quinta-feira, 20 de junho de 2013

Eu e Ela Pt. II: A Interrupção da Metade do Meio

Como um rosto sem apelido
Tal e qual o aceno sem resposta
Na frase do discurso interrompido
Porém bem à frente dos olhos posta,

Como o dar a mão e reaver restos de ar
Tal como aguardar por quem não espera
E virou as costas a quem apenas quis amar
E que portanto ao não ser, lá nem sequer era

Em interrupto riso perdido no espaço vazio
Naquele suspiro que só as paredes ouviam
Que ao habituar-se à frieza deixou de ter frio,

Tanto quanto esta ânsia que o estômago carcome
Neste almejo daqueles que a mazurca sentiam,
Aquela que todos dançam e ninguém sabe o nome.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Eu e Ela: Éramos Nós Dois

A margem do rio era somente pano de fundo
Pois aquele seu belo sorriso, aquele seu olhar
Era no efémero do instante todo o meu mundo
O reencontro ao Inteiro nesse tão leve esvoaçar,

Cada gesto seu instilava para o almejado romance
Da intangibilidade do sentimento então suspirada
Pelo portão saltado de uma só vez o Céu ao alcance
E na ternura de nosso ósculo a alma então recobrada,

Aqueles olhos cerrados vejo-os onde a chuva tombava
Seus lábios eram todo e meu único papel nesta vida.
Onde a sua cabeça repousava este ombro continuava

Suave através de seu rosto e a cada renovada batida
O sorriso crescia e num súbito ápice se apaixonava
Esquecendo que seria algo ao longe em despedida.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

As Nuances: De um Iglô no Gobi

Arcos e blocos de gelo fazem paredes estranhas,
Despertai-me para a vida desta oblonga elipse,
O sangue que me corre dentro das entranhas
É o suficiente para provocar um Apocalipse,

No semblante de quem nunca conseguiu mesmo ver
Quando as dunas e o deserto se mesclam consigo
Vagamente, na amplitude tão breve deste ser,
Onde por vezes a bênção mais parece castigo,

Rascunhámos cones e cubos sem grande sentido,
Desdobramos os membros orientando o vento
Dos pólos ao equador sem ideia do apetecido

Que nos inebria a cada nova nuance de cinzento,
Levamos  iglôs ao deserto com ideia de abrigo
Habitando-os só com a passagem do tempo...


domingo, 16 de junho de 2013

Descalça: Foi Ela

Descalça vai ela pela noite tão escura
Aonde seus passos as flores sustentam
Suaves em tal Amor e em tal brandura
Que ao seu passar os abrolhos rebentam,

Aqui aguardo tão só seu efémero retornar
Na espera consorcio com a sua aventesma,
Tão eterna e tão temporária neste andar
Que ela leva onde seu trilho foi na mesma

Fracção de instante coincidente a este,
Sorrio... suas pegadas foram nestas um dia,
Hoje passado onde um só olhar era a oeste

Luz e inspiração ao poeta e à sua melodia
Embalava gigantes e enlevava o cipreste
Em ténues e suaves tons envoltos em magia

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Através do Deserto Esfaimado Pt. III: As Crianças e os Mortos

As crianças estão cercadas por mortos
Aqueles que envolvem o cadáver da vida,
Do berço à sepultura passam absortos
E ao fim de setenta anos atingem a partida

Ignorando o mais árduo passo: o primeiro...
Que enxagúe as mãos e renasça inocente,
Irradiando a luz do farol ante o nevoeiro
E que são se torne quem antes fora doente

Aprofundando raízes fortes para sua altura,
Simples é sentir Amor de perto e à distância,
Vir do ontem rumo ao amanhã com a abertura

De quem semeia e acolhe do semeio a fragrância
Em celebração aproveitando a rota da aventura
Sem medo ou receios sendo o adulto em infância.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Através do Deserto Esfaimado Pt. II: Entre o Caminho e a Casa

As mãos que o agarram são as mãos que me levam,
Adiante o puxam e empurram perante o que vem,
Os balões que as esticam são os dedos que enlevam
Pois quando tocam o céu tornam o trovador em alguém

Que brilha mais do que mil estrelas num bolso albergadas
E ele, tal cometa, apenas alcançável pelo rasto que deixou
Nos vestígios de meias palavras em certas telas pintadas
Ou através do fulgor que no olhar dos outros ainda restou

Após o terem visto a rasurar obliquamente o horizonte,
Esses jamais serão os mesmos pois enfim aqui foram
O instante e perceberam que o poeta é Amor e ponte

Entre o frio do caminho ao aconchego da divina casa
Onde voamos em anseios aos abraços que demoram
Pois a mão que o toca nem é sequer bem mão, é asa.

