domingo, 22 de julho de 2012

A Ambivalência: Deste Sentir

É… Isto que mais adoece do que cura
Não deve ser Amor, deve ser loucura
Sim claro, há sem dúvida que acreditar
Porém esta crença de tão grande que é,

Perdeu-se do real, nem é salutar até.
A ambivalência deste sentir é o beijar
Pois algures a sua cura ainda repoisa,
Como se precisássemos da única coisa

Que não podemos de todo encontrar,
E esse é o caos silencioso neste palpitar
Meio ténue, meio atroante e tão, tão vago,

Não há fuga possível nem tão pouco socorro,
Pois por ela vou vivendo e ainda por ela morro
Nesta outra metade viva que mata e em mim trago.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Viagens Pt. II: Pelo Trilho das Nebulosas

Aqui temos acordado para outros dias
E o deslizar dessa ténue e veloz passagem
É sempre novo, o reencontro de melodias
Livres que da Inteira nebulosa são: a Viagem

(Para) Quem ousa sonhar e navegar o barquinho
E aos parados e por água isolados como ilhéus,
Partilhem Amor irmãos - a singeleza do caminho,
Ao toque de uma mão vão-se as nuvens dos céus

Pois dos achados e perdidos resta apenas esse eu
Que é a significação do dia, a marca no tempo
Naquilo que foi retido e também no que se deu,

Sorriam sim e o tempo laurear-se-á em luz e alento,
Nos sóis inspirados da harmonia das cordas de Orfeu,
Não ouçam, escutem… vossas pegadas legadas ao vento.

                                                        *(Somos a nossa Própria Viagem)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Esta Solidão: Simplesmente é à Distância do Mundo

Esta solidão é perfeitamente esculpida,
Sem donzelas ou amadas neste coração
Resta o brilho estelar que sempre convida
Ao que sobra para além da sua terna mão,

Suspiro seu nome quando no aqui não sou,
Tragam flores para quem no eterno repousa,
Pois esse mesmo suspiro neste nada cessou
Perecendo no que este Amor sentido alousa:

Este constante evitar o que o comum torna,
É a perfeita moldura para esta tida solidão
Porém há que voltar ao que o olhar adorna

A brisa enlevando-se em dentes-de-leão,
À sua distância, apenas por vós, luz retorna
Portanto por favor não me leveis a mal não.

sábado, 7 de julho de 2012

O Sonho Pt. III: O Acordar

Havia sonhado com ela através de espelhos,
Ao acordar, o mundo tinha-se enfim mudado
No céu surgiam sete distintos tons de vermelhos,
Esmorecendo o dia, o seu Ver havia silenciado;

Então, em páginas azuis vertia-se seu olhar
Era ela o dente-de-leão soprado à maresia
Errando viandante pelas ondas daquele mar,
Em cores sentidas por Ema, essa doce elísia

Que ao passar das brisas e das tempestades
Se ia transfigurando pelo périplo do Sonho
Por miríades achadas passado mil metades

E a essa passagem era também eu suponho,
Até este sentir de segundos eus saudades,
Neste alvorecer meio alegre, meio tristonho.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O Sonho Pt. II: Entre o Aqui e o Universo

Entre o ponto que cada um ocupa
E o meio e o final deste vasto Universo,
Estão todos os sonhos que em catadupa
Despontam para lá do céu e do adverso,

Fora da jaula, de janelas e portas bem abertas,
Até quando a melhor nódoa cai no pior pano,
Há uma estória a contar por parte dos poetas
Transpondo-se para lá do meramente humano,

Que ouçam, sintam e falem através da vista,
Será o mais perto que estarão do que é Deus,
Que digam que são no que é e que em si exista

Alguma tela ou papel para trazer algo dos céus,
E noutras peças deste enigma de pista em pista
Se erijam e recriem as pontes entre vós - os ilhéus.

sábado, 30 de junho de 2012

O Sonho: O Anseio da Alma (no Barquinho)

Estas velas têm sido ao sopro do vento,
Na busca por Ícaro neste três mastros,
Este impulso que do caminho é sustento
E cujo oposto será o parar sob alabastros;

O Sonho tem sido esta passagem vertical
Ornando as pálpebras interiores em pinturas,
Pois se a gravidade retém o barco como tal
Haja imaginação para o enlevar às alturas,

