sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Àquela a Quem

Àquela a quem meu coração é pertença,
De mão beijada a lado com a incerteza,
Porquê tanta frieza e tanta indiferença?
Assim só me causas píncaros de tristeza,

Brisa passageira é que é tanta a saudade,
Parece perpétua, jorrando infinitamente,
Perde-se a noção, desencontra-se a metade
Nesta árdua contenda do ser abstinente,

Teimando pela primavera e seu nascimento,
Por beija-flores deixando-se à brisa,
Ou seria mais largando-se ao vento?

Amor eu te digo, quanto ainda te procuro,
Nesta hora maldita invita-se a poetisa
Ao lugar onde ainda perdura o obscuro.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Procuro por Restos

Procuro por restos que se completem,
Estrelas fundidas quando vem o entardecer,
Que de suas fagulhas beijos enfim restem
E que em seus fragmentos aprenda a viver,

Pois morrer é tão fácil para o sonhador,
Pousa no seu ombro e suspira morte
Porém tão mais difícil é admitir o amador
Que repousa dentro de si e se deixa à sorte,

Alguns acordam e vivem uma vida plena
Cores e pincéis encerram seus horizontes,
Rumo ao oásis do deserto que serena

Sossega a calma e fulge, vai-se a saudade,
Breve bebe-se a água de mil e uma fontes
Enquanto não se encontra a outra metade.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O Pôr-do-Sol

O pôr-do-sol é este amor tão sozinho,
Desabrigo para o que já não tem lugar,
A primavera fugidia deste lúgubre caminho,
Saudades dela ao meu lado a caminhar,

Penso nela e este coração torna-se tanto,
Praia sem mão dada, jardim sem flor
E há poesia nesse distorcido encanto
Que é tão longe deste inexistente amor,

Tal estrela perdida passando o firmamento,
Por instantes alarga-se o sorriso do sonhador
Mesmo que só por um segundo, um momento,

Hoje espero pelo passado desse mútuo ser
Onde o que passa não sabe apenas a dor
Pois à falta de reciprocidade prefiro morrer.

sábado, 1 de outubro de 2016

Era Poeta

Era poeta pois construía pontes e não muros,
Recobrava o todo onde só havia fragmento,
Alumiando a parte do céu onde era escuro,
Sendo pincel de cor e tela para o firmamento,

Tornava em berço qualquer uma sepultura,
Seu sorriso era Sol para qualquer rosto lunar,
Assim dulcificava incansavelmente a amargura
Que o Homem esquecido de si não podia amar,

As estrelas e a Lua eram as suas melhores amigas,
Ele, trovador do azulino, sonhador do não sonhado,
A todas embalava com as suas melífluas cantigas

Frágeis e altivas com o beijo de poeta lado a lado,
Era o Amor verdadeiro esvaecendo as fadigas
Das pontes às margens que então havia cruzado.

Invadem os Olhos

Invadem os olhos poeiras de um deserto,
Lágrimas agridoces emanam desse pó,
Aonde posso ir se indo vou incerto
Sufocando em amor e seu cruel nó?

Lembro-me de quando íamos lado a lado,
De sonhos em mão, num só caminho
Pois de todo ruído me vejo enfim calado
Na berma da estrada tão totalmente sozinho,

Suspiro ainda assim por sua lembrança,
Por cada segundo passageiro no instante
De quando trazia o dia em sua leve dança

Para mim um pouco de sol era o bastante,
Para me fazer sorrir que nem uma criança
Numa nuvem longe deste inferno de Dante.

Este é o Último Sorriso

Este é o último sorriso para o resto da vida,
Vejam-no bem em breve será passado,
Sim tenho sido porções de uma partida
Sem nunca me ver enfim chegado,

Num tesoiro repouso e leva-me o mar,
Doce esquecimento, tolhido pela corrente,
Sem mais pertença salto deste patamar,
Indo em queda indo sempre em frente,

Hoje enfim respirarei esta água salgada,
Serei parte deste grande e imenso oceano,
Não mais uma seta triste e quebrada,

Cessem as preces de um sonho leviano
Fui desta vida a pérola desencontrada
Pois deixem-me ora ser o ouro neptuniano.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Amor Admito

Amor admito enfim minha indecisão,
Toda uma vontade de partir desta vida
Pois se a minha não passa de um senão
Fatigado cedo a esta eterna despedida,

