quarta-feira, 14 de junho de 2023

Se A Morte Vier Ter Comigo Em Juventude Pt. II

A juventude é este nosso presente divino,
Um tesouro brilhante, cheio de esplendor,
E mesmo que a morte venha e eu peregrino,
Serei ainda grato por cada potencial cor e flor,

Pois vivi com paixão e sem arrependimento,
Abraçando a vida com fervor eterno e ardente,
Deixando uma marca no mundo, um fragmento,
Mesmo que parta antes do esperado, indiferente,

Então, se a morte vier ter comigo em juventude,
Sabendo que vivi plenamente minha existência,
Eu enfrentarei o fim com coragem e plenitude,

Deixando uma herança de amor e experiência,
Se a morte vier ter comigo em juventude e me levar,
Digam a quem for passagem que hei-de um dia chegar.

Se A Morte Vier Ter Comigo Em Juventude

Se a morte vier ter comigo em juventude,
Tal triste paradoxo, destino implacável,
Não temerei seu toque frio, em virtude,
Pois viver intensamente é inabalável,

Qual sombra os seus passos silenciosos,
Podem se aproximar sorrateiramente,
Hei de enfrentá-la em tempos preciosos,
Desafiando o destino, indomavelmente,

Juventude efémera, essa sublime flama,
Que queima ardente, breve como o vento,
A morte não há de apagar essa tua chama,

Pois a vida é uma jornada sempre fugaz,
E se a morte vier neste meu momento,
Eu a encararei com paz e tenacidade, audaz.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Defeituoso Defeituoso

Direito como uma flecha, defeituoso, defeituoso,
Desflorado e amargurado, anjo caído e recaído,
A asa de um cisne quebrada num céu tempestuoso,
As junturas partidas em mais um beijo subtraído,

A armadura de Cupido e as asas de Ícaro emprestadas,
Quase soam a Amor e voos alados por todo o lado,
Estranha hora esta de somente pretender as estradas,
Ir indo, sem tempo ou espaço, ansiar o simples fado!

Pois o vento leva-nos o olhar, o silêncio é escutado,
Em passeios sem voz, derrotados por um passado,
Que me entrega ao horizonte, neste ombro transpira,

Por uma eternidade em si contida que em si suspira,
Por um trecho claro, por um pedaço aqui escurecido,
Por um instante deixado num momento entorpecido.


sexta-feira, 2 de junho de 2023

Ode à Mulher Pt. II

Oh, mulher, ser de magia e mistério,
Teu poder é eterno, grandioso e raro,
Em teu íntimo, pulsa um universo sério,
Repleto de força, sabedoria e amparo,

Tu és o arco-íris na tempestade,
A luz que ilumina o caminho escuro,
Mulher, és a musa da liberdade,
Inspiras o mundo com teu ser puro,

Teu coração, um templo de compaixão,
Transborda amor, ternura e empatia,
Em cada gesto, deixas uma lição,
De coragem, resiliência e alegria,

Em teus olhos, brilha a esperança,
Um horizonte de sonhos a se realizar,
Mulher, és a voz que ecoa com confiança,
Um exemplo de como lutar e esvoaçar,

Tuas mãos, sábias e habilidosas,
Constroem pontes e tecem laços,
Mulher, és mestra das coisas preciosas,
Transformas desafios em abraços,

És filha, mãe, irmã e amiga,
Um farol nas trevas, a nos guiar,
Mulher, és forte, a destemida que bendiga,
Na tua essência, não há limites para o sonhar,

Teu sorriso, um sol radiante a brilhar,
Ilumina vidas e aquece corações,
Mulher, és a arte de amar e perdoar,
Um ser de infinitas sensações.

Celebremos, então, a tua existência,
Nesta ode à mulher, minha reverência,
Que o mundo reconheça a tua importância,
E valorize tua força e essência,

Mulher, és a inspiração que nos guia,
Com teu amor e luz a nos envolver,
Ode à mulher, em todo e cada dia,
Por seres única, especial e eterna mulher.

