quinta-feira, 10 de junho de 2010

Tenções de um Derrelicto

Tencionava hospedar algo inerentemente inevitável, algo inevitavelmente cabal para partilhar, algo dotado de tal poder imenso e pleno que despoletasse em quem quer que o lesse uma acção-reacção fundamentada e real de tal ordem que as suas órbitas saltassem ou seja, o seu cérebro implodisse e a sua alma fosse embalada pelo mais suave gesto enternecedor. Almejava que o seu poder sobraçasse mundos e galáxias e sucumbisse somente quando aquele rasgo de esperança, sobejamente reconhecido pelos que ousam apontar para algo mais, cedesse…
Como se perseguíssemos o mesmo fim do mesmo arco-íris, como se essa perseguição fosse recíproca a quem a permite simplesmente ser. Somos abalados e badalados pelo cinzento rangendo os dentes em sua resposta, esquecendo de que uma resposta sem uma pergunta, é uma afirmação do ser subconsciente, do alfa propalando-se ao ómega e deste retornando ao alfa. Algures nesse intervalo, espalho meus resíduos no éter cerúleo, um dia serei o arco-íris, disso tenho a certeza, disso tenho a inevitabilidade da questão.
Mas eis a sua irmã diminuta, a inevitabilidade da sala vazia reduzida à sua perspectiva mais afónica, mais redundante e eu nela, contido, ornando suas vestes, despojado de significado… Sim hoje, sou o poeta menor e se sou menor, desconheço o significado de ser poeta. Nem com os braços estendidos, palmas abertas bramindo ao zénite dos céus provem a dignificada resposta às preces subentendidas num suspiro que mais que suspirado, é inalado, extorquindo o próprio oxigénio ao ar, onde está o mais esplendoroso de todos?
Dividindo montanhas da terra algures fui encontrando (talvez no entremear de nuvens do céu ou quiçá de suas irmãs reflectidas no mar), no fragmento do poema subdividido em partes fraccionárias oh como vos invejo minhas musas, vós que cantarolais o firmamento por cada fôlego que susteis e indagais as ondas dos oceanos por cada vislumbre que ofertais. Beijo-vos a mão, desconhecendo tal razão… mas em emoção, sou o Universo sob forma corpórea e material, feliz.
No entanto, não há música, sustem-se a génese de prolixo acalentada por esta perspectiva perpendicular que, dependendo da vista (que é minha ora é minha, será mesmo minha?), vai mirando por um ângulo agudo e então a intensidade do conhecimento relativo torna-se minha, interrompendo-se as vozes…



N. Ego e Rosa M. Gray
por joel nachio

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Obnubilado pelo Poente Solar

Obnubilado pelo poente solar, surge enfim a hora da caminha
Caminha, caminha, até não haver mais caminho para caminhar
{nunca há menos para caminhar}: murmurava à leve morrinha
Seu rosto sublinhado pelo ténue retocar da água a escrevinhar

{em Náiades semibreves . sempre semibreves}

Para seus próprios modos – um estranho algures consumido
No abrir da porta, acerca-se o alumiar de uma nova aurora
Seu modesto deambular, o ósculo mais doce: o Sentir remido
Assim, como receptáculo do {semi} eterno, à glória de outrora!

E quando o sorriso do Sol for por frialdade encoberto
Relembra que algures, acredita, a lua ainda o reflectirá
Nas coisas e sua significância, perdura o verdadeiro sentido
O significado das coisas é aquele que depositado subsistirá.

{por vós, por vós! assim se projecta a voz}

Na captação do grande assenta a problemática do quase inteiro,
O pequeno e ínfimo pormenor merece infinitamente a mais sincera atenção
Acresce {n}aquilo que o capta, a matriz celestial e em seu véu o terno aguaceiro
Além irrompe o genuíno arco-íris, não anseias um simples toque, um dar a mão?

Em cruzamentos provenientes de caminhos escolhidos, há opções
A ausência de opção é apenas a opção subentendida, a subtileza
Da paisagem revela-se a perfeição e dos excessos suas remoções,
Ao disfarçar o óbvio - uma proposta à aprendizagem, à vera beleza!

Parece-me óbvio - {até no excesso de escassez}

Sonhando e transpondo para o finito, eis a criação a contemplar
A concepção do infinito é ideal e na sua transladação para o “real”
Viverá para ver, isto e muito mais, quem sonha é porção do sonhar
Um dia constatará: tanto o Sonho como o “real”, qual mais surreal?

{e este será o único poema que algum dia almejei tocar}

Nesta procura incessante por pormenores e suas resultantes simetrias
É estabelecido um ponto comum, tangível, coerente só consigo próprio,
É acaso, amálgama de milhentos factos predestinados, espirais escadarias
O ângulo e a forma de olhar, dependendo, podem tornar-se o singelo Ver.