Roupas vazias vestem cadeiras despidas,
Pela porta de trás chegou o pôr do sol
E metades de um coração são nas partidas,
O meu ferido de boca neste triste anzol,

Oh teu amor infinda coroação de estrelas,
Colhendo o perfume do teu único beijo,
Seria completo se fossemos parte delas

Pois o teu olhar ainda é tudo que vejo,
O resto é tempo sem espaço para ser,
Nesta vida estúpida que teima em não morrer.

domingo, 25 de setembro de 2016

Amor Levaste-me

Amor levaste-me a parte bonita do verão,
O sorriso aberto, o sonho de criança,
Partiu a alegria, quebrou-se o coração
E ao esquecimento deu-se a esperança,

Quem preenche hoje o teu terno abraço,
Quem diz ao teu ouvido frases de amor,
Quem te dá a mão em esbelto laço
Ou confere ainda ao teu dia porções de cor?

Eu já não sou, eu só lama na tua sola,
Restos de um ontem que nunca foi,
O amanhã até já nem me consola

Sou a ruína do único soneto - teu beijo,
Se soubesse o quanto este inferno me dói
Ou quanto o teu olhar é ainda tudo que vejo...

Porções Dela

Porções dela no arquear da avenida,
Fragmentos deixados nas ruas desertas,
É estranho pensar que toda uma vida
Seja quebrada por estas horas incertas,

Pelo rio que não flui para os mares,
Por onde vou não a vejo encontrada,
Vêm fantasmas de nós os dois em lugares
Onde lhe dei a mão e chamei de amada,

Água fecha-me as pálpebras e esvaeço
Para sítios nossos, nosso caminhar
E nesse penoso pensar assim adoeço,

Sem termos mais caminho para andar,
De que me servem as pernas se nelas tropeço
Devido a este coração não saber parar...

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Esta Solidão

Esta solidão é perfeitamente esculpida
Por mãos entorpecidas a esquecimento,
Parte da estação, parte do que é a vida
Que se vai passando a cada momento,

Por vezes a negrura não se torna passado,
Tempos que não passam de forma alguma,
Assim morrem poetas, bocado a bocado
Oferecendo-se ao vento e coisa nenhuma,

Procurando quem não quer ser encontrado,
Suspirando por ela e ela então viúva de nós
Parece que o mundo não quer ser rodopiado

Parece que os rios já não almejam pela foz
E que parte completa de nós havemos deixado
Nesta viagem tão silente onde buscamos voz.

sábado, 17 de setembro de 2016

Procuro por Momentos

Procuro por momentos que durem uma vida,
Por dias de Inverno passando por um Verão,
Nesse silêncio encontrado porções da avenida
E seus sonhos frágeis perante o sublime portão,

Por onde passa apenas quem de si é esquecimento
Pois hoje é memória de quem um dia foi o passado,
Quase acalma o fantasma e mitiga o seu tormento
Enquanto quem passa o acompanha lado a lado,

Fragmentos de passos adiante sempre ecoando,
Onde alguns se perdem e outros são encontrados
Quase nunca esperando, quase nunca abrandando,

Vamos indo e sendo por completo ou aos bocados,
Vestido a trapos d’ontem que assim se vão largando
Para o regalo de uma almofada de um amanhã embalados

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Embalando-se

Embalando-se na ponta da lua crescente,
Adormecia solitária não fazendo nada,
Aguardando pela frase, o poema ausente,
Era o pé descalço, o não chegar da alvorada,

Outro lamento deixado à margem do tempo,
Num outro instante aqui não pertencente,
Onde se caminhava à intenção do vento
O seu único amigo, único confidente,

Sorrisos dispersos pelo traço deste céu,
Pensava poder agarra-los a todos assim
Porém esquecia que nem isso era seu

Era sim refém do momento e sua canção
Quase inaudível para o altivo querubim
Que lembrava de quando era uno o coração.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Andei

Andei dias a fio com pincéis rascunhados,
Procurando perfazer porções da tua cara,
Por esquinas e cantos tantas vezes mudados
Que na planície se escondeu nossa bela seara,

Pergunto ao tempo a razão para este lamento,
Quanto mais incerto menos bate o coração.
E então? Só morte espera este envelhecimento,
Ajoelho-me perante sua sombra e peço perdão,

