quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Primaveras sentirão a minha falta

Quando partir; as Primaveras entoarão minha falta
(Sei-o perfeitamente, mas… alguma vez cá estive?)

De cabeça na palha, o enegrecer do dia, luzente,
A compartilha alífera, singelamente estonteante,
Na entrega e recepção do caça-sonhos inacabado,
Aquele que não conseguia albergar toda a luz solar;
Rememoro a busca e encontro da estrela comum,
No meio de milhares, nossos olhos coincidentes
No mesmo ponto tangível, éramos magia genuína;
Indaguei os céus no dia seguinte, apontando-a sozinha,
Trazendo-a na algibeira, convicta de sua especialidade;
Sítios diferentes, caminhos divergentes, perdi-a enfim.
Alienei o que nos unia, a única estrela comum.
Nossa bela e exclusiva estrela. Nossa…

A dor da cativa, não cativada, aprisionada em anseios
Beijos a todos, o simples toque de todas as suas palmas,
Atravessando-os e dissipando-me em seus bateres,
Bailávamos lestos até aos despontares da alvorada,
Livres e selvagens, de sorriso revelado incidente
Esplendente voz em sintonia, somente eu sabia,
O néctar do conseguir deslizar sobre o vento,
O som nos ramos repercutido, re-ressoando,
Da passagem infinita ao fraterno infinitésimo,
Em mim e eu todos os eus de que faço parte.

{Mas eventualmente, farei parte delas.}


Rosa. M. Gray

A Estranheza do Olhar Pt. 4

Quando encarar o é com estranheza, tudo é estranho,
Anunciando a brevidade da derradeira despedida,
O toque lancetado à algesia, somente e único,
Deslizando na estranha consciência, maledicência
Em serena profusão, sendo esta então, difusa,
Com e em (sem?) sentido desprovido de direcção,
Sou alabastro, em margem de berma de caminho,
Contendo mãos alheias em palmas insuladas,
Somente e só, ressoando a finito ecoado além,
Reconhecendo as esquinas divinas nestas suplicas
Envolvendo e revezando com e no objecto finito,
Sediada era toda a moção, exceptuando acolá,
Exceptuando o singular e único contemplar.

A fracção restante era porção de cor,
Transposição fleumática de meio-tom,
Este sim:
Carecido de oxigénio para enfim respirar.
A única e ultima réstia de ar límpido, sim,
O objectivo é o agora fulminado,
Nas alamedas das docas em maresias,
Vai repousando a manhã em sobressalto,
A lucidez do faroleiro guardada em sótão
Poeirento em seu alvéolo, encontrado
Na vigília face ao poema inacabado,
Adormecendo à mercê das ondas,
Suas tipografias meus rascunhos,
A insídia da passeata sua perspectiva,
Mendigando a formalização da dança,
Assentando-se na fatiga da estadia,
A proximidade da noite, esmorece o dia,
Em palidez circunscrita aparente,
Beijo-vos a mão, desconhecendo tal razão,
Do azul mais escuro, ao claro mais escuro,
Surge a aurora, seu toque delineado neste rosto,

Arrastamento em consequente ebulição,
Ambivalente face ao denso, o proveniente
Espectador em palco opaco, afinal vendo
Seu sorriso retratado, em objectos vulgares,
Eram folhas rasgando as fundações cerúleas,
Breves e esplêndidas, retornando ao ponto inicial,
Silenciando-me à grandeza do fôlego em sono,
Meu carpir, desfoque difuso, panorama em tons
De matiz - o cerúleo: este olhar reflectido no céu.

Seu outrora ósculo, é hoje o meu vaguear,
Na fatiga o espectador que há visto o desmedido
Balancear aparentemente impávido no olho da intempérie
Dos seus colmos e elmos delapidados, tudo o dado
Do cinzento que é tudo menos cor, a porção recebida,
Sorriso, pintado no canto do olho direito, na alma
O convite aberto às nuvens, ao paradigma tatuado
Neste espírito, confere alento até ao pesaroso fardo,
Sim! Em afirmação! Euforia concretizada - Euoé!
A brisa sussurrando pelas folhas, murmura meus nomes,
O anseio aparente em sua inquietude, redecorando minúcias
O momento de contemplação, recordando o instante vindouro,
Bosquejo estoriado no cantinho harmonioso, gentil e suavemente,
Suspiro um: “até já”.
Partindo,
(Com um adeus retratado no coração).

Rosa M. Gray

O Hálito que Exalas Pt. 3

O hálito que exalas, deveria ser todo o meu oxigénio
Respirando seu ósculo, este ténue pestanejar
No seu frágil latejar, as palavras em silêncio
Tenho saudades sim, assumo-o.
Sim… assumo-o.
(de)
Quando seu beijo, era simultaneamente o meu,
O Eu, era encontrado, o Eu, era complementado
Pela sua metade mais inteira, sua verdade remota.
Este respirar, apenas mais um tom para o anseio,
O anseio de coisas lamechas que nunca murmuraria
Em vulgares páginas de papel, na futilidade,
Esboçaria talvez na maior praia do maior oceano,
Mas somente no mais minúsculo grão de areia
Ou então em baldes de cimento atirados borda fora,
Que repousem dormitando na profundidade do oceano,
E permitam que repouse novamente também, enfim,
Talvez.