Ode à Mulher

Ó musa divina, a fonte de encanto,
Em teu ser, o mundo encontra a cor,
Mulher, és a chama que arde no pranto,
A força que acalenta e desabrocha em flor,

Tu és mistério sob a forma de poesia,
Um oceano de graça e terna sedução,
Com tua essência, alegras cada dia,
E enfeitas a vida em plena perfeição,

Teus olhos são estrelas a brilhar,
Teu sorriso é um sol que irradia luz,
Teu toque é carinho, doce a embalar,
Mulher, és obra-prima que um ser seduz,

No teu ser há coragem e valentia,
E no teu coração, a compaixão,
Mulher, és guerreira em cada dia,
Desbravando caminhos com devoção,

És mãe, geradora de vida e amor,
Com teu ventre sagrado, gera a criação,
Mulher, és a paz que traz ao redor,
A essência de toda a renovação,

Nos traços do teu rosto, a beleza,
Na tua voz, a doçura a ecoar,
Mulher, és fonte de tanta grandeza,
Uma chama eterna pronta a inflamar,

A ti, Mulher, dedico minha admiração,
Por lutas vencidas, pelos sonhos a alcançar,
Tu és o pilar da nossa inspiração,
E mereces todo respeito a partilhar,

Mulher, és a canção mais bela a soar,
A inspiração que move o universo,
Em cada verso, quero te exaltar,
E reconhecer o teu valor imerso,

Ó Mulher, és um presente divino,
Uma dádiva aos olhos do Criador,
Que te abençoe e te guie em teu destino,
Nesta ode à mulher, expresso meu amor.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Deus Sussurra nos Pormenores

Perseguindo o brilho estelar numa doce recaída,
Sou cadente por opção, ravinas trago no coração, 
Dilacerando o horizonte dentre a chegada e a partida,
Num soalheiro dia que por enquanto conhece a monção, 

Deitemos abaixo estas fundações de ruínas do passado,
Deste precipício vejo mais longe que uma humanidade, 
Hoje lançar-me-ei sobre o que nunca hei ainda procurado, 
O brilho estelar de uma chuva que vai caindo sem vaidade

E me mostrando as lágrimas já derramadas, o sangue vertido, 
E nós, verticais, tentando alcançar o que ronda perto do além, 
Somente os poetas compreendem este apelo na alma imbuído, 

Só eles se vão escrevendo nas palmas de mil paraísos pretendidos,
Enunciando o caminho para o céu, numa eternidade que vai e vem
Somente os poetas entendem os pormenores por Deus ainda escondidos. 



quarta-feira, 24 de maio de 2023

Poema dos Cinco Dias

Frio entre o ranger lancinante destes ossos, 
Fecho os olhos sendo engolido pelo oceano,
Aqui, por vezes, não ouço o som destes passos,
E até por vezes o caminho é tudo menos plano,

Por entre as colinas vagueei incólume à doença
Que é a rotina dos homens, a sua enfermidade,
Os cinco eternos dias que levam à não presença,
Onde contemplo a sombra da semana, a iniquidade,

Um fardo escadeirando forte aos ombros do poeta,
Provindo do distante para embater no próximo,
Isto é como esbanjar ouro atirando-o na sarjeta,

Porém esperando o que vou alcançando neste trilho,
Procurando o que vou aguardando, o ponto máximo,
Os dias obrigados ao esquecimento, mas ainda brilho, eu brilho!


terça-feira, 16 de maio de 2023

Quando A Noite Caiu

Quando a noite caiu o poeta enfim revelou sua confissão,
Queria ter estado mais presente quando havia presença,
Ansiava ter beijado sempre com amor e dado a sua mão,
E não ter sido da ansiedade refém, ter feito a diferença,

Não ser quem cerrou os olhos para não ver e esqueceu o mundo,
Num salto de um precipício alto para o poço mais profundo,
Pois a humanidade é imunda, é suja, é anjo sem as suas asas,
Velhote abjecto virado quase em demónio em fogo, em brasas

Almejava ter abraçado e tocado a parede do além do infinito,
Ter condensado o instante num mero instante, num alto grito,
Não ter desperdiçado nenhum momento porque sim e sim!

