quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Inefável Para Quê?


Há vestígios da madrugada, ecos da sua permanência,
e lembro-me do vazio da despedida e do seu silêncio,
A falta é carência e fantasma; serei eu toda a distância
onde a sombra é semblante, e eu a mim me renuncio,

Lacunas na respiração, febre e cansaço; vem a insónia,
arrepios nas cicatrizes de uma noite estreita, a fachada,
As esquinas são nossas, assim como a fecunda calçada;
não obstante, seguramente, esta apenas outra Babilónia,

De uma janela, de um quarto escuro com a cama desfeita,
vejo, lá fora, a luz mortiça do crepúsculo — em mim, ferida,
Céus abertos, e eu fechado em casa: uma luzência rarefeita,

E, por entre murmúrios, pergunto-me: «O inefável, para quê?»
O imanente pouco me diz; a ebriedade da vertigem, preterida,
e eu com saudades do nó do abismo, na dama e no seu buquê.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Vertigens do Efémero

O Outono cai, e regressam as vertigens no coração;
Esta dúvida, este desejo contido, é cinza e abismo,
Pois, mesmo erguendo-me, vem toda esta solidão,
Aluado, perdido entre o conflito e o seu lirismo,

A noite cai, e a aurora não vem; lá fora, o vento,
Estou cá de passagem, sou efémero no instante;
A memória no retorno, ciclo finito, rápido e lento,
Quando a despedida se atrasa, mas vem, não obstante,

A promessa está, e é de eternidade, seja no beijo tardio,
Seja no abraço hesitante: é chaga no peito do viandante;
E cai o silêncio, a lágrima, o desamparo no terreno baldio,

Os dois, somente sombras de um momento já esquecido,
Ruína na ferida aberta, ardor e saudade do solitário amante,
Que já nem quer mais saber, seja o saber diferente ou parecido.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Todos os Meus “Ais”

Todos os Meus “Ais”

Há fissuras na pele, pelo frio acometidas,
Em mim sentidas; em mim são a cicatriz.
E eu, triste aprendiz, de constelações vertidas
Entre elas todas queridas, porém algo se desdiz,

E suspiro pelo final do mundo desta montanha
Que, em baixo, me banha — a verdade é a solidão
Pulsante no coração, no âmago desta entranha,
Entre Portugal e Espanha, prisioneiro de lassidão,

E a nenhum lado me levará esta fecunda ansiedade;
Seja qual for a idade, estarei a ela enfim sentenciado,
Por mim a mim estranhado, mesmo nesta sobriedade,

Porque esses são todos os meus “ais”, neste trilho escuro,
Onde de mim a mim me descuro; pelo fim, enfim, saudado,
Laudado, pois de mim me escondo, pois a mim me procuro! 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

A Constância do Silêncio

Este outono é fértil: as folhas caem, nutrindo raízes,
A linguagem profunda do olhar entre dois amantes;
O belo do instante onde se curam antigas cicatrizes,
Esse é o silêncio e a constância, mesmo que distantes,

Aceitação do impermanente traz cuidado e maturidade,
Retorno ao sítio de partida, pois um dia todos voltamos;
É o ósculo partilhado com presença e cumplicidade,
Chega, eventualmente, a altura de partir — pois partamos,

E saibamos chegar ao gesto mínimo, à canção de outrora,
Em toque contido, dilatemos o momento, morro abaixo,
Pois nesta respiração partilhada algures desponta a aurora,

Então há proximidade com o Cosmos, com o Universo,
Vagueando assim entre uma terra alta e um céu baixo,
Poeira dourada jorrando num ver — esse é o único verso.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Aprender a Caminhar Inteiro

A primavera é seiva nas artérias do viandante,
Canto ao vento proveniente da fonte Universal,
Pois por onde fomos afasta-se o Inferno de Dante,
Hoje e aqui erguemo-nos no inteiro e no plural!

