quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Sonho Despertado: Pelo Sono Não Acordado

As paixões que têm sido no sonho despertado
Porém acordadas a sono pela curta madrugada
Tenho sido eu claro e pela luzência ornado
Ou sua ausência por sua fragrância almejada?

Ela prolonga-se na alvorada da noite infinda
Por numerosas paragens ao longo destas vidas
E por cada passada, por cada resfolgo ainda
Pergunto onde estão minhas amadas queridas,

Diligentemente refulgindo sobre o triste carreiro,
Não julgando e abundantemente me osculando
Tornando este Ver enfeitado por esse aguaceiro

Por favor, em súplica permanece aqui até quando
Não houver mais sonhos despertados pelo nevoeiro
Destas Oressas que em exíguos nadas os vão tragando.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

As Alfaias de Luz: Colhidas Por Mãos Tão, Tão Pequenas

O nosso caminho é sempre outro
De terra batida ornado por alfaias
E ontem quem o passava era doutro
Segundo eu passageiro de idas atalaias

Vígil, sua beleza tornou-se a travesseira
Recolhida por mãos tão, tão pequenas
E beijada pelo atento fundo da algibeira,
Soando a Amor retocando brisas serenas

E sorrindo por sua melancolia, seu pertence
Eram os dias através dos dias que vinham
Numa envolvência de um sonho parisiense,

Seguiam-se as suas pisadas, no céu ecoadas
Para um dia voltarem onde dantes pertenciam,
Sendo nas fulgências das estrelas relembradas.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Seremos Pt. II: Parte do Mesmo Jardim

Irei confessar-lhe hoje de meu imortal amor
Olhando seu reflexo em minha atenta vista
Pois algumas vezes, uma flor não é só uma flor
É rebento de cor em qualquer sorriso que exista,

Nas pétalas deste jardim há restos de seu perfume
Todo o meu ofegante oxigénio e ansiosa perdição
Pois à vista daquele seu esbelto e doce deslumbre
Reconhecia seu semblante como minha fracção,

Em fragmentos de morrinha sob o azulado da lua
Fechava eu então sonhos ornados por nós dois
Suspirando para cima qual nebulosa seria a sua

E o que o despertar deste sonho revelaria depois
Porque olvidei este palpitar ao reverberar da rua
Que perverte e dissipa o anseio que em mim sois.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Eu: Este Entretanto entre os Invernos e os Verões

Têm passado os serões,
Tenho sido seu entretanto,
Levando Invernos e Verões
E ao escutar de seu encanto

Tem sido este breve esplendor
Ao oscular das noites e dos dias
Que têm sido em mim, em Amor,
No entretecer de várias melodias

Que já nem só preenchem apenas
Agora também ornamentam o Ser
Nas grandes coisas e nas pequenas,

Aqui têm trilhado estas temporadas
E sido a cor que pinta este belo Ver
Por cada uma das vistas pinceladas.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Esta Insatisfação é Calmaria e Tempestade: Só Pretendendo Tudo e Nada

Estes anseios e paixões são nesta insatisfação
Por tudo e por nada desde que ambos sejam
Pois o que fica após a passagem da estação
Para além das marcas d’água que aqui latejam?

Ao palpitar do segundo viandante no tempo
Há calmaria no olho do torvelinho, devagarinho,
Docemente, sempre rumando em contratempo,
Esta onda flui através do azul luzente do barquinho

Porém esta tanto nos aguarda como se escapa,
E quem não aguarda por sua própria chegada?
Tanto que ao seu vislumbre redigimos nossa errata

De viscerais paixões e anseios caindo como neve
Em semifusas por vincadas ou ténues pegadas,
Deixando-as ser, aceita-as, o destino assim as transcreve.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Esperando: Pelas Filhas do Sol (As Irmãs de Ema)

Por vezes fechar os olhos tanto apetece
E esperar, esperar que o dia enfim apareça
Pois quando tal coisa simplesmente acontece
Abstraio-me daquilo retido naquela promessa,

Ou seria a penhora vinda de um imenso deslumbre
Entre entes não humanos, maiores do que a vida,
Pergunto se o Sol anseia tanto por seu vislumbre
Como quanto persegue sua Lua há muito perdida,

Por seu toque, seria o único a torná-lo completo,
Nunca haveria amor mais belo do que aquele
Sim sei, este caminho para promessas é incerto

E perante suas filhas é vê-las, ansiá-las e querê-las
Nesta ausência serena, ajoelho-me ao brilho dele,
Que elas me abram os olhos cobrindo-os de estrelas.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Ema IX: Não me Deslembres

Ema, ainda relembras o olhar que hoje te beija?
Aquele que ontem te esculpiu a partir de luzências
E reflexos da água para o céu que tanto almeja
Minha ida para teu lado por estas confidências...