(Se te traçasse as galáxias escusas em meu olhar,
Envolvê-las-ias?)


Rosa M. Gray

A Ilha Pt. 2

A ilha oceânica que temia as ondas,
Que adormecia a cada despontar do sol,
Ouro fluindo entre olhos mais do que fadigados,
Que esmorecia perante o anómalo de cada dia,
Suas margens, pergaminhos de areia onde o mar,
Sussurrava meus nomes, e a cada novo nome,
Uma memória revezando uma existência,
Ora absolutamente alheia, ora algures minha,
Mais solitário em cada nova vaga, o anel entreaberto.
Velho amigo, como sinto a falta dos nossos passeios,
Também o oceano é apenas uma acumulação gigantesca,
De gotas, apenas gotas, só e somente gotículas minúsculas.
Não receies o jardim do céu, ora azul, ora estrelado,
Ele - Estende seu fulgor nestas gotículas fluidas,
As lágrimas do céu jamais terão fim,
Não temas, teu fim em sua reflexão.

Rosa M. Gray

Tudo quanto Choramos Pt. 3/2

Esbracejamos para ostentar vida
(Esbracejamos vida, para ostentá-la),
Quando o viver é tudo menos isso.
Porém ardemos antes da alvorada,
É a algesia à sinceridade da poeira solar,
Abrasando a susceptibilidade das pálpebras,
Enfim, engasgados pela espessura cerúlea,
Frios e ermos – o seu algoz: irresolução,
Desconhecendo o termo condensar,
E até o ascendente do fluir: natural.

Rosa M. Gray

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tudo quanto Sorrimos Pt. 3/2

Em cada canto, recanto, cofre, baú,
O verdadeiro e ímpar tesouro,
A aceleração versada,
Não pretendo nada,
Para além do além,
A estupra intempérie,
E sua diluição,
Nesta pupila,

n. ego

Tudo o que choramos é irmão de tudo o que sorrimos Pt. 1

O tom mais natural repousante no sorriso,
Caminhando perdidos com destino anódino,
O escuro da paragem é o objectivo anónimo,
Mudando sua direcção a escassez das palavras,
O anjo do fim a caminho, correndo, apressando
Sua chegada, impaciência incontida vertendo além,
Quando a fluidez é encontrada, a propagação é leve,
A zona das estrelas é alcançada, abrangida no interior,
Pois a proximidade do jazigo e a sua simples sinceridade,
É a vossa algesia, aceitai seu lamento, beijai seu antónimo.

{as causas pertencentes a cada um – cativai-os e sejai-lo}

Rosa M. Gray e n. ego

terça-feira, 27 de julho de 2010

O Sentimento do Ser Pt II. Cabem mais Pessoas em Vénus do que em Marte.

- “O meu Deus reconhece o Deus que é em ti”
A mensagem detém a genuína relevância,
Raramente seu mensageiro.

E abre-se a torneira do subconsciente
O manancial do estro primoroso,
Sua lépida transição, momento patente
Transversal ao instante, único,
Do intervalo coincidente ao tangível
E o nublado enfim clareia em sua reconciliação,
Renunciando o óbvio, o sem fim na paisagem,
Escoado pelos nós dos dedos, tudo alcançando,
Pendente, beleza condensada, passeata oblonga
Um baloiço à superfície da intempérie, (ousa sonhar!)
Recreio à berma da estrada, arvores bailando lestas,
Seus troncos, calçadas ladrilhadas para a suave brisa,
Nunca havia presenciado um brilho estelar maior,
Olhando para cima, milhares e milhares de céus,
Apenas uma estrela ousando vislumbrar,

Um eufemismo do eterno,
Uma imitação/reflexo do infinito
(sob forma humana de asas incorpóreas),
Uma ode ao incomensurável, ao incontável,
Em Tempo aparentemente,
Infinitésimo,
A crueldade do vestígio restante,
Aquilo que só é cruel para o inalcançável,
Do instante em momento sempre agora viajante,
As revelações perdidas fronte ao efémero, expandidas,
Em sonho sustido, a coragem de o viver em tons acinzados,
O romance platónico daqueles dos olhos de fulgência estrelada,
Alcançam a plenitude comum, o raiar solar estampado na abóbada
Celeste, o intervalo entre o infinitésimo e o sequente infinito projectado
Entre palmas das mãos entretecido, a procura da espera, do ceder ao ser,
Ao remeter o intercâmbio do acontecer do instante cativo, abdicando ao antes,
A colecção de pontos interligados, o recobramento do geral através do particular,
És sinédoque do envolvente partilhado, difusão do uno na especificidade da identidade,
A verdade alheia, por norma entoando insanidade, na extremidade do singelo,
Toques em círculos concêntricos, a suavidade ornada a cetim, sabe a inicio e a fim,
O singular ponto comum a tudo e todos, não é um pertence, é a imperceptível pertença,
Portador do Universal, a perda é nula, a Vida insuflada no peito desconhece sua extinção.
À ilusão oficial, nomeada como concreto, a complementaridade entre o especial e o comum,
Reverte o comum em especial por ceder espaço de ser à invulgaridade autêntica do especial,
Aos inebriados hedonistas, nos excessos do sobre sensismo intenta o atrofiamento do espírito.
Apreciem este ultimato, a ausência de interrogação apenas acrescenta à intensidade de sua afirmação.

