quinta-feira, 11 de abril de 2019

Os Mortos Que Trago Aos Ombros

Estes são os mortos que vêm de mão dada,
Eu sou mausoléu e sepulcro para os partidos,
Talvez sonhe sobre negros sonhos de enxurrada,
Escutando por longos monólogos ainda sentidos,

Vejo-os através do canto do olho rapidamente a passar,
Num cemitério o fantasmagórico e funesto casamento
Entre os mortos que fui e os vivos que hei-de alcançar,
Pois quando chegar esse será de todos o testamento

Aqui deixado por um coração pulsante ainda a pernoitar
Por um instante que algures também deixou de acontecer,
Trago aos ombros estes mortos apesar de ainda respirar

Trago-os no peito, ao abraço assim reflectidos no viver
Pois quando partir e da terra me retornar enfim ao ar
Esses mortos serão tudo o que nesta vida soube ser.


terça-feira, 9 de abril de 2019

Quando Somos Toda a Distância do Mundo

Sim, quando somos toda a distância tida no Mundo,
Não há tempo, só espaço para um silêncio contido,
Ecoando lentamente um suspiro em poço profundo,
Murmúrios enfadados de um lugar então já perdido,

Pergunto aos Deuses qual fortuna para mim haverá,
Quem me dará a mão para alcançar uma nova manhã,
Tenho noção de que o tempo é um carrasco tão cruel,
Rascunhando fundas rugas no rosto tal folha de papel,

Ícaro e Orfeu sabem da procura e do anseio que é meu,
Pois vão passando sóis e subo escadarias rumo ao céu,
Amor és fantasma, espaço vazio entre estes frios braços,

A mudez do coração apunhalado em mil e um pedaços,
És ausência de sonho, a doce memória quase esquecida,
Todo o espaço entre nós, morte vinda, morte e não vida.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

O Idioma do Viajante

O ecoar de um silêncio tornado quase indiferente,
Uma leve estrofe proveniente de indefinidos traços,
Nela o coração batente de quem de si é remetente,
O arauto de uma ideia ida de intermináveis abraços,

A procura está na busca por uma verdade escondida,
Na mudez da noite retida no olhar de uma criança,
Enfim suficiente para dar a Lua quase como obtida
E para terminar com beleza esta final e última dança,

Gotejam tal fontes os olhos de distanciados amantes
Pois ainda sabem o sabor que há no sal dos oceanos,
Lembram o quão importante é aproveitar os instantes,

Conferir aos olhos a beleza existente em cada aroma,
Envolvendo o quebrar do coração em suaves panos
De quase a chegar e quase a partir, esse é o idioma.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Aguenta Amor

Persigo o amanhecer sobrevoando pela estação,
É de dia e perscruto a noite as estrelas indagando,
Trilho a trilho vou através do breu esticando a mão,
Aguenta Amor, eu estou partindo, eu estou chegando,

Por onde vou ouço ao longe a luz diurna a fenecer,
E eu ainda caminho, quase o horizonte alcançando,
Pois o não caminhar é simples sinónimo de morrer,
Aguenta Amor, eu estou partindo, eu estou chegando,

A estreita passagem é obstáculo para quem muito traz,
É ele o cego inebriado as supernovas ainda observando,
Pelo compasso do relógio, pela direcção das horas más,

É de estrofes e versos que fica o coração transbordado,
Para o caminho, por um beijo deixado algures para trás,
Aguenta Amor, eu estou partindo, eu estou chegando...

quinta-feira, 28 de março de 2019

Sou Pássaros Esvoaçando...

Sou pássaros esvoaçando pela paisagem,
Cabeça procurando abrigo em belo regaço,
Ao esvaecer do sol no horizonte, a imagem,
Fica na mente concedendo tempo e espaço,

Sou pássaros esvoaçando sempre através do alado,
Sem tempo para protelar com esta humanidade,
Do júbilo à acalmia de olhar bem atento e calado,
Sou filho dos deuses e nos deuses tenho a orfandade,

Sou pássaros esvoaçando felizes e tristes no coração,
Evitando assim a chuva e a lama própria da estrada,
Suspirando cada vez que vem alguém e lhe dá a mão

E pouco depois parte sem lhe pedir ou exigir nada,
Sou pássaros  procurando onde pousar de antemão,
Sou pássaros voando tentando ter a vida aproveitada.

