quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A Chuva Caí

A chuva caí no parapeito da Lua,
Preenchendo de passos suas poças,
É na companhia das trevas da rua
Que nem ouço o ruído das carroças,

Faz-se assim o silêncio feito de veludo
Calando então este teatro de papel,
E o tagarela enfim torna-se no mudo
No vesano frenesim deste carrossel,

Com amargura tocava-lhe no rosto
E ela dissipava-se entre estes dedos
E por cada beijo perdia-lhe o gosto

Maiores se tornando então os medos,
Confesso às gotas onde me encosto
Serei eu só sombras dentre os arvoredos?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Através de Vislumbres

Através de vislumbres de precipitação,
Longe de casa, do destino e de tudo,
A escassez vê-se no olho da escuridão
Onde o frio se deita no corpo desnudo,

O lugar é então lembrança e ilha deserta,
Bruma para o orvalho de acesa alvorada
Quando o passar era errante hora incerta
Para o pé descalço perdido da estrada,

O mundo - uma amálgama de ideias soltas,
Um tremeluzir de uma vontade entranhada
Mesmo sem saber bem ir - em voltas e voltas

Calam os sentidos esquecendo o amanhã,
Só ficam lábios e rosas sob a vista aguada
Na longa esperança pela alvorada irmã.

É Sim o Destino

É sim o destino o inefável brinquedo,
Porção do passo dado e não dado
Que acorda o viandante tão cedo
No caminho pelo qual vai o passado,

Relembrando o regaço da donzela
Onde segundos perdidos não voltam
Na calma incessante ao passar da viela
São os prantos do não feito que soltam

À rua suas mil sombras e semblantes,
Indagando a procura como resposta,
São esses horizontes hoje tão distantes

Que esvaziam o silêncio para lá da encosta
Em gavetas almofadas em sítios errantes
Onde fumos de sonhos são ferida exposta.

sábado, 2 de janeiro de 2016

A Vida de um Perdido

A vida de um perdido por um beijo
E a sua alma por um último conforto,
Vinde, sorrio deste ímpio lugarejo
Onde o trilho enfim se dá por torto,

Suspiros lançados às esquinas pelo ido,
A espera face à promessa do eterno,
Porém em mim pareço já ter partido
Permanecendo parado no inverno,

O amor simplesmente não é para amantes,
É perda ao envelhecer da estação
Para quê me dar a todos os instantes

Todo este devaneio só trará um caixão,
Pois passeando os dias flagelantes
Vem o poeta sem amada no coração.

Compasso Marcando

Compasso marcando a hora passageira,
O prisioneiro da vida procura libertação
Pois o homem sentado na cadeira
Mal coloca a mão no coração

Perguntas e nevoeiro são presença comum,
São ciladas deixadas pelo caminho
Que ditam que ele é só mais um
Triste em solidão a vagar sozinho,

Indiferente de qual rumo a tomar
Com tantas veredas atravessadas
Hoje já não há pressa para chegar 

Pois as decisões já estão tomadas
No trilho que se ausenta devagar,
Na procura pelas ruas quebradas.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Suplicava Então

Suplicava então por um cobertor
Feito de céu e estrelas do mundo,
Era a única coisa a ter em redor
O último anseio de fulgor profundo,

Desconhecendo as pedras da calçada,
Do trilho que parece não ter fim,
Com todas estas lágrimas na alçada
Será que ainda há destino para mim?

A procura de oásis em palco de vida,
A água para saciar toda uma sede
Mesmo que seja noutra despedida,

Mesmo que só haja mais parede
Colocando sal em aberta ferida,
Abrindo a ferida, caindo na rede.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Palavras

Palavras doces, palavras tão belas
Para adornar o espaço no caminho
Que sejam parte do céu tal as estrelas
E como elas jamais te deixem sozinho,

Palavras tristes, palavras perdidas
Ornam o momento passado inaudito,
São a perdição das mentes iludidas
A morte dos loucos em tempo maldito,

Passa o tique vem o taque e nada muda
E o peso nos seus ombros não obstante,
Nem vem ninguém que lhe dê ajuda

Mas ainda há palavras para alumiar o dia,
Palavras para desejar palavras o bastante
Para considerar o instante como poesia.