{mesmo quando não aparenta haver rima a reter – está atento: há sempre rima}

A existência existe, sob e sempre de qualquer forma - é imutável
O todo é o derivado da parte, a parte é o todo - é inalterável
A variação é a única constante. O dado é o recebido – é invariável,
A Criação é permeada por liberdades regradas, isso é o expectável:

{o não esperar por coisa alguma – {e quando não te vires, fecha os olhos e permite-te o amar}}

N. Ego
por joel nachio

sábado, 24 de abril de 2010

Passo horas acordada

Passo horas acordada,
O olhar à janela
Pela vidraça transbordada,
Ansiando um simples toque,
Nesta semi forma que anela,
Na imagem de seu enfoque,
O ardume de seu rosto,
O deslizar próprio e somente dela,
A subtileza de seu acariciar,
Aquieto a cabeça no frágil recosto,
Estranhando este sentir impar,
Eis-me ocupando o espaço vazio,
Escutando os moinhos da minha mente,
O tema permanece o mesmo, então sorrio,
Sou jovem de mente, há que seguir em frente,
Rumo ao ruído, a melodia e o fluir do perene rio.
E nenhures, seu liquido secou para o longínquo Sol
(O Sentir é a coisa de mais esplendorosa – o belo rouxinol).

Rosa M. Gray
por joel nachio

terça-feira, 20 de abril de 2010

Perseguida por uma Sombra II

Perseguida por uma Sombra II

A inocência corroída, consumida em recanto perdido,
Jazendo em fatigada estadia, quão delicada sua queda,
Enovelada pelo deslize, enfim carente de fulcral sentido,
Singular beldade, esmorecida ao torpor que lesto envereda;

O destino cerrado, a derradeira aprendizagem a enfim somar,
Algures eram oferecidos sorrisos, perenemente desmedidos,
Estilhaçado na vereda do sono desprovido de sonho, sem amar,
Mendigando beijos por desejos, no alcatrão é vê-los reflectidos;

Destituídos de precisos intentos, itinerante é o deambular,
Relido ao ínfimo pormenor e abdicado sem o mínimo pudor,
Esquece-se a linha entretecida e esvaece-se o ser singular,
O frio absconso suavemente imerso em indiferente langor;

Sobrevém o inesperado, acerca-se extinto da sua locução,
Súmulas influídas no, sempre, ecoando entre corredores,
Algumas brumas compiladas, abreviadas à sua indecisão,
Incidem a um breve silêncio interior, asfixiam seus valores;

Quem nem asas de Ícaro, premeditado e ao vazio enviado,
A recorrência do desígnio, intermitentemente refulgido,
Inerte e parado instante, o ser inevitável e inerente adiado,
No sono embalado e nele o percurso latente dum foragido,

Cujas madrugadas esvoaçam na insónia da noite anterior,
E suas memórias, por liame vinculadas, (oh) como sois postergadas
Ao fundo do poeirento baú, este precedente ao nível inferior,
Como o perto se traslada no longínquo, as viagens em inacabadas,

Soando a indeferido, em relance por sua quebrada metade,
Recalcando o vazio, buscando o antídoto esperado no além,
Arrítmico, oco em dúvida e em murmúrios de insanidade,
Por veias espelhando adagas e de esvaídas recusas refém;

Em movimento estagnado, acossado em penumbra pela estático,
Envolto no vil ardor da doce melodia, por beleza mais ensombrado
Sincope vital de embalamento grisalho, de pressuposto tão errático,
Esbanjado pelo caminhar de toda uma Vida e por Ela defraudado;

Desflorado pela beldade acre da luz, estilhaçada no asfalto,
Devo ter visto umas mil caras reflectidas na estrada forasteira,
Jamais devo ter visto uma verdadeira expressão neste sobressalto,
Aluído ao instante passageiro, quando partir, sepultem-me em poeira.

… por todo o meu am*r por todas as coisas vivas…
(escolho morrer)

- Hoje senti a mágoa de uma rosa.

Rosa M. Gray com N. Ego
por joel nachio

Pelos oblíquos caminhos do belo

Pelos oblíquos caminhos do belo,

Pelos oblíquos caminhos do belo,
(Tudo o que é belo é-o simplesmente)
O espírito é cativado, raramente nos olhos,
Passageiros no espaço envolvido no avanço do tempo,
Subliminar e subtil a diferença entre este princípio e o posterior,
A sucessão geométrica cuja razão é composta principalmente de detalhes,
Fundamentados na sua base, progredindo no sempre e para o infinito.