Ter alimentado a alma de confetes sem qualquer início ou fim,
Pois quando a noite cai somos sem sono a cidade, o asfalto,
Que é eterna busca na procura sem ânsia, sem sobressalto.

A Ausência

A ausência é um vazio entre a palma da mão,
O lugar com pertença num tempo sem espaço,
A memória esquecida na bruma do coração,
O rascunho inerte sem linha ou sequer traço,

A ausência é a falta no lugar de uma imagem,
A carruagem parada ao vento a ir a nenhures,
É aqui tormenta, é brisa e é também aragem
Numa tentativa vã de atingir o além e algures,

A ausência são as palavras inauditas nunca ditas,
A forma e semblante ora tornado tão inebriante,
A tentativa de eterno instante nas horas malditas,

É um beijo quase dado, o abraço quase refractado,
Os dedos passando no fantasma de uma amante,
Espelho multicolor ao chão atirado e quebrado

(para o além do longe, para além do distante).

domingo, 14 de maio de 2023

A Armadilha dos Homens Fez-nos Esquecer o Paraíso

Vamos fazendo caminho entre a bruma adensada, 
Perdidos e encontrados numa procura sem final,
Pouco pedimos para além deste tudo e deste nada,
Pouco questionando e procurando o zénite divinal,

Gostaria de ter asas para ir num voo alífero além,
Somos nós que montamos os Pégasos do sonho
Numa indómita cavalgada destinada a quase ninguém,
Que venham os anjos e nos levem para lá do risonho,

O resto é rotina, a canseira de outro dia por acabar,
Indubitável é que eventualmente acabarei por sossegar,
Cerrando os olhos do Sol com dedos sempre cuidadosos,

E pisando os jardins de Éden com passos saudosos
De quem outrora lá passou, mas entretanto esquecido
Foi e caiu na armadilha dos Homens e por lá ficou retido. 



segunda-feira, 8 de maio de 2023

Um Dia Chegarei

Permaneço por onde vou ficando, marginal,
À lei natural da Natureza e de canto em canto,
Por vezes este caminho parece ser tão irreal,
Que não distingo os alarves risos do pranto,

Escondam-me nos recantos, entre o pavimento,
Pois um dia reivindicarei sob ele meu espaço,
Contra os ponteiros do relógio em sentimento,
Por entre vidraças azuis ora translucido ora baço,

Não fosse um fantasma diurno, por vezes oportuno,
Ou casa vazia, procurando memórias de quem foi,
De passo em salto em passo, seja ou não importuno,

Um dia chegarei à outra margem em vulto e semblante,
Cativo e refém somente do Sol e da vontade que corrói,
Um dia chegarei seja aonde isso for seja perto ou distante!


quarta-feira, 26 de abril de 2023

O Rapaz das Estrelas

... E então poderia ser o teu rapaz das estrelas, 
Logo brilhando perto do Sol, dando-te a mão,
Mesmo que caísse em pedaços pelas passarelas
Seriamos unos no pulsar único de um coração, 

... E então seriamos um par a dançar enfim com o luar,
Com o passar da noite, juntos e unidos em percalço,
Procurando um sítio aonde sonhar, para logo flutuar,
E quando a Lua tentasse fugir iriamos no seu encalço, 

Através de praias desertas que ousassem ser nossas num suspiro,
Escapando por entre os dedos do tempo, seriamos nos ventos,
Na eternidade de um belo instante, no momento de um respiro,

... E então poderia finalmente ser o teu rapaz estrelado,
Com fotografias de ti nos bolsos, seguindo os cataventos,
Há sempre uma canção para cantar nesse fôlego ansiado.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Através do Tempo