Sou Pertença do Outro Lado

Serei sempre quebrado, serei sempre partido,
Perdido entre o que sou e o que não pude ser,
Amor, não é que não tenha desejado ou querido,
É mais que não sei sequer beijar ou talvez reter,

Sentido saudades de mim como sem existência,
Algures entre a margem que piso em ausência,
Beijando a chaga do coração ou apostema aberto,
Passam as horas enquanto trilho passeio incerto,

Agora sabes que pertenço àqueles do outro lado,
Que apesar de ir sou ainda fragmento, sou bocado
Quase deixado à brisa e o entre nós e não obstante

Este anseio de poder alcançar e enfim ser alcançado,
Pouco me importa o resto caso não seja importante
Se não for suficiente para preencher cada instante.

terça-feira, 26 de março de 2019

Vivendo no Passado na Ausência de Futuro

Há ao lado da cama uma ferida ainda aberta,
Entre os lençóis amarrotados na hora incerta,
Pergunta quem se entrelaçará em vosso abraço,
Será somente a saudade desse esbelto regaço

Que dirige os sentidos para a noite sem fim,
Enquanto me procuro aqui, dentro de mim?
Assim descubro que sou figurino na sua vida,
Sou gente passada e pela escuridão envolvida,

Entretanto as vielas chamam o nome do desvalido,
Amor porquê? Para mim próprio já nem sou querido,
Alfim recolho-me sob o Luar de um segundo passageiro,

Deixando este coração receder na negritude de um bueiro,
Parece que por fim já não há mais estrelas para numerar,
Parece que aqui não temos mais novas marés para remar.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Que Haja Sempre Vento Sob Essas Asas

Tropeçando em fragmentos de estrelas, ofegante,
Roupas usadas trajando cadeiras por pó encobertas,
Os esqueletos no armário tal lembrete para o instante,
Seus nomes ainda suspirados por janelas entreabertas,

Ao longe vão murmurando por entre o verso e a trova,
Calcando poças feitas de sonhos provendo a realidade,
Que não falte uma ideia e que esta brilhe tal supernova
Quando apenas restar uma escuridão ocultando a beldade,

Pois por vezes chove, outras faz sol, é este o eterno carrossel,
Vem o Inverno e vai o verão ornando em anos o semblante,
Conseguis entender-me quando grito desta torre de Babel?

Para quem nunca viu é sim esta a força que arrasta o vento,
Pois que me arraste a mim também para a pradaria distante,
Para lá do horizonte e que após a morte venha o nascimento.

quinta-feira, 21 de março de 2019

A Mancha do Coração

Sendo profuso ou obtuso de mancha no coração,
Sorrio desfocado e não há quem confira a mão,
Pois andamos perdidos, errantes pela estrada,
Pretendendo um pouco de tudo, tendo nada,

Passando por último na meta de uma ida Primavera,
Eu não pertenço a este mundo, eu sou de outra era,
De quando havia romance e era Vénus no regaço,
Um beijo na cara era suficiente para dar embaraço,

Pulsando e latejando ansiando por aquele perfume,
Trazendo no peito de Orfeu todo o fogo e ardume,
Então para quando uma estrela somente para nós?

Que jamais se olvide seu ímpar instante, a única voz,
Tudo o resto é levado pela maré retida no instante,
Suficiente para separar o indispensável do irrelevante.

sábado, 16 de março de 2019

Como Uma Vida Sonhada

É preciso viver sem esperar pela alvorada
Pois a morte vem vindo bem devagarinho,
Há muito estou pronto para subir a escada
E para lá das trevas voar que nem passarinho,

A passo pautado ouço a morte além da porta,
A imortal dança entre o eviterno e o instante
Que vou trazendo no palpitar desta aorta
Ora tutucando ora próximo, ora distante,

Por vezes perdido na implosão desta supernova,
Esquecido pelo trilho estelar que me deu nome,
É esta a melodia do poema, a miríade, a trova

Que ora nos maldiz, ora nos permite em benção,
Desde que fiquemos com rasto candente do prenome,
Estou pronto para partir desde que à luz do coração.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Um Fio de Prata Para Um Pedinte