Um bilião em infinitudes de vezes,
Separadas por uma ténue cortina de ar,
Onde as órbitas não alcançam a ideia aporta,
- Em representação formada algures no espírito,
Como tal é incognoscível na sua concepção,
- Reunindo toda a perfeição (ini)imaginável,
Assim o é o belo e igualmente o insondado paralelo.

Na singularidade argumentada, discutimos apenas semântica,
O padrão consensual do relativo é uma fórmula matemática,
Sobre a melodia divina oriunda das esferas supra-celestes,
Formas arquitectónicas reproduzidas sobre a medida áurea,
Nos detalhes manuscritos das conchas, nos fractais da neve,

O Infinito é uma espiral escalar, irregular e fragmentada,
Perfeito no seu todo, dando-se premeditadamente ao acaso,
Em harmonia simétrica, um circulo criado em ode ao Belo,
- Sendo a Beleza uma recriação de excepcional harmonia
Suscitando desejo, atraindo para seus imensuráveis meandros,
Apesar de sua relatividade e transcendência estritamente divina,
Na simetria inalcançável, assentada algures na biblioteca astral,
Situa-se o ideal puro, o inconsciente sincero, a espontaneidade infantil,
E após a vivência, a experiência e o conhecimento, vem a sabedoria,
Um ensaio à leveza, ao que simplesmente o é (:simples): cognição sobre o conhecimento.

A beleza, é, pois, uma projecção oblíqua proveniente do infinito,
Captada sim pelos que a têm tanto pelos que a conseguem avistar,
A divindade transcendente é emanada pelos que a crêem ver,
Refulgem então no escuro por terem numa noite avistado Luz,
É inteiro: o ser aberto ao que vagueia para lá do horizonte,
E a perfeição, mera consequência da conclusão do círculo,
Até as metades assimétricas se complementam, tornando-se inteiras,
Desde que entre si encontrem consenso sob a forma de harmonia,
A parte integral pertence apenas ao todo, a relativa é de quem ousa ousar,
Alcançar o vislumbre de algo não concebido para o eventual olhar humano,
Entre margens e estados, o viajante caminha face ao brilho depositado,
Nos seus olhos, a plenitude é preenchida em detalhes infinitamente ínfimos,
É caminho, beijando a madrugada, osculando o dilúculo, entre este intervalo:
A beleza desse olhar incide no ângulo no qual o simples é puramente belo.

Não desbarates o que os Deuses sussurram ao teu ouvido – um dia este escutou,
E mais que o haver escutado, soube escutar com a aceitação da partilha.

N. Ego
por joel nachio

O Tempo virá

O Tempo virá

A reflexão no estado é contida,
Um sussurro mudo ao ouvido de:
Espectros entre esplanadas intangíveis,

Bebendo de sua própria sede,
A reciprocidade no único vero ver,
Premeditado ao seu próprio silêncio;

Manancial do estro poético
Incompleto em seu possível potencial,
Algures desponta a jovem Primavera;
- Houvesse olhos realmente para a Ver.
{Mesmo quando o real mente
Alguma verdade, algures deverá ter}

(re)lembro-me: O Tempo virá, a Maré o trará,

Porque é que o Sol viaja?
Nadas na chuva, “tudos” ao sol,
Tanto perdido em cada pestanejar;

Instantes olvidados e permutados,
Nesta insustentável leveza

Teus momentos: derrelictos
Cortinados na brisa passageira,
Névoas nas planícies dos sonhos,

O Tempo virá, a Maré o trará,

Recolho-me em silêncio, demasiados devaneios
Forçai-vos e empenhai-vos à especialidade,
E como eventualmente falhareis.

A neve sofre só,
{Somente e irremediavelmente só?}
De sobre sensibilidade sobre extenuada,
Reencontrando as minúcias dos desencontros,
Em delicada queda constante, passageira na brisa,

O (im)puro sensismo outrora tacteado,
- Assentado palmas abertas nas mãos enregeladas,
Uma ovação em pé para o mais frondoso aplauso,
E que nele cativo, olvidemos as precedentes quedas
- Estilhaçado aquando do seu sussurro nominal,
Nossos ósculos se singularizaram em melodia;

Ela é, o nevoeiro e ainda o farol
A luz perscrutante que convida a (à?) noite,
Ofuscando pelo seu resplendor intermitente,

Como toda a Beleza o é: Fugaz e intermitente.

Incessantemente o é (sem cessar),
Sem o saber simplesmente não o ser,
Acossando ainda a íngremidade no pavimento
O rosto aquieta-se, reconfortando-se no frio asfalto,
Enregelado, é o pausar da probabilidade de caminhar
É esta a plenitude circunscrita em estado latente:

- A do simplesmente incoerente, isto é.