Que... Suspirei à brisa renascendo no insone poema,
Por réstias de loucura plantei a mais bela das flores
No firmamento nocturno, és os sonhos desse diadema
Alumiando tudo o que é segundo e ainda arredores

Daquilo que trago nesta algibeira rumo ao silente,
As folhas esvoaçam ao passar do sempre-ausente
Cercado por sorrisos moldados a lágrima azulina,

Enquanto penumbras vêm oscilar a luz da lamparina
Desta breve, breve viagem essa é uma das certezas
Porém não temerei, ela serei eu pelas profundezas.

Por Janelas de Vidros Azuis Pt. VI: Só Mais Um Beijo

Apenas mais um beijo e após serei a partida
Somente em vosso regaço a encontrando,
À sua ausência sou porção desprovida de vida
Em cambaleio vacilante os dias arrastando,

Sou... Sou aquilo que é quando o nada acontece
Sendo vós e vós em mim parte sempre cativa
Porém quando o silêncio é voz por vezes parece
Que não há destinatário para esta terna missiva

Nem coração análogo ao que dita estas palavras,
Através de janelas de vidros azuis beijo o pavimento,
Não há terra, céu e luz apenas mais e mais adagas,

Enquanto houver praias ansiando outro semblante
Sentirei vossa ausência neste soturno sentimento
Que é quem sou quando quem sou está distante.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Brinde ao Desengano: As Duas Faces Ausentes

Os escritos interiores das pálpebras são o Sonho, o Pensar,
É insone aquele que não despertado para o sonho
Passa toda uma vida alheado por seu próprio passar,
Pensando no pensar e pensando sonhar ser risonho

Pois quem não imagina estar acordado no nevoeiro
Semicerrado e por ele cercado? Quem não imagina
Imaginar ter luz no olhar que nem um altivo candeeiro
Quando por ela é cegado e encoberto por neblina?

Que por vezes ensina que a cinza é o breve meio-termo
E de quem é o não ser, apresento-vos: o louco insano
Sonhando e sonhando, louco e por sua ausência enfermo,

E ambos ausentes do tido como real, nenhum é humano
Pois nenhum recuperou do éter e plantou aqui seu termo
No jardim terrestre num derradeiro brinde ao desengano!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Deixando: o Passeio Pela Rua

Em pálido caminho a estaladiças folhas forrado,
No suspiro ainda trazia o anseio de uma viagem,
Largando o passeio e sendo pela rua albergado
Nossa silhueta era então encoberta pela ramagem

Que murmurava partes das vozes já proferidas
A folhagem por elas vestida deste percurso sabia
De outros nomes e suas sombras aqui imbuídas
Interrogando até quando teriam em mim estadia,

Quando só o céu tem caminho para enfim andar,
Pouco é o que não sabe a meio, meio pouquinho,
Não preenche bem a ampulheta nem sabe a amar

E às vezes parece apenas outro passo neste caminho
Que ecoa no espaço vazio destinado ao despertar
Que é olvidar a rua pelas asas deste meu passarinho.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Seremos: Parte da Mesma Praia

Ela era a amiga dos pássaros e da brisa,
Confundindo a brisa com a suave maré
Para e em mim dedicada por essa poetisa
Pelo decair das cadentes a meu rodapé,

Todos os dias eu adormecia na mesma prece:
Ser na sua praia que o era pela noite adentro
Do que fora ou que é, e até o que não acontece
Nessa sua praia que era a noite, era o firmamento,

Contava em murmúrios os grãos de areia entre nós
Amontoando breves chilreios e pedaços de vento,
A areia eram as estrelas ditas em silenciosa voz,

Como uma balada, e caíam neste anseio sonolento,
Para sempre, para sempre aqui não estaremos sós,
Aqui seremos parte na fracção do mesmo fragmento.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Por Janelas de Vidros Azuis Pt. V: Ao Partir o Barquinho

O seu ombro era a costa deste barquinho,
Todo o mundo, o oceano aonde navego,
E ao tocar seus lábios perfumados a linho
Esta alma e coração eram num belo sossego,

Sossego esse pintado no olhar dos poetas,
Em pulsação trémula quando acontece
Este desencontro sob a sombra de silhuetas
Cujas fragrâncias esta ânsia ainda entretece,

Apoiada no contra-senso da impermanência,
Este fôlego respirado é ténue marca de água
Suspirado ao vazio preenchido pela ausência