Que em sentimento consciente as tomemos
Como objectivo e eventualmente único lar,
Pois este velejar detém o desígnio supremo

Do Universo que é a revinda do e ao singular,
Singremos nestas correntes no volver dos remos
Ao Sonho, esse belo diadema da alma ao ansiar.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Uma Constelação: Para Imortalizar a Vossa Ausência

E se eu pegasse na vossa sentida ausência
E a pintasse no sorriso de uma constelação?
Seríeis então imortalizada e nessa cadência
Reencontraria para estes ternos suspiros razão,

Sei… sois vós que levantareis novamente esta voz,
Ao longe, de perto, já quase oiço os sinos a tocar
No peito que se perde no meio deste antes e após
E que acredita piamente Ver e Ser nesse vosso olhar

Pois testemunha Deus no ombro ao vosso adormecer,
E aí é brilho em brilho maior do que a maior supernova,
Os sistemas e galáxias se embaraçam e ao seu esvaecer

Esse sorriso é a única fonte de Luz, o Universo todo em trova
Porém… ouvi não os devaneios deste brilho por éter retocado
Neste momento e instante, sou só e apenas… mais um poeta apaixonado.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Ao Passar desta Brisa no Rosto: Que Soe a Bom Amigo

Esta brisa no rosto tem sido mudança
Pois têm passado as noites neste relento
E dessa constância hei visto a lembrança
Das vezes em que esta brisa era mais vento;

Todos os fantasmas são mais para os fantasmas,
Ónus para nossos diferentes espaços e tempos
Pois como as estações mudam esses miasmas
Que cedem ao Aqui suas vontades e sustentos,

Esses escritos interiores no que o amanhã era
Sempre focados olhando para o que é lá fora
Mas para que servem se só quero viver o Aqui – Agora?

Contudo, vou apreciando esta agridoce espera
Nesta cinzenta nuvem que cheira a lar e abrigo
Ao que muda o que foi só espero um dia tornar-me ou ser...

...um bom, bom amigo.

Was, Is, Shall Be (old song)

A moisture of expressions from who tends to be
A different kind of wave around an equal type of sea
When the cold breeze restarts again we’ll simply pretend…
And smile…

And the world turning and days fading by, …do they feel
left behind, do they question why?
Do reasons doubt the thoughts that gave them birth?…
And doubts…

A Circle moving around the garden æ nourished
From nothing it rose, somehow it flourished
Each withering flower is reborn again…
(even in sand)

And the sky turning and nights passing by,
What do they leave behind, but questions of why?
Remember today as tomorrow’s almost gone
(and nobody knows)

Snow is falling once more (old song)

They fell - dwellers of the quiet world
The white splendor a windowpane absorbs
Like them, I am silence

Amidst ennui walls of dreamless rains
Frozen like them, fainted like them,
Are we everything yet nothing attained but fragments of…

…Snow?

Delayed – absence of recited plans
Portions enticed by the heavens themselves
Concrete destination, partial destitution run for shelter

Things take and burn time and time burns in our age
White city is small, shorter than tall,
My hand is cold, my hand is cold… my hand is holding fragments of…

…Snow

And Life – came to be through my being,
The light that reflected was indeed life,
Born of Love, born of Love… for all living things.

    ...and silently we fall leaving behind a white trail
    We may leave a beautiful trail with a kiss
    With a kiss, the world will heal again.

The time is now.


Stilled Picture V. II of Ema (old song)

Years inside this old picture
Nothing moves inside this whisper
Moments frozen bestowing past
Lethargic future by present’s cast

Disbelieved memories damned by time
In the darkest casket still striving to shine
Tomorrow passes becoming yesterday
Another stub into oblivion’s ashtray...

Shining hearts with nothing wrong
Briefly walking a trail not too long
Midway figures seal radiant smiles
First prayers for closing miles…

Profound wishes for a precise retention
Ecstatic stories entangled to another dimension...
Aboding amidst corners of my mind
Thinking to search yet failing to find...