n. ego

O Sentimento do Ser Pt. I

Preferia Sentir o Verdadeiro por um mineral
Do que pelo óbvia e inerentemente comum.
Os caminhos batidos, são para seus congéneres.
O acréscimo do Belo, percorre outros percursos,
(sem atalhos ou desvios para seu inevitável destino)
No limite do desespero e da insanidade,
(A breve idade de cada e todo sorriso)
Encontra-se o ruído e nele, a única melodia,
(o primeiro segundo do primeiro e único amanhecer)
O único sentido, a bondade e sua usual forma:
A Beleza – o fractal exposto (sempre no zénite).

Parte integrante do plano de deus
O: simplesmente ser.

Como numa formosa escultura,
Mostra-se na remoção de excessos
Até no excesso de escassez
- (até na escassez do excesso)
A disfarçar o comummente óbvio
Uma proposta à aprendizagem
- (sem orçamento adjudicado)


Quando a Verdade era garantia de Beleza,
A consonância própria alumiada no perene,
O fluxo da corrente do cosmos sob consciência
Autónoma, faceta do grande espírito colectivo,
Intento não premeditado, o éter está sempre perto
A sucessão do casual, a proporção extraordinária
Do infimamente pequeno, a subtil energia que embala
O baloiço onde assentado, o corpo é veiculo para o além
A luz é energia, seu toque nossa trasladação de e em luz,
Sua expansão acontece quando o copo é transbordado,
A ligação directa ao Cosmos, interligação com a alma mater
Não é de todo factual, é na sucessão dos mesmos que há moção,
O credo é homólogo do lindíssimo, nos “entre-tantos” encontrados,
Tudo o que somos, é e são apenas instrumentos para aquilo contido
A multiplicidade na identidade, o Um vertido para o todo perfaz-se inteiro,
Manifesta-se na diversidade, o ser uno com todos os restantes seres,
A magia universal materializada sob um corpo, sobre uma energia
Energia essa, concernente a um, um esse pertencente a todos – é inteiro.
O sentir dessa unidade como o Todo enquanto este se exprime pela Parte.
A universalidade da Alma comum, vulgo aura inconsciente, toques sutis
A energia transcendente, que nos atravessa, que nos forma, que nos beija.
Reconheço a identidade una de toda e cada alma, seu revestimento pelo Todo,
Nesse Todo, temos direito a diversidade, a ligeiras particularidades, a diferenças,
Claro, a diversidade é regra, o igual é anti-materialização Universal, é anti-natura,
É o esplendor do Universo enfim concretizado, sua consequente e enérgica expansão,
O milagre do processo é o seu desconhecimento, pois ao ignorante, tudo parece magia.
Ao não ignorante observador, que constata magia, e ainda assim a nomeia dessa forma,
Esse sim, é mágico, é credo, é lindíssimo, é um e todo incorporado num ser – é inteiro.

n. ego
por joel nachio

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Tenções de um Derrelicto

Tencionava hospedar algo inerentemente inevitável, algo inevitavelmente cabal para partilhar, algo dotado de tal poder imenso e pleno que despoletasse em quem quer que o lesse uma acção-reacção fundamentada e real de tal ordem que as suas órbitas saltassem ou seja, o seu cérebro implodisse e a sua alma fosse embalada pelo mais suave gesto enternecedor. Almejava que o seu poder sobraçasse mundos e galáxias e sucumbisse somente quando aquele rasgo de esperança, sobejamente reconhecido pelos que ousam apontar para algo mais, cedesse…
Como se perseguíssemos o mesmo fim do mesmo arco-íris, como se essa perseguição fosse recíproca a quem a permite simplesmente ser. Somos abalados e badalados pelo cinzento rangendo os dentes em sua resposta, esquecendo de que uma resposta sem uma pergunta, é uma afirmação do ser subconsciente, do alfa propalando-se ao ómega e deste retornando ao alfa. Algures nesse intervalo, espalho meus resíduos no éter cerúleo, um dia serei o arco-íris, disso tenho a certeza, disso tenho a inevitabilidade da questão.
Mas eis a sua irmã diminuta, a inevitabilidade da sala vazia reduzida à sua perspectiva mais afónica, mais redundante e eu nela, contido, ornando suas vestes, despojado de significado… Sim hoje, sou o poeta menor e se sou menor, desconheço o significado de ser poeta. Nem com os braços estendidos, palmas abertas bramindo ao zénite dos céus provem a dignificada resposta às preces subentendidas num suspiro que mais que suspirado, é inalado, extorquindo o próprio oxigénio ao ar, onde está o mais esplendoroso de todos?
Dividindo montanhas da terra algures fui encontrando (talvez no entremear de nuvens do céu ou quiçá de suas irmãs reflectidas no mar), no fragmento do poema subdividido em partes fraccionárias oh como vos invejo minhas musas, vós que cantarolais o firmamento por cada fôlego que susteis e indagais as ondas dos oceanos por cada vislumbre que ofertais. Beijo-vos a mão, desconhecendo tal razão… mas em emoção, sou o Universo sob forma corpórea e material, feliz.
No entanto, não há música, sustem-se a génese de prolixo acalentada por esta perspectiva perpendicular que, dependendo da vista (que é minha ora é minha, será mesmo minha?), vai mirando por um ângulo agudo e então a intensidade do conhecimento relativo torna-se minha, interrompendo-se as vozes…