Rosa M. Gray
por joel nachio

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Alba II

Outstretched fingers fail to grasp
Early light beams cast by dawn
Sleepy eyes lodge the halo at last
Enfolded scars are now shown

Are you there, or am I a ghost?

Hollow words from a profane inquisitor, wondrous words
Closed beyond transparent curtains, inside I heard a knock
Dual significance which differs in subject and content
Filled with unfulfilled meanings running against the clock

Forever held beyond the opaque mirror of cooled eyelids
My best friend has been buried with the L*ve I used to share
Disdain for the living and ironic speeches for the departed
Sleep with my feelings my friend, in dimness without a glare

Words lose their purpose when delivered without meaning
Friend, never forget destiny has something for you in store
Without meaning if no meaning is deposited inside them
Outside warmer for lustrous exteriors usually hide a hollow core

Are you there or am I a ghost?

Outstretched fingers fail to grasp
Early light beams cast by dawn
Sleepy eyes lodge the halo at last
Enfolded scars are now gone

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Perseguida por uma Sombra

Perseguida por uma Sombra

A Beleza de um olhar efémero emana a luz
Da inconstância muda da rotação do mundo,
Filado pelo ímpeto que num momento seduz,
Por um segundo, imbuído em algo profundo;

Ansiando por uma última réstia de ar impuro,
Insufla-me a leveza rara do sopro da morte,
Descuida o caminho tragado no cárcere escuro,
Hoje lar cativo por suspiros perecidos do consorte;

Seremos todos os instantes tingidos por nada,
E neles, todos os recantos revistos e redecorados
Para que mais do que uma grande final gargalhada?
No espelho de um semblante pelo vil tempo ornados,

E o que este acarreta: contusões e mágoas a mais,
Sem o devido sossego, nem lugar onde repousar,
Entre o caminho entrelinhado e outras viagens tais,
Desprovido de sorriso ou vera beleza para contemplar;

Intransponível a quem o vê, o olhar torna-se opaco,
Indistinto pelo desgaste de outrora não ter sido cego,
Enredando a ternura das cores vivas em hirto retrato
Emergente de névoas vindas dos cantos do desassossego

Procurando o dia, aquele que subtil embala o horizonte,
Apesar, de na sombra desta ilustre e pálida companhia,
Respirando a Falta, que a condição entorpeça e afronte,
As fundações do Éter, liquefeito em fragilizada poesia;

“’Confusão: Será o meu epitáfio’ – enquanto quietude
Sonegar estes ululados” não haverá plangência por ruído;
A nostalgia do imanente refreia-se nesta decrépita finitude,
Soprada pela brisa, riacho ditada ao vazio, eis-me afluído

De refugos de beleza na imundice deste fôlego lacónico,
Resta esta ode ao Sono, insuflando por vestígios recentes
Dos ermos desolados, vigentes nos espíritos do afónico,
Outrora povoados, repletos e matizados de cores luzentes;

Silencio dactilografado, em recuo exclamado ao nocturno,
Fortuito refúgio, ao acaso mortiço inertemente renunciado,
Do medo à preguiça, privando com o absentismo taciturno,
Aos reflexos dos seus fragmentos restantes compendiado;

Rosa M. Gray
por joel nachio

Em passos

Em passos se vai estirando o caminho
Da geração do rebelde enfim conformado
Aglossias reservadas em esconso escaninho
Rebaixados ao finito, soberania do sonho adiado

Sonolência, aliada do caminhante esquecido
Extinto na recordação prisioneira da moldura
Retrato da remota reticência do tempo perdido
Entre memórias findas, o alvor emana a sepultura

Do esperançado, breve e tenuemente alcançado
Cujos suspiros caem em silêncios inconsequentes
Dissonantes melodias, contrárias ao oposto ansiado

Antagonizo esta respiração, manancial dormente
De pretensas suposições, algures recém-chegado
Impera a paragem inquietante do ser inexistente.