De aurora branda na face sinto a alma a florescer,
Renovado por cada novo passo, agora há esperança,
Despertado para o amanhã, para qualquer anoitecer,
Com a mudança da rosa-dos-ventos, com a lembrança

De outros tempos não temperados por uma ampulheta,
Com luz nos bolsos, constelações dentro da algibeira,
Pó de estrela entre os dedos numa caminhada discreta,

Quanto ao trilho elapsado, ao entretanto já caminhado,
Trago-o no sorriso e na lágrima guardadas na bagageira,
Venham os segundos, as nebulosas e o sonho rascunhado.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A Primavera Interior

Há perfumes antigos por entre estes corredores,
Onde as raízes relembram beijos outrora eclipsados;
A sementeira dos sonhos — e eu ainda nos bastidores
De um ciclo eterno, numa primavera dos despertados.

As cicatrizes de outros dias, um dia, também se curarão,
Enquanto pétalas suspensas caem perante o horizonte:
O ventre da terra, rebento vivo, a seiva em pulsação —
Só colheita para o instante, campo e afluentes da Fonte,

Este é apenas outro jardim latente, de frutos ainda por vir;
A palavra fértil para um vento morno de uma manhã,
Ouvindo cânticos pastorais e abraços que venham a advir.

A vida brota desses mananciais, torna-se luz a bruma:
Regressa a aurora, passa este agora para um amanhã
Que é sorriso — é voar alto com o peso de uma pluma.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Retorno ao Infinito

Alguém perdido em astros, memórias e amores antigos,
Tal cometa em regresso, reencontra enfim o seu centro,
O cosmos em ressonância, vestígios de nébulas e amigos,
O viandante estelar na órbita luminosa — clarão do que há lá dentro,

Séculos à deriva, trazendo novos brilhos e velhas cicatrizes,
Ecos desvanecidos das estações idas — eis o retorno ao infinito,
Como faísca em supernova, a constelação revela suas matizes,
Do éter à estrela: vulto, semblante de um apogeu, de um grito,

Este terno crepúsculo é clarão nas têmporas, fotões errantes,
E, dentre um firmamento só nosso, espirais de luz suspensas,
Há rascunhos de eternidade no agora breve — nos instantes,

Trago o coração translúcido e uma fogueira oculta na alma,
Estas memórias serão cinza um dia, e este amor remanescente,
Um beijo cerúleo guardado na neblina cósmica que levo na palma.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Elegia ao Amor Extinto

Aqui renuncio ao Amor; enfim, morro resignado,
Tão vulnerável, em descompasso e de veias vazias.
Estação abandonada — o pouco e o nada caminhado
Basta às estrelas extintas, que há muito jazem frias.

São flores a murchar, são pontes a desmoronar,
É o lume que se apaga num tempo a se extinguir.
Não há esperança: é efémera e torna a se apagar;
Fragmenta-se o desalento — e não há por onde ir.

Despeço-me do horizonte que asas outrora me deu;
Venham as cinzas do inverno, o silêncio de um hiato,
E venha a noite eterna a vestir-me de negro, Orfeu.

Dá-me a mão — não me deixes, no breu e no desfecho.
Adeus à pertença. Rascunha-me o semblante num retrato
De giz; esta ausência é nossa — e este pedaço, nosso trecho.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Entre o Zero e o Infinito

Estrelas orbitam o silêncio deste éter constelado,
Eu, princípio e fim, essência de luz e até abismo,
A nebulosa que, trazida no peito, é beijo ecoado,
Entre o zero e o infinito — enfim, mero preciosismo!