Através do Deserto Esfaimado: A Sede Por Ela

Esta sede é a sede do deserto esfaimado,
Gota a gota acumulada na vista do poeta
Que anseia mais do que o que já foi olhado
E que precisa de mais cores para a sua silhueta…

Para lhe dar significado, para fazer sentido
Das esquinas fazemos cantos e entretanto
De tanto correr esquecemos o acontecido
Do bonito em que temos sido e seu encanto

Esvaece onde só há grãos de areia para tragar,
Onde a cópia da Lua vem e sussurra baixinho
Que somos O beijo por isso não devemos beijar,

Por tanto olhámos assim pelo ornato da janela
Ansiando sem saber pelo que aguardar no caminho
Quando ao longe de bem perto sabemos que é Ela…

(... Ela… sempre Ela.)

sábado, 8 de junho de 2013

A Criança do Elísio: Ainda Trazemos

Somos… Somos aqueles que deixam às nuvens pegadas
Que vão e deslizam nos raios de sol e nas enxurradas
Atirando seixos às vidraças e vendo o mundo crescer
Sob o pé descalço reflectindo a criança ao envelhecer,

Frágeis amontoamos tons de vida e outros acinzados,
Somos quem semeia flores em canteiros imaginados,
Quem caminha ao pé-coxinho devagar ou corridinho,
Quem traz supernovas e galáxias no alado passarinho,

Tantas vezes também corremos ajoelhados sobre a lua
E de bem perto ainda somos tão longe aos dias comuns
Por onde navegamos resfolgando sendo suspirados à rua

Onde passámos ontem sendo tão poucos ou até nenhuns,
Aqui e agora nesta hora de dedos esticados e alma nua
Ao tentar amar o impermanente que tentemos ser alguns.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Morro dos Ventos Uivantes: A Ela e Ao Seu Fantasma

Teremos balões e confettis à hora da morte,
Venham e tragam um bom amigo também,
Ela lívida e serena me há deixado a tal sorte
Que por instantes olvidei que ela era quem

Outrora se banhava leve nestes rectos ombros
Sorria, chamando-lhes o que sentia ser o lar,
Hoje ao monte dos vendavais seus assombros
Com seu níveo espectro a vidraça a arranhar,

Seus ecos reverberados nestes corredores vazios
Amaldiçoo-os a todos por esta insanável ferida
Enlouquecei-me mas deixai-me não restos sombrios

De toda uma viagem onde sóis o fado nesta palma
Aonde e onde não posso viver sem a minha Vida
Que sentido sequer faria viver sem a minha alma?

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Do Baile Dos Olhos Cansados: Ao Morro dos Ventos Uivantes

Conto relógios e ampulhetas até vós,
Sou os que esperam um dia aguardar,
Conto as luas, as estrelas e a vossa voz
É o único som capaz de nos despertar

Pois trago em mim os que me precederam:
Os sonhadores, os trovadores e os insanos
Que noutro dia por cá luziram e choveram
E também foram e vieram no passar dos anos,

Perdoai-me esta alma assente no pé-coxinho
Neste ósculo ao baile dos olhos cansados
Vamos indo e não indo doce e devagarinho

Com meias de lã, sapatos de chumbo e esta fome
Por nossa dança tão delicada, tão sem cuidados
Onde todos dançam e ninguém sabe nosso nome.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Aquela Valsa: Ao Pé-Coxinho

A valsa ao pé-coxinho é na vida
De salto em salto a pé descalço
Mal alcançámos somos a partida
Onde o presente é um meio passo

Entre o petiz menino e a menina
De pestanas cobertas de estrelas
Que avivam a luz da lamparina
Luzindo através das tristes ruelas,