Do Futuro

Do futuro de pouco me acho merecedor,
Nem de pão e água e um tecto a cobrir,
Vil destino de quem se dava por vencedor
Porém o medo então deixou de se diluir

No passo dado entre margens e cantos,
No instante que vale a pena viver,
Sobrando escombros de desencantos
Parecendo só faltar o saber morrer,

Sentindo a falta de ar onde ar não há
E o mundo desprendendo-se da palma
Pois há tão pouco para fazer por cá

Que se me desalenta e morre a calma,
Para quê reviver quem morto está
Nesta Babilónia que quebra a alma?

A Conta-Gotas

A conta-gotas caia então a perdida vida,
Desencontrada onde se devia encontrar,
Sim, tinha vindo o tempo de partida,
Estava na hora do avião enfim descolar,

Ele soluçava pelos sonhos quebrados,
Sendo cada fragmento a face dela,
Teria ele se juntado aos reis destronados
Não merecedor da mão de sua bela?

Não havia sono que trouxesse descanso,
Nem sorriso que não se desse por findado,
Era perda, dor e morte em triste remanso,

Tantos anos descartados à berma da estrada,
Que quase parecia que não tinham acabado
Na boca faminta que não saboreia nada.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Do Tempo Quase Não Lembra

Do tempo quase não lembra tempo algum,
Só loucura redigida para o viandante,
Dos passos dados parece não haver nenhum
Que faça de seu destino o seu amante,

Esquecem-se as histórias de outros tempos,
Vai-se olhando com nevoeiro no olhar
Que é levado assim por outros ventos,
Ventos esses que não é possível amar,

Surge no trilho finalmente a indiferença,
Indiferente do trilho e seu percalço,
Logo nem dele é bem em pertença

É mais obstáculo caído em livre queda,
Percurso de pregos a pé descalço
Tortura, desgaste, a vil labareda.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Há Partes de Mim

Há partes de mim que em mim desconheço,
Cavalos correndo selvagens neste leito,
Vozes nunca ouvidas que não confesso
Batendo tão bravias sob este peito,

Algum simples sítio para afundar um seixo,
Esconder o desatino que me aprisiona,
Estas lajes que ao páramo lunar deixo
São para quem se sentar na poltrona

Permitindo o mundo entrar, consentir ser,
Sorrindo a lágrima que passa e não fica
Só então poderei de facto e enfim ver

O Homem que em si insiste porém abdica
Pois há partes em mim que só sabem correr
Na tapeçaria que nem sempre se versifica.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Estrelas, Quedas aos Cantos

Estrelas, quedas aos cantos do firmamento,
Palavras lançadas recontavam o instante
Em que Vida não era só lenda ao vento
Era deixai-me ir rodopiando adiante

Pelas sinuosidades deste eu labirinto
Por vezes agraciado por sua singeleza
Porém o que sinto não é bem o que sinto
Então por vezes não se encontra a beleza

Que é momento aqui revindo e eu amante
De quem vem por bem, de quem não sei
Pois já soube demasiado sobre semelhante

Prisioneiro sofredor, indiscutível fora-da-lei,
Tentando encontrar o que ainda é distante
Perdoem-me como um dia a alguém perdoei.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Até os Poetas Sabem

Até os poetas sabem quem é a morte,
Beijam-na por cada vez que há paixão,
Assim vão perdendo sua crença na sorte,
Passeando errante com dor no coração,

A saudade uma intenção, mais um pouco,
Estrada lunar é sua falta de uma vontade,
Uma lágrima, um desejo impar feito louco,
Dando passos ao longe pela tempestade,