Suporto vestígios de alicerces que vão até ao céu,
Reminiscências dos poetas que outrora viandavam,
Passageiros para o ocaso, lembranças e, sim, breu,
Ternura pela dualidade do Cosmos — assim se davam,

O poeta superior e a infinitude do Tempo e Espaço,
A sua pena entrelaçando as folhas ao preciso traço,
De brisa no rosto, e de rosto oculto pelas suas rugas,

E que sonho sonhado tem sido — as lágrimas enxugas,
Há beleza lá, desde o Sol ao luar, e com pétalas a voar,
Torna-se ainda melhor a caminhada: vem o despertar.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O Sonhador e o Cosmos

É luz e semblante que sobre esta sombra incide,
Reencontro a distância tocando a ida memória,
Não é paixão, é amor, instante eterno coincide
Com a beijo da aurora, lembro-me da estória

Do rapaz que caminhava sem qualquer pertença,
Através de passagens ao ocaso, dado à nascente,
Um jardim de estrelas cadentes esta a doença
Do altivo sonhador, o cosmos remanescente, 

Em essência sua alma esvoaçando no horizonte,
A revelação é transcendência, a fé no imutável,
E em boa verdade, entre a luzência e o abismo,

É indiferente, havemos atravessado essa ponte,
Estes sonhos em cascata são eu, nu, vulnerável,
Rascunhados a penas, este é o poema e seu lirismo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Enquanto Houver Oxigénio - Respirarei

E o sonho tem sido parte deste caminho trilhado,
Fagulha presente no olhar, vontade de ser, brilhar,
E do alto do céu ele ressoa de um tempo passado,
Onde o mundo parecia por um instante, respirar,

Os relógios paravam, as marés abrandavam, e eu era,
Como um som forasteiro de um desconhecido lugar,
Nós os sonhadores ansiamos mais do que a quimera,
Há sempre uma bela estrela que insiste em nos guiar,

Mesmo que sigamos estradas esburacadas, há brisa
No rosto, a comoção do berço, a proposta do caixão,
Há que ver o horizonte mesmo perante a luz imprecisa,

Dias suaves, suaves dias, há luzências e a luz é concedida, 
Assim se solta o beijo em nós, assim o beijo é ele: o coração,
Precisamente quando há o aceno ao regresso, à despedida.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

O Caminho Não Existe Sem Quem o Percorre

Há resquícios de pó de estrela no seu olhar,
Estas palavras somente éter e firmamento,
Pois tenho me encontrado por cada procurar,
Que neste poema é nebulosa, é renascimento,

Enquanto caem cometas em órbita de um luar,
Esta noite é nossa dentre este silencio sideral,
Entre constelações e galáxias, tenho cá o lar,
Num sorriso estampado sem dano colateral,

Trago leves infinitos na ponta destes dedos,
Horizontes celestes e lembranças do divino,
A vida é mais bonita em torno destes enredos,

Vestígios de pétalas esvoaçando na alvorada,
Temos orvalho agora nos olhos, o peregrino
É eterno, e o trilho é na contracurva estrelada.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Entre o Instante e o Eterno

Esperando como quem aguarda, saído do berço,
Quando a eternidade é crepúsculo, a bênção,
É que enfim há Vida a viver, o ser aqui exerço,
Venha a aurora, a primavera e a sua sugestão!

É um bálsamo para a alma, brisa para este rosto,
Um dia o vento me levará para o esquecimento,
Este é o karma humano, aceito-o de bom gosto,
Erodindo-se no relógio do ponteiro é o momento,

Percorrendo a distância tal fantasma, tal fragmento,
A identidade é Inteira, é dimensão para o Universo,
A esquadria do céu traz o cerúleo, o belo firmamento,

E poeira cósmica assenta-se nos ombros, silencia-me a voz,
Se perder o reflexo, o retrato for antigo, e o trilho adverso,
Terei resquícios no Eterno através do eco destes sonetos, (pó de arroz!).