Atirando um fio de moeda de prata para o pedinte,
Seu cabelo prateado a única salvação do presente,
Chegamos ao manjar dos deuses que rico requinte,
Quando o que ansiamos era tudo menos estar ausente,

Incógnitos, conhecidos, amigos, amores e desconhecidos,
Passando o mundo e esperando que o amanhã regresse,
Pois entre os lençóis fui deixado, por lá fomos esquecidos,
Alfim vem a lua sobre o jardim que a lagoa beija e entretece,

Para quê tanto ruído se de silêncio sou alarido? Desapegado
Ao permanente, o beijo da sua boca, soa a pouco, a bocado,
Sobrevisto e revisto, revisitado e abandonado, ouve-me Amor,

Sem a prata do seu cabelo cessa a vontade de viver, vai a cor,
Uma corda ao pescoço, este pedinte voa! Enfim venha a fadiga
Pois do sonho estou cansado, que se silencie a voz e a sua cantiga.


sexta-feira, 8 de março de 2019

De Suas Costas Jazem Mil Valas Comuns!

Este é um precipício entre a maré-baixa e a montanha,
Eu ouvindo ternamente as dunas e aquela sua melodia,
Num cinto de ervas daninhas e espinhos tal artimanha,
Onde jaz o fantasma que é e assombra a hora deste dia,

Os prados ondulam na brisa como os cabelos da donzela,
Entre as lajes de mármore de onde se erigem os panteões
E eu com os olhos tão repletos de magia ansiando por ela,
Insciente às valas comuns dos anteriores, de mil corações,

Troncos cinzentos erguendo-se desta floresta abandonada,
Vem a noite e vai o dia, e eu sentado esperando a alvorada
Que seria um beijo único e irremissível, pelo colo e sua mão,

Oh seriam mil sonhos sonhados, o alcançar o céu, o perdão
Do poeta por escrever sobre o seu horizonte sem o alcançar!
Oh fosse ela a reciprocidade de um doce louco a tentar amar!

quarta-feira, 6 de março de 2019

O Círculo do Eu

O refúgio para o brilho das quatro estações,
O poente deste olhar que é vista e moldura,
Sou eu e vós o pincel de mil e um corações,
Aquele livre sonhador que da Lua se pendura,

Embalamos quimeras numa cadeira devaneada,
E com o pé na estrada, uns ficam e outros vão,
Não obstante o caminho que entre tudo e nada
Concede cor e asas ao tremeluzir da constelação

Que erigimos na lágrima e no sorriso, o relance
De um vulto tornando-se finalmente semblante
São os gritos emudecidos de um perdido nuance,

Tantas vezes reencontrado no rosto do espelho
Mesmo que por vezes esteja tão e tão distante,
Em súmula, é a criança retornando-se ao velho.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Fecha os Olhos e Sê A Vista

Somos cerúleos ante o eviterno sem fim do firmamento,
Somos aquele único beijo, somos o seu único momento,
Amor é aqui, o abraço entre briosas supernovas, o peito,
O latejo retido para além do maior parece-me tão perfeito,

A obstrução ao nocturno, aquele sussurro que não tem fim,
A escrita sobre o rasto cadente até o princípio em mim
Pois quando eu vou e assim fico e se pavoneia o mundo,
Eu sou a parte de mim que é sempre aqui neste segundo,

A algibeira do colibri indo assim ingénuo de flor em flor,
Tal o primeiro raio de sol no parapeito da manhã delicada,
Do simples ao complexo detalhe, sendo aqui enfim amor,

Pois somos pássaros engavetados navegando entre estações,
As lanternas mágicas largadas à noite tornando-a estrelada,
Vós sóis quem lhes dá guarida ao abrigo dos vossos corações.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

... Sobre O Rasto Cadente do Firmamento

Estas páginas são sobre as pegadas deixadas na areia,
E também sobre o belo rasto cadente do firmamento,
Relembram que o que excede por vezes até rareia
Pois tudo é matéria e onda - aqui tudo é momento,

Trago sonhos para os insones com um pouco de magia,
Beija-me e sente o Universo, a procura pelo eviterno,
Esta sede de Infinito é tristeza com píncaros de alegria,
Amor é cada passo pela viagem - o abraço fraterno,