N. Ego e Rosa M. Gray
por joel nachio

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Obnubilado pelo Poente Solar

Obnubilado pelo poente solar, surge enfim a hora da caminha
Caminha, caminha, até não haver mais caminho para caminhar
{nunca há menos para caminhar}: murmurava à leve morrinha
Seu rosto sublinhado pelo ténue retocar da água a escrevinhar

{em Náiades semibreves . sempre semibreves}

Para seus próprios modos – um estranho algures consumido
No abrir da porta, acerca-se o alumiar de uma nova aurora
Seu modesto deambular, o ósculo mais doce: o Sentir remido
Assim, como receptáculo do {semi} eterno, à glória de outrora!

E quando o sorriso do Sol for por frialdade encoberto
Relembra que algures, acredita, a lua ainda o reflectirá
Nas coisas e sua significância, perdura o verdadeiro sentido
O significado das coisas é aquele que depositado subsistirá.

{por vós, por vós! assim se projecta a voz}

Na captação do grande assenta a problemática do quase inteiro,
O pequeno e ínfimo pormenor merece infinitamente a mais sincera atenção
Acresce {n}aquilo que o capta, a matriz celestial e em seu véu o terno aguaceiro
Além irrompe o genuíno arco-íris, não anseias um simples toque, um dar a mão?

Em cruzamentos provenientes de caminhos escolhidos, há opções
A ausência de opção é apenas a opção subentendida, a subtileza
Da paisagem revela-se a perfeição e dos excessos suas remoções,
Ao disfarçar o óbvio - uma proposta à aprendizagem, à vera beleza!

Parece-me óbvio - {até no excesso de escassez}

Sonhando e transpondo para o finito, eis a criação a contemplar
A concepção do infinito é ideal e na sua transladação para o “real”
Viverá para ver, isto e muito mais, quem sonha é porção do sonhar
Um dia constatará: tanto o Sonho como o “real”, qual mais surreal?

{e este será o único poema que algum dia almejei tocar}

Nesta procura incessante por pormenores e suas resultantes simetrias
É estabelecido um ponto comum, tangível, coerente só consigo próprio,
É acaso, amálgama de milhentos factos predestinados, espirais escadarias
O ângulo e a forma de olhar, dependendo, podem tornar-se o singelo Ver.

{mesmo quando não aparenta haver rima a reter – está atento: há sempre rima}

A existência existe, sob e sempre de qualquer forma - é imutável
O todo é o derivado da parte, a parte é o todo - é inalterável
A variação é a única constante. O dado é o recebido – é invariável,
A Criação é permeada por liberdades regradas, isso é o expectável:

{o não esperar por coisa alguma – {e quando não te vires, fecha os olhos e permite-te o amar}}

N. Ego
por joel nachio

sábado, 24 de abril de 2010

Passo horas acordada

Passo horas acordada,
O olhar à janela
Pela vidraça transbordada,
Ansiando um simples toque,
Nesta semi forma que anela,
Na imagem de seu enfoque,
O ardume de seu rosto,
O deslizar próprio e somente dela,
A subtileza de seu acariciar,
Aquieto a cabeça no frágil recosto,
Estranhando este sentir impar,
Eis-me ocupando o espaço vazio,
Escutando os moinhos da minha mente,
O tema permanece o mesmo, então sorrio,
Sou jovem de mente, há que seguir em frente,
Rumo ao ruído, a melodia e o fluir do perene rio.
E nenhures, seu liquido secou para o longínquo Sol
(O Sentir é a coisa de mais esplendorosa – o belo rouxinol).