Bordado nos vultos da noite passada
O viandante é o seu próprio caminho,
A tela daquele tudo e do outro nada

Lado a lado vai ele e o passarinho
Sendo ele em cada beijo à estrada
Tão e tão só ao olho do torvelinho.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Entre Aspas: O Ponto e as Reticências

Acabámos antes de começar,
Descontínuos no tão completo
Que terminámos antes de acabar
Na entrelinha maior do axioma incerto,

Do finito ponto as eternas reticências
O entretanto entre o plural e o singular
A linha comum em perfeitas tangências
Entre o respirar fundo até à falta de ar,

Além do escuro, através do terno Amor
Os gradientes da luz no oblíquo aguaceiro
Onde ambos são contidos em prazer e dor

Tal a mais formosa flor cultivada num cinzeiro
Ornado gentilmente pelo Sol cujo nascer e pôr
O dois nunca e sempre relembra - do um ao Inteiro.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Um Pouquinho Mais Pt. III: Imagina

Imagina um pouco mais e muito mais pode ser…
Preenchido de coisas que ocupam o espaço,
Socorríamos o luar guardando-o em nosso ver
No espaço do fundo da algibeira e ao pedaço

Que é espaço, que é o tempo entre nós os dois
Porém se é tempo é reunião de outros segundos,
Será ele espaço de tudo o que foi e no depois
Indo e vindo no rodopio ao périplo dos mundos?

Tantas páginas que foram ou não aconteceram,
Hoje a lua é seu reflexo na rua e no firmamento,
O que as estrelas dos trovadores cá enalteceram

Revelando sete mil amores rumo àquele belo luar,
Imagina-os nas linhas do caderninho e o cinzento
Torna-se o pouquinho de cor que é boa de se dar. 

domingo, 19 de maio de 2013

Um Pouquinho Mais Pt. II e Menos: Sempre É

Um pouco mais e muito mais e menos seria
Todo esse imenso nada envolto no bocado
Onde pacientemente aguardo aquele dia,
O dia quando enfim voltaremos ao prado,

A vida é louca correria, a vida é terna espera,
Eu à indentação desta breve viagem deixado
Com fulgor obtemos cautelas para a primavera
Do dia quando enfim voltaremos ao prado,

Um muito menos e pouco menos e mais seria,
Nada desse parco todo envolto no fragmento
Que sou e ao qual pertenço em subtil harmonia

A procura do meio do pouco e do muito é eldorado
E nesse mais e menos somos todos o eterno momento
Onde ainda virá o dia quando enfim voltaremos ao prado.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Um Pouquinho Mais: Então Muito Mais Seria

Um pouquinho mais e então muito mais seria
Algo diferente que jamais algures tenha sido,
Um píncaro de estrelas, uma pitada de magia
Eis a poção que nutre o homem recém-nascido

Cheio de coisas que são o espaço na algibeira,
Espaço esse que agora é este relógio entre nós,
Errámos para onde a casa não é em tal canseira
Que da ária que era nossa se apartou a una voz,

Destes lábios juntos, toda a embriaguez e perdição
Do olhar do poeta e de sua esperança e almejo,
Quão ansiava desejar, quão queria o sim e o não

Para reter no frasco que tragava a cada lampejo,
Aspirando e respirando para o poder dar a mão,
Resfolgado e viandado neste tão breve versejo.

domingo, 12 de maio de 2013

Sobre o Inteiro: E o Destino no Caderninho (Entre Luares e Dias de Verão)

As suas lágrimas caiam mais do que páginas havia,
Eu - as frágeis letras delicadamente escritas a azulino,
Sem fim, embaladas por ela que era a Lua desse dia,
Esbranquiçadas a azul onde imperava o sonho coralino

Nocturno e submerso, impelido através dos abrolhos
Linha a linha através da entrelinha de um dia de verão
Por onde já havia alguma poeira a cansar estes olhos
E a fatiga da viagem esmorecia o ânimo de dar a mão,

Contudo não desistíamos não, várias páginas faltavam,
Talvez alguns sorrisos algures a serem impressos também
Aí sabia que por vós em mim as brumas cerradas recuavam

Para ver o esbelto semblante desse cativante alguém,
Que me há cativado no escrito que os passos ansiavam:
Entre nebulosas e buracos negros por onde o Inteiro é além.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