Através da noite foi a Lua que furtou a dormida
De um trovador ora tornado num romanticida,
Pois havia Vida no seu sorriso, na eternidade,
Assim passada ao seu lado, sem termo ou idade,

Através da noite foi um dia exíguo então a escassear, 
Custava-lhe por vezes passar na mesma casa, no mesmo lugar,
Que lhe acossava com água nos olhos, num sonho triste
Até regressar à memória de um instante altivo em riste,

E o relógio trauteava uma canção pelo tempo esquecida,
Porém soava a beijo na testa, a uma margem querida,
Amor, tu que te encontras distante, dá-me a tua mão,

Só assim se erguerá o sol, só assim baterá este coração,
Até lá serei ermo, relento, sonhador sem qualquer sono,
Acorda-me levemente com um beijo deste terno Outono.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Cada Pedaço do Viver

Passam estes abraços devolutos cobertos por um céu envelhecido
Parando assim instintivamente e procurando uma mão para dar,
A fragrância dos passos não conferidos é apenas o tempo perdido, 
E também o espaço entre a partida e chegada, porém o não chegar,

Estas lembranças são os dias passados de olhos quase cerrados,
O sonho a erguer-se para além do sono num beijo de despedida,
De verso em verso feito silêncio, os poetas são por fim sentenciados
À eternidade de um momento, a uma passagem imortal e abscondida,

O repousar de uma beata no cinzeiro, do último homem ao primeiro,
Esquecemo-nos da criança que se foi, ainda guardada na algibeira,
Do velho que bate à porta pretendendo tornar-se no Homem Inteiro,

"Serás poeira" - enuncia o Tempo com os seus dedos apontados,
É a orfandade da Vida o espelho desta enfim apagada fogueira,
A repetir-se cada pedaço do viver na parte dos instantes fragmentados.

terça-feira, 4 de abril de 2023

Até Já Mestre Ryuichi

Aproxima-se o soalho por um silêncio versado,
Escrevemos em palavras minúsculas o rascunho,
Vamos indo andando aos círculos num quadrado,
E flui a poesia jorrando do sangue do cerrado punho,

Já pernoitei deste lugar, já desabrochei que nem flor,
Alonga-se a distância do caminho num beijo inacabado,
E a alma feita pássaro azul procura poiso, procura amor,
Ou pelo menos sítio onde poder ficar por mais um bocado,

As algibeiras repletas de sonhos mesmo que demore a chegada,
Por vezes a orfandade é do infante a amiga, sua longa jornada,
Estendida entre o que fui e o que serei numa inconfundível pertença,

Há abraços a arrancar ao destino, outros voos a esvoaçar, essa é a crença,
E dentro da voz do pássaro volutear, escapulir por fim ao tido como mundano,
E de tal farei meu Reino, minha doutrina não há qualquer dúvida ou engano!


segunda-feira, 20 de março de 2023

O Poema

Do caminho é dos ousados, faz-se poesia,
Em letra simples numa estrofe composta,
Com a rima certa e píncaros de fantasia,
Cada verso será para sempre uma aposta,

Os sonetos de um Outono à porta deixado, 
Serei folha ondulando à mercê do vento,
O esboço do coração no espelho embaciado
Através de vidros azuis neste olhar luarento, 

Cai a Primavera num terceto assim vertida,
Ao espaço de um sol nascido e enfim caído,
Num horizonte limpo, numa margem querida, 

A narração do trilho do viandante, o seu esvoaçar,
Ante abismos e precipícios, no sonho concedido,
Este é o poema, um principio sem nunca acabar.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Amore

Vou escutando as mais simples nuances do amor, 
Sendo ele abstracto e concreto, tão feio e tão belo,
Tal o frágil balão voador e o Olhar na vista em redor
Dá-me alento para viver, retorna-me o Ver singelo, 

Torna-se significativo cada ar finalmente exalado,
Num ritmo cintilante que seja fluído ou ofegante
É mão conduzindo a um lugar já não relembrado,
O beijo à flor da pele, o saber o que é importante,