Rosa M. Gray
por joel nachio

terça-feira, 20 de abril de 2010

Perseguida por uma Sombra II

Perseguida por uma Sombra II

A inocência corroída, consumida em recanto perdido,
Jazendo em fatigada estadia, quão delicada sua queda,
Enovelada pelo deslize, enfim carente de fulcral sentido,
Singular beldade, esmorecida ao torpor que lesto envereda;

O destino cerrado, a derradeira aprendizagem a enfim somar,
Algures eram oferecidos sorrisos, perenemente desmedidos,
Estilhaçado na vereda do sono desprovido de sonho, sem amar,
Mendigando beijos por desejos, no alcatrão é vê-los reflectidos;

Destituídos de precisos intentos, itinerante é o deambular,
Relido ao ínfimo pormenor e abdicado sem o mínimo pudor,
Esquece-se a linha entretecida e esvaece-se o ser singular,
O frio absconso suavemente imerso em indiferente langor;

Sobrevém o inesperado, acerca-se extinto da sua locução,
Súmulas influídas no, sempre, ecoando entre corredores,
Algumas brumas compiladas, abreviadas à sua indecisão,
Incidem a um breve silêncio interior, asfixiam seus valores;

Quem nem asas de Ícaro, premeditado e ao vazio enviado,
A recorrência do desígnio, intermitentemente refulgido,
Inerte e parado instante, o ser inevitável e inerente adiado,
No sono embalado e nele o percurso latente dum foragido,

Cujas madrugadas esvoaçam na insónia da noite anterior,
E suas memórias, por liame vinculadas, (oh) como sois postergadas
Ao fundo do poeirento baú, este precedente ao nível inferior,
Como o perto se traslada no longínquo, as viagens em inacabadas,

Soando a indeferido, em relance por sua quebrada metade,
Recalcando o vazio, buscando o antídoto esperado no além,
Arrítmico, oco em dúvida e em murmúrios de insanidade,
Por veias espelhando adagas e de esvaídas recusas refém;

Em movimento estagnado, acossado em penumbra pela estático,
Envolto no vil ardor da doce melodia, por beleza mais ensombrado
Sincope vital de embalamento grisalho, de pressuposto tão errático,
Esbanjado pelo caminhar de toda uma Vida e por Ela defraudado;

Desflorado pela beldade acre da luz, estilhaçada no asfalto,
Devo ter visto umas mil caras reflectidas na estrada forasteira,
Jamais devo ter visto uma verdadeira expressão neste sobressalto,
Aluído ao instante passageiro, quando partir, sepultem-me em poeira.

… por todo o meu am*r por todas as coisas vivas…
(escolho morrer)

- Hoje senti a mágoa de uma rosa.

Rosa M. Gray com N. Ego
por joel nachio

Pelos oblíquos caminhos do belo

Pelos oblíquos caminhos do belo,

Pelos oblíquos caminhos do belo,
(Tudo o que é belo é-o simplesmente)
O espírito é cativado, raramente nos olhos,
Passageiros no espaço envolvido no avanço do tempo,
Subliminar e subtil a diferença entre este princípio e o posterior,
A sucessão geométrica cuja razão é composta principalmente de detalhes,
Fundamentados na sua base, progredindo no sempre e para o infinito.

Um bilião em infinitudes de vezes,
Separadas por uma ténue cortina de ar,
Onde as órbitas não alcançam a ideia aporta,
- Em representação formada algures no espírito,
Como tal é incognoscível na sua concepção,
- Reunindo toda a perfeição (ini)imaginável,
Assim o é o belo e igualmente o insondado paralelo.

Na singularidade argumentada, discutimos apenas semântica,
O padrão consensual do relativo é uma fórmula matemática,
Sobre a melodia divina oriunda das esferas supra-celestes,
Formas arquitectónicas reproduzidas sobre a medida áurea,
Nos detalhes manuscritos das conchas, nos fractais da neve,

O Infinito é uma espiral escalar, irregular e fragmentada,
Perfeito no seu todo, dando-se premeditadamente ao acaso,
Em harmonia simétrica, um circulo criado em ode ao Belo,
- Sendo a Beleza uma recriação de excepcional harmonia
Suscitando desejo, atraindo para seus imensuráveis meandros,
Apesar de sua relatividade e transcendência estritamente divina,
Na simetria inalcançável, assentada algures na biblioteca astral,
Situa-se o ideal puro, o inconsciente sincero, a espontaneidade infantil,
E após a vivência, a experiência e o conhecimento, vem a sabedoria,
Um ensaio à leveza, ao que simplesmente o é (:simples): cognição sobre o conhecimento.

A beleza, é, pois, uma projecção oblíqua proveniente do infinito,
Captada sim pelos que a têm tanto pelos que a conseguem avistar,
A divindade transcendente é emanada pelos que a crêem ver,
Refulgem então no escuro por terem numa noite avistado Luz,
É inteiro: o ser aberto ao que vagueia para lá do horizonte,
E a perfeição, mera consequência da conclusão do círculo,
Até as metades assimétricas se complementam, tornando-se inteiras,
Desde que entre si encontrem consenso sob a forma de harmonia,
A parte integral pertence apenas ao todo, a relativa é de quem ousa ousar,
Alcançar o vislumbre de algo não concebido para o eventual olhar humano,
Entre margens e estados, o viajante caminha face ao brilho depositado,
Nos seus olhos, a plenitude é preenchida em detalhes infinitamente ínfimos,
É caminho, beijando a madrugada, osculando o dilúculo, entre este intervalo:
A beleza desse olhar incide no ângulo no qual o simples é puramente belo.

Não desbarates o que os Deuses sussurram ao teu ouvido – um dia este escutou,
E mais que o haver escutado, soube escutar com a aceitação da partilha.