Por isso parto para um dia regressar, indo e vindo sem medo,
Através de janelas de vidros azuis eis o regaço da enxurrada,
Indo em frente ou para trás por vezes sem trama ou enredo,

Desde que permita à Lua e noite sentir-se para sempre amada,
Este é o trilho estonteante da Vida na ponta desse dedo
E estas são as tuas estrofes cadentes largadas à estrada.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Nos Seus Cabelos Há O Havia

A poesia existente na ponta dos seus cabelos,
É suave, meiga e terna, relembra o outrora lar,
Ensejo divino, feito de veludo ou auto-flagelos
Porém é paragem e até sítio, é conforto, é luar, 

Recordo esses belos cabelos num dia de verão,
Ao peito do sonho de quem mais ousa o recado,
Oh como eles deslizavam pelos ombros, pela mão
Cuja mensagem era simples: silêncio tornado,

Hoje finjo e amaldiçoo quem me toma a cadeira,
Tal sussurro primaveril, a vontade é de pertença,
Sou eu a criança preta no abismo tal brincadeira

É a vida verdadeira o inimigo da vera crença
Pois deixamos para trás os beijos sob a Oliveira
Por isso de mim próprio fiquei para trás tal doença.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Se é Andar, Andar é Ir Em Frente

Na palma o sonho, nas pernas a asa potencial,
Viajando através de quimeras e do firmamento,
Sou um nada e um Universo dando-se ao astral
Onde somos eternos num pequeno momento,

Esqueço a sombra que deixo tal rastro cadente,
Adiante há luz em mim enfim ainda por alcançar,
Todos somos eternos num minuto, de repente,
Aqui finalmente atingimos por fim o nosso lugar,

Para além dos mortos-vivos, há o esvoaçar alado,
Ouço o bater do coração que já não é só bocado
Então vamos por onde deixamos o corpo para trás

Onde a guerra reclamou os feridos nas horas más,
Por fim não há mais medo para caminhar em frente,
O mundo é muito mais desde que se vá e se tente.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Matem o Cego!

Matem o cego, matem o cego, matem o cego,
Pois a vida passa e nada a preenche, só o ego,
Fazemos castelos na areia, pirâmides para o céu,
Porém somos menores que pequenos, despe-se o véu,

Há vultos e semblantes preenchendo-se de nada,
Anseiam por tesouros sem colocar o pé na estrada,
Transeuntes explorando outrem sem dó ou piedade,
Não conhecem sequer compaixão, amor ou caridade,

E eu, eterno viajante por onde vou ousando caminhar,
Por vezes perco-me deste meu trilho, perco o meu lugar,
Haja estrelas no céu, e cadentes para ser em perseguição,

São o adorno para o caminho, são o preencher do coração
A belos contornos reluzentes tal um beijo demorado na face,
Pois de desnecessário estou farto, disso é preciso o desenlace.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Escapando da Armadilha do Beijo Sem Amor

O homem ausente é a única causa da nascença solar,
Evitando o poço que perdura no beijo do instante,
Que não é suficiente, não é o satisfatório, é não amar,
Pois fomos construídos por sonhos tidos neste errante,

Uma gota de sangue por uma vida, para sempre vivo,
Mesmo que o aqui não o auxilie, poderia ser pior,
Poderia ser ausência no coração em tom narrativo
Partilhando o hoje com nada, tal pincel sem cor,

Por isso ele é escape da estrada sem margem para ir,
Conhecendo o ar sob a asa que esvoaça sem contenda,
Amigo do Sol, do Mar e da Chuva, sabe tão bem sorrir,

Deixem-no ir, ele procura por vera magia, o poente
É ficar a meio-caminho, ser pela metade na fenda,
Vede o quanto é preciso crença para ser o crente.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Passando Tal Estrela Cadente - Eu Brilho, Eu Brilho!