As preces nocturnas

As preces nocturnas enviadas a destino anónimo
São breves e consumidas por um silêncio interior
De um jardim desolado, prisioneiro, meu heterónimo
Visionários devaneios mediados por lúgubre algor

Fluir da ampulheta devastando a mortalidade dos segundos
Esmorecendo na frágil moldura que subtilmente a contorna
Incontáveis retratos estilhaçados entre escombros profundos
Insciente, amarguras a vinda do tempo passante que retorna

Aos mesmos becos estreitos e escuros, enredo desconcertante
A nulificação de todas as progressões, o princípio do ser vazio
Percepciona-se pelo sombrio andar esguio e penoso semblante

Na longevidade invernal contempla-se o brotar silencioso do rio
Suas margens estas cicatrizes, imbuídas e cativas na maré cintilante
Pupilas dilatadas rumando a épocas mais semelhantes ao ledo estio

Incidência da luz oblíqua

Revelando a incidência da luz oblíqua,
Transversal no seu berço à coesão do ser,
Salgadas gotas liquidas que o estuário purifica,
Aguardas recôndita na acalmia do raro alvorecer;

Por opção saúdas o nivelado raiar solar,
Da intempérie cessada à ávida ostentação,
Dos momentos de real chuva afinal a lastimar,
Duvidavas então da tua inquestionável devoção,

Para que puro manancial a brandamente jorrar?
Ao então sentenciado à inclemência dos fracos,
Aligeirado fundo pela tenacidade do ténue ecoar

De quartos vazios, errando por infindáveis charcos,
Empório do poeta de visões estupradas em seu ressoar,
A alma permanece imobilizada entre seus sinais parcos.

: Como Perdida

Simples e singelo no seu deambular,
Surge a forma mais elementar de repousar,
Longe do devaneio mortiço, de quem é a vida?
Aqui me olvido e me dou afinal, como perdida;

Sem voz, enfrentando a voracidade dos dias,
De seu peso tão insustentável e frio lancinante,
Por punhos cerrados, engasgados em seu mutismo,
Aqui e agora me olvido e me dou afinal, como perdida.

Rosa M. Gray

por joel nachio

A Preto e Branco  

A preto e branco monocromático é a visão
Da ida do sol de e em mais um dia incompleto,
Reitera a certeza proporcionada pelo turbilhão,
Do Eu, navegante da estrada irreflectida, incerto;

Carregando o ónus descabido da mundana vivência,
Trazido no ar mas respirando um oxigénio diferente,
Inumado à nascença e olvidado à sua impaciência,
Sem textos dignificantes no silêncio afinal confidente;

De segredos dissolvidos com o encerrar da porta,
A aragem nocturna molda a face, desencontrado,
Confessando ligeiro torpor que os mortos conforta,

Alastra-se a inércia devastando o sentido de pertença,
Chave perdida nos confins do sonho e nele abdicado
Do voar lépido esquecido eis a sua pungente sentença.

Revelando

Revelando a incidência da chuva obliqua
Transversal no seu berço à coesão do ser
Salgadas lágrimas que o estuário purifica
Aguardas na acalmia o insólito do alvorecer

Por opção saúdas o nivelado raiar da lua
Liberto às navegações por ela premeditadas
Hoje aguardas a entrega que o trilho imiscua
Proteladas são as notícias e já antes viajadas

Num retrato de inocência, pré-condenado,
Estranho lhe parece o quão autêntico que o é
Encoberto no pó de segundos agora passado,

Envolto no prefácio, rumando face à maré
Entre e sobre vidros lascados enfim confinado
Perde-se a vista e até quando a sequente fé?

Imprevisto

Imprevisto o liberto esvoaçar da melodia
Na anatomia de um fantasma entreaberto,
Do fulgir vago intermitente provem a calmaria,
E o conceito de infinito é por fim descoberto;

Relegado na incerteza da breve hesitação,
Retorcido a versões de uma substância negra,
De enredo ignoto enfim purificado por ablução,
Permeado ao relento e olvidado na sua íntegra;

Anui ao quasi-humano seu repouso restante,
Exceptuando quando luz se meneia em redor,
Entrevê-se a súbita brisa através da vereda errante

Por olhos cansados, de extenso silêncio sua cor,
Espelham-se no opaco, num franzino semblante
E cintilam breves, minorados ao seu exíguo clamor.

Escape

Escape da rotina face aos dias inacabados,
Infames degraus e degraus para caminhar,
Pretos são os olhos de contornos azulados
E lúgubre o espaço entre as cores do sonhar;

Indecisão vai de mão em mão até ao nada,
A chuva incipiente molha mais do que cai,
Vagueando por um varão de uma escada
Onde o corredor é estreito e a luz se retrai;

Subtrai-se o súbito do dia e vê -se o escuro,
E é duro, contudo assim vai passando a hora,
Em busca apesar de saber que não procuro,

Da sinuosa estrada que a mente desflora;
Caminhando na algibeira a senda do impuro,
Espelho os limites da vida, refractando a aurora.