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O Abracadabra da Espera

Por ditoso me vejo por aqui vos ter encontrado,
Que em consciência a tenha por mais um bocado,
Pois a noção de que para o fim tudo caminha,
Faz-me andar para trás tal açaime para a alminha,

Por tanto esperar sei que para muitos é essa uma ofensa,
Porém encontro na não procura a minha recompensa,
O tesouro divino que é a possibilidade dessa companhia,
Para mim é mil abracadabras, é maior do que toda a magia,

Por afortunado dou o clamor de quem gesticula a candeia,
Vejo que o dia nem sempre é noite, que por vezes clareia,
Portanto há sim tempo e espaço para pernoitar nesta lida,

Pois o chegar é relativo, como é relativa esta buliçosa vida,
Então dá-me a tua mão, demos as plumas por aqui soltadas
No que demos por fim gentis as asas abertas e espalhadas.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Sob a Monção, o Beijo

O poeta pensando que não era efémero o beijado,
Sob árvores e ramos íamos construindo uma raiz,
Que o caminho tinha promessas à alma deixado,
Num Universo Privado colorido a partilhada matiz, 

O prazer da mão na mão, o abraço e até o safanão,
Não a deixo ir, mesmo que o jantar esteja gelado,
Mesmo que o caminhado seja menor que o coração,
Pois por onde houver trilho, é possível ser encontrado,

Por isso por entre o monção, a contracurva e a adaga,
Vou, entre sombras assustadoras, o mundo não mudará,
Depois da possível partida e antes da potencial chegada,

Sabe que antes de mais és toda a minha vontade e desejo!
Não finjo saber o que pretendes, pois o que será, será,
Quando vier o brilho do amanhecer ainda teremos beijo?


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Entre Adeuses e Saudades de...

Caminhamos sozinhos, para ninguém acenando,
Expressões silenciosas que vão para lado nenhum,
Sonhos vazios onde as procuras se fazem buscando,
Os mortos ouvindo discos esquecidos de jeito algum,

As flores dobram-se para o Sol, e eu sou somente lunar,
Por aqueles olhos e toque derrubei panteões de deuses,
De suspiros ao peito, procurando enfim aquele uno lugar,
Onde me posso encontrar, despedindo-me dos adeuses!

E quando o dia terminar teremos sequer exílios onde ficar?
O relento é interno, o frio real, sou seixo saltitando no lago,
E a verdade é que tenho saudades de ir, ser e acompanhar,

Aqueles bocadinhos de Vida que sabem a Amor, a vida vivida!
A pétalas de flor a esvoaçar, aos confetes que no bolso trago,
Comovem-me, enternecem-me, do olá à sua última despedida.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Da Vala Comum à Sepultura Digna

Dos pedaços desta Vida de que só meus apelidei,
Vós tendes sido o trago de magia, o abracadabra,
Por vil graça, pelos bocados com as quais brindei,
Divino grau venerado, de mil odisseias  à palavra!

E por vós me hei tornado o tirano, louco e ufano,
Por entre corações partidos, o belo do instante,
Portanto voo mais do que brindo ao desengano,
Idas as Oressas, vós sois em mim o único instante,

Pois da vala comum irei até à mais digna sepultura,
Bela e casta, embutida em ouro, nesta alma pura,
A verdade é só uma, somos a latrina para o fado,

As estrelas e sementes, o estrume, o pé no estrado,
O sono eterno recheado por sonho, a despedida,
O resto vem vindo em seus termos seja morte ou vida!

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Entre o Sol e o Crepúsculo

Desvelando o sorriso pelo crepúsculo escondido,
Se sonhar hoje dar-me-ei como enfim encontrado,
Todo o meu coração espera por este terno bocado,
Inteiramente ao vosso dispor e à vossa graça rendido,

Vosso rosto verei por cada sítio em que seja passageiro,
Estrelas brilhantes aparecem e desaparecem no horizonte,
E nós, tal como elas, somente uma ideia que ao além aponte,
Para eventualmente voltar como uma beata ao seu cinzeiro,

E mesmo que o dia jamais amanheça, enfim vi vosso olhar,
Trago-o em épocas onde caminhei o trilho, onde fui o filho
Do destinado, com e sem fado, erguendo-se do Sol e do Mar,