N. Ego
por joel nachio

O Tempo virá

O Tempo virá

A reflexão no estado é contida,
Um sussurro mudo ao ouvido de:
Espectros entre esplanadas intangíveis,

Bebendo de sua própria sede,
A reciprocidade no único vero ver,
Premeditado ao seu próprio silêncio;

Manancial do estro poético
Incompleto em seu possível potencial,
Algures desponta a jovem Primavera;
- Houvesse olhos realmente para a Ver.
{Mesmo quando o real mente
Alguma verdade, algures deverá ter}

(re)lembro-me: O Tempo virá, a Maré o trará,

Porque é que o Sol viaja?
Nadas na chuva, “tudos” ao sol,
Tanto perdido em cada pestanejar;

Instantes olvidados e permutados,
Nesta insustentável leveza

Teus momentos: derrelictos
Cortinados na brisa passageira,
Névoas nas planícies dos sonhos,

O Tempo virá, a Maré o trará,

Recolho-me em silêncio, demasiados devaneios
Forçai-vos e empenhai-vos à especialidade,
E como eventualmente falhareis.

A neve sofre só,
{Somente e irremediavelmente só?}
De sobre sensibilidade sobre extenuada,
Reencontrando as minúcias dos desencontros,
Em delicada queda constante, passageira na brisa,

O (im)puro sensismo outrora tacteado,
- Assentado palmas abertas nas mãos enregeladas,
Uma ovação em pé para o mais frondoso aplauso,
E que nele cativo, olvidemos as precedentes quedas
- Estilhaçado aquando do seu sussurro nominal,
Nossos ósculos se singularizaram em melodia;

Ela é, o nevoeiro e ainda o farol
A luz perscrutante que convida a (à?) noite,
Ofuscando pelo seu resplendor intermitente,

Como toda a Beleza o é: Fugaz e intermitente.

Incessantemente o é (sem cessar),
Sem o saber simplesmente não o ser,
Acossando ainda a íngremidade no pavimento
O rosto aquieta-se, reconfortando-se no frio asfalto,
Enregelado, é o pausar da probabilidade de caminhar
É esta a plenitude circunscrita em estado latente:

- A do simplesmente incoerente, isto é.

Rosa M. Gray
por joel nachio

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Alba II

Outstretched fingers fail to grasp
Early light beams cast by dawn
Sleepy eyes lodge the halo at last
Enfolded scars are now shown

Are you there, or am I a ghost?

Hollow words from a profane inquisitor, wondrous words
Closed beyond transparent curtains, inside I heard a knock
Dual significance which differs in subject and content
Filled with unfulfilled meanings running against the clock

Forever held beyond the opaque mirror of cooled eyelids
My best friend has been buried with the L*ve I used to share
Disdain for the living and ironic speeches for the departed
Sleep with my feelings my friend, in dimness without a glare

Words lose their purpose when delivered without meaning
Friend, never forget destiny has something for you in store
Without meaning if no meaning is deposited inside them
Outside warmer for lustrous exteriors usually hide a hollow core

Are you there or am I a ghost?

Outstretched fingers fail to grasp
Early light beams cast by dawn
Sleepy eyes lodge the halo at last
Enfolded scars are now gone

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Perseguida por uma Sombra

Perseguida por uma Sombra

A Beleza de um olhar efémero emana a luz
Da inconstância muda da rotação do mundo,
Filado pelo ímpeto que num momento seduz,
Por um segundo, imbuído em algo profundo;

Ansiando por uma última réstia de ar impuro,
Insufla-me a leveza rara do sopro da morte,
Descuida o caminho tragado no cárcere escuro,
Hoje lar cativo por suspiros perecidos do consorte;

Seremos todos os instantes tingidos por nada,
E neles, todos os recantos revistos e redecorados
Para que mais do que uma grande final gargalhada?
No espelho de um semblante pelo vil tempo ornados,

E o que este acarreta: contusões e mágoas a mais,
Sem o devido sossego, nem lugar onde repousar,
Entre o caminho entrelinhado e outras viagens tais,
Desprovido de sorriso ou vera beleza para contemplar;

Intransponível a quem o vê, o olhar torna-se opaco,
Indistinto pelo desgaste de outrora não ter sido cego,
Enredando a ternura das cores vivas em hirto retrato
Emergente de névoas vindas dos cantos do desassossego

Procurando o dia, aquele que subtil embala o horizonte,
Apesar, de na sombra desta ilustre e pálida companhia,
Respirando a Falta, que a condição entorpeça e afronte,
As fundações do Éter, liquefeito em fragilizada poesia;

“’Confusão: Será o meu epitáfio’ – enquanto quietude
Sonegar estes ululados” não haverá plangência por ruído;
A nostalgia do imanente refreia-se nesta decrépita finitude,
Soprada pela brisa, riacho ditada ao vazio, eis-me afluído

De refugos de beleza na imundice deste fôlego lacónico,
Resta esta ode ao Sono, insuflando por vestígios recentes
Dos ermos desolados, vigentes nos espíritos do afónico,
Outrora povoados, repletos e matizados de cores luzentes;