Perdão

Perdão! Vai perdendo assiduidade nestes tempos,
Braços oblongos lançam-se escamoteados na noite,
Desprovidos de rede para os apanhar em seus intentos
Em retrospectiva recluso, passada em segundos à pernoite,

Apenas um mais excerto do caminho alarve nos seus enleios,
Conceituado como subjacente de índole um pouco doente,
Com as horas a passar e sobretudo o anelar de mil anseios,
Esmorece o ânimo, esfria o corpo, de alma mais que ausente;

Entre paredes ornadas a frio, mais um nó do que o preciso,
Sobre a triste soledade, filtram-se suaves as gotas no tecto,
Inclinado sobre o abismo, além algures se encontra o paraíso!

Sentimento do poço, reclinado impotente e incompleto,
Nada no covil do homem que permita um sincero sorriso,
É impreciso o fulgurar de quem vive como um soneto.

Outros Eloquentes

Outros eloquentes hesitariam subtilmente em tal situação,
«Frases vazias, períodos inacabados e parágrafos deslocados»
Oriundas do zénite enfeixado por centelhas eis a aberração,
Sozinha à distância atenuada pelos sinuosos tão bifurcados;

Citações proferidas luzidias na comunhão com o anoitecer,
Fitado excedível de pensamentos num hiato esmorecedor,
Dissoluto em leve éter e morosamente levado a esmaecer,
Findo em breve a florífera cantiga do pictográfico esplendor

Runas pejadas de conteúdos abscondidos em substância
Viajando pelo quotidiano através de diminutivos pestilentos
Enunciem algures o valor vero, estóico de estagnada ânsia

Permitam o descanso de quem vive por olhos sonolentos
Em estado febril de momento póstumo de ultima instância
Esvaindo o precioso néctar do qual caminhamos sedentos.

Arfando

Arfando pelos poros em aguda dor acutilante,
Por quem me levou o tempo enfim embora,
Hoje rezando que o corpo pereça cintilante,
Face à indiferença dos sonhados de outrora;

Vultos esbranquiçados de quem já aqui passou,
Decalcados por detrás das cortinas esvoaçantes,
Sons rompantes de quem algures não alcançou,
O alabastro divino por mais que breves instantes;

Por chuvas vertidas de miúdas gotas floriformes,
Raios partam a sensibilidade abstrusa do firmamento,
Enquanto negrume jaz em nodulosas ondas pluriformes;

Figuras fugidias cujo intento soma-me emudecimento,
Além, suas faces desbotadas sobrevêm como disformes,
Iminência do devaneio, calam-se as vozes, surge o momento.

Dantes

Dantes coisas belas esvoaçavam castas de meu peito,
Repleto de horas e segundos mais que incompletos,
Em desfile algorítmico quaisquer vestidos a preceito,
Entre olhos esgueirados é o devaneio dos analfabetos

Sonhadores alados entrementes revelando as feridas
De pronúncia impregnada com o odor dos posteriores,
Mais que queridas, sendo estas vorazmente sentidas;
Perdido numa prisão de pensamentos e seus terrores,

Humildade é redundante por trás destes pardos edifícios,
Translúcido e aeriforme embebido num trânsito pendular,
Ignaros obedientes marchando entre seus mil e um ofícios,

Multiplicados por mil olhos apontando-me para me enfermar,
Com todos por metade e metades rasgadas em interstícios,
Quando somente a ociosa lassidão não faculta sequer o alcançar.

De Luz

De luz aprisionada nas pontas dos dedos,
Intermináveis páginas pintadas a branco;
Como um barco naufragado em rochedos
De negro absurdo ladeado em cada flanco

Escuta apurada ao silêncio da tormenta,
Ouve-se a morrinha lúgubre do lamento,
Que mais do que preencher apoquenta
De lar fraterno mas renunciado ao relento;

Tempo é o que passa tão indiferente,
Vida deslocada em torno de seu eixo,
Suplícios a conta-gotas de figura ausente;

Que nem o prostrar de relançado seixo
Em lago assimétrico de lua confidente,
Anui alívio em ócio com tons de desleixo.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Em círculo rodopiante

Em círculo rodopiante

Em círculo rodopiante de conturbada visão
Encontra-se um contuso ser em pausada interrupção
Sem ideias de por onde então prosseguir
Absorto quanto à saída por onde se exprimir

Em curvilíneo túnel toda a moção que aflui
E inspiração do não, decaída no chão que imbui
Outro contorno pesado e trilhado em frígida cor
Dor lancinante, caminhando em profundo algor

Sem brilho a partilhar ou desejos a cumprir
É o negro a aflorar e o sonho em vão a partir
Ficam as cinzas nas mãos hoje estilhaçadas
E as belas esperanças no chão em vão, apupadas

É como se outro fosse hoje o caminho
Com uma verdade oculta em fios de linho
Sem verdades ou mentiras mas apenas dias
Conseguintes entrelaçados em desbotadas guias