“Chasing the light… losing bright…”
so much Life slipping through my fingers…

Immersing in mist of a past gift
Preferred clothes no longer fit
Paint now leaking correcting the picture
Revealing a blurred faded feature

Untold contours forgotten story
Collected colors once for glory...
Posing for an unselected destiny
The Girl in the picture was me…

“Losing light… chasing Her bright…”
Smothered within a frame I did could not belong…

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Às Tonalidades... Pt. II da Primavera: Ao Infindo Contido

Temos fluído, sempre em rumo à nascente
E este vaguear predito que nada é perdido,
Agora há que olvidar esse olhar penitente
Porque tudo lhe confere intento e sentido,

Somos! Na escrita da nossa própria odisseia
Onde viver cada dia é epopeica façanha,
Honrando cada trecho que ao herói laureia
Somos filhos de deuses sob a rubra entranha

E se ao caminho o divagarmos pelo errante
Que saibamos chorar e sorrir pois após isso
Virá sempre outro momento noutro instante

E se não voarmos bem alto, jamais iremos voar,
Esse é o prenúncio dos deuses e nós o esquisso
Para o inteiro: o Infindo neste simples caminhar.

Às Tonalidades... de Outono: E às Cadentes no Caderninho

As tonalidades de Outono vêm e vão,
Porém nunca sua cor no Ver reflectida
E jamais essa luz, seja qual for a estação,
Que confere a cor ganha e até a perdida;

E esquecer a vida no Amor e Alma jamais,
Este caderno terá em cada linha sua lida,
Venham seus temores e outras coisas tais
Trá-los-ei no abecedário que é desta vida

Em mais caminho, quase sempre solitário,
Que ora se vai remetendo para as frentes
E outras vezes é de si seu próprio contrário,

Se cravando na pele em cicatrizes e sinais…
E para não esquecer trago-as em cadentes
Nestes fulgores, estrofes e outras coisas tais.

terça-feira, 5 de junho de 2012

O Aceitar: Acordar Sobre Estrelas de Fulgor Ininterrupto

Das sentidas tenho amado todas as estrelas,
Sendo as intermitentes minha única excepção,
Pois se não tocam a alma como posso querê-las
Para aqui me preencherem o resto do coração?

Brindo inebriado à alvorada da noite infinda,
Sem amadas e sem a sua luzência neste peito
Esquece-se o intento do trilho e à nossa vinda
Tornamo-nos intermitentes neste fulgor rarefeito,

Portanto eu sou das fulgências fixas enamorado
Por cada segundo eu passo as travessas, as vielas,
Revendo no reflectido este acumular do passado

Destes olhos a luz cativada e para o infindo telas
É o Ósculo que nesta alma é sempre repintado
Por elas, pois têm sido elas - elas!… somente elas.

Um Pouco de Luz: Para Quem Luz Procura

Deste caminho apartou-se-me a mais bela
Ideia enviada ao silêncio da noite forasteira,
Era só um rosto esbatido a tons de aguarela
Na ânsia deste observar sobre a orla costeira,

Espero-a em anseio do alto destes penhascos,
Onde abaixo fráguas inda aguardam pacientes,
Que suas escarpas saibam a um suave damasco
E ao seu toque assentem estes tempos reticentes,

Onde tarda o envolver de e a toda a Primavera,
Somente para sorver nos lábios a sua brancura
E partir sem mais voltar para o que o trilho adultera…

Este deífico respirar deveria dissipar esta parte escura,
Porém se pouco muda, há-se tornado a ideia efémera?
Quem dera, ao menos não seria luz para quem luz procura.

sábado, 26 de maio de 2012

À Pequena Sereia: Da Espuma ao Patamar do Eterno

O seu coreto era o sítio para o recital
Era então vê-la, bela, frágil e delicada,
Dançando lesta numa estória de cristal
Sobre suas pernas então duas espadas;

Por Amor, o mundo submerso ora passado,
Ao seu porte vinham suspiros de mil poetas
Porém, apenas a um o seu pulsar era enviado
Num anseio por uma alma nessas horas incertas

Era então vê-la lá a dançar lesta por um toque ideal
Que... Uma vez impossível se lhe resgatou todo o ar,
De coração partido – seria então a espuma no mar;

Para seu sangue vertido em suas pernas - um punhal!
E à sua recusa logo pelas filhas do Ar foi pretendida,
Seriam trezentos anos até ver a sua bondade retribuída.

