terça-feira, 21 de maio de 2019

Ao Que Em Mim Foi Passageiro

Trago nas mãos o que em mim foi passageiro,
A beleza e a melancolia do momento tocado,
Até ao rosto do horizonte serei eu o primeiro
Ou apenas outro forasteiro nunca chegado?

Por onde passo deixo um trilho de segundos,
Eu sou quem por eles um dia foi passando,
Perdido no ruído do caminho e seus mundos
Tanto correndo impaciente como esperando,

O meu coração trago em baú de tesouro,
Para quem o encontrar num dia d'ouro,
Partilhei tudo o que me pareceu bem partilhar,

Assim como beijei quem me pareceu bem beijar,
Agora que o passo anterior já se torna passado,
Espero por cá ter sido, ter existido, ter estado.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Na Vista de Uma Criança (Antes de Ela Partir)

Deitado no colo da primavera tal criança,
Pela encosta a Vista de um longo prado,
É o instante que vem e que com ela dança
Embebido pela Lua, atento e deslumbrado,

Assim encontro galáxias e suas constelações,
No céu tudo é verdadeiro gritam as estrelas,
E eu, sou trovador e explorador das estações
Apenas pretendendo ser irmão de todas elas,

Serei com a criança revestido por momentos
Onde o olhar é encoberto pela abóbada celeste,
Alcançando o toque a milhares de firmamentos

Em inocência, um dia dando ao velho este lugar,
Que vá enlevada, encantada e a sorrir ao cipreste,
Que nós saibamos partir pois nunca lá iremos voltar.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

A Recompensa Para Quem É Ao Segundo

Pretendendo ser tudo vou aqui sendo ninguém,
Observando-me indo entre esta rua e a vereda,
Ao mero transeunte não deixo o meu desdém
Pois todos merecemos luz, a divina labareda,

Então aconchegado na Lua e o seu eterno embalar,
A aprendizagem de quem há pouco tempo chegou,
Esta necessidade de ir além, de ser e de esvoaçar
Que separa o que ainda há-de vir do que já passou,

Encosto-me ao ombro de quem é passageiro silencioso,
Esta voz só ouvirá quem aproveitar o segundo precioso,
A fonte e o manancial da criação, do sonho e da poesia

São parte de ninguém, são beijo para o trovador, a magia
Que trago dentro da passagem das horas não é pertença
É bênção Universal, compasso para o horizonte: a recompensa.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Olhando Para Trás

É a delicadeza ténue de um rosto tocado,
Frágil, sentado numa cadeira abandonada,
Vestindo as roupas de ontem e arrebatado
Vendo os sinais indicadores, a seta quebrada,

Então relembro, sem moção, outros instantes
Em que era quase poeta, trovador e até Orfeu,
Sim, passam rápido esses tempos ora distantes,
Como passam esses segundos através deste eu,

E Amor éramos nós de mãos dadas ao caminho,
O refúgio para a tempestade, para o eu sozinho,
Nem de olhos fechados me daria como perdido,

Nem o clamor de mil vozes removeria o proferido
Pois mesmo vindo o fim do mundo e a sua teia,
Teria no fundo do coração ainda a mesma ideia.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

O Sonho Por Trás Das Pestanas

Sim, há o sonho encerrado por trás das pestanas,
Beijo oblongo à passeata de uma Vida almejada,
O sorriso rasgado de uma qualquer hora insana,
Assim se erguem os deuses na sinuosidade da estrada,

Dormitando num fulgor de uma esquecida alvorada,
Vem o brilho da aurora, cúmplice deste único plano,
O conseguir abrangir o horizonte numa assentada
E alui-lo num mergulho vertical, tornar-me o oceano,

O imaginar é gota d'água caindo em miríade eterna,
Salva-vidas ou naufrágio para quem não sabe nadar,
Na escuridão o compasso é o fulgor da vossa lanterna,

Procurando o sono, fecho os olhos numa dança delicada,
De coração aberto, eventualmente saberei o que é sonhar
Pois este é o único momento para voar e a ter como amada.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Um Dia Será Hoje

Aqui espero a Vida, aproveitando o momento,
Pois cada dia é hoje, pretendo ser para ele tela,
No corpo tatuado a passagem, o acontecimento,
Porque fora os instantes de bruma, a Vida é bela,

