terça-feira, 17 de março de 2026

A Fonte e a Sede

Pedaços de plumas caindo perante o horizonte,
As pontes que ruíram foram momentos no passado;
Tenho bebido da minha sede, escasseando a fonte,
Preciso de penas para voar e passar este bocado,

Procurando identidade nas pegadas do viajante,
Sem ninguém a escutar, sem poder, finalmente, regressar;
Podendo ir e chegar, sorrirei com a possibilidade anelante,
Correndo e parando, passeando até, por fim, retornar,

Pois há um sítio de onde todos somos provenientes;
A matéria estelar é base para o ser, enfim, inteiro;
E, parcela a parcela, adiante iremos, mesmo quando penitentes,

Lembra-te do teu legado, do pedaço do firmamento que te pertence
E ao qual pertencemos infinitum, do último ao primeiro;
Ouve-me, irmão: não há juízo sem qualquer sentença.

quarta-feira, 11 de março de 2026

A Beleza das Cicatrizes

Cânticos de músicas de amor propagados em silêncio,
Vou assim ouvindo os tremores de um coração cansado;
Num desfile singular, os olhos — o ver que tanto reverencio,
São memórias de um beijo, e entretanto passou o bocado,

Porção da metade, as lembranças são o pouco que ficou
De momentos vividos, na alma tatuados, livros guardados;
E continuamos à procura de quem foi e de quem se crucificou,
Amarrando o barco ao cais e, mais além, ao horizonte destinados,

Mesmo que trilhemos para o outro lado, assim sempre sozinhos,
As pegadas deixadas são provas de que houve mil e um caminhos;
Por isso adornámo-los com confetes, com mil pássaros voadores

Em nós, pois da ferida vem a cicatriz: há beleza nessas tantas dores.
Agradecimentos e perdões por nos ser permitido o pé-descalço,
Na travessia da vida, onde amar é cair e levantar no mesmo passo.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Um Pouco de Tudo, Um Pouco de Nada

Tento reter vida, tal água entre as mãos escorrendo,
De cabeça nas nuvens, resta-me ainda este lugar,
Onde as gaivotas pousam, o horizonte a indicar,
Traço ancora, vislumbro o Norte, vou cedendo

Ao vento frio que contrapõe o bater do coração,
Traz sorriso ao rosto enquanto for verdadeiro; 
É um ósculo a todo este céu, não tem definição,
Mesmo quando aos nossos olhos é trapaceiro,

Pois quem nunca teve um pulsar assim mentiroso?
Como um Paraíso em pausa de um instante buliçoso,
E deixámo-lo a arder, deixamos de andar de mão em mão,

É o ouro de tolos desta algibeira, e do sim vem o não, 
Por onde a consciência dorme; sou a sua asa perfumada,
Por céus e mares entre abutres com um pouco de tudo, um pouco de nada...