domingo, 13 de maio de 2012

A Procura do Coelho Branco: Pelos Olhos de um Colibri

Para aquele Amor que sustive na mão,
Que um dia recriou magia em suspiros
E com quem repartido foi num coração
Em voos alíferos de partilhados respiros,

Ao Sol que escolheu outro perfeito instante,
Busco no Coelho Branco o trilho para casa,
Olvido penas no ar neste olhar esvoaçante,
Ressoando, o som do escape em meia asa,

Canta para Ela, que brilhe através da neve!
Sim, a luz irradia na ausência doutra gente,
Voando alto enfim voaremos como se deve,

Nestas mãos-asa trazendo do ar a sua semente
Em cada esvoejar outro momento se prescreve,
Neste anseio com o reencontro no transcendente.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

No Ombro da Margem: Soneto à Espuma

De sílaba a sílaba esta confissão no silêncio,
Escutada pelo nocturno relembra-nos assim
Um tempo ausente de ósculo como prenúncio
Ao melífluo espaçado entre o princípio e o fim;

O Ver era a ausência de qualquer pestanejar
Refractando os reflexos de lunares improvisos,
Naquela margem que cedia alento, prestava ar
E que era nessa espuma o molde destes sorrisos;

O trilho para o Acordar é feito de simples nadas,
É tão simples que é fácil que se nos escapem
Dentre os dedos e que se esmoreçam as escadas

Que vão além do horizonte nesta singular jornada,
Um soneto à espuma passante de ombro na margem
Para quê imaginar se em mim conflui a parte amada?

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ensaio ao Toque do Esbelto: Neste Espaço Ocupado

Sois a chuva caindo perante a lamparina
O retoque na brisa no mundo que é lá fora,
Os restos das esquinas no que a Lua ilumina,
Aquele suspiro cúmplice do hoje e d’outrora,

Sois a abóboda celeste adornando o relento,
Singularmente ides preenchendo este espaço,
Desse esvoaçar do infindo verteis o único intento,
Deste cativo, o anseio por vosso eviterno regaço,

Neste ensaio sobre vós irei indo estação a estação
Repleto dessa beleza e claro de seu doce ardume,
Além da metade que trago, num plenário coração,

Sede em mim - no infinitésimo instante o perfume,
Vaguearei para já por cá com vosso beijo na mão,
Sendo um dia convosco o que a madrugada resume.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A Ema VI: O Ombro da Lua

O vosso peito é o prado do primaveril,
De idílica beleza alumiando o dia,
Até quando do orvalho chove Abril
E se envolve com o que o Ver via:

Uma chuva de estrelas sobre o peito,
A fracção de nebulosas que ela respira,
Que é pouco para me dar por satisfeito
Porém este é o ornato que Ema inspira,

Nestas saudosas horas do entardecer,
Somos o vaguear dos trilhos do precito,
Esperando o Sol para em ternura ceder

A Lua, de Ema balão para o estelar súbito…
De seu pedestal, sê em mim esse ascender,
Que seu ombro me conceda o seu plácito.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Por Janelas de Vidros Azuis Pt. III: O Orvalhar em Anil

Amor, é esta cantiga vosso porto de abrigo?
Enlevando-se subtil pelo cais da madrugada,
Ou apenas e só mais um oaristo pelo índigo
Que se espezinha ao atravessar a calçada?

Índigo vertido em gotas numa colina azulada,
Esta é a alma que o Outono deixa para trás,
Onde a gota descalça se queda inquietada
E se reencontra enfim, reavendo a sua paz;

Queridas amadas cedei espaço ao meio lunar
E que no orvalho vossa alma seja seu lacrimar:
Este entremear às estrelas cadentes no tecto,

Confesso este anseio apontando seu trajecto,
Sei, sois o infindo, bastante mais do que mil,
Que juntas se assentam neste orvalho de anil.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Por Janelas de Vidros Azuis Pt. II: O Ósculo das Amadas é Luz

Janelas azuis têm suspirado na brisa,
Seu sussurro tem sido o único sustento
Desse semblante que o etéreo adonisa
Com o toque do orvalho no firmamento,

De quando já não há mais toque a dar
Entre este sítio e o infindo sou o espaço,
E o ósculo se retrai se eclipsando no mar,
Quando virá num beijo o seu terno abraço?