Esmaece no frenesim o corpo e a alma
Em salvação protelada e atormentada calma
O langor do ser procrastinado à sua longa ausência
Será outro pré-fantasma réprobo em transparência

Sustado o fôlego do imenso sonho alado
O próprio silêncio se prostra enfim albergado
O bater do coração não é mais para controlar
Cessa o motim, regressa a não-forma de estar

Simples e singelo no seu deambular
Surge a forma mais elementar de repousar
Longe do devaneio mortiço que é a vida
Aqui me olvido e me dou afinal, como perdida

Rosa M. Gray
por joel nachio

Eis os vislumbres

Eis os vislumbres

Eis os vislumbres dos vestígios restantes
Abscondidos em inércia na terra esbatida
Uma hipótese em vão, uma suposta ilusão
Principiada numa pré-anunciada despedida

Trôpegas em seu langor de algoz perverso
A atrocidade patente de desculpas atrasadas
Imiscuídas na brevidade do fôlego repartido
Figura estropiada de pendências bastardas

De eterno perdulário a simplório pedinte
Tal a última maré nocturna o sentir singelo
Do vazio resultante e para ele reencaminhado
Aguardando resignado o desenrolar do novelo

Este perdido algures entre o rodopio e a volta
À submissão incessante do tempo enfim entregue
Abdicante do caminho de contendas perniciosas
Imagens repetidas e não há quem as sossegue

Relembrando as estações e sua precisa cor
A voragem desvelada à coincidência atroz
Aqui e agora reduzida a um piscar de olhos
Subtrai e devora a alma de cada um de nós

No interstício catapultado e por ele assolado
Em sonhos sobrepostos por memórias insulsas
De olhos revirados para a incerteza do presente
Desesperança do futuro e suas demais repulsas

Longo e lúgubre Inverno para os que ousaram sonhar
Adornados a raios solares e mais que vistosas cores
Com brisas encurraladas em belas cercas esbranquiçadas
Pássaro de asas quebradas com o mais acídulo dos sabores

Se perguntarem por onde vou digam que não volto mais
A inspiração esvoaçou para inalcançáveis paragens
Reduzindo esta breve alma a apenas meras achas
Resta o restante pouco na impotência de novas viagens

Remetendo este mudez ao pardacento silêncio
Onde a vida subserviente é estirada ao comprido
Não há lugar para um minuto de vistosa alegria
Dêem este túmulo por ocupado e por mim imbuído

por joel nachio

Sem pertença

Sem causa, origem ou sentido de pertença
Triste abantesma de triste e desafecta presença
Amargamente a mancha clarificada em sua esteira
Ombreias a alma distante de mão cerrada em algibeira

Domingo à porta onerada à pesada mágoa de anos
Cambaleias vacilante, de olhar distante e esgar profano
Pela lua acorrentada e presa por suas pesadas correntes
Sem caminhar o apelo criado são lá curvas que lamentes

A imperdoável mania de ser todo por sua metade
De inconsequente esbatido e receptáculo vazado
Primeiro prisioneiro retentor de sua parca vontade
Maltratado ao oco do devaneio provindo do estado

Brisa esquentada de latejar arrastado à porta
Do passageiro ferido cujo caminhar mais entorta
A sinuosidade agreste das voltas atrás apunhaladas
Por mim e em mim, moroso entre estupras estocadas

Pouco há mais a aguardar para além da inundação
Conduzida de transplante por quem a nada a dirige
É a confissão personificada o cenário de grande moção
As nuvens pardas reflectem este ser, de deus como elige

Fosse divino como outrora e o amanhã seria mais radiante
Em sua casualidade como para quem não basta o bastante
É a singela e simples dor, torneada em redor do coração
Sem paredes que a ouçam, que seja esta a sua canção

Negra e anunciada pelos dias que lhe antecederam
Sob estrelas eternas a beleza que foi então esquecida
Pelo crescer da criança às lágrimas que a envelheceram
É assim que o tempo passa para quem sonhar é Vida

… e sonhar vai deixando.

Rosa M Gray
por joel nachio

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Lucidez ou Loucura?

Lucidez exasperante, regatos sentidos
Pegadas superficais, tempestades permutadas
Projecções macilentas de vultos agrilhoados
Frascos enegrecidos por luzes encadeadas

Sobre escombros ínferos permaneço recatado
Punhos cerrados aclamando finais redentores
(Por) Órbitas diáfanas alcançando o horizonte
Vestido a rascunhos inertes e entorpecedores

Existência efémera entenebrecendo odes
Sentidos estremecidos por goteiras resplandecentes
Abandonada a entidade divinal, fundações quiméricas
Herdeira de ventosidades trascendentes

Enfeixado por centelhas incandescentes
Longínqua a tormenta verga-se e enfebrece
Ensombrado por precipitação de gotas
A evolução nuviosa silencia-se e desvanece...