De quem para o que é, é ao longe e há partido
Ficando ou indo eu no barquinho pela frágua
E ao partir, perguntar-me se hei mesmo vivido.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Entre Nós: Toda a Distância do Mundo

Conto o intervalo deste espaço, errante
Entre nós temos toda distância do mundo
Porém a lua está de facto brilhante e eu radiante
Pois algures sei que suspirais radiância neste segundo.
Aqui tenho sorrisos e flores 
Para todos os meus idos amores
Que tenham encontrado o seu tesouro
Onde não aparentava haver algum ouro
E que seus olhos brilhem muito mais agora
Do que alguma vez brilharam na minha presença,
Sim sei, afasta-se o tic-tac daquela nossa hora
Portanto no tempo detenho a cela e a sentença,
Pois a noite e o dia são minhas testemunhas
De que partilhei todas as flores e mais algumas
Por vezes até mais do que alguma vez pude
Porém sei, o quanto o relembrar ilude,
Que uma flor não é só e apenas uma flor,
É um toque, um beijo… é um nada, é Amor.
No espaço só nós dois e ao seu breve sussurrar
Então perdia-me nos cabelos que eram seus
E o tempo era somente nosso para partilhar
Eu amo-vos tanto meu amor, até já… adeus.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Busca: Pelas Palavras Perdidas

Ando em busca das palavras perdidas
Aquelas que ninguém disse ou escutou,
Que não foram no saudar das despedidas
Aquelas que o crescer ao tempo olvidou;

Almejo-as… no suplantar desta voz para lá
Da distância que separa todo o surdo,
Pretendo sua sonância aqui, agora e já
Pois este espaço entre os uns é absurdo,

Deveria ser outra marca d’água no antes,
O cais que aos belos acolhe da tormenta
Ou então o breve olhar entre dois amantes

Que num segundo revela a vinda e a partida
Exprimindo em voz alta a estrada cinzenta
Na busca das palavras que significam vida.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Aqui Resumido: Os Caminhos Tomados e os Não

De todos os que sou ainda mais é em mim,
Foram os caminhos tomados e renunciados
Que adornam e enfloram este círculo sem-fim
Pois de cada novo dia novos eus são achados

Aqui - os caminhos sucessivos já percorridos,
As impressões das pegadas ao longo da viagem
Através das margens pelas orlas dos seis sentidos,
O que não foi é em nós numa contrária miragem

Nos vestígios do passar dos dias deixados ao acaso
Até pelo trilho não tomado há a breve caminhada
Para o que é, premeditado do nascente ao ocaso

Aqui ainda haverá espaços para a janela fechada
Quanto à porta escolhida, ela ter-me-á em seu prazo
Até que talvez se torne noutra estrada não tomada.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Ao Belo Momento: Que Esteja Sempre Connosco

Daqui cinco horizontes são nesta vista,
Eu pertenço ao que se estende acima
E abrange tudo o que além de si exista,
Esse longe é o que de mim se aproxima

Retornando a centelha fulgente ao aqui,
A original do retrato das viagens imensas
Através da orla estelar e das nebulosas em si
À qual pertenço e em mim são pertenças,

Ao que é agora e hoje, cultivo o desapego
Com todo o Amor que há neste firmamento
Pois se neste mar de impermanência navego

O que é aqui, amanhã poderá ser só vento
Porém que sublime será, trazer-me-á sossego
Por ter soprado e sido comigo num belo, belo momento.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Por Janelas de Vidros Azuis Pt. IV: Ao Conforto do Frio

Este é o dia-a-dia do sempre ausente
Aguardando no conforto que há no frio
Até vir sobre as nuvens o rosto confidente
Que através destes vidros vem sempre tardio,

Ao entardecer os vidros azuis eram as demoras
Que nem as trémulas pisadas dadas por Orfeu,
Sempre em frente porém ao passar das horas
Questionava-me qual a parte deles reflectia eu.

Há demasiado frio, enregelado no rosto do espelho
Agora há que olhar para dentro, largar o que foi,
Então virá luz e sol partilhando-se com este velho

O rascunho de sua vida nesta eterna história a dois…
Por fim há calor e sua cor a íris em nós reconstrói
No único beijo verdadeiro, a morte pode vir depois.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Ao Vento Seremos: A Distância

Do que outrora fora dois num lugar
Com luzes trémulas - ficou a intenção,
Dita em confidências ao rosto lunar
Onde perdura o resto da nossa mão,

Agora que venham os beijos do vento
Que ele soletre docemente este nome
E quando chegar o dia pela noite dentro
Se lembre... e este olhar de silêncio se tome,

Não erigirão estátuas com as nossas figuras
Nem contarão histórias através dos tempos
Perpetuando este Amor em belas escrituras