Desculpa já não ser o jovem de sonhos às costas,
Esperançando e sonhando para lá do horizonte
Viandando para lá do sol, para lá das encostas,

Folegando estrelas e dormitando no monte,
Quando todo o risco eram simples apostas
E para todas as margens ainda havia ponte.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Encontro-a

Encontro-a no fundo desta garrafa,
Perco-a e me perco a mim mesmo,
Sei que este dia a dia assim me estafa
Por isso nublado vou trilhando a esmo,

Impregnando-me no fluido da taça,
Sorvo o néctar que um dia trará morte
Porém não sei mesmo mais o que faça,
Quem diria que um dia esta seria a sorte

De quem foi e parece nunca ter chegado,
Sorvido assim em longos contratempos
Pela perfídia do trilho em si emaranhado

Almejando aonde não me levam os ventos
Parece que estou em mim quase sepultado,
Parece que já não há vista para os firmamentos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Trago-te no Meu Peito

[Trago-te no meu peito e não me pesas…]

Espera aqui, um dia voltarei em promessa,
Suas mãos vacilantes tremiam de ansiedade,
Tua cara, o teu olhar, o teu beijar me interessa,
Esteja ou não esteja no torvelinho da tempestade,

Ama-me e deixa-me morar para sempre no teu coração,
O resto é habitação esquálida, sem espaço para nosso olhar,
Confere-me abrigo, sê o porto e terás em mim toda a razão
Para levantar escombros e contra todo o mundo assim pelejar,

As minhas belas estrelas são tuas também, somos exploradores,
De galáxias ainda não descobertas e luas um dia olvidadas,
Dá-me a mão e lar será onde estivermos com olhos de pintores!

Lar será onde estivermos, chuva primaveril passageira e nós dois,
Amantes dos vales, planaltos e montanhas um dia já ultrapassadas,
Trago-te no meu peito para onde quer que vá e sobre nós dois mil sóis!

[Trago-te no meu peito e não me pesas…]

Estes, suspira-me ao ouvido estórias que o tempo foi levando,
De ventos esotéricos de outras épocas em que ia-mos lado a lado
Confesso, para alem de nossa Beleza conjunta, pouco vou almejando,
Todos aqueles instantes, todos aqueles momentos levados aos bocados...

Agradeço a impossibilidade de nosso encontro, de nossa história de amor,
E que por vezes, alguém, vê o seu caminho cruzando tal estrela cadente,
Agora que o mundo diverge, apenas te digo que ainda tenho o teu sabor
Nessa passagem tão breve que apenas realmente conhece quem a sente,

Estas palavras são fotografias para quando esqueceres a minha face,
Para quando outro tomar o meu lugar, essa elegia sem interlocutor,
Que me há-de matar, até lá sabe, fui todos que pude ser no desenlace

Da abertura da cortina para nós, a peça pode continuar, basta acreditar!
E fazer por alcançar o que parece ser o horizonte – tudo isso é Amor!
A insanidade, a dificuldade acrescida é preciso tanta coragem para amar.

[Trago-te no meu peito e não me pesas…]

Estas Ruas Impregnes

Estas ruas impregnes de estilhaços silentes,
As palavras não ditas, a perversão das proferidas,
Parece que somos filhos de pais ausentes
E que jamais chegamos pois somos só partidas,

Nesta comunhão de insanos, nesta estação,
Onde as eras não passam, somos folhas
Em queda livre pelo périplo do coração,
Não interessa o decidido nem as escolhas,

Pois nesta vida somos só marionetas,
Pedaços largados nesta pele vestida,
Perdendo objectivos, perdendo as metas

E todo o querer de uma passagem sem sentido,
Já não tenho coração para outra despedida,
Porém já nem sei bem o que tenho querido.

Longe

Longe é uma palavra fria e distante,
Suas sílabas em minha língua travadas
E este corpo tão triste, moribundo e ofegante,
Parece ser só abrigo para as trovoadas,

Procuro-te na beleza sempre tida no aqui,
Hoje - apenas outra vista para o passado,
Sabes?... Tenho tantas e tantas saudades de ti,
Que de mim pareces ter levado um bocado,

És o lugar que me trouxe enfim felicidade,
Agora o fantasma ao pé da minha cama,
Ainda tento alcançar-te de verdade,

Porém parece que a vida ainda me chama,
Então deste canto escuro face à nebulosidade,
Sei a cor das lágrimas de quem ainda ama...