Por isso dou a mão a quem por mim vai passando,
O sorriso assim é, mesmo quando a lágrima é vertida,
Um dia será hoje, amigos é preciso cada hoje ir amando,
É preciso ir e beijar esta passagem assim fazendo-a sentida,

Pois sim, sabemos que o tempo passa e as rugas se afloram,
Que então um dia a olhar para trás as mortes enfim morram,
Não nascemos para ser fantasmas de quem não soube passar,

Porque somos o Universo em beijo dourado, somos poeira estelar,
Não importa o buraco negro intermitente, a quebra do coração,
A pretensa é amar cada passo conferido de estação a estação.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

O Caminho Para a Minha Distância

Sim, este é o caminho para a minha distância,
O suspiro do instante que ainda não chegou,
Nessa forma encontro conteúdo, substância,
Para o segundo que em mim ainda não morou,

Pois se caminho sombra há em mim do passado,
Há mares e mares entre mim e a margem querida,
Se regresso vai-se o beijo que tenho partilhado,
Em abrigo ou naufrágio, na hipótese concedida,

Essa arte do desencontro que trago neste olhar,
Parte da terra que pisada, de mil e um regaços,
Se um dia escorregar e o trilho alfim for e passar,

Que entre mim e o horizonte haja poucos espaços,
Pois há tanto caminho e a distância para caminhar
Que por vezes parece não haver suficientes passos.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

O Poema da Solidão

O ermita sozinho rumando errante ante o trilho,
É a solidão sua amante, o presente sua ausência,
Da noite feita e caída ele é então o beijo e o filho
Para quem passa por ele, aí a sua eterna carência,

Escorre sim chuva sobre o seu rosto, isto posto,
É ele perdido após o que foi e o antes de o ser,
Apartado retiro, o escape para o inicio de Agosto,
É importante o passar para além da neblina e ver

Que no momento lúgubre há beleza, há imensidão,
Sem meandros, a clareira para quem pretende Vida,
Para quem se cansou de andar sem qualquer noção,

Para quem almeja ir e alcançar a margem querida,
Aos transeuntes passageiros mostro-vos esta solidão,
Perfilando ao que determinado instante a mim convida.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Após A Tempestade Vem

Por entre lentes diáfanas passam rastros de estio,
Qualquer tempo é tempo de ir um dia chegando,
É preciso ir sem medo para preencher este vazio
Que na esquina da ruela vamos alfim deixando,

Acordo no despertador da ponta de um compasso,
Escrevendo um poema para quem ficou para trás,
Se entre nós houver distância haverá sim espaço
E eterno fragmento para preencher as horas más,

Mesmo na solidão e incerteza, há toque e grandeza,
Para ser inteiro e único e ter alívio para o enfermo,
Que da fragilidade venha a fraqueza e nessa fraqueza

Encontremos toda a força, o ciclo infindo e sem termo,
Assim a infusão no firmamento esvaecendo a tristeza,
Para por fim poder plantar flores em qualquer lugar ermo.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Indo e Ficando, Chegado Sem Partir

Vem e fica, é Abril e chove o mundo neste regaço,
Flui um rio em leito frio, procurando a sua foz,
Celeremente vem o Universo e num breve abraço
Sou mais do que alguma vez fui, sou a única voz

Que pela estreita passagem da Vida perscruta,
Tão atento à água límpida, a noite sobrevoando,
Suave e docemente vendo o que o beijo escuta,
Hoje sim serei Serafim, hoje abrir-me-ei amando,

Tatuado na alma entre eternos sulcos vincados,
Bocado a bocado viajando entre seus cabelos,
Pelas delicias dos céus rendido a deuses ornados,

O percurso é a estrada que passa sem abrandar,
Se ainda houver Verões a ideia será então tê-los,
Para ir indo sem jamais partir mas um dia chegar.


terça-feira, 16 de abril de 2019

Há Que Dar Asas Aos Filhos do Sonho

Tacteio o Sonho como se fosse uma donzela,
Recordação para o infinito tido num momento,
São as noites e as suas cores que fazem da tela
O espaço suficiente para em si ter todo o tempo,

Fragmento, raiz dos meninos por mim perdidos,
Lembra-me um Sonho lindo em mim à desfilada,
E nós vendidos, somos os órfãos outrora esquecidos,
Caminhando ao relento, ao verter desta enxurrada,