N. Ego
por joel nachio

Estrelas minhas eternas fãs

perene brilho entre olhos fechados
lágrimas purpúras sorrisos encurralados
o sol sempre nascerá para dormir
como a chuva interior ansiando sentir

estrelas caem por céus escarlates
abantesmas céleres, insípidos empates
sobre uma nuvem fofa e leve
repouso estenuado, incessável neve

abrindo os olhos tudo irreal
levito sentado, natividade incabal
brilhos emanam vozes dissonantes
passado incoerente, tormentos constantes

lá de cima tudo fulga de beleza
emmeios doces dissolvendo a tristeza
silêncio ouvido, pupilas discursando
a luz imóvel fenece murchando

de onde vim tudo era tao lindo
assim acabo.. com isso me findo

as estrelas como fãs
a lua como confidente

as pétalas perdidas desvaneceram
vi-te enforcado numa nébula resplandescente
nunca me entenderás pois sempre permaneceste vivo
respirarei com o mundo como pátio

até ser levado de novo
e deseje não mais voltar


N. Ego
por joel nachio

Nas Trevas

Nas trevas tudo é diferente
todo o impulso deste escasso vento
em redor da verde indústria do céu à
colheita formulada dum jovem rebento

tela existente somente no seu imaginário
inocentes reclamações condenadas a ansiar
freneticamente imovéis gritam e chamam
finalmente se eclipsando defrontando o mar

a noite escorre fendendo do silencio
escorrendo o mundo pela madrugada
de quando gritos lembravam ainda
a vagarosa passagem da alvorada

olhos inebriados secados por lágrimas
uivos surdos repletos duma angústia renidente
sôfregamente rodeados por uma aura fustigada
cegos todos o somos, mas só o sabe quem o sente

no fim tudo se torna lúcido

uita metuenda est, mors non

Rosa M. Gray
por joel nachio

Alba

Outstretched fingers fail to grasp
Early light beams cast by dawn
Sleepy eyes lodge the halo at last
Enfolded scars are now shown

by joel nachio

Ctrl + F9

Infundado em existência ornada a ponto sufixo
Sem silêncio jamais houvera em tal pardo panorama
Parco vocabulário, sustido por uma génese de prolixo
Velando o resguardo da tempestade – o Ser criptograma

de olhos azuis, de braços rendidos à subjugação da experiência
No baço reflexo dos Outros prosperavam em espiral afluência
Seguiam seu caminho, que era adiante focado em seu tremular
Nunca constante, desprovido das músicas que costumava cantar

Sem descanso, sem desistências e principalmente - sem alma
A balada é lúgubre e sustida em varão de escada adormecido
Cessa de ser a Ela própria - uma vicissitude que o mundo espalma
Palavras são desgaste para ombreio de mundano homem esquecido

Nem é a, no âmago da essência que o conteúdo residual reside
Essa (des)retratada, no molde sonolento da quase-existência incide
Semi existente na quase Vivencia, essa reduzida à acha do seu real Ser
De quem cá não está nem passa, a condenação própria torturante de reter

Rodopiando na obscuridade do quase ser, de facto ainda não consumado
Teoria existencialista evidenciada de mãos dadas com a absurda vivência
Fantasma diurno das segundas-feiras a cinco dias por semana condenado
Taciturno em vago deambular, é amputada a fundação de sua vera essência

As incertezas carburadas em seu próprio langor carpido na dolência
Com controlo e F9 as palavras dissimular-se-ão na espessa cortina de fogo
Com controlo e F9 tornar-se-ão em pródigos elogios na contínua ausência
Com controlo e F9 os tumultos envidados serão apenas mais um breve epílogo.

N. Ego
por joel nachio

The divinity we had has fallen apart.

The divinity we had has fallen apart.
From the firstborn breath from the very first start
Fading away to dawn’s antique grey
With most things we were suppost to name

from the whole Universe the æ came to be
a different perspective to a brittle degree
tumbling down materializing into a fragile host
whose aura is ever shadowed by a lurking ghost

Becoming a triad of amnesia bound
the little girls lost were never again found
as sparks that remain struggling in the misty dark
yet to prosper thus attaining their redemptive ark

eons piled overseas through clouds of splendor
earthly enclosed to a (in?)harmonious surrender
funny how its energy derives through our within
what we always thought to have started is yet to begin

Now… give us our name
grant us the same birthright we had
since the very night we came to be

N. Ego
by joel nachio