Silencio dactilografado, em recuo exclamado ao nocturno,
Fortuito refúgio, ao acaso mortiço inertemente renunciado,
Do medo à preguiça, privando com o absentismo taciturno,
Aos reflexos dos seus fragmentos restantes compendiado;

Rosa M. Gray
por joel nachio

Em passos

Em passos se vai estirando o caminho
Da geração do rebelde enfim conformado
Aglossias reservadas em esconso escaninho
Rebaixados ao finito, soberania do sonho adiado

Sonolência, aliada do caminhante esquecido
Extinto na recordação prisioneira da moldura
Retrato da remota reticência do tempo perdido
Entre memórias findas, o alvor emana a sepultura

Do esperançado, breve e tenuemente alcançado
Cujos suspiros caem em silêncios inconsequentes
Dissonantes melodias, contrárias ao oposto ansiado

Antagonizo esta respiração, manancial dormente
De pretensas suposições, algures recém-chegado
Impera a paragem inquietante do ser inexistente.

As preces nocturnas

As preces nocturnas enviadas a destino anónimo
São breves e consumidas por um silêncio interior
De um jardim desolado, prisioneiro, meu heterónimo
Visionários devaneios mediados por lúgubre algor

Fluir da ampulheta devastando a mortalidade dos segundos
Esmorecendo na frágil moldura que subtilmente a contorna
Incontáveis retratos estilhaçados entre escombros profundos
Insciente, amarguras a vinda do tempo passante que retorna

Aos mesmos becos estreitos e escuros, enredo desconcertante
A nulificação de todas as progressões, o princípio do ser vazio
Percepciona-se pelo sombrio andar esguio e penoso semblante

Na longevidade invernal contempla-se o brotar silencioso do rio
Suas margens estas cicatrizes, imbuídas e cativas na maré cintilante
Pupilas dilatadas rumando a épocas mais semelhantes ao ledo estio

Incidência da luz oblíqua

Revelando a incidência da luz oblíqua,
Transversal no seu berço à coesão do ser,
Salgadas gotas liquidas que o estuário purifica,
Aguardas recôndita na acalmia do raro alvorecer;

Por opção saúdas o nivelado raiar solar,
Da intempérie cessada à ávida ostentação,
Dos momentos de real chuva afinal a lastimar,
Duvidavas então da tua inquestionável devoção,

Para que puro manancial a brandamente jorrar?
Ao então sentenciado à inclemência dos fracos,
Aligeirado fundo pela tenacidade do ténue ecoar

De quartos vazios, errando por infindáveis charcos,
Empório do poeta de visões estupradas em seu ressoar,
A alma permanece imobilizada entre seus sinais parcos.

: Como Perdida

Simples e singelo no seu deambular,
Surge a forma mais elementar de repousar,
Longe do devaneio mortiço, de quem é a vida?
Aqui me olvido e me dou afinal, como perdida;

Sem voz, enfrentando a voracidade dos dias,
De seu peso tão insustentável e frio lancinante,
Por punhos cerrados, engasgados em seu mutismo,
Aqui e agora me olvido e me dou afinal, como perdida.

Rosa M. Gray

por joel nachio

A Preto e Branco  

A preto e branco monocromático é a visão
Da ida do sol de e em mais um dia incompleto,
Reitera a certeza proporcionada pelo turbilhão,
Do Eu, navegante da estrada irreflectida, incerto;

Carregando o ónus descabido da mundana vivência,
Trazido no ar mas respirando um oxigénio diferente,
Inumado à nascença e olvidado à sua impaciência,
Sem textos dignificantes no silêncio afinal confidente;

De segredos dissolvidos com o encerrar da porta,
A aragem nocturna molda a face, desencontrado,
Confessando ligeiro torpor que os mortos conforta,

Alastra-se a inércia devastando o sentido de pertença,
Chave perdida nos confins do sonho e nele abdicado
Do voar lépido esquecido eis a sua pungente sentença.

Revelando

Revelando a incidência da chuva obliqua
Transversal no seu berço à coesão do ser
Salgadas lágrimas que o estuário purifica
Aguardas na acalmia o insólito do alvorecer

Por opção saúdas o nivelado raiar da lua
Liberto às navegações por ela premeditadas
Hoje aguardas a entrega que o trilho imiscua
Proteladas são as notícias e já antes viajadas

Num retrato de inocência, pré-condenado,
Estranho lhe parece o quão autêntico que o é
Encoberto no pó de segundos agora passado,

Envolto no prefácio, rumando face à maré
Entre e sobre vidros lascados enfim confinado
Perde-se a vista e até quando a sequente fé?

Imprevisto

Imprevisto o liberto esvoaçar da melodia
Na anatomia de um fantasma entreaberto,
Do fulgir vago intermitente provem a calmaria,
E o conceito de infinito é por fim descoberto;

Relegado na incerteza da breve hesitação,
Retorcido a versões de uma substância negra,
De enredo ignoto enfim purificado por ablução,
Permeado ao relento e olvidado na sua íntegra;

Anui ao quasi-humano seu repouso restante,
Exceptuando quando luz se meneia em redor,
Entrevê-se a súbita brisa através da vereda errante

Por olhos cansados, de extenso silêncio sua cor,
Espelham-se no opaco, num franzino semblante
E cintilam breves, minorados ao seu exíguo clamor.