... E O Rapaz Pt. V: Que Olhava Por Estes Olhos

Através do rio onde se espelhou outrora
O olhar reflectido era diferente mas igual
Na íris trazia os pincéis das cores da aurora
Iluminando nas mãos abertas um coração tal

Que o mundo ao vê-lo parava na precisa hora
E o velhote enrugado ficava catraio pequeno
A brincar com bola colorida no que era lá fora,
Sorrindo não pelo olhar mas pelo Ver enfim sereno,

Ssh! O mundo sempre discursa nos pequenos nadas,
Para o escutar é preciso parar e nosso ruído silenciar,
E… aceitar cada brisa suave e as tormentas danadas

Como prémios e ornamentos a este breve caminhar
Até mesmo as cicatrizes nas pegadas atrás deixadas
As aconchego bem perto do peito num irrestrito amar.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

... E O Rapaz Pt. IV: Que Deixava o Colibri Acontecer

Era a melodia da caixa de música entoada
Pelas persianas entreabertas um pouquinho
De nada mais e seria um pouco mais que nada
Pois no que aqui é enfim deixarei voar o passarinho,

Que sou eu e é de todos por isso a ninguém pertence,
Por vós e eu esvoaça ele através da brisa e tormenta,
Que ele aconteça planeado há quem ainda tal pense
Não percebem que o ruído deste mundo o afugenta,

Que ele detém a única vera politica, religião e filosofia
Aquela de quem é nos braços da brisa e a bem aceita,
Por vezes é a Lua invernal mas há vezes em que é dia

Então é a pluma no ar do colibri, a melodia que a enfeita
O sorriso do Sol, o beijo e o anzol numa sublime sinfonia,
E aí sim, é Magia... Nesta união que vai para lá de perfeita.

terça-feira, 7 de maio de 2013

... E O Rapaz Pt. III: Que Viandava Através da Estrada Branca

Se em vez de Lua fosse aquele outro dia
Colorido a crayons e embebido em poesia
Se em vez de pouco fosse só o bocadinho
Que juntava duas almas num só caminho,

Se em vez de lágrima fosse o azul do céu
E lá em vez da nuvem parda fosse só eu
Envolto pela noite alta na voz do trovador
Através do silêncio que é Sol e resto de cor,

Se em vez do destino fosse apenas a estrada
E de tudo um pouco quisesse pouco ou nada,
Sempre tão perto e longe à berma da viagem

Sem origem ou destino e sendo tão só à passagem,
Por aqui vou viandando sempre e sempre adiante
Até que o que era fica aqui enfim em mim distante.

sábado, 4 de maio de 2013

… E O Rapaz Pt. II: Que Colhia Faúlhas Uma a Uma... Uma... A Uma

Em admiração ele observava atento o firmamento
Algures por lá Ema bailava insciente à desfolhada,
Pequenas faúlhas caiam em oscilante movimento
Colhidas pelo rapaz deitado à berma da estrada,

Cada rodopio era rascunhado a régua e esquadro
Sendo em papel de marca de água por ele pendurado,
Suas mãos tinham nascido para pintar o seu quadro
E o seu olhar para verter em memórias o tão ansiado:

A melodia que era dela e que era sua pertença também,
Às vezes lamentava cada pestanejar pelo então perdido,
Ela era a visão estranha tão familiar, seu tudo e seu ninguém

Onde o resto passava e raramente ficava após ter partido,
Porém ele era enamorado por ela e por ela cativo e refém
E era ela a ocasião nele emoldurado e no seu olhar retido.

... E O Rapaz: Que Vivia Sob as Estrelas Cadentes

Encontrai-o em sítios abertos e arejados
Onde se ouça o cicio do ribeiro aligeirado,
Das estrelas revendo em si mil bocados
Aqui por fim e finalmente reencontrado

De pés descalços a beijar a relva verde,
O rosto delineado pela brisa da viagem,
O sedento de tudo enfim de saciada sede
Prostrado à lua nova pela breve passagem

Agora ele vive, finalmente ele é na Vida!
Não há tormenta ou sequer bruma no olhar,
Há um brilhozinho tornando a viagem sentida

Aqui finalmente, por fim e enfim basta o bastar
E quando a brisa o beijar em terna despedida
Que se lembre que um dia soube... ele soube ficar.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Eu, Tal Orfeu Pt.III: Saltitava, Submerso no Viandante

Aquelas eram as noites dos três murmúrios distantes.
Esboçando sorrisos suspirava através da branda brisa
Que rodopiava em espirais por escadarias ondulantes,
De mãos e braços esticados à Lua estava Rosa - a poetisa.