Esses meus amigos, as noites sem fim são minhas companheiras,
Se ficar por aqui, já me dou por feliz, há quem puxe o gatilho?
Amor, és em mim víscera, este é o crepitar, com ou sem maneiras.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Trilhos do Inverno ao Outono

Aqui esperarei por Ester numa demora sem retorno,
Horas dentre jornadas, manhãs e tardes e estações,
O trilho do comboio virá para lá do Inverno ao Outono,
E será suficiente para um sorriso que alumie corações,

Brevidade, olhar fugaz, o silêncio da promessa quebrada,
Dentre véus e sombras, há segredos para lá de enigmas,
Por ela deixarem a porta entreaberta, o sinal na estrada,
O relógio pára mediante os passos na neve destes sigmas,

Tenho discursos ensaiados e cartas que nunca foram enviadas,
Porque estas correntes diáfanas, doiradas por auto-imposição
Não são presença real, são vestígio do efémero, não celebradas,

Porém prometi esperar dentro desta esfera feita de saudade,
Independentemente de qual for a altura do ano ou a estação,
Esta é a distância entre nós, para mim mesmo, e a única verdade.

Eco Maior que a Lembrança

Oh musas e ninfas ouvi o cantar deste trovador,
Há ternura nestas palavras, arrebatam um beijo,
Gestos imprecisos e bandeiras altas do estivador,
Pontes para espelhos, motes para anseios e desejos,

À memória de momentos que pertencem ao passado,
A cavar valas comuns com os dedos e unhas compridas,
E do caixão veio a constelação, por seu brilho acossado,
Pois o relógio é pai de órfão, horas permissivas e preteridas,

Pois este instante ecoa para a eternidade, para o infinito,
Mesmo que não me ouçam, sou uno num único grito!
Então após o crepúsculo virá a aurora numa bela dança,

E eu serei relembrado, serei muito mais que lembrança,
Não por meus versos, mas pelo deixado à humanidade,
Que serão seus, esta será a saída para além da efemeridade.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Nem a Eternidade nos Contém

Estas ruínas desta chama oculta - uma ponte quebrada,
A voz do crepúsculo, do pai para o filho, coração insone,
Renasce a aurora por cada instante e memória eclipsada,
O reflexo fragmentado é somente sombra, so very alone,

E do vértice do labirinto nos atiramos ao abismo, o caminho
É véu rasgado para o superior, escuridão translúcida, beleza,
Cinza ardente numa chuva de vidro, a cicatriz, o eu sozinho,
Há beldade na ferida, o olhar é suspenso mesmo na tristeza,

Naufragámos promessas quando o Amor verdadeiro é vero,
Passageiro dentre segundos, entre memórias e as aspirações,
A orfandade das ressonâncias, oh mãe, o tempo é tão severo,

Nem a eternidade nos contém a nós meu bom amigo Camões,
Pois caminhamos sem chão, voamos além do tido como austero,
A obra é tentativa maior que o homem, para o céu são estes corrimões! 

Poema Para Uma Alma Por Vezes Desencontrada

Há estórias a contar das profundidades destas cicatrizes,
Onde imaginava ósculos escondidos por instantes lunares,
E a sua voz cantava tão suavemente, esquecia as meretrizes,
Curioso por me aproximar da chama, por encontrar os lugares

Onde a sua radiância era serenata carpida por doce trovador,
E o resto me chamava, enquanto comia de colheres de prata,
Caído do paraíso ante um séquito seguido por um olhar observador,
Pois estes olhos traziam lágrimas de esperança escrevendo a errata,

Uma eulogia para quem nunca viveu, enaltecido por toques de despedida,
Permanecendo onde as nossas faces se revoltaram do tido como mortal,
Um mundo de sonhos, um berço de imaginação por uma luzência precedida,