Há espaços vazios ainda hoje sentados à mesa,
É o tempo que nos leva aqueles que chegados
Partem e deixam um sabor agridoce, é a tristeza
De saber que desta nossa vida foram eles levados,

Seus sabores nestes lábios de divindade semelhante,
Na orla da estrada foi onde fui nascido, ora consumido,
Para agora transbordando de vida, sou ainda o incessante
Como o ontem se empilha no perecido, é quase até querido,

O perseverante é queda vertical para acima, eu ressoo,
As colinas onde vagueei e me ergui sendo o firmamento
Segui o brilho das estrelas cadentes em ascendente voo

Sem perguntar sobre o que poderia ser amanhã, a ímpar visão
É que cada folego é sangue jorrando, assim dita o momento,
Se criar e sonhar é o mesmo - eu brilho, eu brilho no coração!!!

sábado, 5 de janeiro de 2019

A Viagem Estonteante da Vida

De vida no peito enlevando-a como oferenda,
Desencontrado com os ponteiros do relógio,
Esta máxima é o que vos deixo, é a prenda
E que bom poder partilhar, que privilégio,

Enquanto passa o tempo vou-me observando,
Espelhos mostrando faces por vezes distintas,
É necessário saber como os ir aqui quebrando
Para retomar o excelso desenho, ter as tintas,

Que é dia a dia por uma impermanência ladeado,
Quando falta um pouco de ontem, um bocado
Que não é amanhã também, é só este instante,

O carrossel é viagem através da pista estonteante,
E eu sou apenas passageiro indo em frente, adiante
Por onde o piso é simultaneamente o pé e o calçado.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Quando Pesa Respirar

Eu passo pelas ruas tal sussurro primaveril,
Por janelas azuis quase vejo minha chegada,
Entre as margens caminhando a passo subtil
Ansiando e esperando por uma eterna amada,

Por onde passei sombras beijando o caminho,
E eu, solitário, vagueio através de semblantes,
É assim na multidão que me sinto tão sozinho
Pois para mim todos vocês são ilhas distantes,

De sonhos para cinismos - é o poeta a envelhecer,
É o assassino da criança que por prados ia a correr,
É este tempo que não permite de alívio respirar

É esta cidade sem espaço para de facto se amar,
E eu a definhar com estas vertigens no coração
Por não encontrar quem confira ou dê sua mão.

domingo, 30 de dezembro de 2018

O Homem Que Vai Procurando

Algum lugar em nós, tão próximo do regresso,
Procurando pelo feixe de luz divino, pelo imortal,
Nesta simples demanda deixo o impulso, o ingresso,
Caminhando fora e dentro do trilho, quase acidental

É o passo escolhido, o amor é a única pretensão
Pois a alternativa é fechar os olhos e deixar de ser,
Isso não tem magia, não preenche o coração
Então é pseudo vida, é quase morte, não é viver,
 
Assim, não nos podemos de nós próprios aposentar,
Isso é sem dúvida o que o homem velho há-de matar,
Há beijos a dar, abraços a partilhar e a única mudez

Daquele silêncio visceral após responder aos porquês,
Rezo por encontrar esse lugar, o resto é passo dado,
Para o homem que ora se vai perdendo, ora é encontrado.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Sede, Sede de Infinito!

Sede de infinito, de infinito tenho infinda sede,
Atravesso deserto levando na mão o coração,
Saltando alto, sem trampolim ou sequer rede,
Assim dita o passo que vai passando na estação,

Preciso de relva, ar e mundo, o resto é passado,
Acredito na palavra amor e assim vou indo
Pois trago perto do peito o ósculo dourado
Que é beleza, é tristeza, é o universo revindo,

Assim exploro o dia, cada dia sou explorador,
Trago palavras para com o transeunte partilhar,
Algumas são feitas de brilho intenso, outras dor

O que importa é que todas elas eu consiga amar
Pois o que é eterno ou imensurável para além do amor?
Nada, silêncio onde fui ruído, o aqui é o que tenho para dar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Partindo Para Um Dia Regressar Pt. III

Tenho beijos nas mangas e colibris na algibeira
Confessando ao poeta a sua própria naturalidade,
É fruto de amor sincero, de sonhos à cabeceira
Que se alastram pela planície expondo a verdade,

Aparências enganam então de mim sou o vestido,
O resto é sobra logo acabará por um dia escassear,
Pois lembrem-se que regresso sem ter ainda partido
Porque ainda não encontrei meu poiso, o meu lugar,

Esta viagem é interna, é caminhada pela alma eterna,
Quase sem se notar para além dos segundos vigentes
Que pela escuridão são ora a luz negra, ora a lanterna,

Não obstante do trilho, do esforço ou do sorriso perdido,
Há tanto a andar como a vislumbrar, acordai descrentes!
Reparem no tecido na vida, o ínfimo detalhe subentendido.