Esta meia vida será aqui o maior instante,
A um voejar ante minha imortal amada,
Porém se sabe a vida eu sou o bastante

Para percorrer arquejante esta estrada,
Em meio eterno para já mas não obstante,
Nunca refreado ou contentando com nada!

domingo, 1 de abril de 2012

Por Janelas de Vidros Azuis: O Sussurro na Brisa

Se meus lábios fossem espelho dos vossos,
Encostado a um vidro azul seria o devaneio
De qualquer ténue latejo com seus impostos
Que em estórias se vai perdendo neste anseio,

Abram-se enfim as janelas vertendo a sua brisa,
No bom ou mau que concedam auge ao sentir,
E um dia, orvalhe na flama de tal forma precisa
Que olvide este suspirar na hora de seu existir,

Porém… que permita alcançar o eu vindoiro,
Ele que se inscreva no cerúleo em capa d’oiro,
Ornado sim a ido perfume tornado em maresia,

Que na brisa sussurrado seja definitivo esse agoiro,
Pois eventualmente voltará como uma fotografia
Relembrando o inquestionável eterno que foi um dia.

terça-feira, 20 de março de 2012

Ao Sol: Seu Reflexo era a Única Cor

Ao sol ela era a escultura para o seu reflexo,
A cor do olhar trilhado por aquela sua estrela
Era homónimo de negro clarão neste entrecho,
Eu – Simples espaço para o anseio em passarela,

Hoje a estrela da madrugada hasteia-se cedo,
Raiam as ondas nesta lida insana, nesta peça,
E se deste navegar havemos nutrido nosso medo,
Estagna-se a vida sem pergaminho que a entreteça,

Soa a miúdo a correr com tesoura e pincéis na mão,
Repleto de cicatrizes e cores transpostas para poesia,
Encostando a cabeça na brisa e ouvindo a sua canção,

Seja do que vem ou não – e se embebe em nostalgia,
Pois quando o céu em suspiros escapa a um coração,
Passam as estações levando suas cores e a sua magia.

terça-feira, 6 de março de 2012

Retrato do Português do Séc. XXI: Essa Rameira Paciente

Dêem-me um número de lugar de camioneta,
Para dormir eventualmente num quarto, no chão,
Moro em latrinas públicas e do pódio um proxeneta
Confere-me desmedidas regalias como côdeas de pão,

Profiro os Descobrimentos como se ontem tivessem sido,
Erra esta nau esperando a sorte que o horizonte alcança,
Contudo se perde num país meio afundado, meio perdido,
Sempre do mesmo estamos fartos mas cansa-nos a mudança,

Egrégio lar por escumalha governado em contos de fadas,
Venho de vários caminhos porém de futuro sou aldrabado,
O esplendor levam deixando-nos um invólucro com mil nadas,
Nação valente quando te libertarás deste cerco, deste Fado?

Vamos engolindo merda como se fosse um sazonado doce,
Coloco a mão na algibeira e em meio bolso sinto-o furado,
Ao invés do amanhã celebramos continuamente o passado,

E vamos vivendo do silêncio nutrido por esta esperança vã,
Esfomeados por nossa própria fome nesta parada precoce,
De cinto apertado e calças na mão aguardámos a manhã,

Espreitando o lá fora e sua luz como se o amanhecer fosse,
Sim, sou um português de gema, o sucessor de mil gerações,
Castrado à nascença, nobre entre as brumas, mas... sem os colhões.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A Espera: Pela Entrevinda

Íamos esperando, intercalados pela acalmia,
Contudo apressados por pegadas passadas,
O brilho opaco revirando-se no fulgir do baço,
E ao seu néctar polinizado, somente eu sabia,
Onde o murmúrio do vento deixou pegadas,
Na incerteza minha certeza e enfim, o nítido traço,

Ao desconhecer ser no rotineiro e mundano,
Era uma onda de âmbar ao tempo olvidada, 
Contudo reflectindo ouro ao seu contacto solar,
Como que inebriado por porções de láudano,
Dando passo a passo, sonhando estar acordada,
Era assim que passava ligeiramente este passar,

Na infinda busca de significado e aceitação,
Num prenúncio ao crepúsculo e ao amanhecer,
Agraciado pela partilha desta praia tão bonita,
No sítio onde esvoaçáveis no abraço do Verão,
Onde caminhávamos de mão dada, num só ser,
E o depois era fulgência apesar de incógnita,