Um conto de fadas irreal com aventuras como tu, e como eu de mão dada,
Sombras do nosso eu efémero, somos um caminho entre o sol e o fractal,
Será que finalmente vêem nosso brilho, e será que finalmente estás acordada?


terça-feira, 26 de agosto de 2025

Rio que Não Chega ao Oceano

Para esta entrega tenho todo um ser ausente,
Um quarto onde só o vento encontra guarida,
Num relógio sem ponteiros, o incrédulo crente,
O seu nome repetindo-se por uma manhã diferida,

Entre ecos não de memórias, mas desta ânsia sentida,
Há um abraço preso na parede de um tempo não meu,
É este fogo que queima e aquece, uma chama suprimida,
E um copo cheio de ausência que bebo até ao fundo, ao breu,

O horizonte é esta linha onde o olhar se encosta de saudade
Do que ainda não sucedeu, tal rio que não chega ao oceano,
Um brinde e seu trago, trago-o em memória e na sua brevidade

Um clarão, cego e torturado, esperando onde não sou encontrado,
Sem idade ou tempo, se pudesse encontrar-me em qualquer humano!
Eu até gosto da ideia de amar, será por isso que é tão difícil me sentir amado?

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Relógio Afogado nas Marés

O eclipse da aurora, lua nova - sou marés, vento, tempestade,
Há um vazio em memória, um futuro onde ainda a desejo,
Promessas ditam que se tu fores nostalgia, eu sou saudade,
Independentemente de qual for a cor ou sabor desse beijo,

Retoco cicatrizes em fogo, o segredo que entre lábios ficou,
O perfume é meu e de uma entrega entre vindoiras estações,
É uma viagem sem mapa, uma ponte sem destino que desabou,
Serei um dia chegada pois há muito fui partida entre estes botões,

Este é e sempre foi o caminho do viandante sob um céu estrelado,
A porta entreaberta, agora cerrada, é um novo pássaro a esvoaçar, 
Passagem para o Verão, mesmo estando aqui o relógio quebrado,

Ela chama, chama-me, e eu vou, meio doce, meio apoquentado,
Abraçando o torvelinho, sou na espiral, ela ensina-me a sonhar,
Na dor de estômago aprendo finalmente a estar feliz e enamorado.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

O Relógio sem Ponteiros

Este é o silêncio antes de qualquer tempestade,
Encontro à beira de um cais quase abandonado,
O último instante antes de adormecer, em verdade
Um diálogo com a própria sombra - o assombrado,

Há uma luz que entra por uma janela esquecida,
Em imaginação pincelo a cidade após a chuva,
Coloco-a numa carta que será sempre perdida,
Este é o tempo do viandante antes da contracurva,

Vestígios de quem fora, ecos para idas alvoradas,
E vem a saudade, abismo para qualquer claridade,
Sou relento para os trilhos de umas outras estradas

Relógio sem ponteiros, dele tenho sido escravizado,
Pelas fendas destas quatro paredes, há eternidade, 
E nessa espera a prisão, aqui sou o estigmatizado.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

O Velho Que Serei

No rosto rugas, mãos trémulas e passo arrastado,
Cabelos brancos, ossos frágeis num espelho gasto,
A voz cansada e a lentidão longa do já respirado,
Os relógios - memória para um tiquetaque padrasto,

Do passado distante ficou um espera e um legado,
Fim e começo para a aceitação no olhar trazida,
Serenidade e introspecção num destino, num fado,
Ora concretizado, ora tentado numa gestação inferida,

Sendo talvez o eco de um qualquer tempo sem idade,
Em caminhar lento entre uma brisa e a eternidade,
Onde converso com fantasmas e estrelas queridas,

Assim velo o céu através de janelas de vento coloridas,
Pois para a criança que fui e que ainda estende a mão,
Guardei-a no bolso onde a trago vestida no coração.