Escape

Escape da rotina face aos dias inacabados,
Infames degraus e degraus para caminhar,
Pretos são os olhos de contornos azulados
E lúgubre o espaço entre as cores do sonhar;

Indecisão vai de mão em mão até ao nada,
A chuva incipiente molha mais do que cai,
Vagueando por um varão de uma escada
Onde o corredor é estreito e a luz se retrai;

Subtrai-se o súbito do dia e vê -se o escuro,
E é duro, contudo assim vai passando a hora,
Em busca apesar de saber que não procuro,

Da sinuosa estrada que a mente desflora;
Caminhando na algibeira a senda do impuro,
Espelho os limites da vida, refractando a aurora.

Perdão

Perdão! Vai perdendo assiduidade nestes tempos,
Braços oblongos lançam-se escamoteados na noite,
Desprovidos de rede para os apanhar em seus intentos
Em retrospectiva recluso, passada em segundos à pernoite,

Apenas um mais excerto do caminho alarve nos seus enleios,
Conceituado como subjacente de índole um pouco doente,
Com as horas a passar e sobretudo o anelar de mil anseios,
Esmorece o ânimo, esfria o corpo, de alma mais que ausente;

Entre paredes ornadas a frio, mais um nó do que o preciso,
Sobre a triste soledade, filtram-se suaves as gotas no tecto,
Inclinado sobre o abismo, além algures se encontra o paraíso!

Sentimento do poço, reclinado impotente e incompleto,
Nada no covil do homem que permita um sincero sorriso,
É impreciso o fulgurar de quem vive como um soneto.

Outros Eloquentes

Outros eloquentes hesitariam subtilmente em tal situação,
«Frases vazias, períodos inacabados e parágrafos deslocados»
Oriundas do zénite enfeixado por centelhas eis a aberração,
Sozinha à distância atenuada pelos sinuosos tão bifurcados;

Citações proferidas luzidias na comunhão com o anoitecer,
Fitado excedível de pensamentos num hiato esmorecedor,
Dissoluto em leve éter e morosamente levado a esmaecer,
Findo em breve a florífera cantiga do pictográfico esplendor

Runas pejadas de conteúdos abscondidos em substância
Viajando pelo quotidiano através de diminutivos pestilentos
Enunciem algures o valor vero, estóico de estagnada ânsia

Permitam o descanso de quem vive por olhos sonolentos
Em estado febril de momento póstumo de ultima instância
Esvaindo o precioso néctar do qual caminhamos sedentos.

Arfando

Arfando pelos poros em aguda dor acutilante,
Por quem me levou o tempo enfim embora,
Hoje rezando que o corpo pereça cintilante,
Face à indiferença dos sonhados de outrora;

Vultos esbranquiçados de quem já aqui passou,
Decalcados por detrás das cortinas esvoaçantes,
Sons rompantes de quem algures não alcançou,
O alabastro divino por mais que breves instantes;

Por chuvas vertidas de miúdas gotas floriformes,
Raios partam a sensibilidade abstrusa do firmamento,
Enquanto negrume jaz em nodulosas ondas pluriformes;

Figuras fugidias cujo intento soma-me emudecimento,
Além, suas faces desbotadas sobrevêm como disformes,
Iminência do devaneio, calam-se as vozes, surge o momento.

Dantes

Dantes coisas belas esvoaçavam castas de meu peito,
Repleto de horas e segundos mais que incompletos,
Em desfile algorítmico quaisquer vestidos a preceito,
Entre olhos esgueirados é o devaneio dos analfabetos

Sonhadores alados entrementes revelando as feridas
De pronúncia impregnada com o odor dos posteriores,
Mais que queridas, sendo estas vorazmente sentidas;
Perdido numa prisão de pensamentos e seus terrores,

Humildade é redundante por trás destes pardos edifícios,
Translúcido e aeriforme embebido num trânsito pendular,
Ignaros obedientes marchando entre seus mil e um ofícios,

Multiplicados por mil olhos apontando-me para me enfermar,
Com todos por metade e metades rasgadas em interstícios,
Quando somente a ociosa lassidão não faculta sequer o alcançar.

De Luz

De luz aprisionada nas pontas dos dedos,
Intermináveis páginas pintadas a branco;
Como um barco naufragado em rochedos
De negro absurdo ladeado em cada flanco

Escuta apurada ao silêncio da tormenta,
Ouve-se a morrinha lúgubre do lamento,
Que mais do que preencher apoquenta
De lar fraterno mas renunciado ao relento;

Tempo é o que passa tão indiferente,
Vida deslocada em torno de seu eixo,
Suplícios a conta-gotas de figura ausente;

Que nem o prostrar de relançado seixo
Em lago assimétrico de lua confidente,
Anui alívio em ócio com tons de desleixo.