Vão passando os dias sombreando o dia,
O sonho perdido – meu amor – desolador,
Estrelas cadentes tal escombros de poesia

Nem eu diria ou ousaria cantar sobre esta dor
Aos ouvidos transeuntes da rua em desvalia
Sobre esta balada lúgubre de quase amor.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Ouvindo o Tiquetaque

Ouvindo o tiquetaque da hora passageira,
A vida meio fugidia torna-se ruido de fundo,
De todas as viagens um nada na algibeira
Parece pouco para apresentar ao mundo,

Tem-me em suas garras o taciturno Inverno,
Emaranhado nas teias do seu suave cabelo,
Ele é a ode em linhas dentro deste caderno
Uma sobre a outra tal e qual infindo novelo,

Cada fio é para mim outra razão para viver,
Suspiro aos céus o fado do outrora viandante,
Estes olhos enfim suplicam por algo acontecer

Pelo retornar da luz perdida só mais uma vez,
Pela chegada dos pássaros levando-me adiante,
Deuses da não Vida libertai o sonhador talvez!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Desencantado Olhar

Desencantado olhar que ecoa na calçada,
A tristeza desta alma algures perdida,
Sozinhas as lajes são a pluma queimada
Enquanto o tempo em si é a dormida,

Procurava luz ao fim de infinda ladainha,
O homem morto por fim queria vida,
Andar direito era curva para meia linha,
Qual seria então a sua sina, a sua lida?

Em breve seria irmão para outros relentos,
Outro semblante vagueando o nocturno,
O poema olvidado deixado aos sete ventos,

Sim, um dia até minha sombra fugirá de mim
No passo solitário do vagabundo soturno,
Assim padece na terra o caído querubim.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Soletro Estas Pegadas

Soletro estas pegadas soltas ao vento
Em silêncio cantado à madrugada,
Num mundo azul colorido a cinzento
Onde nem a alvorada é encontrada,

Perdido onde a estrada se dá por finda
No eterno acossar das curvas das ruas,
Por vezes esqueço o que a torna linda
Na solidão esculpida por mil e uma luas,

Saravá oh musas de todos os poetas,
Cantai-me sobre o trilho, cor e amor,
Guardar-vos-ei em mil e uma gavetas

Pertencentes a ninguém feito senhor,
Liberto-os sob mil e uma borboletas
Enfeitiçadas no perfume do beija-flor.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Estes Olhos Soletravam

Estes olhos soletravam os passos da rua,
Lá fora ladravam os cães da vizinhança,
Silenciosamente esta solidão era da lua
Afagando seus dedos numa lembrança

Que hoje do esquecimento era pertença,
Era então ouvir meus cantos moribundos,
Como se a vida fosse a mais vil sentença
Neles vislumbrando meus mil vagabundos,

Quanto tempo já terá enfim sido passado,
Em si, ao longe, era os passos precedentes
Tal e qual última estrela num céu nublado

Alcançava a vista firmamentos aos molhos
Ainda cativo em pensamentos recorrentes,
Ao final, terá deixado cair o brilho dos olhos?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Beijo a Chuva

Beijo a chuva e esperanço por um pouco de sol,
Assim passam eras e temporadas ao pé de mim,
Por vezes pergunto se fui presa para próprio anzol
E que género de vida é esta que se vai tendo assim

Quase sem viver, observando as folhas que caem,
Esperando neste quarto por alguns dias de verão,
À sua ausência, espero onde as estações se esvaem,
De braços semicerrados e com as mãos no coração,

Lembrando travesseiras e lençóis a azul repintados,
Rarefeito de mãos para partilhar quanto mais dar,
A repreensão ao mundo são estes olhos fechados,

Silentes e quietos não ousando ver quanto mais sonhar,
Só laivos de suspiros à moldura das fotos lançados
Logo se castiga o triste recluso de seu próprio andar.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Vem Vento