Não… Seremos cativos de diferentes ventos,
Soprados em distintos sítios às bermas escuras
Tardando no reencontro e por Amor sedentos.

domingo, 7 de outubro de 2012

Eu Nasci: Para Amar Magia

Não, não nasci para o cinzel de ruas estreitas
Arqueadas através dos prédios de asfalto,
Nasci para ladear as estrelas e em colheitas
Retornar aqui o seu brilho bem lá do alto

Onde as flores não são bem, bem flores
E o silêncio é um discurso bem partilhado
Onde não há malicia nem demais dores
E há verdadeiro amor sem se ser amado,

Fatiga-me a pressa da comoção insanada
Desfilando agitada através das sombras
De quem vendeu Amor à longa jornada

Pousando a cabeça ao luxo das alfombras...
De que me interessa este culto do nada?
Aqui somente os bem vazios ensombras.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Aceitação: Do Que É, No Quase Eterno

Encerrai-me em vosso abraço de beleza,
Eterno serei vosso tal como sempre fui
Pois deste fluir neste mar de incerteza
Este colorir esse envolver ainda possui,

Esboçando no retrato uma única imagem,
A águas de ontem num moinho transparente,
Reflectindo as pegadas de toda uma viagem
Para sempre no sempre e quase eterno assente,

É terno pois traz o desmaiar do esquecimento,
Assim tenho sido o vislumbre daquilo que pinto:
O sussurro da viagem na brevidade do momento.

Aceitando-a tal como é, simples e sincera em vida!
Seu retracto um dia serei, obviamente mais distinto
Então sim, há que nos render ao que ela convida.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A Alma: Em Suspiros Endereçados

Sob estes pés tenho sido a calçada,
Em rascunhos deslizando no papel,
Numa rua cinzenta e não ladrilhada
Cujo passar se resume a este infiel

Hálito largado ao esmo do outono
Pois nesta bela e melancólica balada
Semeia-se o sonho e ao não vir o sono
Permanecemos... Neste meio tudo e nada

Que serena e apoquenta tal crença ansiada:
"Sussurrará ela este nome ao adormecer?"
Suspirava ele pelo seu à leda alvorada

Até regressar a ânsia de por ela morrer,
Em mim, por ela - essa donzela amada
Por quem alegremente daria seu ser.

sábado, 29 de setembro de 2012

Adeus: Costa Querida

Adeus... Adeus minha costa querida
Trazer-vos-ei em lembranças suspiradas,
Haveis-me pintado os sonhos de uma vida
Logo sereis em mim na parte das amadas,

Adeus... Adeus minha costa e seu farol,
Chorar-vos-ei ao passar das estacões,
Da margem tocada pelo nascer do sol
Até ao assentar do luar noutros serões,

Adeus... Adeus minha costa bela e tardia
Que acolhas barcas que vos elevem deveras
E vos toquem bem fundo como quis ou queria,

E a tal sentimento meu até podeis questionar,
Pois sabei que tenho sido navegado pelas eras,
Sabei que apenas parto pois nunca soube ficar.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Neste Leito: A Queda de Estrelas Cadentes

Os trilhos cruzados são as estrelas do tecto
Que têm caído neste leito onde sossego,
Com o indicador vou traçando seu trajecto,
A seu toque ora as aceito, ora as renego.

Adormecido, a brisa soletra-nos o nome
Através do semblante por fim discernido,
Deste caminho somos nós o seu epitome
Cruzando o trilho pelo poente embebido,

Lá que nos aventuremos neste entretanto
Onde as estrelas cadentes adornam o ser,
Que ao cair sejam elas nosso contracanto,

Podemos dar as mãos, apenas caminhar
Até não haver mais estrada para o fazer,
Então será simples, poderemos enfim voar…

domingo, 23 de setembro de 2012

Aqui Pt. VI: Nossas Lembranças Têm Sido Estas Asas

O poente do sol aconchega-se do cais
E estas asas repousam esfalfadas enfim
Pois seus voos têm sido em cenários tais
Que de tão longe se retornaram em mim

Num trilho de penas esvoaçando à janela,
Cobrindo lá fora uma vereda embaciada,
Será que teriam também passado por ela
Ela, aquela a quem esta poesia é enviada?

Mudas caem à aragem estas suaves penas
Traçando nossas almas num esboço perfeito
Do olhar coincidente a este em tantas cenas

Que só tenho sido no voo e esquecido o andar
Pois Amor, se não tenho vossa mão neste peito
O que restará realmente para eu aqui voltar?