Ema espreitava, porém raramente olhava para baixo,
Saltitava de nuvem em nuvem sempre amorosa e ligeira
Confundindo-a com Orfeu apenas algumas pegadas abaixo,
Esse viajando dentre avantesmas largando o trilho à poeira,

Por vezes tomava Rosa por Eurídice e invitava-se ao escape,
Essa fuga era para o Sonho de Ema ou para o sono de Rosa,
Que nem Ícaro esvoaçava desenfreado entre Vénus e Marte,

Arrebatado ele era o pouco demasiado, o poema em prosa
Em vagão destravado, o caldo entornado no que é à parte
Nesta propensão à grande ascensão e à queda buliçosa.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

À Brisa e ao Mar Pt. II: A Aldeia da Criança e do Velho.

Hoje não, não haverá o vulgar alarido da mente,
Ela é aldeia e sossego situada em lugar incógnito,
Envolvida por água cristalina iria contra a corrente
Porém não hoje, hoje não há lugar para tal frémito,

Hoje são, são passarinhos a bailar e flores a crescer,
É hora de apanhar e soltar borboletas após o beijo,
Até quase caio na tonta ousadia de voltar a crer
Que o Universo é tão sublime tal e qual como o vejo,

Tudo é maravilha quando envolvido em mãos de criança,
Este olhar torna-se pólen voador, sorriso e bola de sabão
De lado para lado nessa tão esporádica e delicada dança,

Tão sincera como a lágrima que lhe delineia o semblante
Que embala o velho para o sonho nesta bonita canção
E que à chegada ambos acomoda dentro do viandante.

À Brisa e ao Mar: (Em Maresia) Pintando Escadarias para o Céu

Aqueles eram os tempos do não olhar para trás
Deslizávamos distraídos atrás do candor da maré,
Nossos lábios entre o azul e o vermelho eram lilás
Tolhidos pelas suaves ondas contudo em tal banzé

Que Deus era através de nós e nós éramos através dele,
Seguindo o Sol fazendo escadarias para o horizonte
Poucos percebiam o precioso sorriso que era daquele
Instante cativo e que de resto era a nascença da fonte,

Vinham as planícies, os vales, as montanhas e os penhascos
O viandante apenas era quando a brisa se reflectia no rosto
Cujo melífluo sabor preservava num multicolorido frasco…

Para tragar pela viagem e para beber o outrora eclipsado,
A berma da estrada para a cabeça era aprazível encosto,
Para sorrir e chorar às pegadas, para sustentar o ansiado.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Ao Sono: Pois Permite a Concretização do Sonhado

O recosto da almofada dá este dia por acabado...
Assim cedi, eventualmente sendo pela alvorada
Entre o despertar e o acordar então retratado
A pinceis suaves e borrões de sulcos da estrada

Que tudo me dão e que neste ir nunca dão nada,
Há portanto de aproveitar a brisa desta paisagem,
Respirá-la, senti-la e sê-la por onde ela for levada,
Da alta e baixa sou e faço parte tal como a folhagem

Que esvoaça e é pisada porém de vista no horizonte
Vale sempre a pena, vale sempre a pena quando se é
Pois o tudo e nada são irmãos que precisam de ponte

Para tudo o que é e certamente foi e talvez um dia seja
Em mim… sempre enfrentando o céu e o abismo até
Que durma… Perceba o porquê… e que enfim Veja.