Vem vento e traz alguma paz e sossego,
Pensamento brando e pouco nevoento,
Um pouco de luz para o enfermo cego,
Silêncio para o murmúrio deste lamento,

Aqui onde apenas gritos em espiral há,
Vamos procurando nuvens para sonhar
Pois quando não chega a luzente manhã
Parece que nenhum destino há-de chegar,

Então é fugir e escapar dos fantasmas da alma,
Do escarcéu ruidoso impregne neste cantinho
Então algures encontrar paz, encontrar calma

Podendo assim contentar-me já maior, velhinho,
Esquecer a contenda que transparece na palma
E as rugas que se escondem no leito de pinho.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Esperançando

Esperançando por esta pequena janela,
Pelo nascer do sol, pelo toque da flor,
Pois tenho todo o céu como aguarela
Para aqueles dias feios cheios de dor,

Deste rio de pouco tenho a certeza
Para além de que tudo é tão incerto
E nisso encontro toda esta tristeza
Que a morte um dia me terá coberto,

Por céus e mares fui errando sozinho,
Ninguém sabe quando há-de morrer,
Faço da falta de percurso o caminho,

As lágrimas e o sangue de uma vida,
Por tudo o que ganhar ou então perder
No fim será essa equação para a partida?

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Passeia-se Mais Um Dia

Passeia-se mais um dia meio de repente,
O outrora viandante, inerte, fica na rua,
Ao relento de uma canção tão dormente
Que ele estranhava se esta ainda era sua,

As esquinas desdobravam-se ao luar,
Ele passava só onde a lua brilhava,
Quase incapaz de sentir seu passar,
Será que por lá ele ainda estava?

Ia sorrindo de soslaio à morte amiga,
Inculcava sua sombra aos lampiões,
Murmurando seu fado em cantiga,

Era a verdade de quem em si via o fim,
As estrelas se misturando com os aviões,
E enfim... ansiava o toque do querubim.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Só Uma Hora Mais

Só uma hora mais e o mundo acaba,
Aproveito para dizer o que não digo,
Só mais um pouco e tudo desaba,
É a última réstia de luzência que sigo

Por entre estas meias palavras e olhares,
Haverá rumo para o distante horizonte?
Sem destino basta de para mim bastares,
Procuro trajecto para o passar da ponte,

É o vil silêncio destes versos a sentença
Do homem procurando por si no Inverno,
O sentir falta de poiso, falta de pertença,

Não ter lugar ou sítio no mundo moderno,
Ficar nesta terra fustigada é meio doença
Até quando mais esta loucura, este inferno?

Hoje Debaixo do Sol

Hoje debaixo do sol um pouco de frio,
Sua ausência são os suspiros largados,
Ela nas minhas mãos é o espaço vazio,
É todas as porções que hei abandonado,

Aqueles bocados que hoje aqui não são,
Somos seres do céu aqui na hora errada,
Perdendo as asas, na estrada mero peão,
Deixado só ao despontar da madrugada,

Hoje debaixo do sol sou as lembranças,
Aqueles instantes em que fui inteiro,
O meio da selva, por estas andanças

Deixa um sabor agridoce nesta boca,
Esta minha saudade sob o aguaceiro,
Assim vêm barcos para a minha doca.

A Madrugada é a Terna Companhia

A madrugada é a terna companhia
Para quem vai às noites sem fim,
Sem dormir naquilo que parecia
Irmos nós passando meio assim

Quase em beleza, imortal percalço,
Resumindo toda uma existência
Do menino nu de pé descalço
E há quanto só sente sua ausência,

Correndo então contra as paredes,
Tropeçando na berma da estrada,
Não saciando suas mil e uma sedes,

Era sentir o mundo sobre sua alçada
Deixando seu peito cair em redes
E seu olhar turvo pela vil cilada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sombras e Fantasmas