Preciso Dela Sim

Preciso dela sim, que nem água vertida
Nesta boca sequiosa de tudo e de nada,
Farta-me tanto o adeus, a despedida,
Cansa tanto colocar sempre o pé na estrada,

O viandante enfim parou entre margens,
No fragmento que é resto, que é ponte,
Ofegante de novos trilhos, novas viagens,
Na impossibilidade de alcançar o horizonte,

Pesava-lhe o céu, carregava peso morto,
E a sepultura sussurrava-lhe de perto,
À procura de uma fonte, à ida pelo deserto,

Oh como se tornara este mundo incerto,
Serpenteando-se assim ao caminho torto,
Enquanto seu olhar se perdia absorto.

Temos Telas

Temos telas nas palmas das mãos,
Belos pincéis nas pontas dos dedos,
São lembrança quando se vão os chãos,
E à presença voltam mil e um medos,

Amor, preciso de ti que nem oxigénio,
Para passar a tenebrosidade destes dias,
Podia passar o mundo, passar o milénio,
Porém ainda acredito que exaltamos magia,

Suspiro pois sei que um será enfim dois,
Que nossos caminhos divergem no futuro,
Mata-me então, não me interessa o depois,

Viver aqui tem de ser assim tão duro?
Silencio minha mudez e refugio-me pois,
Nesta minha vala comum de amor obscuro.

Nossa Antiga Casa

Nossa antiga casa é invólucro para fantasmas,
Lar para ternura largada ao passado,
Um inteiro coração em imensas chamas,
Uma lembrança bela do já terminado,

Porém continua tal galinha sem cabeça,
Ensanguentado o chão com sua tristeza,
Porém dava tudo o que me interessa
Para fazer ainda parte dessa beleza,

A próxima paragem é nevoeiro feito de poeira,
O cangalheiro anda em lembrança
E do meio deste pó, desta canseira,

Morre em mim o último sonho da criança,
Fenece a última esperança solteira
Por juntos nunca termos perdido a aliança...

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Cenas

Cenas de cinema formam a janela,
Estendidas de moldura em moldura,
Mil instantes tal cores pincelam-na
Tocando sem tocar cheio de ternura,

Esconde-se o Sol em qualquer sepultura,
Só um pouco de ontem nesta algibeira,
Objecto do fruto de quem ainda procura
Porém já esqueceu a chuva na esteira

Que era de quem vivia à sombra do sonho
E nele era parte de fragmento maior,
Hoje o aguaceiro deixa-me tão tristonho

Que parece nada existir para além dela,
Assim se perde o sorriso e porções de cor
Enquanto que por nada se preenche esta tela.

Hoje Celebremos

Hoje celebremos a morte do sonhador,
Aquele abatido do alto, perto do sol,
Saibam que ele era o último real amador,
Seu riso equiparado à canção do rouxinol,

Percebo agora que sem penas ninguém voa,
Que sem cor não há pincel preenchido,
Por isso voo meio perdido, meio à toa
Por vezes sem ter da paisagem nada retido,

Fecho o amanhã e sua chave é perdida
Por dias passados levados adiante,
São ventos que apenas conhecem a despedida,

Se bem que por vezes não seja o bastante
Para animar a alma por eles colhida
Nesta corrida que me deixa tão ofegante.

Para Trás e Para a Frente

Para trás e para a frente, despretensão,
Sozinho de negrume em boteco a boteco,
Quase pouco, ouço o olhar chorar de paixão,
Batalha infinda onde somos par do caneco,

A verdade é segredo para outro dia,
Mal ouço o perdão do que ainda não cometi,
Sou valsa comum, a perca da magia,
De quando era toda a luz e o sol em si,

Perdoa minha volúpia tão desmedida,
O voltar de um século que não volta,
Sabe, apesar de me perder ainda és a querida,

O cais de abrigo para o homem perdido,
A margem da aragem que se quer livre e solta
Neste bater meio teu mas meio dolorido.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O Tempo Passa

O tempo passa e esquece-se docemente,
Eu, todo o espaço entre duas margens,
Vou caminhando rápido e lentamente,
Perfazendo-me num resto destas viagens,