Entre margens, o barqueiro é o náufrago e o navegar,
Mesmo que entre as ondas por vezes não saiba estar,
As vagas azuis boquiabertas investindo nesta maré,

Sou eu em mim escondido, ainda sonhando estar de pé,
Marcha-a-ré e o olhar fechado é catapulta para o navegado,
Há que dar asas a estas crianças e ao objectivo imaginado.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Quando a Noite Sem Fim Passa

O despertar da noite sem fim, vem enfim o clarão,
As pálpebras entreabertas para este horizonte,
O dia a despontar sem receio, a dar-me sua mão,
Já parece até que o sonho é, o sonho tem fonte!

Vertendo-me caio entre o fulgor da aurora, a beleza
Encetando a bruma, visto-me com os raios solares,
Aluindo entre nuvens celestes vai-se esta tristeza,
Não estarei mais quando lá por mim procurares!

Entretanto as estrelas esvaecem neste firmamento,
Então chegou enfim o instante, este é o momento,
Entre a Terra e o Sol contemplando esta passagem,

Respirando bem fundo, preenchendo-me de aragem,
Sim de segundos sou passageiro sem um objectivo,
Espero alcançar o presente pois o resto é subjectivo...

Enquanto Destes Pulmões Houver Folêgo

Clandestino dentro do contorno deste semblante,
Jornais velhos esvoaçando ao abrigo duma cidade,
Apela-me a noite entre nebulosas e eu hesitante
Pois se fosse pluma seria então fardo na sanidade,

Esfregando o olhar e procurando a bela Primavera,
Quase sonho com o beijo que é poesia no presente,
Por vezes há dias que chovem e a noite é efémera
De momentos para reter ou largar ao fogo latente,

Pois tudo é ausência quando acordamos de manhã,
A enxurrada incipiente lava-nos ao de leve o rosto,
Essa é a regra aplicada ao ontem, hoje e amanhã,

E já agora, enquanto tiver por cá, serei a guarida
Para quem em mim habita de Setembro a Agosto,
Enquanto navego por mundos explorando a Vida.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

A Cidade a Matar o Sonhador

Pizarro matou Inti e com ele todos os filhos do Sol,
O mundo escalavrou-se e em chamas se envolveu,
Oferecendo uma serenata em segunda mão tal anzol
Para quem anseia amor mais do que a si e alfim morreu,

Escravos para o relógio, fantasmas cinco dias por semana,
O Sonho adormeceu e à realidade cedeu para por aqui ficar,
É este cinzento citadino a envolver os ósculos de porcelana,
Quebrando-se, um a um, esquecemo-nos o quê é que é amar,

Civilização é aberração, os pais são meninos ainda por nascer,
Procurando luz onde feneceu o grão estelar que um dia brilhou,
A vida deveria ser tanto, tanto mais do que o simplesmente viver,

Por onde passo suspiram os outros que por aqui jamais passaram,
Estas ruas são mesmo ladrilhadas por quem por aqui jamais ecoou
E eu, somente um estranho familiar cujos dias nunca começaram.

Os Mortos Que Trago Aos Ombros

Estes são os mortos que vêm de mão dada,
Eu sou mausoléu e sepulcro para os partidos,
Talvez sonhe sobre negros sonhos de enxurrada,
Escutando por longos monólogos ainda sentidos,

Vejo-os através do canto do olho rapidamente a passar,
Num cemitério o fantasmagórico e funesto casamento
Entre os mortos que fui e os vivos que hei-de alcançar,
Pois quando chegar esse será de todos o testamento

Aqui deixado por um coração pulsante ainda a pernoitar
Por um instante que algures também deixou de acontecer,
Trago aos ombros estes mortos apesar de ainda respirar

Trago-os no peito, ao abraço assim reflectidos no viver
Pois quando partir e da terra me retornar enfim ao ar
Esses mortos serão tudo o que nesta vida soube ser.


terça-feira, 9 de abril de 2019

Quando Somos Toda a Distância do Mundo

Sim, quando somos toda a distância tida no Mundo,
Não há tempo, só espaço para um silêncio contido,
Ecoando lentamente um suspiro em poço profundo,
Murmúrios enfadados de um lugar então já perdido,