Truz-truz-truz: ... Assentado

Este sono é pertença entre pálpebras semicerradas
Onde os cantos das paredes escutam as confidências
Feitas ao rosto da lua quando só a lua nova é escada
Para o sublime pincelado onde se esboçam as ausências

De quem por lá passou e ora as desceu ou então as subiu,
Deixado para trás ficou o aqui neste ténue almejo suspirado,
O sonhado concretizado que este olhar um belo outrora viu,
Gentil e suave, como batidas sobre o caixão levemente baixado

Truz… truz… truz… seu semblante é neste tão formoso sorriso
Chorado por diferentes segundos alguém num dia já percorrido
E tornado passado em tal rapidez através do meandro indeciso   

Que por vezes até duvido que a Vida tenha realmente acontecido…
Vem sono, traz-me o Sonho, da sua concretização ainda preciso
Pois o ser na Vida para um dia beijar bem a morte assim faz sentido.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Por Mundos e Mundos Pt. II: Aonde a Brisa ou a Tormenta o Levar

Através da vista onde ainda a trago, revisto a vida,
Seu reflexo é óbvio no sincero beijar do beija-flor
Que traz o coração à flor, dá-lhe cor e à despedida
Não pergunta se deu ou recebeu pois ambos são amor,

A brisa é a passageira por onde ele esvoaça alado,
Há mundos e mundos todavia apenas um beijar,
Ao vê-lo no ar dá para apontar o rasto deixado
Onde rodopia e parte pois ainda não aprendeu a ficar,

De instantes vem a espera, o esvoaçar e a nova partida,
Para esquecer as gotas do tempo que bebia outrora
Fazia por deslembrar aquelas três palavras na Vida,

Tentava e estrebuchava, tentava e cambaleava torto,
Ferido, compreendia tudo, percebia todos e à demora
Do tempo o mundo não passava e ele tombava morto.

Há Mundos e Mundos: Porém Apenas Um Beijo do Petiz Beija-Flor

“Olá, Eu Amo-Vos, Adeus”: quando o dia termina
Soluços pendem aquelas palavras e frases inauditas,
São nos restos fragmentados que ofuscam a lamparina
Que se prostra de joelhos a vida face às horas malditas,

Já nem apetece respirar ou escutar o bater do coração,
A criança que catraiava jaz neste seu vil silêncio interior,
Visito-a por vezes nos riachos onde tento dar-lhe a mão
Onde raramente sei se a deixo ir ou a embalo num cobertor,

O beija-flor raramente repara no que é na sua proximidade
Contudo quando beija uma, ela torna-se no seu amor, seu tudo,
A sua saúde por aquele sorriso, das suas lágrimas - a enfermidade

Porém nada, nem este céu em redor delas ou a sua cor são meus
Tenho sempre em mente que a brisa passa por aqui sobretudo
Por isso ao vê-la sempre digo: “Olá, Eu Amo-Vos e Adeus”.

Sobre o Reflexo: Através da Vista Onde a Trago e o Revisto

Aproximai-vos e espreitai para o espelho
Através do canto deste plácido olhar,
Dizei-me, vislumbrais o miúdo ou o velho
Que este rapaz foi e que um dia se irá tornar?

Ou vedes o instante neste actual presente
Por vezes invocado pela noite infinda
Outras onde é o abrir da aurora luzente?
Quando o partir tantas vezes soa a revinda

Ao sítio donde partimos naquele outrora
Polvilhado na vista, no reflexo inda vos vejo,
Trago-vos em cada olhar por cada arquejo

(…em cada agora…)

Seremos o reflectido ou aquilo que supomos (Ser reflectido?)
Ouvi! Parti todos os espelhos e nesse lampejo
Que eles nos mostrem por fim quem somos.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Sobre o Coreto Onírico: … E as Pegadas na Areia

Meia pegada deixada no rosto da areia,
Aqui somos o fragmento do dia incompleto
Pela noite dentro o avistar da luz encandeia
Vacilámos pois errantes na ausência do coreto,

Uma pegada dada, de pé em pé a salto
Aqui pulámos e andamos ao pé-coxinho,
O mundo precipita-se em imenso sobressalto
Hesitámos sim… mas vamos indo devagarinho,

Duas pegadas na areia e deslizámos enfim,
A viagem é a brisa no rosto e o vento o rasto
E que frescos ambos são ao passar por mim,

(Agora…) Quatro pegadas eventualmente serão uma,
Cobrirão então toda a porção deste areal tão vasto
Sim, ainda voaremos leves no adejar dessa pluma.