Uma luz no coração das trevas, a eternidade do sorriso
Que é brisa matutina, as estrelas fazendo-nos companhia, 
Um pouco de relva verde e pés descalços é o que preciso,

E folhas esvoaçando ao vento gentil, o que mais podemos querer?
É aproveitar o instante passageiro seja de noite ou seja de dia,
Havemos um dia de partir meu amor, havemos de um dia morrer.

sexta-feira, 3 de março de 2023

Para as Musas e Sonhadores À Espreita

Nuvens cinzentas encobertas por uma triste canção,
É a senda que estreita, a fantasia sendo contrafeita,
E eu, no topo do precipício, com a mão no coração
Questiono se há musas ou sonhadores ainda à espreita,

Vamos procurando um lugar ao qual se possa chamar lar,
Esperando para sempre, pela dízima de um ser ornado,
Sem caução e com cuidado, vamos procurando devagar
Por um beijo alado, simples e suave, eternamente dado,

Sorrisos serão partilhados e lágrimas serão enfim jorradas,
E no fim do caminho, o trilho encerrado por umas almofadas
Pois ergue-se o poeta sonhador, fruto do ir e vir e de uma dor

Estranha ao rosto da humanidade, as garras de um condor
Esvoejando sozinho perante a perfídia de uma alegre canção
Por onde alguns se perdem e por onde outros ainda hoje vão.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Quando Chega A Hora De Partir

Sustendo o fôlego de instantes outrora eclipsados,
Hoje pincelo a abóboda de cores jamais imaginadas,
Vou sacudindo a alma de pesadelos ontem sonhados,
Despindo lentamente as paredes entre si confinadas,

Acredito que suspiros são sorrisos ainda não vividos,
Pronuncio o passado, ansiando o futuro, absorto,
Rachando o chão por caminhos sinuosos e perdidos, 
Pulsando o ventre, frio e quente, erecto e até torto,

Entretanto aprendo: “Não há mais tempo para despedidas”
Pois o coração também pára na noite eterna e passageira, 
Prisioneiro do frio derrelicto, feito a dois por sendas divididas,

Somos roupas usadas recriando sombras em lúgubres recantos,
Sombras essas que vão dançando ao vento na luz forasteira, 
Trago os vultos que fomos indo, o pouco deixado e os tantos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Beija-me o Coração

Quero da água que brota da fonte distante,
Trouxe-te dentes de leão presos numa linha,
Lágrimas sorridas de um momento confortante
De um canção só tida no que um beijo sublinha, 

Esperamos primaveras e flores de pétalas tão belas,
De outros amores, de amores por ontem esquecidos, 
E eu quero chorar, aprender a contigo ser sob as velas
Dos instantes vertidos entre os dedos e que são perdidos, 

Tal palavras trocadas entre estranhos, então prisioneiros
Por mãos envolvidas por ervas, por eras, por esta solidão
Que comove os cigarros do chão, os secos entre aguaceiros,

E é enfim bonito ser feio nos braços dos outros, na multidão,
Pouco é regra e tudo termina no fôlego de outros, de terceiros,
Quando estivermos sozinhos num instante, por favor… beija-me o coração. 




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Andar Para Trás

Tento andar para trás num belíssimo despiste,
Revelando os passos outrora e entretanto dados,
Pois por onde já fui vou ora de arma em riste,
Enfeitiçado pelos tratados de outros passados,

Aqui, abaixo da abóbada celeste tenho lugar
Para um dia retornar, em caves procriado,
Abaixo do diálogo do soalho, num estranho andar,
Prevalecido sobre os estilhaços do caminhado,

Esta camisa de forças é a porta das insanidades,
Quisesse eu retalhos de mim, iria de novo atrás,
Não ficaria entre as crianças e o velho das idades,

Procurar-me-ia entre o gelo e o carvão das horas más,
No momento em que a lembrança eram as saudades,
No que o vento do norte vai levando e por fim trás.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Só Pretendo A Eternidade

