quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

A Constância do Silêncio

Este outono é fértil: as folhas caem, nutrindo raízes,
A linguagem profunda do olhar entre dois amantes;
O belo do instante onde se curam antigas cicatrizes,
Esse é o silêncio e a constância, mesmo que distantes,

Aceitação do impermanente traz cuidado e maturidade,
Retorno ao sítio de partida, pois um dia todos voltamos;
É o ósculo partilhado com presença e cumplicidade,
Chega, eventualmente, a altura de partir — pois partamos,

E saibamos chegar ao gesto mínimo, à canção de outrora,
Em toque contido, dilatemos o momento, morro abaixo,
Pois nesta respiração partilhada algures desponta a aurora,

Então há proximidade com o Cosmos, com o Universo,
Vagueando assim entre uma terra alta e um céu baixo,
Poeira dourada jorrando num ver — esse é o único verso.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Aprender a Caminhar Inteiro

A primavera é seiva nas artérias do viandante,
Canto ao vento proveniente da fonte Universal,
Pois por onde fomos afasta-se o Inferno de Dante,
Hoje e aqui erguemo-nos no inteiro e no plural!

De aurora branda na face sinto a alma a florescer,
Renovado por cada novo passo, agora há esperança,
Despertado para o amanhã, para qualquer anoitecer,
Com a mudança da rosa-dos-ventos, com a lembrança

De outros tempos não temperados por uma ampulheta,
Com luz nos bolsos, constelações dentro da algibeira,
Pó de estrela entre os dedos numa caminhada discreta,

Quanto ao trilho elapsado, ao entretanto já caminhado,
Trago-o no sorriso e na lágrima guardadas na bagageira,
Venham os segundos, as nebulosas e o sonho rascunhado.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A Primavera Interior

Há perfumes antigos por entre estes corredores,
Onde as raízes relembram beijos outrora eclipsados;
A sementeira dos sonhos — e eu ainda nos bastidores
De um ciclo eterno, numa primavera dos despertados.

As cicatrizes de outros dias, um dia, também se curarão,
Enquanto pétalas suspensas caem perante o horizonte:
O ventre da terra, rebento vivo, a seiva em pulsação —
Só colheita para o instante, campo e afluentes da Fonte,

Este é apenas outro jardim latente, de frutos ainda por vir;
A palavra fértil para um vento morno de uma manhã,
Ouvindo cânticos pastorais e abraços que venham a advir.

A vida brota desses mananciais, torna-se luz a bruma:
Regressa a aurora, passa este agora para um amanhã
Que é sorriso — é voar alto com o peso de uma pluma.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Retorno ao Infinito

Alguém perdido em astros, memórias e amores antigos,
Tal cometa em regresso, reencontra enfim o seu centro,
O cosmos em ressonância, vestígios de nébulas e amigos,
O viandante estelar na órbita luminosa — clarão do que há lá dentro,

Séculos à deriva, trazendo novos brilhos e velhas cicatrizes,
Ecos desvanecidos das estações idas — eis o retorno ao infinito,
Como faísca em supernova, a constelação revela suas matizes,
Do éter à estrela: vulto, semblante de um apogeu, de um grito,

Este terno crepúsculo é clarão nas têmporas, fotões errantes,
E, dentre um firmamento só nosso, espirais de luz suspensas,
Há rascunhos de eternidade no agora breve — nos instantes,

Trago o coração translúcido e uma fogueira oculta na alma,
Estas memórias serão cinza um dia, e este amor remanescente,
Um beijo cerúleo guardado na neblina cósmica que levo na palma.