Pergunto aos Deuses qual fortuna para mim haverá,
Quem me dará a mão para alcançar uma nova manhã,
Tenho noção de que o tempo é um carrasco tão cruel,
Rascunhando fundas rugas no rosto tal folha de papel,

Ícaro e Orfeu sabem da procura e do anseio que é meu,
Pois vão passando sóis e subo escadarias rumo ao céu,
Amor és fantasma, espaço vazio entre estes frios braços,

A mudez do coração apunhalado em mil e um pedaços,
És ausência de sonho, a doce memória quase esquecida,
Todo o espaço entre nós, morte vinda, morte e não vida.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

O Idioma do Viajante

O ecoar de um silêncio tornado quase indiferente,
Uma leve estrofe proveniente de indefinidos traços,
Nela o coração batente de quem de si é remetente,
O arauto de uma ideia ida de intermináveis abraços,

A procura está na busca por uma verdade escondida,
Na mudez da noite retida no olhar de uma criança,
Enfim suficiente para dar a Lua quase como obtida
E para terminar com beleza esta final e última dança,

Gotejam tal fontes os olhos de distanciados amantes
Pois ainda sabem o sabor que há no sal dos oceanos,
Lembram o quão importante é aproveitar os instantes,

Conferir aos olhos a beleza existente em cada aroma,
Envolvendo o quebrar do coração em suaves panos
De quase a chegar e quase a partir, esse é o idioma.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Aguenta Amor

Persigo o amanhecer sobrevoando pela estação,
É de dia e perscruto a noite as estrelas indagando,
Trilho a trilho vou através do breu esticando a mão,
Aguenta Amor, eu estou partindo, eu estou chegando,

Por onde vou ouço ao longe a luz diurna a fenecer,
E eu ainda caminho, quase o horizonte alcançando,
Pois o não caminhar é simples sinónimo de morrer,
Aguenta Amor, eu estou partindo, eu estou chegando,

A estreita passagem é obstáculo para quem muito traz,
É ele o cego inebriado as supernovas ainda observando,
Pelo compasso do relógio, pela direcção das horas más,

É de estrofes e versos que fica o coração transbordado,
Para o caminho, por um beijo deixado algures para trás,
Aguenta Amor, eu estou partindo, eu estou chegando...

quinta-feira, 28 de março de 2019

Sou Pássaros Esvoaçando...

Sou pássaros esvoaçando pela paisagem,
Cabeça procurando abrigo em belo regaço,
Ao esvaecer do sol no horizonte, a imagem,
Fica na mente concedendo tempo e espaço,

Sou pássaros esvoaçando sempre através do alado,
Sem tempo para protelar com esta humanidade,
Do júbilo à acalmia de olhar bem atento e calado,
Sou filho dos deuses e nos deuses tenho a orfandade,

Sou pássaros esvoaçando felizes e tristes no coração,
Evitando assim a chuva e a lama própria da estrada,
Suspirando cada vez que vem alguém e lhe dá a mão

E pouco depois parte sem lhe pedir ou exigir nada,
Sou pássaros  procurando onde pousar de antemão,
Sou pássaros voando tentando ter a vida aproveitada.

Sou Pertença do Outro Lado

Serei sempre quebrado, serei sempre partido,
Perdido entre o que sou e o que não pude ser,
Amor, não é que não tenha desejado ou querido,
É mais que não sei sequer beijar ou talvez reter,

Sentido saudades de mim como sem existência,
Algures entre a margem que piso em ausência,
Beijando a chaga do coração ou apostema aberto,
Passam as horas enquanto trilho passeio incerto,

Agora sabes que pertenço àqueles do outro lado,
Que apesar de ir sou ainda fragmento, sou bocado
Quase deixado à brisa e o entre nós e não obstante

Este anseio de poder alcançar e enfim ser alcançado,
Pouco me importa o resto caso não seja importante
Se não for suficiente para preencher cada instante.

terça-feira, 26 de março de 2019

Vivendo no Passado na Ausência de Futuro

Há ao lado da cama uma ferida ainda aberta,
Entre os lençóis amarrotados na hora incerta,
Pergunta quem se entrelaçará em vosso abraço,
Será somente a saudade desse esbelto regaço