Sombras e fantasmas trazendo os dias
De mãos dadas com o que já não é,
Prisioneiro das ruas de fingidas euforias
Sem instante que traga um pouco de fé,

Assim nos esquecemos do já eclipsado,
Até a porção a que chamamos casa
Torna-se parte do já ido, do passado,
Partindo a vontade, quebrando a asa,

Já nem ouso esperar pela madrugada,
Se estes lábios já não tocam nos seus
Lá fora sou a chuva a cair na calçada

O passar do tempo é o secar do olhar
Nem me permite despedir, dizer adeus,
Quanto mais com a bonança esperançar…

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Trago

Trago só mais um resto de esperança,
A presença de um pouco de saudade
É o passar com um olhar de lembrança
Que é do viandante a sua cara-metade,

Trago só mais um bocadinho de vontade,
Só mais um pouco de querer ser e poder ir,
Para o trilho o já ido apenas meia verdade
De quem se dá ao choro tanto como ao rir,

Trago em mim décadas que aqui nunca foram
E píncaros e minúcias a quem já não importa,
Se foram instantes negros que ora douram

Não sei! Foi ponto de vista de quem passa
Nem sei se bateram de todo nesta porta,
Trago todos e nenhum ao passar na praça.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Esta Nossa Noite

Esta nossa noite deambula pelo já ido,
Encontremo-nos algures pelo seu meio,
Procurai-me lá quando já tiver partido
Partindo sem algum travão nem freio,

Por mim seremos novamente um dia,
Haja sol ou chuva seremos novamente,
De vós já quase ouço a familiar melodia,
Somente há que caminhar em frente,

Será aquilo que em nós é maior que nós?
Inquiro às sombras que passam na calçada
Pois se for é preciso dar-lhe cor, dar-lhe voz

É preciso dar os passos para a caminhada,
Não mais me interessa a distância até vós
Desde que estejais lá minha doce, doce cilada!

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Desabrocha

Desabrocha a suavidade do porto de abrigo
E eu, sozinho ou contigo, lembro o passado,
Sim há vezes em que preciso de um amigo,
Há vezes em que o sol não se dá dourado,

Oferece-me o peito e deixa o tempo passar,
Cansam-me as correrias da sobrevivência,
Não tenho tempo para viver, para amar
E magoa-me da situação ter consciência,

Verte-se-me a tristeza de uma geração
Que não tem hipótese de ser ou viver
Que não tem quem lhe ofereça a mão

E lá vai indo direita por caminho torto,
Há vezes que a vida só deseja morrer
E que em vida é só o homem morto.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Tenho Tragado

Tenho tragado o som da madrugada,
Como se tivesse em mim repousado,
E à primeira claridade aqui albergada
Será que do dia havemos abdicado?

Um dia soltarei as amarras deste cais,
Partirei sem olhar para o que foi ontem,
Queimando as pontes pois sei que jamais
Terei lar onde quer que estes olhos apontem,

Faço da incerteza a única e bela certeza,
Do vento longínquo o beijo, os abraços,
Não sei se haverá dia, se haverá beleza

Porém estou desejoso de dar esses passos
Que levam ao desconhecido em franqueza
Deixando para trás meus mil e um pedaços.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O Tempo É Tão Curto

O tempo é tão curto nesta breve viagem,
Ficam ideias de rostos que vão passando,
Especando à vidraça tal de louco miragem
Cravam-se ao olhar por onde vou olhando,

Hoje há recôndita penumbra e seus luares
Relembram as vezes de um sorriso aberto
E desta minha passagem por tantos lugares
O trilho desta jornada parece sempre incerto,

Dos passos dados, lágrimas derramadas,
De que todos partiram deixando-me só
E desses fins, dessas fotografias rasgadas

Por vezes parece que o tempo não tem dó,
E se um dia for entre paredes tresloucadas
Esqueçam-me enfim entre estratos de pó.