Lá... lá onde o murmúrio do vento lega pegadas,
Esse cenário é só meu e é o que nos torna reais,
E a sua entrevinda o gradual circulo reaberto,
Nessa suave brisa de tardes de Verão ancoradas,
Prisioneiro no enlevamento que me providenciais,
Em cela com vista para o ontem e para o incerto,

Vamos deixando rumos e partindo antes de chegar,
Esse progresso, é o sossegar do inquieto e desassossegado,
E à deífica mistura deste meu palato com o vosso gosto,
Sou sentimento em perdição e em fremente ofegar,
O infortúnio de Adão por fim nítido e delineado,
Nas maçãs e nas rugas, nas rugas das maçãs do rosto,

Quando vós chegardes a casa enfim, sairemos.
Então beijai-me os olhos e abri-me as pálpebras,
Fechai-me os olhos e beijai-me as pálpebras,
Beijai-me os olhos e reabri-me,
Cerrai-me o olhar,
Beijai-me…

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Do Suspirar: O Rodopio Daquela Canção

Eu que do Universo testemunhei sua maravilha,
Tragando em mim seu âmbar estação a estação.
Porém de toda essa passagem e enfim partilha,
São ainda vossos lábios minha ânsia e perdição;

Amor, sois o saudoso suspiro que ainda inspiro,
Osculai-me pois a alma e quebrai-me o coração,
Vosso ombro concedei-me como porto de abrigo,
Lembrai-me o rodopio próprio da nossa canção;

A meus pés tombada jaz a pitoresca Primavera,
Este peito, urna para as cores e sua reminiscência,
O meio eu que tarda no que o ontem lhe trouxera,

Vós, sumptuosa sílfide haveis sorvido minha Alma,
E silenciado meu Viver com esta terna ausência, 
Em melancolia aspiro do sepulcro a sua calma.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Toque: Do Universo nos Refluentes

Sim outrora fui… outrora fui o Sonho,
Hoje sou Alma oblonga por etéreo rio,
E de margem a margem o transponho,
Retendo em mim a centelha do Estio,

Do Céu, a mais brilhante flor estrelada,
Da grinalda reluzente por Ema colhida,
A menina do rio pela Vida enamorada,
Que num ido dia se deu como perdida,

No rumo diante a viagem face ao Inteiro,
Ela, Ósculo nos infantes das supernovas,
E nesse infindo refluir tão célere e ligeiro,

Tragos de um pouco de mar e brisa cerúlea,
Somos aí refluentes, as melodias em trovas,
Que o Universo recita nesta una tertúlia.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Ema V Pt. II: A Tela Colorida em Palavras

Esse ornato, é o semblante da centelha,
Que fulgente pulsa nos elísios infantes,
E no simples essa simplicidade espelha,
Os escritos deixados por outros viajantes,

Eu sou um deles, venho das claves primaveris,
Sou o poeta das cores pois pincelo palavras,
Na tela que é o mundo em toques tão subtis
Que tu, o um de todos os sonhos enquadras,

Nessa tela, onde se misturam todos os sentidos,
Numa valsa de colorações espargidas em letras,
Onde como frases, sou os encontrados e perdidos,

Sim esses, os que apenas são eu para lá do Sonhar,
Instantes sou nesse meio onde a cor então se soletra,
Naquele eterno entre o primeiro beijo e o último Amar.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A Ema V: A Brisa que Sopra Poesia

Vem a brisa ligeira de um poema,
Abrem-se as chuvas e os abrolhos,
Do outro lado das nuvens sorri Ema,
Beijando o dia, verte-se nestes olhos;

Havia colhido luz para a sua grinalda,
Ornada a poente erra no fio do vento,
A aurora reflecte o seu olhar esmeralda,
Que do próprio Sonho se tornou sustento;

Vejo-a nítida, soprando às nuvens pétalas,
E tenho-a, neste retrato que já nem é retrato,
É extensão de alma e esvoaçar de borboletas,

Pela poeira do tempo… e como o tempo é ingrato,
Porém resta em escritos, pelo vaguear dos poetas,
E é aí que a brisa sopra poesia, forjando seu ornato.