Que dirige os sentidos para a noite sem fim,
Enquanto me procuro aqui, dentro de mim?
Assim descubro que sou figurino na sua vida,
Sou gente passada e pela escuridão envolvida,

Entretanto as vielas chamam o nome do desvalido,
Amor porquê? Para mim próprio já nem sou querido,
Alfim recolho-me sob o Luar de um segundo passageiro,

Deixando este coração receder na negritude de um bueiro,
Parece que por fim já não há mais estrelas para numerar,
Parece que aqui não temos mais novas marés para remar.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Que Haja Sempre Vento Sob Essas Asas

Tropeçando em fragmentos de estrelas, ofegante,
Roupas usadas trajando cadeiras por pó encobertas,
Os esqueletos no armário tal lembrete para o instante,
Seus nomes ainda suspirados por janelas entreabertas,

Ao longe vão murmurando por entre o verso e a trova,
Calcando poças feitas de sonhos provendo a realidade,
Que não falte uma ideia e que esta brilhe tal supernova
Quando apenas restar uma escuridão ocultando a beldade,

Pois por vezes chove, outras faz sol, é este o eterno carrossel,
Vem o Inverno e vai o verão ornando em anos o semblante,
Conseguis entender-me quando grito desta torre de Babel?

Para quem nunca viu é sim esta a força que arrasta o vento,
Pois que me arraste a mim também para a pradaria distante,
Para lá do horizonte e que após a morte venha o nascimento.

quinta-feira, 21 de março de 2019

A Mancha do Coração

Sendo profuso ou obtuso de mancha no coração,
Sorrio desfocado e não há quem confira a mão,
Pois andamos perdidos, errantes pela estrada,
Pretendendo um pouco de tudo, tendo nada,

Passando por último na meta de uma ida Primavera,
Eu não pertenço a este mundo, eu sou de outra era,
De quando havia romance e era Vénus no regaço,
Um beijo na cara era suficiente para dar embaraço,

Pulsando e latejando ansiando por aquele perfume,
Trazendo no peito de Orfeu todo o fogo e ardume,
Então para quando uma estrela somente para nós?

Que jamais se olvide seu ímpar instante, a única voz,
Tudo o resto é levado pela maré retida no instante,
Suficiente para separar o indispensável do irrelevante.

sábado, 16 de março de 2019

Como Uma Vida Sonhada

É preciso viver sem esperar pela alvorada
Pois a morte vem vindo bem devagarinho,
Há muito estou pronto para subir a escada
E para lá das trevas voar que nem passarinho,

A passo pautado ouço a morte além da porta,
A imortal dança entre o eviterno e o instante
Que vou trazendo no palpitar desta aorta
Ora tutucando ora próximo, ora distante,

Por vezes perdido na implosão desta supernova,
Esquecido pelo trilho estelar que me deu nome,
É esta a melodia do poema, a miríade, a trova

Que ora nos maldiz, ora nos permite em benção,
Desde que fiquemos com rasto candente do prenome,
Estou pronto para partir desde que à luz do coração.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Um Fio de Prata Para Um Pedinte

Atirando um fio de moeda de prata para o pedinte,
Seu cabelo prateado a única salvação do presente,
Chegamos ao manjar dos deuses que rico requinte,
Quando o que ansiamos era tudo menos estar ausente,

Incógnitos, conhecidos, amigos, amores e desconhecidos,
Passando o mundo e esperando que o amanhã regresse,
Pois entre os lençóis fui deixado, por lá fomos esquecidos,
Alfim vem a lua sobre o jardim que a lagoa beija e entretece,

Para quê tanto ruído se de silêncio sou alarido? Desapegado
Ao permanente, o beijo da sua boca, soa a pouco, a bocado,
Sobrevisto e revisto, revisitado e abandonado, ouve-me Amor,

Sem a prata do seu cabelo cessa a vontade de viver, vai a cor,
Uma corda ao pescoço, este pedinte voa! Enfim venha a fadiga
Pois do sonho estou cansado, que se silencie a voz e a sua cantiga.


sexta-feira, 8 de março de 2019

De Suas Costas Jazem Mil Valas Comuns!

