segredos que nem as paredes devem saber,
As esquinas já os conhecem e já os esqueceram,
Há becos e cantos cuja passagem é o perder
Dos passos atrás dados e o que estes souberam,

Era ela, sempre à distância de um longo suspiro,
Beleza em frágeis delicadezas adiante projectadas,
Para lá dos degraus aonde suave e lentamente espiro,
Algures… as suas pestanas por estas eram beijadas,

Agora são esqueletos no armário e monstros sob a cama
Daquele cujos lábios amontoam fracções de constelações
Ora tornadas na aventesma que este nome ainda chama,

Frágil e delicadamente ecoa e ecoa numa suave lentidão,
De olhos bem fechados passam não passando as estações
Pois o tempo não é tempo aquando da bradicardia do coração.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

… e o Mundo Parou e Disse: Viandante És o Espaço

“Viandante tanto e tanto tens viandado
Que já nem sabes o que é estar como eu,
Tanto riso e pranto aqui tens partilhado
Que do que tens dado ignoras o que é teu,

Indiscretos, serão imensos os pequenos nadas
Erigindo um castelo que rascunhe partes do céu,
Serás ainda a saudade nas ocasiões não passadas
E o tempo escondido na tribuna de quem é o réu

Entre e onde a terra se mistura com o firmamento
Sendo o horizonte que a todos toca e a nenhum chega,
A aparente linha que se divide a cada novo momento

Onde o tempo passa parado, aguardando por nós,
Sem tirar ou dar pois somente o partilhar sossega
O espaço maior que o imenso e que dele é a voz.”

Aos Amadores: Esses Poetas Disfarçados

Não ao Amor de acordo pré-nupcial esterilizado
Feito reciclável e cómodo para sacos de plástico,
Aquele que à meia-vida é o reboque ou vem atrelado
Pois não é Vida nem é Morte, não é o ser no fantástico!

Pretendo apenas daqueles amores loucos e impossíveis,
Daqueles mesmos enfermos que saibam à doença
Que torna os ligeiros contos em factos indiscutíveis
Pois um dia ao olhar para trás serão a única pertença,

Torturado morrerei por cada beijo a rosas deixadas para trás
Somente assim saberei o quão curta e bela é esta Vida,
Os veteranos da Guerra das Flores raramente terão paz,
Porém almejá-la-ei com o peito todo fazendo-a sentida,

Ao longe vejo as pessoinhas de batas e luvas brancas ao peito
E sinto honra de ser pelo tão obviamente ridículo e patético,
Sem utilizar diminutivos para a Vida em fôlego rarefeito
Ou vulgarizando o coração de namorico em penico,

Outros riem-se de dedos apontados às próprias costas,
Não sabendo que desta maldição sou o abençoado
Pois à passagem das ruas, dos vales e das encostas
Do trilho esta é a única coisa que o torna digno de ser pisado.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Para Além do Eviterno: O Que É Que Fica?

Aqui, esta almofada é o ombro ansiado,
Brilha por nós quando a noite é branca,
“Já falta pouco” – dizia em tom sussurrado:
“Esta é a respiração que o mundo estanca,

Só mais um pouco, só mais um bocadinho
E acordaremos para a jovem e moça manhã
Tendo a batida do coração o único caminho
Verá a noite reconciliando-se com a sua irmã”,

Ainda a chuva caí mais do que aqui brilha o sol
De amores perdidos e horizontes por alcançar,
Indecisos conhecendo a ausência que é farol

No nevoeiro do beijo que no eviterno perdura
Pois sem ele jamais saberei o que é o beijar…
Peço ínfimos eternos até à vinda da sepultura.

terça-feira, 19 de março de 2013

Um Beijo: Ao Céu Que nos Abriga (E a Tudo Que Contém)

“Se te traçasse as galáxias escusas em meu olhar,
Envolvê-las-ias?” - suspirava Mirto face à bela Oressa,
Enamorando-se das estrelas em pincéis feitos de mar.
- Rascunha novamente Ema na noite antes que alvoreça!

“Pois este aqui vai passando por cada novo palpitar”
- Elevando sua mão do azulino em busca de beleza
Por vezes recolhia-a outras não lhe conseguia chegar,
Eram grinaldas de luz, ofertas de Ema em tal delicadeza

Que em mente, sabia que ela era maior que todo o Universo,
De que para o Inteiro não há preço e que bom é sonhar
E conseguir retornar o sonho ao plano infinito de um verso

E que imenso privilégio é poder dar, dar, dar, dar, dar!…
Pois eu sou o resto e o resto passa mas deste nosso berço
Há refulgências e o beijo às estrelas ainda permite voar.