quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A Lei da Impermanência

Mãos abertas, erosão no olhar — é a partida do semblante;
Desapego do apego, desaprendo o desejo — é a mala leve;
É uma jornada de ausência, uma estrela ainda distante;
Renunciando a sombra e a partida do que foi breve,

As folhas secaram no caminho; a maré é, enfim, vazante;
Pétalas ao vento — sou prisioneiro de um instante passado;
Esta lei da impermanência é placebo, sim, é cicatrizante;
É a arte de desapossar-me, essência do efémero caminhado,

Poeira entre os dedos, ferrugem nas suas falanges desgastadas;
Andamos à deriva — itinerário errante, deslocamento interior;
A rendição é inconsciente, as sementes de raízes são arrancadas,

Entrego-me silenciosamente, desapropriado, por fim desancorado
De todas as que amei, já nem ousando chamar uma de meu amor;
Então vem a libertação gradual: o inevitável acontece — sou revigorado.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Impermanência: Prisioneiro do Transitório


Pisando folhas secas, aqui sou na areia movediça;
Além, pegadas são apagadas por uma maré vazante,
E eu, num instante, largo-me dessa moça castiça,
É o rio em curso, o vento errante, a estrela distante,


O efémero em passagem para a sua transitoriedade;
Nos meus olhos, a erosão é aparente, vai-se o brilho,
E eu aceito o seu silêncio, renunciando em piedade,
Libertando-me do apego, recalculando este trilho,


De mãos abertas, mala leve e portas entreabertas,
A sombra que parte é o semblante que é chegada,
Uma chama breve de pétalas ao vento, são incertas


As vontades do caminho; rendo-me à sua querença,
Em essência, sou prisioneiro da impermanência dada,
É a jornada: desapossar-me do desejo, ser a ausência.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Olhos na Linha do Horizonte

Trago nos braços pedaços de outrora beleza,
Porções cuidadas por um anseio quase sonhado,
Entre prados verdes e céus abertos, com certeza,
Onde estrelas são oferendas para o então aspirado,

As viagens passadas têm sido experiência no viandante,
Tanto as longas como as curtas vão-nos beijando o rosto;
Sorrisos à desfilada, venho e vou, tal onda e mar incessante,
Onde cada pegada apagada foi paga por mim por um imposto,

A troco das rugas que trago nos olhos, cicatrizes no olhar,
Lembranças de instantes errantes na mente, simplesmente,
Pois fomos indo e fomos por onde poucos ousaram caminhar,

E agora, prestes a parar, mantivemos no bolso a insana tempestade;
Essa é a verdade: não nascemos para a acalmia do oceano, em frente!
Seguindo a linha no horizonte, procurando pelo Inteiro onde só há metade.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

De Mim Para Mim

Regresso ao outono, o ciclo efémero e a sua espera;
É ausência do coração, um abraço tardio partilhado.
Vigília ao corpo presente: este será o fim de uma era?
Ouçam este silêncio; esta solidão é o rei não coroado,

Povoamos montanhas, planaltos e vales de cuidados,
Albergados na alma, esta aceitação do impermanente;
O toque projectado, ideais nos olhares então saudados,
Qualquer sítio menos aqui: o lugar, o estar impertinente

Traz conflito ao eterno, que se poda no simples instante;
É tão simples que parece complicado, mas esse é o estado,
A paisagem é espelho numa transcendência reconfortante,

E o céu move-se lateralmente, neste segundo - este bocado,
Tenho tempo e espaço para o ser, e assim reter o inobstante,
Será que, de e para cada passo, tenho eu em mim reciprocado?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Inefável Para Quê?

Há vestígios da madrugada, ecos da sua permanência,
E lembro-me do vazio da despedida e do seu silêncio,
A falta é carência e fantasma; serei eu toda a distância
Onde a sombra é semblante, e eu a mim me renuncio,

Lacunas na respiração, febre e cansaço; vem a insónia,
Arrepios nas cicatrizes de uma noite estreita, a fachada,
As esquinas são nossas, assim como a fecunda calçada;
Não obstante, seguramente, esta apenas outra Babilónia,

De uma janela, de um quarto escuro com a cama desfeita,
Vejo, lá fora, a luz mortiça do crepúsculo — em mim, ferida,
Céus abertos, e eu fechado em casa: uma luzência rarefeita,

E, por entre murmúrios, pergunto-me: «O inefável, para quê?»
O imanente pouco me diz; a ebriedade da vertigem, preterida,
E eu com saudades do nó do abismo, na dama e no seu buquê.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Vertigens do Efémero

O Outono cai, e regressam as vertigens no coração;
Esta dúvida, este desejo contido, é cinza e abismo,
Pois, mesmo erguendo-me, vem toda esta solidão,
Aluado, perdido entre o conflito e o seu lirismo,

A noite cai, e a aurora não vem; lá fora, o vento,
Estou cá de passagem, sou efémero no instante;
A memória no retorno, ciclo finito, rápido e lento,
Quando a despedida se atrasa, mas vem, não obstante,

A promessa está, e é de eternidade, seja no beijo tardio,
Seja no abraço hesitante: é chaga no peito do viandante;
E cai o silêncio, a lágrima, o desamparo no terreno baldio,

Os dois, somente sombras de um momento já esquecido,
Ruína na ferida aberta, ardor e saudade do solitário amante,
Que já nem quer mais saber, seja o saber diferente ou parecido.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Todos os Meus “Ais”

Todos os Meus “Ais”

Há fissuras na pele, pelo frio acometidas,
Em mim sentidas; em mim são a cicatriz.
E eu, triste aprendiz, de constelações vertidas
Entre elas todas queridas, porém algo se desdiz,

E suspiro pelo final do mundo desta montanha
Que, em baixo, me banha — a verdade é a solidão
Pulsante no coração, no âmago desta entranha,
Entre Portugal e Espanha, prisioneiro de lassidão,

E a nenhum lado me levará esta fecunda ansiedade;
Seja qual for a idade, estarei a ela enfim sentenciado,
Por mim a mim estranhado, mesmo nesta sobriedade,

Porque esses são todos os meus “ais”, neste trilho escuro,
Onde de mim a mim me descuro; pelo fim, enfim, saudado,
Laudado, pois de mim me escondo, pois a mim me procuro!