Este é um precipício entre a maré-baixa e a montanha,
Eu ouvindo ternamente as dunas e aquela sua melodia,
Num cinto de ervas daninhas e espinhos tal artimanha,
Onde jaz o fantasma que é e assombra a hora deste dia,

Os prados ondulam na brisa como os cabelos da donzela,
Entre as lajes de mármore de onde se erigem os panteões
E eu com os olhos tão repletos de magia ansiando por ela,
Insciente às valas comuns dos anteriores, de mil corações,

Troncos cinzentos erguendo-se desta floresta abandonada,
Vem a noite e vai o dia, e eu sentado esperando a alvorada
Que seria um beijo único e irremissível, pelo colo e sua mão,

Oh seriam mil sonhos sonhados, o alcançar o céu, o perdão
Do poeta por escrever sobre o seu horizonte sem o alcançar!
Oh fosse ela a reciprocidade de um doce louco a tentar amar!

quarta-feira, 6 de março de 2019

O Círculo do Eu

O refúgio para o brilho das quatro estações,
O poente deste olhar que é vista e moldura,
Sou eu e vós o pincel de mil e um corações,
Aquele livre sonhador que da Lua se pendura,

Embalamos quimeras numa cadeira devaneada,
E com o pé na estrada, uns ficam e outros vão,
Não obstante o caminho que entre tudo e nada
Concede cor e asas ao tremeluzir da constelação

Que erigimos na lágrima e no sorriso, o relance
De um vulto tornando-se finalmente semblante
São os gritos emudecidos de um perdido nuance,

Tantas vezes reencontrado no rosto do espelho
Mesmo que por vezes esteja tão e tão distante,
Em súmula, é a criança retornando-se ao velho.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Fecha os Olhos e Sê A Vista

Somos cerúleos ante o eviterno sem fim do firmamento,
Somos aquele único beijo, somos o seu único momento,
Amor é aqui, o abraço entre briosas supernovas, o peito,
O latejo retido para além do maior parece-me tão perfeito,

A obstrução ao nocturno, aquele sussurro que não tem fim,
A escrita sobre o rasto cadente até o princípio em mim
Pois quando eu vou e assim fico e se pavoneia o mundo,
Eu sou a parte de mim que é sempre aqui neste segundo,

A algibeira do colibri indo assim ingénuo de flor em flor,
Tal o primeiro raio de sol no parapeito da manhã delicada,
Do simples ao complexo detalhe, sendo aqui enfim amor,

Pois somos pássaros engavetados navegando entre estações,
As lanternas mágicas largadas à noite tornando-a estrelada,
Vós sóis quem lhes dá guarida ao abrigo dos vossos corações.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

... Sobre O Rasto Cadente do Firmamento

Estas páginas são sobre as pegadas deixadas na areia,
E também sobre o belo rasto cadente do firmamento,
Relembram que o que excede por vezes até rareia
Pois tudo é matéria e onda - aqui tudo é momento,

Trago sonhos para os insones com um pouco de magia,
Beija-me e sente o Universo, a procura pelo eviterno,
Esta sede de Infinito é tristeza com píncaros de alegria,
Amor é cada passo pela viagem - o abraço fraterno,

Por isso parto para um dia regressar, indo e vindo sem medo,
Através de janelas de vidros azuis eis o regaço da enxurrada,
Indo em frente ou para trás por vezes sem trama ou enredo,

Desde que permita à Lua e noite sentir-se para sempre amada,
Este é o trilho estonteante da Vida na ponta desse dedo
E estas são as tuas estrofes cadentes largadas à estrada.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Nos Seus Cabelos Há O Havia

A poesia existente na ponta dos seus cabelos,
É suave, meiga e terna, relembra o outrora lar,
Ensejo divino, feito de veludo ou auto-flagelos
Porém é paragem e até sítio, é conforto, é luar, 

Recordo esses belos cabelos num dia de verão,
Ao peito do sonho de quem mais ousa o recado,
Oh como eles deslizavam pelos ombros, pela mão
Cuja mensagem era simples: silêncio tornado,

Hoje finjo e amaldiçoo quem me toma a cadeira,
Tal sussurro primaveril, a vontade é de pertença,
Sou eu a criança preta no abismo tal brincadeira

É a vida verdadeira o inimigo da vera crença
Pois deixamos para trás os beijos sob a Oliveira
Por isso de mim próprio fiquei para trás tal doença.