Partindo Para Um Dia Regressar Pt. II

Quando aqui regressarem as doces andorinhas
Já terei partido para outras longínquas margens,
Portanto farei por ver mais longe, ler entre as linhas,
Pois este eu é o acumular dessas diferentes viagens,

Ósculando o caminho, por vezes tão e tão perdido,
Vamos na procura pelo encontro, a universal voz,
Tal ribeiros vamos fluindo lestos entre o já vivido
Enquanto este se alastra pelo leito do rio até à foz,

E eu meus amores sou porção da metade plural,
Alma sem trela, coração sem rédea, sou temporal
E monção sem a mera pretensão de o querer ser,

Amores - só no meu peito vos quero a todos reter!
E então novamente partirei sem ruído ou palavra
Esperando somente o encontro e que a porta se abra.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Partindo Para Um Dia Regressar

Encharcado por sussurros, sou o inevitável,
As roupas usadas encaixadas na cadeira
São pirâmide para reis, para o confortável
Que outrora era regra e lei ora na algibeira,

Pintado a sangue no dedo indicador, oh amor!
Não sabes que és teia de aranha, a envoltura
É ser pedinte sem suplicar, ser pintor sem cor
Pois para a revolução enfim chegou a altura

E eu na curvatura, no beijo que é tão estranho
É escravatura sem mestre, pastor sem rebanho,
Pois então estou a partir para um dia regressar,

Chamem-me de aventura e que seja o vosso lar
E enfim que os séculos se tornem nos segundos
Que trago na mão do pintor por mundos e fundos.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Tu És a Voz do Poeta

Ajoelhados e não suplicando mais por perdão,
A maré então despindo-nos destas impurezas,
Se um dia me esquecer há sempre uma canção
Para sussurrar ao ouvido e dispersar as tristezas,

O crepúsculo é vista na poeira do regaço perdido,
Se olvidar haverá sempre uma história para contar,
Se houver lembrança então de escuridão despido
Serei a tentativa de amor ou ensaio ao querer amar,

Estrada lúgubre e luminosa, lenços levados na brisa,
Há pensamentos, há tormentos e há até testamentos
Para viver e por ela morrer, por essa esbelta poetisa,

Vamos à volta, a correr e escapar do tido como dor,
Há momentos, há rebentos e há até agradecimentos
Por ainda escutar a música e a voz, a voz do trovador.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Para Quê Amar Apenas Uma Estrela Se Tenho Todo Um Firmamento?

A noite sem fim é onde sou em pertença,
Tal lenço usado procurando luz e magia,
Esta leve saudade é a nostálgica sentença
De quem é da noite mas vai procurando o dia,

Pois de estrelas é constituído esta leve alma,
E súplicas, orações e preces, quase há lugar,
Para encontrar, para sossegar em suave calma,
Quase sei o que é ser, partilhar e talvez até amar,

Alvoraçados pelo ruído das pessoas os pássaros fogem,
Eu sou tal como eles, um escape sem tempo a fugir,
Indagando o firmamento enquanto buquês colhem

O que me interessa a moça do sonho? A única donzela?
Em contraluz é a voz desfalecida e eu entretanto sem ir,
Sem sitio ou lugar para amar de facto uma ímpar estrela.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Caminhar Sob a Chuva Nocturna

Então largando no pavimento achas de cigarros,
Está frio, está a chover e nos charcos o reflexo
De quem passou no som distante dos autocarros
Que me levam para onde não vou - tão perplexo,

Vestido de cinzas, precisamos de um remédio,
Algo que não seja eu, que seja outro qualquer,
Que enfraqueça a vontade de morrer, este tédio
É encobrido por nevoeiro, por mim a envelhecer,

Suspenso por um baloiço de uma infância ida,
Fotografias mentais de dias tornados memórias,
Esta dor é o conto de fadas pilhado, esta partida

É residente nas sombras deste peito, as estórias
Acumuladas tornadas um dia na ideia foragida
Nos degraus que sequestram as horas inglórias.