Há lugarejos através de recantos de escuridão,
Onde o poema vai perdido sem o seu segundo,
E eu, viandante das estrelas envolto em solidão,
Vou procurando meu lugar, minha parte do mundo,

Renasço em poesia quando o fruto do amor invade
As muralhas que ergui perante a sombra que resfria,
Sabei que com o horizonte ainda sinto cumplicidade,
Um dia hei-de o passar brioso e altivo em grande euforia,

Trago raios de sol nestes meus braços que vou embalando,
Resplandecem a esperança de um outro dia, outra manhã,
Por cada esquina transvasada, verto-me em água, cantando, 

O hino dos poetas que me precedem, dos deuses lá do alto!
Acordando para mim mesmo, vem lentamente outro amanhã,
Farei desse momento eterno por cada passo dado neste asfalto.


domingo, 5 de fevereiro de 2023

O Boato (Cerebral)

Tenho gritos de guerra na garganta ainda hoje plantados,
São poiso para asas engarrafadas em navios sem destino,
Filhotes de heróis mortos cujos corpos nunca procurados
São eu, orfandade e lágrimas, as moradias sem inquilino,

E é desespero, vontade do não anseio, o suspiro perdido,
E eu vencido antes de ser derrotado, sem qualquer perdão,
A pluma na faca aguçada, um nome sem qualquer apelido,
Aprendi a morrer enquanto sou vivo de algemado coração,

Ela pavoneia-se entre as estrelas, sem qualquer amor para dar,
E cada letra, cada palavra é sentença para de mim recuar,
É o solavanco na estrada, a direcção alterada, o inebriar palato

Indiscreto, esvaecendo tal vinho entre dedos descalços, insensato
Sou eu, é o bocadinho da dúvida, o não conseguir comigo relacionar
O fragmento em que somos vida, em que não somos apenas o boato. 



terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Pela Brisa Levado

Sim, vamos segurando as mãos de eventuais estranhos,
Através de sepulturas e paixões em estado terminal,
Desabafados por fôlegos largados na dor dos rebanhos
Que vamos seguindo cegamente, é inexacto, é pontual,

Envelhecendo na berma da estrada, na quase vontade,
De quando dois olhares entre si se viam em plenitude,
E sorrisos eram sussurrados no encontro da vera metade,
Amor, eramos maiores que o mundo, a mais alta altitude,

Entrementes dela fomos queda, precipício aberto e incerto,
Fragmento de coração, sem isenção, o compromisso quebrado,
De quando urgia o bocado, o instante passageiro, o desconcerto,

Fica a nostalgia de momentos de magia - eternamente cravado
No peito do trovador, com e sem a sua dor, o momento eclipsado,
Que aquele que seja o último a suspirar seja enfim pela brisa levado.


domingo, 15 de janeiro de 2023

Enquanto Ouvir As Harmonias

Traz-me enfim conforto, sussurra o nome à estrada,
Com dedos cuidadosos cerrando seu olhar cansado,
Onde andamos por jardins verdes vem a encruzilhada,
Esta noite num outro dia viveremos um dia no sonhado,

O ar nocturno pelos poros da pele então será exsudado,
Dizendo o sabor que entre estes lábios se vai escapando,
Caindo da mais alta montanha ao precipício saudado,
Acordamos onde esvaecemos, num riso estampando

Outras alturas, na água fria entre estes pés descalços,
Lavando as mãos, a oferta daquelas asas cobiçadas,
E levantamos voo para o sol poente, ao seu encalço,

Relembrando o brilhar de estrelas altivas, mil sinfonias,
Onde dançamos ao seu som, notas do silencio afectadas
Pelo calor de uma mão na outra e das suas eternas harmonias.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Em Sonhos Éramos


Em sonhos relembro-me de calcar vidro, indo descalço, 
Também saltando sobre cinzas e rochedos, de mãos na mão,
Batendo nas portas e engolindo suas chaves num percalço,
Aonde ia beijando beatas de cinzeiros enfim dormindo no chão,