O tempo passa e esquece-se negligente,
De nossas mãos reflexos do firmamento,
Assim paro de respirar meio de repente,
Ecoando pelos corredores este lamento,

De quando tempos passavam sendo nossos,
Instantes tornados memórias de primavera
Que para sempre me atravessarão os ossos

Mesmo que um dia pareçam de outra era,
Neste peito batem em mil e um alvoroços,
Até vos reencontrar, serás vós só uma quimera?

domingo, 14 de agosto de 2016

Alguém Me Dá

Alguém me dá boleia para a morgue?
Vestígios de roupas por sombras ladeadas,
O mundo sonolento me há deixado grogue,
Visto-me de restos de lembranças deixadas,

Escuro quarto onde pernoitam perdidos,
As portas sem rumo, fecho as cortinas,
Era por eles que abria os olhos e vertidos,
Eles me concediam alegrias divinas,

O sonhador é o único que pensa ver alguém,
Somos cercados por dias já numerados,
Tornando o negro em cinza, com ou sem

Onde passam aqueles que fomos um dia,
Todos os sóis e luares sempre esperados,
Vede, só espero por um beijo de magia...

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Enfermos São

Enfermos são estes que ficam hesitantes,
Este lugar é país para almas penadas,
Da janela ouço lamentos distantes
E não durmo fruto de mil noitadas,

Tanto falta e tanto mais há-de faltar,
A ferida aberta é a prece silenciosa
E enquanto não basta o que bastar,
Extingue-se parte da ânsia preciosa,

Assim para o mundano se perde o poeta,
Fado triste este da incerta madrugada,
Nevoeiro nublado pela escuridão preta, 

Enquanto não há pé que se lance à estrada
Vai-se lentamente a areia da ampulheta,
Somos refém do prisioneiro do conde de nada.

O Olhar Das Pessoas Já Não Me Diz Nada

O olhar das pessoas já não me diz nada,
Vagueio, tal folha no rio, sem destino,
Perdi a ponta de esperança, o pé na estrada,
Tantas estrelas idas neste olhar clandestino,

Devagar, devagarinho o riso vai assentando,
Sou o resto que ficou não sendo levado,
E daí ninguém me ouve gritando e gritando,
Não vedes que com toda a alma hei amado?

Os passos dados parecem levar nenhures,
Ardentes sedes que não encontram extinção,
E pensar que tive lugar um dia, algures,

Uma mão caminhava alada com a minha,
E eu sorria, do mundo conhecia perdão
No longo trilho de uma vida sozinha.

A Frieza

A frieza da parte de uma cama vazia,
É ausência da fragrância de amor,
Vista na escuridão de um meio-dia
É difícil ver então porções de cor,

Pouco mais que nada há aqui ficado,
Ventos e marés refúgios doutra margem,
E eu que nestes dias tenho pernoitado
Ainda tenho em mente parte da viagem

Feita com amor e carinho por cada bocadinho,
De sorriso e lágrima de mão em mão,
Assim era feito de detalhes nosso caminho,

Assim ia batendo alado um coração,
Por isso escuta, fala então baixinho,
Aqui foi onde deixamos nossa constelação...

Um Dia Ela Foi

Um dia ela foi em mim a partida,
Breve lágrima em olhos rasgados,
Levando os sonhos de uma vida,
Enfim caindo por céus desmoronados,

Pergunto se um dia seremos reencontro,
A fragrância de primavera e amor,
Seja onde for que haja novo encontro
Pois já não mais aguento esta dor,

Passa a poeira de um vento antigo,
Por um lugar só todo em lembrança,
Mal encontro paz, serenidade ou abrigo

Em mim morre a esperançosa criança,
Quando nem a morte é o pior castigo
Assim se perde a última lembrança.

Vida Que

Vida que tanta morte vai deixando,
Vaga é fatiga, percurso da estrada,
Eu, pela orla do tempo passando,
Vou largando a onda desamparada,

O vento leva as fundações construídas,
O bocadinho de magia que pertencia
À hora dos amantes, às saídas,
De todo um ser que tanto queria,

Somos murmúrio no ondear da maré,
Ruído de fundo de uma era findada,
Assim perco a esperança e a fé

De um dia ter algo, ser alvorada,
Como as árvores morrerei de pé,
Não implorando mais por nada.