quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Inefável Para Quê?


Há vestígios da madrugada, ecos da sua permanência,
e lembro-me do vazio da despedida e do seu silêncio,
A falta é carência e fantasma; serei eu toda a distância
onde a sombra é semblante, e eu a mim me renuncio,

Lacunas na respiração, febre e cansaço; vem a insónia,
arrepios nas cicatrizes de uma noite estreita, a fachada,
As esquinas são nossas, assim como a fecunda calçada;
não obstante, seguramente, esta apenas outra Babilónia,

De uma janela, de um quarto escuro com a cama desfeita,
vejo, lá fora, a luz mortiça do crepúsculo — em mim, ferida,
Céus abertos, e eu fechado em casa: uma luzência rarefeita,

E, por entre murmúrios, pergunto-me: «O inefável, para quê?»
O imanente pouco me diz; a ebriedade da vertigem, preterida,
e eu com saudades do nó do abismo, na dama e no seu buquê.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Vertigens do Efémero

O Outono cai, e regressam as vertigens no coração;
Esta dúvida, este desejo contido, é cinza e abismo,
Pois, mesmo erguendo-me, vem toda esta solidão,
Aluado, perdido entre o conflito e o seu lirismo,

A noite cai, e a aurora não vem; lá fora, o vento,
Estou cá de passagem, sou efémero no instante;
A memória no retorno, ciclo finito, rápido e lento,
Quando a despedida se atrasa, mas vem, não obstante,

A promessa está, e é de eternidade, seja no beijo tardio,
Seja no abraço hesitante: é chaga no peito do viandante;
E cai o silêncio, a lágrima, o desamparo no terreno baldio,

Os dois, somente sombras de um momento já esquecido,
Ruína na ferida aberta, ardor e saudade do solitário amante,
Que já nem quer mais saber, seja o saber diferente ou parecido.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Todos os Meus “Ais”

Todos os Meus “Ais”

Há fissuras na pele, pelo frio acometidas,
Em mim sentidas; em mim são a cicatriz.
E eu, triste aprendiz, de constelações vertidas
Entre elas todas queridas, porém algo se desdiz,

E suspiro pelo final do mundo desta montanha
Que, em baixo, me banha — a verdade é a solidão
Pulsante no coração, no âmago desta entranha,
Entre Portugal e Espanha, prisioneiro de lassidão,

E a nenhum lado me levará esta fecunda ansiedade;
Seja qual for a idade, estarei a ela enfim sentenciado,
Por mim a mim estranhado, mesmo nesta sobriedade,

Porque esses são todos os meus “ais”, neste trilho escuro,
Onde de mim a mim me descuro; pelo fim, enfim, saudado,
Laudado, pois de mim me escondo, pois a mim me procuro!