Em sonhos relembro-me de embaciar vidros com o fôlego
De mil ideais, esperando sois poentes, outras vertentes,
Cultivando o desapego, truz, truz, onde eramos resfôlego, 
Onde pretendíamos ser asas pintadas no céu e entrementes

Em sonhos éramos um pouco de luz por átomos divididos, 
Fechávamos os olhos, não obstante na cinza do dia passageiro,
O ontem torna-se um pássaro entre anseios e desejos despendidos,

Saibam que este sonhar era um outrora e um será, assim soalheiro, 
Alegria e luto ao passar, o riso e chorar sempre e sempre cândidos, 
Era Terra do Nunca nas palmas de uma criança e era o seu aguaceiro.


sábado, 24 de dezembro de 2022

Um Milhão de Pedaços da Estrada

Suspiros vazios empurrados por goles de vinho,
A visão da donzela pelo canto da mente vestida,
Parece que a encontrei sob a folha do azevinho,
E parece que neste coração a tenho amanhecida,

Pintando espelhos a tons de dias do passado,
Onde a poesia levava os dias na bagagem,
Estou perdido, suplicando para ser encontrado,
Solitário tal gestos inauditos pela paisagem,

O aprendizado então mudado, beijo o desconhecido,
Precisando de oxigénio para poder enfim respirar,
É fácil fechar os olhos e deixar ser o permitido,

Sei que sou um milhão de pedaços da estrada,
Os momentos aos quais me propus finalmente amar,
Então enterrem-me no fim no céu da tela já viajada.




terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Entre a Treva e a Luz

Tenho ainda nós no ventrículo esquerdo,
E luminárias delineiam esse sentimento,
Que é a beleza dos instantes que herdo
Entre a treva e a luz – o seu casamento,

Onde inebriado ouço o esvair das lágrimas
Dum coração pela estratosfera descalço,
Quando tudo o que pretende são as rimas
Para fazer do seu bater tudo menos percalço,

Vendo os anos a passar através da janela,
Os sentidos humedecidos, hoje preteridos
E perpassados pelo avistar de uma donzela

Que era todo o meu pesar, todo o meu voar,
Enquanto eu rastejava, oh quanto a ansiava,
Entretanto assim carecia todo o meu amar.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Não Obstante

Objecções e insinuações, para voar instruções,
Ânsias e fragrâncias de tempos já eclipsados,
Entretanto há instantes onde dois corações
São assim todos os caminhos jamais pisados,

E neve incandescente cai só para quem a sente,
Procuramos um sítio ao qual chamar de lar,
Onde poder pernoitar e ir adiante e em frente,
Para a terra dos sonhos, para aquele lugar

Que não tem dono, nome ou sequer apelido,
As saudades de quem ainda não é passado,
É sim uma porção fragmentada de vento ido,

Acredita, por todas essas tormentas te hei amado,
Não obstante do quanto fui queimado ou ferido,
Ainda penso no amanhã, inteiro ou quebrado.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Despeja Uma Constelação No Meu Copo

Despeja um para mim, os sonhos vou segurando,
Escrevo estes poemas por gotas de sol recolhidas,
E esta voz é o erguer das constelações, recuando,
Entre as sombras que nos seguem, ora partidas,

A última nota tornou-se na primeira, sou guarida,
Sítio para pernoitar, para ficar, para enfim sonhar,
Dedilhando esta brincadeira dos céus conferida,
Há-de ser a minha flor de cabeceira, o meu lugar,

Lar livre como o próprio éter, em árvores pousando,
Escutar-vos-ei nas cantigas e nos risos das crianças,
E desse recitar ver-me-eis desde aqui esvoaçando,

O noturno torna-se diurno, a memória torna-se promessa,
Eu dormindo no ombro das constelações e suas danças
Assim o mundo lentamente se vai e tudo o resto cessa.