A Criança Que Fui

Entre sorrisos soltos e brinquedos esquecidos,
Mãos pequenas com chão proveniente da terra,
Lancheiras de céu estrelado e silêncios enaltecidos,
Soldados de plástico antes do adeus, antes da guerra,

Esconderijos secretos e papagaios de papel a esvoaçar,
Desenhos da parede ocultos pelo pó de um tempo passado,
Suspenso entre páginas rasuradas, a vontade de retraçar
Os voos dos anónimos aviões com os dedos apontados,

Pois os relógios parados tornam-se em calendários rasgados,
Lembranças partidas em clausuras de um olhar lacrimejante,
Aqui fui eternamente ontem, criança de mundos inventados,

A magia esquecida dos portais de segredos, a inocência era abrigo
E refúgio para a ternura que era o brilho na alma, a pureza latejante,
Preenchia-me o vazio sem reparar, que saudade desse bom amigo.

 

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Entre o Ontem que Não Acabou e o Amanhã que Não Veio

A ansiedade retroactiva numa nostalgia invertida,
Pressentimento e desejo por um pouco de esperança,
Esta saudade antecipada por um futuro ausente, a ferida
É passado presente de amanhãs esquecidos, a mudança,

Entre o medo e a intuição de ir entre um ontem inacabado,
Estas horas então cruzadas em ciclos de torvelinhos temporais,
Os relógios partidos e as estações trocadas, Cronos derrubado,
Ecos de promessas e fantasmas de planos com todos em espirais,

Há lembranças que nunca foram no cheiro de um dia que não veio,
E as vozes antes do silêncio, tal como as pegadas sem seu caminho,
Os gestos interrompidos de olhares que ainda não se deram em devaneio,

Estico os braços em abraços por vir, cartas não escritas, a multidão sem rosto,
E sei que tenho pressa no peito, cansaço de saber que por vezes não vivi no trilho,
Naqueles desejos suspensos, alma desalinhada, turbulência calma, outro sol-posto.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Bilhete Só de Ida

Malas cheias de silêncios com mapas a linhas tremidas,
Os comboios levam as memórias, carimbos no passaporte,
Olhos presos a um nome antigo nestas cartas envelhecidas,
Relógios parados entre cruzamentos de meia vida e quase morte,

Um bilhete só de ida para um qualquer caminho sem qualquer chão,
A bússola quebrada apontada para dentro, perdido em cada espelho,
Outro prisioneiro de camas frias de hotéis anónimos, o berço do caixão,
Carregado em cada quilómetro esquecido onde o seguro morreu de velho,

Reinventando as fachadas da cidade para lá das portas à chave fechadas,
Quantas vezes vagueei por estas ruas em calendários por ela demarcados,
Regressei mil vezes a essas ruínas por cada uma destas fotos amareladas, 

Hoje, deixo as correntes nos trilhos de cada estação por onde não passei,
Em papeis como estradas e poemas como paisagens, eu porções, tu bocados,
O velho eu ficou na paragem, e eu fui indo e sendo por onde um dia não fiquei.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Lua Nova

O céu estrelado dá lugar ao brilho de constelações,
Sem sombras ou eclipses, o cosmos e o seu recomeço,
Tal metamorfoses e esperas em diferentes transições,
Sou só a mudança independentemente do que pareço,

Há saudades no vazio das memórias entretanto esquecidas,
Intuições de ausências, silêncios e vozes quase quebradas,
Por entre reflexos de potenciais sonhos e estrelas prometidas,
Sussurramos toques na pele, a margens então de novo beijadas,

Lua Nova a noite inteira, seja qual for o que vier na turva maré,
De pés descalços na areia, o vento é a neblina, a flor é nocturna,
Pelo horizonte é que há que continuar sempre com indomável fé,

Este ventre do tempo prepara-nos para o que estará na estrada,
Tal presságio para o destinado, fado e oração para a noite soturna,
Renunciando a oferenda de uma cópia, um dia virá a madrugada.