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Aqui Pt. V: Doce e Lentamente

Nestas águas cristalinas aqui me banho
Lavando o rosto e ansiando de joelhos
Pois ao reflectido relembro um estranho
Que outrora acenava de passados espelhos

Escoados ao silêncio, escutando a marejada,
Resposta ao demasiado e mais que aspirado
Ao poema que se perdeu nesta caminhada
No sonho que não cede e jamais será curvado,

Nestas águas eles fluem rumo à sua estiagem
Limpando faces por cristais ao seu vislumbre
E esse toque é da primavera ao resto da viagem

Erigindo-se a um pedestal por esta água corrente
Que ao comum transeunte é ainda o deslumbre,
Ao longe me virei à distância, doce e lentamente...

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Aqui Pt. IV: De Lágrimas e Sorrisos Convosco

A sede é nas lágrimas e o sorriso no riso
Desta margem serei a vossa espuma,
Nesta praia deserta o solo que ora piso
Não sustem o peso que inda vos perfuma,

Além oceanos e planícies apartados vejo
Rodopiando-se ao toque do zéfiro alado,
Sei não adiar a cinza deste agridoce almejo
Porém por meros instantes estou ao vosso lado,

A esse encontro não posso de todo faltar
Pois vossa ausência minha escassez aqui é
E num suspiro serão as ondas meu novo lar

Que seja breve, tal como esta lida passagem
Agora entardeço no acolher da terna maré,
Abrigo para e em mim, serei enfim aragem.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Aqui Pt. III: Na Margem Serei a Vossa Espuma

“Troco uma promessa amorosa por uma vida”
E deixámos para trás o farol em busca de luz,
Enfermo, refreio amor como fardo e asa querida,
Em poesia… através de praias desertas nesta cruz

Do viandante por onde o viajante já se transviou
De vossa espera, minha eterna e imortal amada,
Que provavelmente já foi ou ainda não chegou,
Anseio por vosso semblante, em mim sois ansiada

Um oceano aparte, que esta mão vos alcance
E em seu meio que nos descubramos numa ilha,
A tal reencontro que o sentir enfim se esperance.

Hemos completado o fragmento que a si se trilha,
Repousai dentro de mim e enfim num súbito relance
Eis que a espuma retoma o corpo que o céu perfilha.

19 de Setembro de 2012

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Aqui Pt. II: Memórias do Céu, Mar e Terra

No espaço onde o mar se prostra de joelhos
E a terra o saúda com seu afectuoso envolver,
Revejo-me aqui em incontáveis meios espelhos
Que traçam este semblante porém não este Ver,

Assim as ondas esmorecem ao beijar a margem,
Não reflectidas, amparam-se no ombro da areia
E abdicam de seu Amor, dissipam-se na paisagem
Vertendo-a em mim enquanto o oxigénio rareia.

Dormente, perco-me na terra no meio do verdume,
Aprendo a caminhar e eventualmente a vaguear
Por trilhos cruzados porém sinto do céu seu ciúme

Que relembra que já lhe pertenci, que já soube voar,
E lá partilhávamos o essencial num doce ardume
Que era todo o Sonho e Crença e para mim lar.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A Ema VIII: Um Dia Sim, Ela Virá

Seremos nós os sóis que têm passado
Ou então a sua luz que em nós ficou?
Mas se de sombras ainda estou cercado
O que será que o tempo deveras deixou?

Para lá deste anseio por verdadeira beleza,
Sob a forma desta exigência tão impaciente,
Que ecoa e é ecoada no pináculo da incerteza
E enfim vertida neste mudo semblante ausente,

É Amor, o verdadeiro, que os sentidos pasma,
A almejada ideia envolvida nesse terno abraço
Que embala e adormece o acossador fantasma

Da sua ausência, no ombro suave do que será
Fragmento de mim encostado em seu regaço,
Que durma bem, sonhe muito pois um dia ela virá

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Quedado: Afastou-se-me o Estio

E lá fomos indo antes mesmo de termos ido,
Ao que foi e poderá ainda ser já não o sei
E se neste breve presente caminho fugido
Apenas a brisa vadia sabe o quanto suspirei

Por sua presença, perfeitamente esculpida,
No cimento da areia encoberta por lágrimas,
Para quem esse toque é maior do que a vida
E esse sorriso precioso para findar estas rimas,

Enfim, reparando na falta de sílabas e de ditongos
Eis que finalmente desliguei a luz, apagando a vela,
Afadigado por este trecho através de vales longos

Quedei-me, rascunhando na margem de nosso rio,
“Amor, hei penhorado meu amor” e nessa escapadela
Ao longe, do silêncio aproximou-se enfim o final do Estio.